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sexta-feira, 8 de abril de 2016

O recorte, a ruína e a construção.

Já não é novidade para ninguém: é possível contar mentiras falando só verdades. A cuidadosa organização de fatos e ideias pode construir conclusões, no mínimo, enviesadas.

A Míriam Leitão publicou esta semana um texto com o bombástico título de “A ruína econômica”. Ele trabalha a imagem de Brasil, terra arrasada, tão cara aos construtores da destituição da Presidenta Dilma. E, claro, arruma fatos incontestáveis de forma a induzir a conclusão inafastável: foi Dilma quem destruiu tudo.


Nesta altura do campeonato, acho que ninguém seria capaz de negar a péssima situação econômica do país. Também não dá pra negar a bagunça política e institucional instalada.

Mas talvez dê pra disputar a ordem dos fatores, que, se não altera o produto, pode sim tornar mais complexo o debate a sobre causas, efeitos e soluções.

Por outro lado, talvez existam outros fatores na construção da nossa situação econômica.

Não disponho do instrumental teórico para fazer, a sério, este debate – apesar de ter sim uma opinião sobre o assunto. E, antes que alguém acuse, sim, ela inclui responsabilidades da Presidenta pelo quadro atual.

Contudo, voltando ao texto da Míriam, dá sim para denunciar a estratégia discursiva adotada por ela - com direito a planilha cheia de dados corretos e de muitas lacunas, arrumados, ambos, para legitimar a opinião da jornalista. Na tabelinha (colada lá no final), ela compara dados econômicos do ano da eleição da Presidenta (2010) e atuais, provando que Dilma causou a “ruína econômica”.

O recado é claro: estava tudo ótimo; aí, veio Dilma; aí, tudo foi arruinado.

Então, tá. Não vou nem lembrar que, lá em 2010, a jornalista não dizia que estava tudo ótimo. Mas será que este recorte temporal (defensável, até) não esconde algo?

Fui atrás dos dados – e eles estão na tabelinha abaixo.



É óbvio que estes dados não desmentem o quadro ruim atual. A economia, de fato, vai mal. Mas, ao contrário da impressão passada pelo recorte escolhido pela Míriam Leitão, não, não descemos ladeira direto desde a eleição da Dilma.

Na verdade, alguns aspectos – como o desemprego! – chegaram a melhorar durante a gestão da Presidenta.

O que a Míriam Leitão fez, e, diante da sua experiência, não tenho porque fingir que não foi intencional, foi juntar dados e, principalmente, lacunas, de forma a excluir da análise, e de qualquer conclusão, uma série de fatores interpostos entre as datas que ela escolheu como referencial.

De novo, não tenho o instrumental teórico para fazer a sério o debate sobre as causas da nossa situação atual. Mas, de qualquer forma, parece bem ilógico tirar do debate, dentre outros, os seguintes fatores, cuidadosamente obliterados pelo recorte temporal feito pela Míriam:

- os efeitos econômicos diretos da Lava Jato, que completa dois anos e afetou setores da economia (construção civil e petróleo), investimentos e arrecadação, havendo quem a responsabilize por uma queda de 2% do PIB só em 2015;
- forte queda do preço do petróleo, iniciada em 2014, que também afeta o setor petroleiro (e toda a sua cadeia), com efeitos sobre os investimentos, o crescimento do PIB e claro, a arrecadação; e
- as incertezas políticas, já que, por acaso (morte do Eduardo Campos) ou por ação das oposições, desde meados de 2014, o Brasil não sabe muito bem quem estará no comando dentro de 6 meses.

Vamos pegar como exemplo os dados de 2013 - terceiro ano do mandato da Dilma e antes da "crise política", da Lava Jato, e da queda do preço do petróleo. O país não crescia mais a 7,5%, mas o desemprego havia caído, o IPCA e a dívida bruta não haviam subido e a SELIC estava mais baixa; e a situação fiscal tinha piorado, sim, mas não parece que de forma explosiva. (O dólar tinha subido. Mas isso é ruim?)

Exceção feita ao desemprego, que caiu!, o jogo começa a virar em 2014, ano de eleição, como lembra a Mírian, mas também ano da queda do preço do petróleo, do começo das propagandas da Lava Jato e do início das grandes incertezas políticas.

