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sábado, 17 de outubro de 2015

FMI repete Dilma: Lava Jato causou queda do PIB brasileiro. Cadê as manchetes?




Em 27 de julho, a Dilma afirmou que a Operação Lava Jato "(...) provocou uma queda de um ponto percentual no PIB brasileiro".

No dia seguinte, O Globo saiu com a capa aí de cima, com a manchete marota, dando a entender que a presidenta fica procurando novos culpados para a crise a cada momento. Entretanto, tudo que ela dissera é que parte da cada do PIB pode ser explicada como efeito das investigações.

O genial economista Rodrigo Constantino publicou um texto sobre o assunto. Compara Dilma a uma criança procurando culpados pelas suas próprias traquinagens, debocha da análise da presidenta, mas não apresenta nenhuma razão que demonstre equívoco da assertiva dela. Sei lá, vai ver que a economista dele estava de férias.


Mais de um mês depois, foi a vez do juiz Sérgio Moro reagir. O magistrado embaralhou as coisas e se saiu com a estapafúrdia comparação: "não é o policial que descobre o crime, o culpado pelo cadáver". Para que a comparação fizesse sentido, Dilma teria que ter culpado a Lava Jato pelas propinas ou pelo sobrepreço em obras. Ou a Lava Jato investiga a queda do PIB brasileiro?

De qualquer forma, acho que o juiz perdeu uma bela chance de ficar calado. Dilma não criticara a operação; ela apenas indicara um efeito colateral adverso da apuração.

Aliás, muitos remédios para doenças graves os tem, e apontá-los não significa crítica ao seu uso. Por outro lado, fingir que estes efeitos adversos não existem impede que se adeque a "posologia" e que se busque maneiras para mitigá-los.

Enfim, agora, passados quase três meses, o insuspeito (neste ponto!) diretor do FMI foi além da Dilma. Ele não disse, como a presidenta, que parte da queda do PIB brasileiro é efeito da Lava Jato. Ele afirmou que a contração da economia brasileira este ano decorre principalmente da "paralisia dos investimentos privados para esperar para ver onde vai dar a investigação dos escândalos", e não apenas de questões macroeconômicas.

Fico pensando: o que Moro pensa disso? Constantino vai pintar lá na sede do FMI e se oferecer para um debate econômico com o diretor do fundo?

Mas, sobretudo, tenho uma dúvida: esta informação não mereceria capa de O Globo? Os leitores do jornal não merecerem receber esta informação? Se o chefão do FMI tivesse dito o contrário, que a Dilma estava errada, a fala teria rendido manchete?


RIO  -  A queda prevista do PIB brasileiro de 3% este ano não é explicada apenas por questões macroeconômicas, mas principalmente por uma paralisia dos investimentos de empresas, diante da expectativa de saber como vão terminar as investigações em curso na força-tarefa da Operação Lava-Jato, afirmou nesta sexta-feira Otaviano Canuto, diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). 

“Estou entre aqueles que acham que a desaceleração do PIB este ano no Brasil não é explicável por questões macroeconômicas stricto sensu. Ela é principalmente explicada por uma paralisia dos investimentos privados para esperar para ver onde vai dar a investigação dos escândalos”, afirmou, durante assembleia do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), no Rio de Janeiro. O FMI espera queda de 3% no PIB brasileiro em 2015.

(Continua)

sábado, 6 de outubro de 2012

O cachorro que dedurou o prefeito gatuno (da entrevista da Dilma no FT)

Eu gosto de ler, e colar no blog, textos estrangeiros sobre o que acontece por aqui. Certo, certo, na verdade, só trago pra cá aqueles que sejam de alguma forma positivos. Confesso.

Este perfil / entrevista aí abaixo até preenche o requisito, mas, como meio que chove no molhado, quase desisti de publicá-lo. O que o salvou foi a historieta sobre o cachorro que denunciou o prefeito - que está lá no penúltimo parágrafo. 

FT Entrevista: Dilma Rousseff 
Por Joe Leahy 

A 36ª presidente do Brasil se inclina para frente e lança um olhar atento ao redor da mesa, assegurando que ninguém perdeu sua ideia simples, mas ousada do que ela quer para o país.

Depois de quase 10 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), a maior economia da América Latina reduziu as taxas de pobreza e percorreu um longo caminho na redução da desigualdade - uma tendência que contraria o alargamento da distância noutros lugares.

"Isso, eu acho, é um ganho muito importante para o Brasil – isto é, transformar o Brasil numa população de classe média", diz Dilma Rousseff em seu escritório no Palácio do Planalto, em Brasília, a maravilha modernista de mármore projetada por Oscar Niemeyer, o arquiteto brasileiro. "Nós queremos isto; queremos um Brasil de classe média."

Um notável progresso tem sido feito para melhorar o destino de milhões de pessoas nesta que continua sendo uma das sociedades mais desiguais do mundo. Seu milagre econômico ajudou a elevar 30 a 40 milhões de pessoas da pobreza, criou mercados para empresas nacionais e multinacionais e atraiu investidores globais.

No entanto, após quase uma década de condições globais altamente favoráveis, de repente a economia desacelerou para um nível rasteiro. Para consolidar sua prosperidade recém-descoberta e continuar sendo um dos motores do crescimento global, ao lado de Rússia, Índia e China, os outros países dos BRICs, Dilma deve encontrar um novo modelo de desenvolvimento. Em um mundo afligido pela crise econômica, a questão é se ela pode impulsionar as mudanças necessárias para o arranque de uma segunda década de crescimento. Isso inclui resolver as questões espinhosas da falta do Brasil de competitividade e dos altos custos trabalhistas.

"Temos que fazer as coisas difíceis", diz José Scheinkman, professor de economia brasileira na Universidade de Princeton.

Mas se Dilma está sentindo a pressão, não há nenhum sinal disso quando ela entra na modesta sala de conferências ao lado de seu escritório no palácio presidencial, parecendo confiante, mas, aparentemente, evitando correr riscos: no pulso, há um tradicional amuleto para afastar o mal olhado.

Ela tem a reputação de uma gestora dura, conhecida por fazer ministros chorarem em reuniões se não tiverem feito seu dever de casa. Mas quando um falante de espanhol na sala tenta falar português com um forte sotaque, ela gentilmente provoca-lhe imitando seu ritmo? "Nós falamos espanhol aqui também", diz ela, bem humorada.

Quando Dilma chegou ao poder, em janeiro do ano passado, como sucessora ungida por Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente, havia ceticismo sobre se esta tecnocrata, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, seria capaz de controlar sua coalizão de mais de 10 partidos, liderada pelo PT. Com o que os críticos não contavam, no entanto, era a determinação da primeira mulher eleita presidente do Brasil. Em 1967, ela se juntou a um grupo de militantes de esquerda rebelados contra a ditadura de direita do país, adotando o nome de guerra de Estela. No início dos anos 1970, ela foi amargou a captura, a tortura e quase três anos de prisão.

Quando o Sr. Lula da Silva chegou ao poder em 2003, ele escolheu Dilma Rousseff, economista de formação, como sua ministra de energia e, em seguida, sua chefe de gabinete. Como presidente, ela tem compensado sua falta de experiência eleitoral sendo diferente. No ano passado, quando ministros seus se viram envolvidos em escândalos de corrupção, ela fez algo incomum em Brasília: não os defendeu, mas, em vez disso, simplesmente os demitiu - sete deles no total. Os Eleitores aplaudiram.

Enquanto isso, a taxa de desemprego continuou a cair, atingindo este ano um recorde de baixa, inferior a 6%, e levando sua popularidade para um recorde - mais de 70%.