Mas estes dados e fatores foram intencionalmente escondidos no texto e nesta tabela da Mírian, que, assim, cria sua verdade sem contar nenhuma mentira, constrói com fatos e lacunas a responsabilidade exclusiva da Presidenta Dilma pela nosso situação atual:


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Fontes dos dados:
Dívida: http://www.bcb.gov.br/htms/Infecon/seriehistDBGGFC.asp
Resultados: Ipeadata : Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito primário - sem desvalorização cambial - acum. 12 meses e Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito nominal - sem desvalorização cambial - acum. 12 meses

sábado, 6 de outubro de 2012

O cachorro que dedurou o prefeito gatuno (da entrevista da Dilma no FT)

Eu gosto de ler, e colar no blog, textos estrangeiros sobre o que acontece por aqui. Certo, certo, na verdade, só trago pra cá aqueles que sejam de alguma forma positivos. Confesso.

Este perfil / entrevista aí abaixo até preenche o requisito, mas, como meio que chove no molhado, quase desisti de publicá-lo. O que o salvou foi a historieta sobre o cachorro que denunciou o prefeito - que está lá no penúltimo parágrafo. 

FT Entrevista: Dilma Rousseff 
Por Joe Leahy 

A 36ª presidente do Brasil se inclina para frente e lança um olhar atento ao redor da mesa, assegurando que ninguém perdeu sua ideia simples, mas ousada do que ela quer para o país.

Depois de quase 10 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), a maior economia da América Latina reduziu as taxas de pobreza e percorreu um longo caminho na redução da desigualdade - uma tendência que contraria o alargamento da distância noutros lugares.

"Isso, eu acho, é um ganho muito importante para o Brasil – isto é, transformar o Brasil numa população de classe média", diz Dilma Rousseff em seu escritório no Palácio do Planalto, em Brasília, a maravilha modernista de mármore projetada por Oscar Niemeyer, o arquiteto brasileiro. "Nós queremos isto; queremos um Brasil de classe média."

Um notável progresso tem sido feito para melhorar o destino de milhões de pessoas nesta que continua sendo uma das sociedades mais desiguais do mundo. Seu milagre econômico ajudou a elevar 30 a 40 milhões de pessoas da pobreza, criou mercados para empresas nacionais e multinacionais e atraiu investidores globais.

No entanto, após quase uma década de condições globais altamente favoráveis, de repente a economia desacelerou para um nível rasteiro. Para consolidar sua prosperidade recém-descoberta e continuar sendo um dos motores do crescimento global, ao lado de Rússia, Índia e China, os outros países dos BRICs, Dilma deve encontrar um novo modelo de desenvolvimento. Em um mundo afligido pela crise econômica, a questão é se ela pode impulsionar as mudanças necessárias para o arranque de uma segunda década de crescimento. Isso inclui resolver as questões espinhosas da falta do Brasil de competitividade e dos altos custos trabalhistas.

"Temos que fazer as coisas difíceis", diz José Scheinkman, professor de economia brasileira na Universidade de Princeton.

Mas se Dilma está sentindo a pressão, não há nenhum sinal disso quando ela entra na modesta sala de conferências ao lado de seu escritório no palácio presidencial, parecendo confiante, mas, aparentemente, evitando correr riscos: no pulso, há um tradicional amuleto para afastar o mal olhado.

Ela tem a reputação de uma gestora dura, conhecida por fazer ministros chorarem em reuniões se não tiverem feito seu dever de casa. Mas quando um falante de espanhol na sala tenta falar português com um forte sotaque, ela gentilmente provoca-lhe imitando seu ritmo? "Nós falamos espanhol aqui também", diz ela, bem humorada.

Quando Dilma chegou ao poder, em janeiro do ano passado, como sucessora ungida por Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente, havia ceticismo sobre se esta tecnocrata, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, seria capaz de controlar sua coalizão de mais de 10 partidos, liderada pelo PT. Com o que os críticos não contavam, no entanto, era a determinação da primeira mulher eleita presidente do Brasil. Em 1967, ela se juntou a um grupo de militantes de esquerda rebelados contra a ditadura de direita do país, adotando o nome de guerra de Estela. No início dos anos 1970, ela foi amargou a captura, a tortura e quase três anos de prisão.

Quando o Sr. Lula da Silva chegou ao poder em 2003, ele escolheu Dilma Rousseff, economista de formação, como sua ministra de energia e, em seguida, sua chefe de gabinete. Como presidente, ela tem compensado sua falta de experiência eleitoral sendo diferente. No ano passado, quando ministros seus se viram envolvidos em escândalos de corrupção, ela fez algo incomum em Brasília: não os defendeu, mas, em vez disso, simplesmente os demitiu - sete deles no total. Os Eleitores aplaudiram.

Enquanto isso, a taxa de desemprego continuou a cair, atingindo este ano um recorde de baixa, inferior a 6%, e levando sua popularidade para um recorde - mais de 70%.

"As pessoas diziam que ela não tinha experiência política", disse Fernanda Montenegro, a estrela de cinema brasileira indicada ao Oscar e, diz-se, atriz favorita de Dilma Rousseff, em um evento em sua homenagem no ano passado em Nova York. "Eu acredito, no entanto, que nós ganhamos com Dilma porque ela ... não se enquadrar na maneira tradicional de fazer política no Brasil. "

Mas, enquanto o ano passado testou suas habilidades políticas, este ano ela está sob pressão para reavivar a economia. Depois de atingir 7,5% em 2010, na carreira dos altos preços das commodities e  de um boom de crédito e de consumo, o crescimento no ano passado caiu para 2,7%. Este ano ele pode ser tão baixo quanto 1,5%.

Convidada a citar os principais desafios, Dilma aponta para um suspeito habitual. A política monetária frouxa nos EUA, quando não acompanhada de políticas fiscais para absorver excesso de fundos, leva à desvalorização da moeda competitivos e inflação. "Políticas monetárias expansionistas que levam à desvalorização da moeda são as políticas que criam assimetrias nas relações comerciais - assimetrias graves", diz ela.

Com os EUA e outros países querendo sair da crise por meio das exportações, o Brasil recusou-se a se tornar um mercado de bens favorecidos por dumping. O governo tem tentado proteger suas indústrias através de medidas como aumento de impostos sobre carros compostos por mais de 40% de componentes importados.

Isso, e uma recente medida de aumento de tarifas sobre centenas de produtos, de tubos de ferro a pneus de ônibus, levou a queixas de parceiros comerciais, incluindo os EUA. No entanto, Dilma Rousseff, em discurso na Assembléia Geral da ONU no mês passado, rebateu que "medidas legítimas de defesa" não podem rotuladas como protecionismo.

"Este país não montar coisas, apenas", diz Dilma. "Nós queremos um país que produz, que cria conhecimento e o aplica aqui; queremos uma força de trabalho qualificada."

Mas ela reconhece que muitos dos problemas do Brasil são também caseiros. Elevados custos do trabalho, baixa produtividade, infra-estrutura precária e alta tributação - com gastos do governo em 36% do produto interno bruto, o equivalente a muitos países avançados europeus, mas sem os mesmos níveis de eficiência - criaram uma situação em que a inflação surge sempre que o economia começa a crescer.

Tony Volpon, economista da Nomura, em Nova York, afirma que a taxa de crescimento potencial do Brasil - a velocidade em que ela pode se expandir sem gerar inflação alta - caiu de 4%, na última década, para mais perto de 3%. Isso porque o crescimento na última década foi, em parte, o resultado da entrada de grande número de pessoas na força de trabalho formal. Hoje, com o desemprego relativamente baixo, essa low-hanging fruit desapareceu.


"A questão é: nós seremos mais ambiciosos e resolveremos outras coisas?", pergunta o Sr. Volpon, "ou não, e seremos uma economia que cresce de 3% com inflação alta." 

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Embora a presidenta não prometa um explosivo pacote de reformas - como visto recentemente na Índia, que desregulamentou os setores de varejo e de companhias aéreas –, Dilma diz que o Brasil está cortando o custo do trabalho, reduzindo os impostos sobre a folha de pagamento. Até agora, 40 setores industriais foram beneficiadas. Outras medidas fiscais estão por vir. "Isso é importante porque não queremos penalizar aqueles que empregam as pessoas", diz ela.

O governo também está acelerando a entrega de concessões de infra-estrutura, já tendo concedido aeroportos em São Paulo, Campinas e Brasília, os maiores do país. Ele também está se preparando para descarregar R$ 133 bilhões em concessões rodoviárias e ferroviárias. Portos são os próximos. Esses grandes projetos são vistos como cruciais antes do Brasil sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos dois anos depois. "Queremos parceiros do setor privado, de qualquer origem", diz ela.