"As pessoas diziam que ela não tinha experiência política", disse Fernanda Montenegro, a estrela de cinema brasileira indicada ao Oscar e, diz-se, atriz favorita de Dilma Rousseff, em um evento em sua homenagem no ano passado em Nova York. "Eu acredito, no entanto, que nós ganhamos com Dilma porque ela ... não se enquadrar na maneira tradicional de fazer política no Brasil. "

Mas, enquanto o ano passado testou suas habilidades políticas, este ano ela está sob pressão para reavivar a economia. Depois de atingir 7,5% em 2010, na carreira dos altos preços das commodities e  de um boom de crédito e de consumo, o crescimento no ano passado caiu para 2,7%. Este ano ele pode ser tão baixo quanto 1,5%.

Convidada a citar os principais desafios, Dilma aponta para um suspeito habitual. A política monetária frouxa nos EUA, quando não acompanhada de políticas fiscais para absorver excesso de fundos, leva à desvalorização da moeda competitivos e inflação. "Políticas monetárias expansionistas que levam à desvalorização da moeda são as políticas que criam assimetrias nas relações comerciais - assimetrias graves", diz ela.

Com os EUA e outros países querendo sair da crise por meio das exportações, o Brasil recusou-se a se tornar um mercado de bens favorecidos por dumping. O governo tem tentado proteger suas indústrias através de medidas como aumento de impostos sobre carros compostos por mais de 40% de componentes importados.

Isso, e uma recente medida de aumento de tarifas sobre centenas de produtos, de tubos de ferro a pneus de ônibus, levou a queixas de parceiros comerciais, incluindo os EUA. No entanto, Dilma Rousseff, em discurso na Assembléia Geral da ONU no mês passado, rebateu que "medidas legítimas de defesa" não podem rotuladas como protecionismo.

"Este país não montar coisas, apenas", diz Dilma. "Nós queremos um país que produz, que cria conhecimento e o aplica aqui; queremos uma força de trabalho qualificada."

Mas ela reconhece que muitos dos problemas do Brasil são também caseiros. Elevados custos do trabalho, baixa produtividade, infra-estrutura precária e alta tributação - com gastos do governo em 36% do produto interno bruto, o equivalente a muitos países avançados europeus, mas sem os mesmos níveis de eficiência - criaram uma situação em que a inflação surge sempre que o economia começa a crescer.

Tony Volpon, economista da Nomura, em Nova York, afirma que a taxa de crescimento potencial do Brasil - a velocidade em que ela pode se expandir sem gerar inflação alta - caiu de 4%, na última década, para mais perto de 3%. Isso porque o crescimento na última década foi, em parte, o resultado da entrada de grande número de pessoas na força de trabalho formal. Hoje, com o desemprego relativamente baixo, essa low-hanging fruit desapareceu.


"A questão é: nós seremos mais ambiciosos e resolveremos outras coisas?", pergunta o Sr. Volpon, "ou não, e seremos uma economia que cresce de 3% com inflação alta." 

*****

Embora a presidenta não prometa um explosivo pacote de reformas - como visto recentemente na Índia, que desregulamentou os setores de varejo e de companhias aéreas –, Dilma diz que o Brasil está cortando o custo do trabalho, reduzindo os impostos sobre a folha de pagamento. Até agora, 40 setores industriais foram beneficiadas. Outras medidas fiscais estão por vir. "Isso é importante porque não queremos penalizar aqueles que empregam as pessoas", diz ela.

O governo também está acelerando a entrega de concessões de infra-estrutura, já tendo concedido aeroportos em São Paulo, Campinas e Brasília, os maiores do país. Ele também está se preparando para descarregar R$ 133 bilhões em concessões rodoviárias e ferroviárias. Portos são os próximos. Esses grandes projetos são vistos como cruciais antes do Brasil sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos dois anos depois. "Queremos parceiros do setor privado, de qualquer origem", diz ela.

Outro grande projeto do governo é reduzir os índices tradicionalmente altos de juros do Brasil. O Banco Central cortou as taxas em 500 pontos-base em 12 meses, para uma baixa recorde de 7,5%. Mas Dilma e seus ministros entraram com força, intimidando os bancos a abaixar os juros de empréstimos. Enquanto os bancos são criticados por cobrar taxas usurárias no Brasil - nos cartões de crédito pode exceder os 100 % - a intervenção verbal do governo levantou temores de interferência no mercado. Dilma Rousseff é não se desculpa.

O Brasil foi o último almoço grátis no mundo para os bancos, diz ela, referindo-se às altas taxas de juros que cobradas dos clientes. "Estamos a voltando para um lugar com níveis normais de rentabilidade. Isso significa que alguns de nós precisaremos começar a procurar lucros adequados em atividades produtivas que são boas para o país. "

Ela é igualmente inflexível sobre uma outra área em que o governo é acusado de interferência no setor privado - a sua decisão de cortar os lucros que as operadores de energia elétrica estão autorizados a fazer. Puxando um bloco de notas, ela desenha um gráfico representando a vida média de uma planta hidrelétrica, em que a unidade continua a produzir energia por muito tempo após o investimento inicial ter sido pago - mas as empresas querem continuar a cobrar os mesmos preços elevados.

Então, o governo tem dado aos operadores uma escolha: reduzir os preços agora, e renovar o contrato, ou aguardar o contrato a expirar, e arriscar perdê-lo. O resultado foi um corte de 16% nas tarifas da energia para os consumidores e uma redução de 28% nas tarifas para os clientes industriais. "Isso é muito importante, pois precisamos reduzir os custos", diz Dilma Rousseff sobre a iniciativa.

Enquanto seu antecessor apreciava a ribalta internacional, Dilma Rousseff é uma diplomata indiferente. Ela arrepiou as penas americanas e europeias na Assembléia Geral da ONU, mês passado, alegando que a islamofobia está em ascensão em países desenvolvidos. Mas, geralmente, ela descreve um Brasil que é amigo de todos, com relações especiais com os países africanos lusófonos e laços estreitos com a Europa através da imigração. "O mundo para nós é multipolar", diz ela.

Mais perto de casa, ela não quis comentar o paradigmático processo de corrupção na Supremo Curte, datado do primeiro mandato de Lula da Silva. O chamado Mensalão, ou "grande subsídio mensal ", envolve muitos chefes do partido do ex-presidente, acusados ​​de usar fundos públicos para pagar políticos da oposição para apoiar a agenda legislativa do governo no Congresso. Alguns já foram condenados.

[Sim, eu vou fazer um comentário. A historinha de compra de votos de parlamentares aliados é tão inverossímil, que o coitado jornalista americano se enrolou e, usando um pouco de lógica, errou na descrição da acusação. Segundo ele, membros do partido do governo seriam acusados ​​de usar fundos públicos para pagar políticos da oposição  para apoiar a agenda legislativa do governo no Congresso".]

Mas Dilma parece claramente preocupada com a governança. Ela conta a história de um prefeito que deveria estar construindo duas escolas com recursos do governo federal, mas, de fato, estava construindo apenas uma e embolsando o resto. Ele foi obrigado a postar fotos na internet das escolas sendo construídas. Mas acabou sendo pego quando o mesmo cão apareceu em fotos do que deveriam ser duas escolas diferentes.

"Você tem que estar pronto para tudo na vida - mas um cão denunciando um prefeito?", diz a presidenta, rindo. De repente, ela se torna grave. "Estamos informatizando toda a estrutura do governo, porque isso vai nos permitir controlar o que é feito." Esses processos são "triviais", mas necessários, diz ela.

Uma presidente que dá atenção aos detalhes, ainda que triviais, é talvez o que o Brasil precisa ao procurar consolidar as conquistas da última década e continuar a sua emergência como um país de classe média. Mas, com a reforma apenas começando, muito ainda vai depender de quanto ela está disposta a fazer as "coisas difíceis".

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Guardian: o boom econômico e as armas do Brasil e da América Latina pra enfrentar a crise europeia

Matéria do Guardian, mal traduzida por mim (com ajuda do Google, claro).

A foto é da publicação original e, apesar de não ter muita relação com o assunto, fica porque é de um desfile do Salgueiro.

Brasil e o resto da América Latina desfrutam boom econômico
Gastos, crescimento, dívida pública invejavelmente baixa  - é grande a diferença do velho mundo em crise.
Jonathan Watts, no Rio de Janeiro, Jonathan Franklin em Santiago e Sibila Brodzinsky em Bogotá

carro alegórico do king kong no desfile do Salgueiro no carnaval de 2011


Os caixas de dinheiro em Santiago estão ficando sem dinheiro, mas não é uma fuga dos bancos; os consumidores no Chile estão simplesmente gastando notas de Peso mais rápido do que os caixas automáticos podem fornecê-las. Novos arranha-céus estão surgindo em Bogotá para criar o espaço necessário para escritórios e para o varejo necessário numa economia em crescimento. O México – o novo queridinho dos investidores estrangeiros - está superando as previsões para o PIB. O Brasil, que ultrapassou o Reino Unido como sexta maior economia do mundo no ano passado, acaba de anunciar um plano de estímulo de US $ 66 bilhões (£ 42 bilhões), além do dinheiro que vai gastar na preparação para a Copa de 2014 e as Olimpíadas em 2016.


A América Latina está agora se reajustando, enquanto a maioria das nações espera um crescimento mais lento, porém ainda sólido, e algumas se preparam para mexer nas extensas reservas e gastar num caminho para fora da recessão global.

A sua capacidade de resistir à tempestade que se aproxima terá implicações de longo prazo para as percepções sobre uma região que, até recentemente, era sinônimo de turbulência financeira, gastos irresponsáveis ​​e políticas extravagantes. Recentemente, muitos governos da região têm sido elogiados pela ONU, FMI e Banco Mundial pela construção de fortes reservas e manutenção de níveis geralmente baixos de dívida pública.

Isto lhes dá mais espaço para abrir as torneiras do estímulo fiscal quando a economia começa a esmorecer, como o Brasil fez na quarta-feira com o anúncio de um pacote de estímulo de R$ 133 bilhões. Se eles puderem evitar os piores impactos da crise internacional sem afundar em dívidas - como a maioria das nações aqui fez em 2008 – isso reforçaria uma crescente reputação de gestão económica prudente.

Vários anos de forte crescimento nas economias mais fortes criaram uma dinâmica visível. Em Santiago, os crescentes preços da habitação, as centenas de novos restaurantes e as florestas de gruas no horizonte sugerem que a economia chilena tem costeado os estágios iniciais da última crise. As vendas de automóveis subiram tanto que, em um ponto do ano passado, o governo ficou sem placas de licença e foi forçado a emitir substitutas de papelão, enquanto apressadamente terminava a outra rodada de placas de metal.

Com um crescimento estimado do PIB este ano de 4,5%, além das robustas reservas do governo, o Chile está preparado para enfrentar possíveis conseqüências da Europa. "Nós temos uma posição bastante confortável para enfrentar os desafios em 2012," disse a direitora do orçamento, Rosanna Costa, a jornalistas em Santiago este ano. O governo dispõe de um fundo de estabilização estimado em US$ 14 bilhões, que pode ser usado para estimular a economia através de projectos de obras públicas ou infusões de dinheiro, conforme necessário.

O Peru também está aproveitando a expansão constante, enquanto a Venezuela, impulsionada pelas vendas de petróleo e uma farra de gastos pré-eleitorais de Hugo Chávez, espera um crescimento de mais de 5%, embora a sua capacidade de pagar as suas contas dependa dos preços elevados do petróleo.

Há algumas exceções significativas a essas tendências. A economia argentina deu uma parada na sequência da nacionalização dos ativos locais da YPF, empresa petrolífera espanhola, indicando a influência ainda forte dos mercados financeiros globais na América Latina.

Mesmo assim, a região deverá crescer entre 3 e 4% este ano – uma bonança em comparação com a depressão que aflige as nações latinas no velho mundo. Portugal, Espanha e Itália foram os países com pior desempenho, quando a UE anunciou esta semana que o PIB da zona do euro caiu 0,2% no último trimestre.

Os contrastes são gritantes. Enquanto a Espanha tem implorando por socorros, Juan Carlos Echeverry, o ministro das finanças de sua ex-colônia Colômbia, gabava-se de que este ano o seu governo "não precisa de mais receitas". Graças a taxas crescentes de investimento estrangeiro, desemprego em queda e crescimento anual de 4,5% por mais de uma década, as finanças de seu estado são consideradas em boa forma para suportar as consequências da Europa.

Embora o clima tenha escurecido nos últimos meses, novos símbolos de riqueza estão sendo construídas. A Colômbia está erguendo seu maior arranha-céu, o BD Bacatá, edifício de 66 andares que abrigará um shopping center, escritórios e até apartamentos de alto padrão.

O magnata imobiliário espanhol por trás do projeto, Venerando Lamelas, disse que ele está se movendo de acordo com o momento. "O mercado europeu não está bom. A América Latina é muito importante e dentro da América Latina o melhor mercado é a Colômbia", disse a um jornal local.

Outros estão seguindo as oportunidades atravéz do Atlântico. Gonzalo Rodriguez recentemente desistiu de seu emprego como um operador de títulos no mercado, na Espanha, e se mudou para o Brasil para trabalhar em uma empresa de energia, projetando linhas de transmissão de energia para parques eólicos.

"Eu não estou ganhando tanto aqui quanto na Espanha, mas estou pensando cinco anos à frente", disse em Copacabana o jovem de 25 anos. "Há 100% mais potencial de crescimento na energia no Brasil do que nos bancos espanhóis. Há muitas pessoas talentosas na Espanha sem encontrar emprego. Aqui, é o oposto. Eles não têm número suficiente de pessoas qualificadas."

Tal otimismo será testado nos próximos meses. O Brasil tem sido atingido mais do que qualquer outro país pela crise no exterior - em particular o enfraquecimento da demanda chinesa por commodities. É provável que ele cresça mais lentamente este ano (cerca de 2-3%) do que qualquer das outras grandes economias regionais, o que levou o presidente Dilma Rousseff a lançar o robusto pacote de estímulo de quarta-feira.

Ao contrário do passado, no entanto, ele tem o dinheiro para gastar. As reservas internacionais do Brasil cresceram de US$ 38 bilhões em 2002 para mais de US$ 370 bilhões, o que é um “caixa de guerra” substancial para afastar crise global.

"No passado ano, quando o mundo espirrava, pegamos pneumonia. Esse não é mais o caso", disse Rousseff neste ano. "Posso garantir a você, o Brasil é 100%, 200%, 300% pronto."

Muitos economistas questionam se o Brasil e a região como um todo vão se provar tão resistentes desta vez. A forte demanda da China por soja, cobre, petróleo e outras commodities ajudou a América Latina a costear a crise de 2008-09. Desta vez, com a desaceleração na China, terá de cavar mais fundo em suas reservas. Embora as finanças públicas estejam muito mais fortes do que eram nos anos 80 e 90, a grande questão é saber se ela investiu o bastante em capital humano.