Outro grande projeto do governo é reduzir os índices tradicionalmente altos de juros do Brasil. O Banco Central cortou as taxas em 500 pontos-base em 12 meses, para uma baixa recorde de 7,5%. Mas Dilma e seus ministros entraram com força, intimidando os bancos a abaixar os juros de empréstimos. Enquanto os bancos são criticados por cobrar taxas usurárias no Brasil - nos cartões de crédito pode exceder os 100 % - a intervenção verbal do governo levantou temores de interferência no mercado. Dilma Rousseff é não se desculpa.

O Brasil foi o último almoço grátis no mundo para os bancos, diz ela, referindo-se às altas taxas de juros que cobradas dos clientes. "Estamos a voltando para um lugar com níveis normais de rentabilidade. Isso significa que alguns de nós precisaremos começar a procurar lucros adequados em atividades produtivas que são boas para o país. "

Ela é igualmente inflexível sobre uma outra área em que o governo é acusado de interferência no setor privado - a sua decisão de cortar os lucros que as operadores de energia elétrica estão autorizados a fazer. Puxando um bloco de notas, ela desenha um gráfico representando a vida média de uma planta hidrelétrica, em que a unidade continua a produzir energia por muito tempo após o investimento inicial ter sido pago - mas as empresas querem continuar a cobrar os mesmos preços elevados.

Então, o governo tem dado aos operadores uma escolha: reduzir os preços agora, e renovar o contrato, ou aguardar o contrato a expirar, e arriscar perdê-lo. O resultado foi um corte de 16% nas tarifas da energia para os consumidores e uma redução de 28% nas tarifas para os clientes industriais. "Isso é muito importante, pois precisamos reduzir os custos", diz Dilma Rousseff sobre a iniciativa.

Enquanto seu antecessor apreciava a ribalta internacional, Dilma Rousseff é uma diplomata indiferente. Ela arrepiou as penas americanas e europeias na Assembléia Geral da ONU, mês passado, alegando que a islamofobia está em ascensão em países desenvolvidos. Mas, geralmente, ela descreve um Brasil que é amigo de todos, com relações especiais com os países africanos lusófonos e laços estreitos com a Europa através da imigração. "O mundo para nós é multipolar", diz ela.

Mais perto de casa, ela não quis comentar o paradigmático processo de corrupção na Supremo Curte, datado do primeiro mandato de Lula da Silva. O chamado Mensalão, ou "grande subsídio mensal ", envolve muitos chefes do partido do ex-presidente, acusados ​​de usar fundos públicos para pagar políticos da oposição para apoiar a agenda legislativa do governo no Congresso. Alguns já foram condenados.

[Sim, eu vou fazer um comentário. A historinha de compra de votos de parlamentares aliados é tão inverossímil, que o coitado jornalista americano se enrolou e, usando um pouco de lógica, errou na descrição da acusação. Segundo ele, membros do partido do governo seriam acusados ​​de usar fundos públicos para pagar políticos da oposição  para apoiar a agenda legislativa do governo no Congresso".]

Mas Dilma parece claramente preocupada com a governança. Ela conta a história de um prefeito que deveria estar construindo duas escolas com recursos do governo federal, mas, de fato, estava construindo apenas uma e embolsando o resto. Ele foi obrigado a postar fotos na internet das escolas sendo construídas. Mas acabou sendo pego quando o mesmo cão apareceu em fotos do que deveriam ser duas escolas diferentes.

"Você tem que estar pronto para tudo na vida - mas um cão denunciando um prefeito?", diz a presidenta, rindo. De repente, ela se torna grave. "Estamos informatizando toda a estrutura do governo, porque isso vai nos permitir controlar o que é feito." Esses processos são "triviais", mas necessários, diz ela.

Uma presidente que dá atenção aos detalhes, ainda que triviais, é talvez o que o Brasil precisa ao procurar consolidar as conquistas da última década e continuar a sua emergência como um país de classe média. Mas, com a reforma apenas começando, muito ainda vai depender de quanto ela está disposta a fazer as "coisas difíceis".

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Bolha imobiliária?

Abaixo, o trecho do boletim Conjuntura em Foco, do IPEA, que trata dos riscos de uma bolha imobiliária no Brasil. A íntegra está disponível aqui (em PDF).