"Trabalhos importantes aqui no Brasil estão sendo preenchidos pelos europeus, especialmente da Espanha e Portugal", disse Nelson de Sousa, professor de finanças na escola de gestão Ibmec. "Nós não colocamos o suficiente em educação e formação. Essa é a nossa grande dificuldade, que é muito diferente dos problemas enfrentados pela Europa.

"O governo brasileiro gasta muito, mas muito mal. Dilma está ciente disso, mas há uma grande diferença entre saber o que fazer e ser capaz de fazê-lo."

Se ela - e outros líderes da região – for bem-sucedida, no entanto, muito mais do que a tocha olímpica pode passando este ano da Europa para a América Latina.

terça-feira, 12 de junho de 2012

The Guradian: o Brasil deveria ter um acento permanente no Conselho de Segurança da ONU

O editorial do The Guardian em sofrível tradução minha.

Brasil: um Bric para construir junto
Brasil agora tem um PIB total maior que o Reino Unido e algo que outras nações procuram em vão: liderança sustentada

O Brasil, que abrigará a Cúpula da Terra este mês e uma Copa do Mundo e uma Olimpíada nos próximos quatro anos, vem se beneficiando de uma coisa que você procuraria em vão em grande parte do mundo: liderança sustentada. Primeiro, veio Cardoso, o sociólogo e homem de estado que colocou a economia sob controle. Em seguida, foi Lula, até agora, a melhor reencarnação de Franklin Roosevelt. Emergindo de sua sombra como uma afiada [é isso?] reformadora pragmática, veio a atual presidenta, Dilma Rousseff.

O Brasil ascendeu com a China - abastecendo-a  com soja e minério de ferro - e agora tem um PIB maior do que o Reino Unido. Lula se comparou a um mascate, vendendo mercadorias em todos os lugares; o desafio de Rousseff é destravar a produtividade e criar uma economia mais avançada.

Como os brasileiros já são muito mais ricos do que os chineses ou indianos, seria difícil se aproximar de suas taxas de crescimento. Mas existe uma possibilidade no investimento maciço em infra-estrutura e, mais importante, em educação. Dilma Rousseff terá que transpor sua popularidade e habilidade gerencial em comando sobre Congresso, para definir o ritmo.

Embora seja líder mundial em desigualdade, o Brasil também lidera o seu eficaz enfrentamento. Seus programas sociais merecidamente famosos, uma vitrine para o governo ativista, ajudaram a tirar 20 milhões de pessoas da pobreza e criar um mercado interno. Depois de muito receber sermões econômicos de qualidade variada, Brasília não tem nenhum desejo de começar a dá-los, mas assiste com apreensão as tentativas européias de reduzir a dívida sem crescimento.

Tudo isso deu ao Brasil a credibilidade para assumir um há muito cobiçado papel como uma potência global.

Particularmente sob Dilma Rousseff e seu ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, ele assumiu uma característica mistura de contenção e independência no exercício desse poder. Brasília não só duplicou seus diplomatas na última década, ela redobrou sua ênfase na diplomacia como a única maneira de "multipolaridade benigna".

Em parte, isso é o luxo de um bairro tranquilo (que ainda deve convencer das vantagens e magnanimidade de sua liderança). Mas também reflete longa tradição diplomática e vivência da natureza da soberania e da democratização. Ao acumular poder e responsabilidade, o Brasil não será mais capaz de ser amigo de todos e sentirá a tensão entre soberania e direitos humanos mais intensamente, mas ele aspira ser uma ponte entre potências e, por vezes, será um corretivo para hipocrisia seletividade ocidentais.

Não só o Brasil deveria ter um assento permanente no Conselho de Segurança; ele é o melhor argumento para a reforma do Conselho de segurança e outras tentativas de tornar o sistema internacional mais representativo. Esta é a hora do ocidente, e do resto, abraçar a ascensão do Brasil de forma mais activa e começar uma relação mais profundo.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Maria Inês Nassif, a apropriação do poder pelo setor privado e o papel da mídia nesse processo.

Texto apresentado por Maria Inês Nassif no Seminário Internacional sobre a Corrupção e publicado pela Carta Maior.


As ondas de pânico criadas em torno de casos de corrupção, desde Collor, têm servido mais a desqualificar a política do que propriamente moralizar a nossa democracia. Apesar da imensa caça às bruxas movida pela mídia contra os governos, em nenhum momento essa sucessão de escândalos, reais ou não, incluíram seriamente a opinião pública num debate sobre a razão pela qual um sistema inteiro é apropriado pelo poder privado, e, principalmente, porque não se questiona essa apropriação. O artigo é de Maria Inês Nassif.

A corrupção do sistema político merece uma reflexão para além das manchetes dos jornais tradicionais. Em especial neste momento que o país vive, quando a nova democracia completou 26 anos e a política, que é a sua base de representação, se desgasta perante a opinião pública. Este é o exato momento em que os valores democráticos devem prevalecer sobre todas as discordâncias partidárias, pois chegou no limite de uma escolha: ou diagnostica e aperfeiçoa o sistema político, ou verá sucumbi-lo perante o descrédito dos cidadãos.


Dos arquivos do blog:


O país pós-redemocratização passou por um governo que foi um fracasso no combate à inflação, um primeiro presidente eleito pelo voto direto pós-ditadura apeado do poder por denúncias de corrupção, dois governos tucanos que, com uma política antiinflacionária exitosa, conseguiram colocar o país no trilho do neoliberalismo que já havia grassado o mundo, e por fim dois governos do PT, um partido de difícil assimilação por parcela da população. Nesse período, a mídia incorporou como poder próprio o julgamento e o sentenciamento moral, numa magnitude tal que vai contra qualquer bom senso.

Este é um assunto difícil porque pode ser facilmente interpretado como uma defesa da corrupção, e não é. Ou como questionamento à liberdade de imprensa, e está longe disso. O que se deve colocar na mesa, para discussão, é até onde vai legitimidade da mídia tradicional brasileira para exercer uma função fiscalizadora que invade áreas que não lhes são próprias. Existe um limite tênue entre o exercício da liberdade de imprensa na fiscalização da política e a usurpação do poder de outras instituições da República.
 
Outra questão que preocupa muito é que a discussão emocional, fulanizada, mantida pelos jornais e revistas também como um recurso de marketing, têm como maior saldo manter o sistema político tal como é. É impossível uma discussão mais profunda nesses termos: a escandalização da política e a demonização de políticos trata-os como intrinsicamente corruptos, como pessoas de baixa moral que procuram na atividade política uma forma de enriquecimento privado. Ninguém se pergunta como os partidos sobrevivem mantidos por dinheiro privado e que tipo de concessão têm que fazer ao sistema.

Desde Antonio Gramsci, o pensador comunista italiano que morreu na masmorra de Mussolini, a expressão “nenhuma informação é inocente” tem pontuado os estudos sobre o papel da imprensa na formulação de sensos comuns que ganham a hegemonia na sociedade. Gramsci já usava o termo “jornalismo marrom” para designar os surtos de pânico promovidos pela mídia, de forma a ganhar a guerra da opinião pública pelo medo. 
 
No Brasil atual, duas grandes crises de pânico foram alimentadas pela mídia tradicional brasileira no passado recente. Em 2002, nas eleições em que o PT seria vitorioso contra o candidato do governo FHC, a mídia claramente mediou a pressão dos mercados financeiros contra o candidato favorito, Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se, no início, de fixar como senso comum a referência “ou José Serra [o candidato tucano] ou o caos”.

Depois, a meta era obrigar Lula e o PT ao recuo programático, garantindo assim a abertura do mercado financeiro, recém-completada, para os capitais internacionais. Em 2005, na época do chamado “mensalão”, o discurso do caos foi redirecionado para a corrupção. Politicamente, era uma chance fantástica para a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a única alternativa para se contrapor a um líder carismático em popularidade crescente era tirar de seu partido, o PT, a bandeira da moralidade. A ofensiva da imprensa, nesse caso, não foi apenas mediadora de interesses. A mídia não apenas mediava, mas pautava a oposição e era pautada por ela, num processo de retroalimentação em que ela própria [a mídia] passou a suprir a fragilidade dos partidos oposicionistas. Ao longo desse período, tornou-se uma referência de poder político, paralelo ao instituído pelo voto.

Eleita Dilma Rousseff, a oposição institucional declinou mais ainda, num país que historicamente voto e poder caminham juntos, e ao que tudo indica a mídia assumiu com mais vigor não apenas o papel de poder político, mas de bancada paralela. Dilma está se tornando uma máquina de demitir ministros. Nas primeiras demissões, a ofensiva da mídia deu a ela um pretexto para se livrar de aliados incômodos, nas complicadas negociações a que o Poder Executivo se vê obrigado em governos de coalizão num sistema partidário como o brasileiro. Caiu, todavia, numa armadilha: ao ceder ministros, está reforçando o poder paralelo da mídia; em vez de virar refém de partidos políticos que, de fato, têm deficiências orgânicas sérias, tornou-se refém da própria mídia.

As ondas de pânico criadas em torno de casos de corrupção, desde Collor, têm servido mais a desqualificar a política do que propriamente moralizar a nossa democracia. Mais uma vez, volto à frase de Gramsci: não existe notícia inocente. O Brasil saído da ditadura já trazia, como herança, um sistema político com problemas que remontam à Colônia. O compadrio, o mandonismo e o coronelismo são a expressão clássica do que hoje se conhece por nepotismo, privatização da máquina pública e falha separação entre o público e o privado. A política tem sido constituída sobre essas bases e, depois de cada momento autoritário e a cada período de redemocratização no país, seus problemas se desnudam, soluções paliativas são dadas e a cultura fica. Por que fica? Porque é a fonte de poderes – poderes privados que podem se sobrepor ao poder público legitimamente constituído.

O sistema político é mantido por interesses privados, e é de interesse de gregos e troianos que assim permaneça. Segundo levantamento feito pela Comissão Especial da Câmara que analisa a reforma política, cerca de 360 deputados, em 513, foram eleitos porque fizeram as mais caras campanhas eleitorais de seus Estados. Com dinheiro privado. Em sã consciência, com quem eles têm compromissos? Eles apenas tiveram acesso aos instrumentos midiáticos e de marketing político cada vez mais sofisticados porque foram financiados pelo poder econômico. É o interesse privado quem define se o dinheiro doado aos candidatos e partidos é lícito ou ilícito. 
 
O dinheiro do caixa dois passou a fazer parte desse sistema. Não existe nenhum partido, hoje, que consiga se financiar privadamente – como define a legislação brasileira – sem se envolver com o dinheiro das empresas; e são remotíssimas as chances de um político financiado pelo poder privado escapar de um caixa dois, porque normalmente é o caixa dois das empresas que está disponível. Num sistema eleitoral onde o dinheiro privado, lícito e ilícito, é o principal financiador das eleições, ocorre a primeira captura do sistema político pelo poder privado. E isso não acaba mais.
 
Esse é o âmago de nosso sistema político. A democratização trouxe coisas fantásticas para a política brasileira, como o voto do analfabeto, a ampla liberdade de organização partidária e a garantia do voto. Mas falhou no aperfeiçoamento de um sistema que obrigatoriamente teria de ser revisto, no momento em que o poder do voto foi restabelecido pela Constituição de 1988.
 
Num sistema como esse, por qualquer lado que se mexa é possível desenrolar histórias da promiscuidade entre o poder público e o dinheiro privado. Por que isso não entra, pelo menos, em discussão? Acredito que a situação permaneça porque, ao fim e ao cabo, ela mantém o poder político sob o permanente poder de chantagem privado. De um lado, os financiadores de campanhas se apoderam de parcela de poder. De outro, um sistema imperfeito torna facilmente capturável o poder do voto também por aparelhos privados de ideologia, como a mídia. Como nenhuma notícia é inocente, a própria pauta leva a relações particulares entre políticos e o poder econômico, ou entre a máquina pública e o partido político. A guerra permanente entre um governo eleito que tem a oposição de uma mídia dominante é alimentada pelo sistema.

O apoderamento da imprensa é ainda maior. Se, de um lado, a pauta expressa seu imenso poder sobre a política brasileira, ela não cumpre o papel de apontar soluções para o problema. Não existe intenção de melhorá-lo, de atacar as verdadeiras causas da corrupção. Apesar da imensa caça às bruxas movida pela mídia contra os governos, em nenhum momento essa sucessão de escândalos, reais ou não, incluíram seriamente a opinião pública num debate sobre a razão pela qual um sistema inteiro é apropriado pelo poder privado, inclusive e principalmente porque não se questiona o direito de apropriação do poder público pelo poder privado. A mídia tradicional não fez um debate sério sobre financiamento de campanha; não dá a importância devida à lei do colarinho branco; colocou a CPMF, que poderia ser um importante instrumento contra o dinheiro ilícito que inclusive financia campanhas eleitorais, no rol da campanha contra uma pretensa carga insuportável de impostos que o brasileiro paga.

Pode fazer isso por superficialidade no trato das informações, por falta de entendimento das causas da corrupção – mas qualquer boa intenção que porventura exista é anulada pelo fato de que é este o sistema que permite à imprensa capturar, para ela, parte do poder de instituições democráticas devidamente constituídas para isso.

(*) Texto apresentado no Seminário Internacional sobre a Corrupção, dia 7 de novembro de 2011, em Porto Alegre.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Saul Leblon: quem ronda é o dragão da deflação.

Texto de Saul Leblon para o Blog das Frases, em Carta Maior.

Mais sobre inflação, nos arquivos do blog:
A propaganda do PPS e a volta da inflação


Na última 6ª feira, em discurso a empresários, em São Paulo, a Presidenta Dilma Rousseff rebateu as críticas do conservadorismo, reiteradas um dia antes pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Segundo o tucano, a decisão brasileira de reduzir em meio ponto a taxa de juro mais alta do mundo teria sido 'precipitada'.

A resposta da Presidenta veio em tom de alerta:"...diante da crise e da ameaça de deflação e depressão em algumas economias desenvolvidas, (estamos abrindo espaço para que o BC) possa iniciar um ciclo cauteloso e responsável de redução da taxa básica de juros. Não é admissível que, se de fato se configure uma recessão e um processo deflacionário no resto do mundo, nós aqui estejamos sem levar isso em conta'.

A deflação temida pela presidenta e desconhecida do sociólogo cosmopolita é uma espiral baixista de preços que se auto-alimenta.

Trata-se de uma das doenças mais graves do capitalismo.

Para muitos economistas, mais grave que a sua contrapartida de sinal trocado, a hiperinflação, que costuma ser equacionada com a arma clássica do coquetel conservador: recessão, arrocho salarial e juros estratosféricos.

A deflação, ao contrário se instala dentro da recessão. É uma espécie de síntese das contradições do sistema, que assume a forma de uma paralisia progressiva. Ataca, sobretudo, metabolismos com baixa resistência, caso dos EUA hoje, onde a taxa de juro real já é negativa e os recursos de intervenção do Estado estão imobilizados politicamente.