Boletim Conjuntura em Foco do IPEA: Crédito às pessoas físicas, inadimplência e a crise econômica internacional foram os temas principais (trecho)

O crescimento do crédito e, mais recentemente, da inadimplência na economia brasileira vem suscitando preocupações com a evolução do atual nível de endividamento das famílias. Por isso, torna-se importante entender se o movimento recente dessas séries no Brasil assemelha-se ao ocorrido em determinados países, como, por exemplo, os Estados Unidos – onde a expansão irresponsável do crédito resultou na formação da chamada “bolha imobiliária”. Não se pretende, neste texto, empreender uma análise minuciosa sobre os determinantes da crise internacional, as apenas examinar de forma comparada o recente fenômeno do avanço do crédito e da inadimplência na economia brasileira.



Nesse sentido, voltando ao caso dos Estados Unidos, no período anterior a 2007, o sistema financeiro concedia crédito (notadamente, financiamento imobiliário) a pessoas físicas que não percebiam renda compatível com o serviço da dívida (subprime). Até mesmo imigrantes ilegais, que não tinham documentos do país nem comprovação formal de renda, conseguiam financiar a compra da casa própria com certa facilidade. Com a ampliação do crédito, o preço dos imóveis – num cenário de crescimento econômico – aumentou continuamente ao longo de vários anos.

A legislação permitia – e o sistema financeiro estimulava – que a pessoa que tivesse financiado a compra de um imóvel pudesse renegociar o contrato de empréstimo (muitas vezes com outro agente financeiro), com base nas novas cotações do mercado imobiliário, obtendo, assim, volumes superiores de crédito – o percentual de contratos de refinanciamento em que isso acontecia chegou a alcançar 72,9% do volume total, como mostra o gráfico 1.

Gráfico - Parcela dos refinanciamentos imobiliários dos Estados Unidos na qual o devedor recebeu dinheiro do banco com o novo contrato (cash out refinancing)
Gráfico 1
Assim, as famílias passaram a alavancar suas posições devedoras com vistas à ampliação do consumo e/ou à aquisição de novos imóveis. Quando, por uma série de razões, os preços dos imóveis começaram a cair, a dinâmica se inverteu. Os bancos executavam as garantias, vendiam imóveis, não conseguiam reaver todo o saldo devedor e, ainda, aprofundavam a tendência de queda dos valores imobiliários. Desse modo, a inadimplência de contratos de crédito no setor imobiliário da economia norte-americana tornou-se um importante componente da crise econômica (gráfico 2).

Gráfico - Taxa de inadimplência do sistema financeiro dos EUA
Gráfico 2
No caso da economia brasileira, o crédito tem crescido a taxas elevadas há alguns anos. Não obstante, o endividamento das famílias com o sistema financeiro (medido em relação à renda acumulada dos últimos doze meses) ainda é baixo comparativamente ao nível alcançado nas regiões atualmente em crise (gráfico 3). Mesmo o crédito imobiliário, que cresceu bem acima da média das demais modalidades nos últimos anos – passando de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no início de 2007, para 4,5% do PIB no final de 2011 e 5,5% do PIB em junho deste ano – ainda se encontra num patamar muito inferior ao apresentado pelos Estados Unidos (65% do PIB) e mesmo por países emergentes, como, por exemplo, a África
do Sul (27% do PIB). [1]

Gráfico - Endividamento das famílias com o sistema financeiro (EUA, Reino Unido, Africa do Sul e Brasil)
Gráfico 3
Na verdade, o dado que suscita maior preocupação (em função do forte ritmo de crescimento nos últimos anos e do alcance de um patamar elevado na comparação internacional) é o de comprometimento de renda das famílias com o serviço das dívidas (juros e amortizações) junto ao sistema financeiro, o qual, não obstante, se mantém em torno de 22% desde o segundo semestre de 2011 (gráfico 4). De acordo com dados divulgados no relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre o Brasil (no 12/191 de julho de 2012), o nível de comprometimento da renda no Brasil está alto na comparação com outros países emergentes da América Latina; por exemplo, em relação ao México (em torno de 5%) e Chile (algo como 15%) – no caso dos Estados Unidos, o nível de comprometimento da renda estava em 11% no primeiro trimestre deste ano, segundo dados do FED.

Gráfico - Comprometimento de renda das famílias com o serviço das dívidas com o Sistema Financeiro Nacional - Brasil
Gráfico 4
Uma hipótese que tem sido aventada no debate recente é que esse elevado grau de comprometimento da renda, juntamente com a alta da taxa de inadimplência (examinada a seguir), pode estar limitando o avanço do mercado de crédito no Brasil como reação à flexibilização da política monetária.

Por outro lado, de acordo com dados do BCB, o saldo das parcelas a vencer no curto prazo representam 43% das dívidas de pessoas físicas com o sistema financeiro. Se forem acrescentados também os valores referentes ao crédito com vencimento no médio prazo (361 a 1.088 dias), chega-se a mais de 73% do total. Isso significa, portanto, que o elevado grau de comprometimento da renda das famílias no Brasil, da mesma forma que cresceu rapidamente, também pode cair em pouco tempo. De fato, os últimos dados disponíveis, de maio de 2012, apontam para uma gradual redução desse indicador. Em primeiro lugar, tal queda tende a se acelerar com a trajetória declinante das taxas de juros e o processo crescente de renegociação das dívidas. Em segundo lugar, o próprio denominador da razão constituinte desse indicador, o rendimento do trabalho, tem permanecido em alta apesar do agravamento recente da crise internacional. Finalmente, o aumento da participação do crédito habitacional tende a aumentar o prazo médio de pagamento das dívidas e, com isso, a reduzir os desembolsos mensais com serviços da dívida em relação ao nível de endividamento da população.

Os dados sugerem que o aumento recente do grau de comprometimento da renda com juros e amortizações também está positivamente correlacionado com a alta da taxa de inadimplência (gráficos 4 e 5). Entretanto, para melhor entender o movimento recente de alta da inadimplência na economia brasileira, torna-se necessário, antes de tudo, examinar as mudanças institucionais implantadas nos anos 2000, fundamentais para o avanço do crédito no período subsequente. Dentre tais mudanças, destacam-se:

• a regulamentação do crédito consignado (Lei no 10.820, de 17/12/2003), que ampliou o acesso de trabalhadores com carteira assinada e aposentados a uma linha de crédito com juros bem menores que os do crédito pessoal tradicional;
• a criação do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central (SCR), que deu mais segurança ao sistema financeiro. [2] A coleta de informações para o SCR iniciou-se em maio de 2002;
• a Resolução no 3.005, de julho de 2002, do BCB produziu alterações na contabilização do Fundo de Compensação de Variações Salariais (FCVS), que implicaram o aumento da parcela de recursos da poupança destinada ao financiamento habitacional;
• a aprovação da Lei no 10.931, de 2/8/2004, que disciplinou a aplicação da alienação fiduciária criada em 1997, simplificando a retomada do bem dado como colateral para o empréstimo, e instituiu o valor incontroverso – instrumento que estabelece, nos casos de disputas judiciais, a continuidade do pagamento da parte da prestação não contestada; e
• a mesma Lei no 10.931 instituiu o patrimônio de afetação, que consistiu na adoção de um patrimônio próprio para cada empreendimento, e o regime especial de tributação (RET) do patrimônio de afetação, para blindar o empreendimento em relação a débitos do empreendedor dando segurança aos compradores de imóveis na planta em caso de problemas financeiros da construtora.

Gráfico - Taxa de inadimplência acima de 90 dias em relação ao total da modalidade das operações de crédito
Gráfico 5
Essas importantes reformas institucionais tiveram impactos diferentes em cada categoria de crédito. A normatização do crédito consignado resultou numa maior oferta de crédito pessoal com juros significativamente mais baixos do que aqueles cobrados nos empréstimos sem garantia. O aumento da participação do crédito consignado reduziu o risco e, por conseguinte, a taxa de inadimplência do crédito pessoal. Como pode ser visto no gráfico 5, apesar das oscilações conjunturais, a inadimplência do crédito pessoal apresenta uma tendência de queda nos últimos anos.

Note-se que, desde o início de 2011, o movimento geral de alta da inadimplência tem sido liderado pelo crédito para a aquisição de veículos. Nessa categoria ocorreram mudanças comportamentais importantes tanto na demanda por crédito, devido aos crescimentos da renda e do grau de formalização do trabalho, como na sua oferta, impulsionadas pelas alterações de legislação já mencionadas.

O estudo de Assunção, Benmelech e Silva (2012) [3]utiliza um modelo econométrico estimado a partir de microdados fornecidos por um dos maiores bancos privados do Brasil para analisar justamente os impactos que a reforma legal de 2004 teve sobre o crédito automotivo.