Se as taxas de juros são negativas quem tem dinheiro prefere guardá-lo em segurança no cofre do Tesouro norte-americano a correr o risco de emprestá-lo em troca de rendimentos mínimos e incertos.
Essa escolha quando feita pelos bancos amplifica a contração da atividade econômica pela retração do crédito. O crédito é a alma e o motor do capitalismo. Sem ele o sistema desfalece. É o que tem ocorrido nos EUA, onde mais de US$ 1,3 tri estão empoçados nos caixas dos bancos.

Historicamente, a tentativa de quebrar esse círculo de ferro, nem sempre bem sucedida, inclui doses cavalares de gasto fiscal em obras públicas, oxigênio negado à paralisia norte-americana pelo radicalismo neoliberal .

Na Europa há espaço para novos cortes de juros (hoje em torno de 1,5%). Mas o predomínio de burocratas ortodoxos e governos conservadores, entre os quais se incluem socialdemocratas colonizados pelo neoliberalismo, restringe o uso desse instrumento, tanto quanto a alavanca do investimento público.

O elevado custo de uma deflação pode ser inferido dos desdobramentos causados pela explosão da bolha imobiliária nos EUA, em 2008, que até hoje não cessaram.
A espiral descendente dos preços dos imóveis criou um fosso entre o valor da dívida hipotecária das famílias e o valor de mercado de suas residências. Em muitos casos, o patrimônio passou a valer a metade da dívida.

Em apenas um mês, em novembro de 2008, o preço médio dos imóveis residenciais nos EUA caiu mais de 20%.

Não raro, isso foi acompanhado da perda do emprego ou da troca involuntária por outro de salário inferior. O peso da dívida adquiriu assim um peso insuportável no orçamento familiar.

O efeito imediato é a redução da demanda, que agrava a recessão, que deprime ainda mais o valor dos imóveis. E assim sucessivamente.

Para desafogar os mutuários seria necessário estender o processo de deflação ao valor dos empréstimos, impondo perdas equivalentes aos bancos, construtoras, investidores, ações de companhias ligadas à construção etc .

A resistência do capital financeiro a esse compartilhamento de perdas é uma das causas da encruzilhada paralisante enfrentada pela crise mundial nesse momento. Toda ela está amarrada no impasse em torno de uma conta de chegar explosiva entre passivos e ativos Ou seja, entre a catastrófica massa de capital fictício sedimentada pela desregulação financeira do ciclo neoliberal --nas mãos de fundos, bolsas, investidores, empresas, bancos etc-- e a riqueza real disponível. Se a referencia for o PIB mundial essa desproporção é de 10 para 1.

Sem impor perdas ao capital fictício o que sobra é um ajuste selvagem que se faz via desemprego, perda salariais e falencia de nações. É o que assistimos nesse momento.

Alerta recente da OIT informa que o mundo já tem mais de 200 milhões de desempregados. A oferta de trabalho cresce aquém do crescimento populacional. O estoque incha em vez de diminuir. A retração do mercado sinaliza um déficit de 40 milhões de empregos entre 2011 e 2012.

Fecha-se o círculo de ferro: consumidores não compram por falta de dinheiro ou pela expectativa de que os bens venham a sofrer novas reduções. Bancos não emprestam porque o juro é baixo e os riscos são altos. Empresas não produzem porque não há demanda - e não investem porque suas máquinas estão ociosas Quem tem estoque fica encurralado por dívidas com fornecedores que o retorno das vendas já não cobre. O conjunto gera novas quedas de preços reproduzindo a mecânica da deflação em patamares cada vez mais subterrâneos. Mas as dívidas financeiras resistem blindadas pelo poder político dos bancos e grandes corporações.

Os indicadores de preços nos EUA ou na Europa não apontam ainda um cenário de deflação. Mas as previsões do FMI são de recuos pronunciados. Estimativas do Fundo feitas no início de setembro para a zona do euro apontavam uma taxa de inflação de 2,5% para este ano, caindo para 1,5% em 2012. Já nos Estados Unidos, a inflação passaria de 1,6% a 3% até o final de 2011, para recuar a 1,3% em 2012.
Expectativas de quedas mais pronunciadas ganham força até mesmo entre aqueles que costumam manifestar confiança nas virtudes auto-depurativas dos mercados. O presidente do banco central de Israel é um deles.

Ortodoxo de carteirinha, ex-dirigente do FMI, Stanley Fischer reduziu a taxa de juros do país de 3,25% para 3% ao ano, mesmo com a inflação acima da meta oficial. Fischer foi taxativo ao se justificar. A inflação nesse momento, explicou, é questão "irrelevante". E advertiu:" em 2012 o mundo pode ter deflação, não alta de preços".

Há indicativos fortes nessa direção. Eles partem de uma das roletas preferidas do capital especulativo, as bolsas de commodities. Embora a base de comparação ainda seja elevada, as cotações das commodities agrícolas e minerais fecharam setembro com as maiores quedas desde 2008. A soja teve um recuo de 16%; o cobre acumulou uma perda de 25% em relação ao pico de alta em 2010.

À fuga de especuladores ariscos somam-se agora sinais crescentes de desaceleração da economia chinesa, cuja produção industrial acumula tres quedas mensais consecutivcas. O que acontecer com a economia chinesa nos próximos meses terá impacto decisivo no movimento deflacionista das matérias-primas, que tem na China o maior importador mundial.

A precaução da Presidenta Dilma em armar o país contra o risco de uma deflação - incluindo-se uma redução mais acentuada da Selic - é mais que justificável. Uma vez iniciado é muito difícil reverter um processo deflacionário, mesmo em países dotados de grande poder de fogo fiscal.

A deflação japonesa, por exemplo, perdurou por toda a década de 90. O Estado japonês investiu US$ 1,4 trilhão em obras públicas, incluindo desde garagens urbanas a muros de contenção contra tsunamis, passando por pontes de duvidosa relevância. Entre elas a maior ponte pênsil do mundo entre Kobe e a ilha de Awaji. A obra custou US$ 7,4 bi e, segundo Paul Krugman, registra um tráfego desprezível de apenas 4 mil veículos por dia.Nem assim o Japão conseguiu engatar um novo ciclo de expansão sustentável.

Na deflação norte-americana de 29, os preços chegaram a cair 25%, em média. O desemprego saltou de 1,5 milhão de pessoas, em 1929, para 12,8 milhões em 1933, atingindo 24,9% da força de trabalho; em 1939 era ainda de 17%. O PIB diminuiu de US$104 bi para US$ 56 bi, entre 1929 e 1933.

Os EUA contaram com Roosevelt , o New Deal e uma relação de forças polarizada pela expansão dos ideais socialistas que arrancou concessões do capitalismo em benefício da renda, do emprego e do consumo. Mesmo assim foi preciso uma guerra mundial para que o sistema reencontrasse o caminho do pleno emprego e da produção.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Representantes da Indústria de Máquinas e de Base a Guilherme de Barros: decisão do BC foi técnica, acertada, autônoma e corajosa.


Duas notas do Blog do Guilherme Barros e uma mesma impressão: os setores produtivos da economia concordam com o BC.

Mais sobre a redução da SELIC aquiaqui, aqui e aqui.


A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual foi correta e técnica, segundo Paulo Godoy, presidente Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). “Existe um cenário bastante real e forte de prolongamento da crise, com crescimento fraco e dificuldades para equacionar as dívidas gigantescas das principais economias do mundo”, diz.

Para Godoy, o Banco Central acertou em agir rapidamente no sentido de reduzir os juros para tentar manter uma perspectiva razoável de crescimento da economia, já que “as consequências dos problemas econômicos nos países mais ricos chegarão ao Brasil com intensidade maior”.

O presidente da Abdib afirma que o BC conquistou independência na tomada de decisões nos últimos anos. “O nosso Banco Central estudou os indicadores e os cenários e agiu preventivamente para manter perspectivas de crescimento razoáveis para o Brasil. É isso. O resto é esquizofrenia.”

*****

Abimaq contesta ‘financistas’ que defendem manutenção da Selic

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, defendeu hoje a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 12% ao ano.

Segundo ele, as críticas de que a autoridade monetária cedeu a pressões do governo para cortar os juros partem de um “grupo de financistas”.

“Há uma reação visceral de financistas sobre isso”, afirmou. “Eles estão como bezerros quando desmamam e começam a berrar”, completou.

Aubert Neto disse que a Selic é “o maior câncer” que o Brasil tem atualmente.

“Nos oito anos do governo FHC e nos oito anos de Lula, quem comandou o Banco Central foram pessoas ligadas ao sistema financeiro. O Brasil é o único país do mundo que coloca a raposa para cuidar das ovelhas.”

O presidente da Abimaq disse que a decisão do Copom reforça a autonomia do Banco Central.

“Eles tiveram coragem para reduzir os juros.”

Aubert Neto ressaltou que o corte de 1 ponto percentual da Selic representa uma economia de R$ 16 bilhões com juros. “Nos últimos 16 anos, o Brasil pagou mais de R$ 2 trilhões em juros de dívida. É a maior transferência de renda da história do capitalismo.”

O presidente da Abimaq afirmou que, sem um aperto monetário, a crise internacional poderá trazer impactos à economia brasileira.

“A decisão do Copom foi uma sinalização de que nem tudo está perdido”, completou.

Jose Roberto Toledo: política econômica é isto mesmo: política. "Por isso o substantivo na expressão"


Mais sobre a redução da SELIC aquiaquiaqui e aqui.

por Jose Roberto de Toledo

“É a opinião pública, estúpido!” Ao contrário da frase imortal de James Carville, a economia parece ter trocado de lugar com a política na ordem natural das coisas. Será?

O Banco Central surpreendeu essa entidade mítica, “o mercado”, ao cortar a taxa de juros antes da hora. Antes da hora na opinião dos analistas que erraram suas previsões, é claro. Foi pressão política de Dilma Rousseff? Ou choque de realidade no Copom, que descobriu que o Brasil não é um planeta isolado da economia global? Ambos.

Como aponta o repórter Fernando Nakagawa, no Estado, o corte ocorreu um dia depois de Dilma ter dito vislumbrar a possibilidade de um ciclo de redução dos juros. Postos nessa ordem, parecem causa e efeito. Mas o contrário é mais provável: Alexandre Tombini, o presidente do Banco Central, deve ter feito chegar aos ouvidos da presidente a tal possibilidade, e ela apenas se antecipou.

A novidade é que Ministério da Fazenda e Banco Central parecem trabalhar alinhados em uma mesma política. O primeiro anuncia cortes de gastos públicos e cria oportunidade para o outro cortar os juros, tudo no espaço de três dias, com a declaração presidencial no meio. Sugere coordenação. Se dará certo é outra questão, mas parece superada a fase dos conflitos na área econômica.

O Banco Central demonstrou preocupação de que isso seja interpretado como ameaça à sua independência -do contrário, não teria divulgado um comunicado tão longo quanto inédito para explicar imediatamente o corte dos juros. Outra interpretação é que mais forças, além de “o mercado”, passaram a influir nas decisões do Copom. Basicamente, a opinião pública.

“Sacrilégio!”, clamarão “os analistas”. “As decisões de política monetária e fiscal devem ser tomadas com base em critérios estritamente técnicos, segundo os cânones consagrados”. Consagrados por quem? Por “o mercado”. Mas mesmo a oposição ao governo no Congresso apoiou o corte de juros, porque sabe que a opinião pública é a favor. E porque, se der errado, a culpa não será dela, mas do governo.

Por mais técnica que seja, em qualquer questão cabem interpretações diferentes. Não fosse assim, por que 11 ministros no Supremo Tribunal Federal e seus julgamentos rachados? O próprio Comitê de Política Monetária, o Copom, dividiu-se quanto ao corte imediato de 0,5 ponto porcentual dos juros: cinco votaram a favor e dois contra.

As decisões são baseadas em fatos como a queda da confiança do consumidor, mas o peso que se atribui a eles é uma interpretação de cada integrante do Copom. E ela está ligada ao que se quer: uma inflação maior ou menor versus um ritmo de crescimento da economia idem idem. Do jogo de forças entre essas metas surgem as decisões de política econômica. Por isso o substantivo na expressão é “política”.

Como é política a busca de Dilma por um equilíbrio arriscado entre popularidade (leia-se economia aquecida e juros menores) e ajustes necessários ao controle da inflação (leia-se corte de gastos e juros altos). Se pender muito para a primeira, “o mercado” pode apostar contra ela e acelerar a alta de preços. Mas se perder popularidade, Dilma se enfraquecerá para negociar com aliados e opositores no Congresso. Sua margem de erro é cada vez menor.


Juros altos ou baixos, alguma coisa está errada quando o preço da banana é duas vezes mais alto nos EUA do que no Brasil. Por mais “bananeiras” que pareçam as rusgas entre Barack Obama e os republicanos no Congresso, nada justifica ser teoricamente possível o Brasil comprar bananas “norte-americanas” com vantagem. Já basta ter que importar etanol.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Dilma Vana, a que não poderia entrar nos EUA, receberá o Prêmio do Wilson's Centre por serviços públicos.


26 de junho de 2011

A Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, receberá o Prêmio do Wilson’s Centre para o Serviço Público, em 20 de setembro de 2011 em Nova York.

"A história de Presidente Dilma tem inspirado milhões de mulheres em todo o mundo para alcançar cargos de liderança em muitos campos", disse Jane Harman, diretor, presidente e CEO do Woodrow Wilson Center. "O Wilson’s Centre tem o prazer de ser capaz de honrar sua dedicação ao serviço público e sua liderança, fiéis à visão de Woodrow Wilson."
A líder brasileira receberá o Woodrow Wilson Award de Serviço Público em um jantar no Hotel Pierre, na véspera de se tornar a primeira mulher chefe de Estado a abrir a Assembléia Geral da ONU em seus 66 anos de história.

(…)

O Prêmio Woodrow Wilson é conferido aos líderes proeminentes dos negócios, governo, artes e ciências, que dedicaram suas carreiras e vidas para melhorar a qualidade de vida nos seus países e ao redor do mundo. Seus legados refletem os valores do 28º Presidente Estados Unidos, Woodrow Wilson, um líder que acreditava que, "Não há maior religião do que de serviços humanos. Trabalhar para o bem comum é o maior credo."

Desde a sua criação em 1998, o Prémio de Serviço Público e Cidadania Corporativa foi sido concedido a cidadãos dos Estados Unidos e 18 outros países abrangendo seis continentes.
Os ultimos brasileiros a receber o Prêmio Woodrow Wilson para Serviço Público foram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2009) e Dr. Zilda Arns (2007), fundadora da "Pastoral da Criança", que morreu durante o terremoto de janeiro de 2010 no Haiti, apenas um dos 14 países em que ela trabalhou caridade em nome da saúde das crianças.
(…)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Desde a implantação do Bolsa Família, a Taxa de Natalidade já caiu 25%

Segundo o G1, ao falar acerca de um assalto à sua casa, um Deputado Estadual de São Paulo criticou os programas sociais do Governo Federal e defendeu o controle de natalidade. Segundo o sítio, Antonio Salim Curiati (PP) teria afirmado: "A Dilma vem para cá falar de Bolsa Família... Aí você agracia a comunidade carente, e eles começam a ter filhos à vontade. É preciso controlar a paternidade".


Diz ele que, com a concessão da Bolsa Família, os beneficiários passariam a ter “filhos à vontade”. Leia-se: o Bolsa Família estaria estimulando as famílias carentes a terem mais filhos. Não é nem original, o Deputado.  Essa bizarrice vem sendo repetida por muita “gente boa” por aí. Mas será verdade?

Posso estar enganado, mas os números do IBGE não corroboram a idéia. De fato, conforme dados do último Censo, a Taxa de fecundidade da mulher brasileira caiu de 2,40 em 2002 para 1,90 em 2010. Ou seja, a relação entre o número de nascimentos e o número de mulheres em idade fértil despencou 20,83%

No mesmo período, a Taxa bruta de natalidade caiu 25,63%, passando de 20,33 em 2002 para 25,63 15,12  em 2010 [rapidamente corrigido, 6 meses depois da publicação]. À título de comparação, registre-se que, nos 8 anos imediatamente anteriores à implementação do Bolsa Família, o índice já sofrera alguma redução, mas a um ritmo 3 vezes mais lento. Entre 1994 e 2002, a taxa bruta de natalidade sofreu uma redução de 8,55%, passando de 22,23 para 20,33.

E, então, se as taxas de fecundidade e de natalidade vêm caindo aceleradamente desde a implantação do programa, será que dá pra falar que o Bolsa Família estimula as famílias a terem mais filhos?

fecundidade



segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Terra: funcionários do Governo Tucano do PSDB espionaram sem justificativa dados sigilosos de petitas e do PT.


Matéria publicada pelo Portal Terra.

05 de setembro de 2010 • 22h41 • atualizado às 22h44 Comentários
Direto de Porto Alegre

O promotor de Justiça Criminal Amilcar Macedo, do Ministério Público na cidade de Canoas, no Rio Grande do Sul, informou na noite deste domingo (5) que, além do sargento César Rodrigues de Carvalho, preso na manhã de sexta-feira, outras quatro pessoas também são investigadas pelo acesso irregular a dados sigilosos de políticos gaúchos, sendo que duas são integrantes da Brigada Militar (BM) e duas são civis ligados ao governo do Estado. Suas identidades serão reveladas nesta segunda-feira.

O promotor garantiu ainda que os nomes já checados daqueles que tiveram seus dados sigilosos acessados pelo sargento também serão divulgados. O sargento, integrante da BM, estava lotado na Casa Militar do Palácio Piratini (sede do governo gaúcho) e foi preso na manhã de sexta-feira (3) em sua residência em Porto Alegre. Ele, que havia sido promovido poucos dias antes, começou a ser investigado há três meses, após denúncia de que extorquia contraventores na região Metropolitana da Capital.

Mas as investigações acabaram levantando que Carvalho acessava dados sigilosos de políticos gaúchos e do diretório estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) por meio do sistema Consultas Integradas, da Secretaria de Segurança Pública (SSP).

"Fizemos uma primeira varredura nos nomes mais conhecidos entre os acessados e nesta segunda vamos liberá-los. Pode eventualmente ter mais alguém. Ele fazia muitas consultas via registro Geral (RG). Mas posso adiantar que são muitos nomes", informou na noite deste domingo o promotor. Entre aqueles que tiveram seus dados consultados estão um ex-ministro e um senador.

Apesar de não haver ainda a confirmação oficial, eles seriam o candidato do PT ao governo, Tarso Genro, e o senador Paulo Paim, candidato à reeleição. No sábado, Macedo postou em seu twitter: "Ainda não obtive autorização formal dos envolvidos para divulgar os nomes dos políticos bisbilhotados na operação agregação. Mas o partido político, diretórios e veiculos, assim como integrantes que foram acessados, foi o Partido dos Trabalhadores".

Além dos espionados, também serão divulgados outros dados referentes aos acessos. Macedo e sua equipe passaram o final de semana trabalhando na checagem de dados da investigação, apelidada de Operação Agregação. O promotor considera que os acessos aos dados de políticos, feitos por meio de senhas do sistema, não se justificam porque a Casa Militar atua na segurança pessoal da governadora e na Defesa Civil.

A equipe está investigando os acessos feitos desde janeiro de 2009. Conforme o promotor, o trabalho é "hercúleo" porque a cada cinco ou seis dias eram feitas aproximadamente mil consultas. "São mais de 10 mil", assegurou.

Ele adiantou ainda que nesta semana vai ouvir o sargento para que ele fale sobre os motivos dos acessos aos dados sigilosos. Uma das dificuldades encontradas no levantamento é o fato de que as auditorias compreendem períodos de 15 dias em 15 dias e, quando o número de acessos chega a mil, o sistema automaticamente interrompe as checagens. Isso significa que, se em um período de 15 dias foram feitas milhares de consultas, só as primeiras mil irão aparecer. "Vamos fazer uma solicitação no sentido de que seja recuperada a totalidade dos acessos feitos", adiantou ele.

Também na noite deste domingo o secretário geral do PT gaúcho, Carlos Pestana, que coordena a campanha de Genro, informou que a executiva estadual e a bancada do partido na Assembleia Legislativa se reúnem nesta segunda-feira para decidir quais medidas vão tomar a respeito do caso. A executiva petista gaúcha avalia a possibilidade de solicitar uma reunião com a executiva nacional do partido para tratar do caso, e compará-lo aquele do vazamento de dados de contribuintes da Receita Federal, entre eles os de Veronica Sera, filha do candidato do PSDB à presidência da República, José Serra.

"O PSDB faz uma série de acusações ao PT e à campanha de Dilma Rousseff, e não apresenta provas. Enquanto isso, aqui no Rio Grande do Sul temos um sargento que trabalhava na Casa Militar, está preso, e uma investigação feita pelo Ministério Público. Não que já não estivéssemos acostumados porque isso já aconteceu nas eleições municipais de 2008, envolvendo integrantes do governo do Estado", lembrou Pestana.

O presidente estadual do PSDB, o deputado federal Cláudio Diaz, que coordena a campanha da governadora Yeda Crusius à reeleição, reagiu com indignação. "Estamos (o governo e o PSDB) tomando todas as medidas cabíveis para elucidar este caso, diferentemente do que o PT faz no caso da Receita Federal e em outros". [Aqui, um aparte necessário. Segundo nota do procurador que trabalha no caso, o Ministério Público Federal trabalha desde o início na apuração das tais quebras de sigilo fiscal de tucanos e tem tido todo o apoio da Receita Federal. A íntegra da nota está aqui.]

A Brigada Militar instaurou um Inquérito Policial Militar para apurar o caso e na sexta-feira (3) uma equipe da corregedoria da BM procurou pelo promotor Macedo.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

IBGE: em 5 anos de Gov. Lula, taxa de homicídios cai 10%, depois de SUBIR 18,49% sob FHC.


O gráfico abaixo foi copiado do IDIS 2010, divulgado esta semana pelo IBGE, mesma fonte dos dados inclusos na planilha que o segue.

Homicídios (por 100.000 hab)
1995
23,8
18,49%
2003
28,3
-10,25%
2002
28,2
2008
25,4