Os modelos estimados no referido estudo sugerem que as mudanças legais de 2004 resultaram em empréstimos maiores com spreads menores, prazos de vencimentos mais longos, maior exposição ao risco (por parte dos bancos) e, consequentemente, numa maior “democratização” do crédito – permitindo que tomadores com classificação mais arriscada e menores rendas obtivessem financiamentos associados à aquisição de carros mais novos e mais caros. Ou seja, verificou-se um processo de inclusão no mercado de uma parcela da população sem acesso ao crédito de automóveis.

O problema é que, juntamente com a ampliação desse acesso, cresceu também o número de tomadores sem conhecimento dos custos envolvidos na manutenção dos veículos (combustível, seguro, revisões etc.) e, portanto, de inadimplentes. Os bancos e montadoras, por sua vez, chegaram a oferecer financiamentos sem entrada, com prazos longos (acima de 60 meses) e até mesmo o chamado “troco na troca”, onde o financiamento era maior que o valor do carro dado como parte do pagamento.

Antecipando possíveis problemas com financiamentos deste tipo, o BCB incluiu entre as medidas macroprudenciais adotadas em dezembro de 2010 restrições de prazo (máximo de 60 meses) e percentual mínimo de valor de entrada (de acordo com o prazo de financiamento).

Cumpre destacar aqui, no entanto, que as dificuldades envolvidas no financiamento para compra de veículos não têm alcance sistêmico ou estrutural. Desde o segundo semestre do ano passado, os bancos passaram a ser mais criteriosos nas suas concessões de crédito, já restringidas, por outro lado, no âmbito das medidas macroprudenciais. De acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do BCB de setembro de 2011 (p. 18), “as medidas macroprudenciais implementadas desde dezembro de 2010 foram eficazes ao corrigir a velocidade de crescimento do crédito, evitar o alongamento excessivo dos prazos e, no caso específico do financiamento de veículos, melhorar o loan-to-value (LTV)”[4].

Portanto, o movimento da inadimplência nesse tipo de empréstimo aponta para uma tendência de redução gradual.

Gráfico - Saldo das operações de crédito do sistema financeiro para pessoas físicas
Gráfico 6
No segmento do crédito imobiliário, por sua vez, as reformas institucionais tiveram maior amplitude com melhores resultados. A expansão do crédito habitacional ocorreu a um ritmo mais intenso que o do crédito para a aquisição de veículos (tornando seu saldo superior em termos absolutos), ao mesmo tempo em que a taxa de inadimplência no segmento apresentou quedas significativas ao longo de todo o período pósreformas (gráficos 6, 7 e 8).

Gráfico -  Participação percentual de categorias selecionadas no saldo das operações de crédito
Gráfico 7

Gráfico - Situação dos contratos de financiamento habitacional do Sistema Brasileiro de Crédito
Gráfico 8
O elevado déficit habitacional ainda presente no Brasil faz com que a demanda por crédito imobiliário seja, também, ainda muito grande. Por outro lado, a compra do imóvel costuma ser uma decisão mais bem planejada pelas famílias do que a envolvida na aquisição de um automóvel.

Os bancos no Brasil também são mais cuidadosos ao analisar propostas de financiamento imobiliário. Enquanto o processo de análise para a liberação do financiamento de um veículo demora, em geral, um ou dois dias, o crédito habitacional é usualmente concedido somente depois de uma lenta e criteriosa avaliação, com duração de semanas e o envolvimento de diversas etapas (avaliação do imóvel por um perito, levantamento de informações sobre o dono do imóvel etc.).

Outra diferença importante entre os dois segmentos, e que ajuda a explicar a diferença de comportamento entre as respectivas taxas de inadimplência no período pós-reformas, é o fato de a casa própria constituir um bem essencial do ponto de vista das famílias, enquanto o automóvel é encarado, muitas vezes, apenas como um item de conforto. Quando há uma redução de renda e/ou gastos inesperados no setor das famílias, a tendência é priorizar o pagamento de despesas essenciais em detrimento de itens de conforto. Com a simplificação do processo de retomada do bem dado como garantia, o pagamento em dia da prestação da casa própria tornou-se ainda mais importante.

Outro motivo para uma redução tão expressiva da inadimplência dos financiamentos habitacionais é o efeito composição. Com o crescimento acelerado desse segmento de crédito, houve uma rápida redução da participação dos contratos firmados no período de inflação alta, que têm taxas de inadimplência superiores a 50%.

Uma variável que tem efeitos importantes sobre as taxas de inadimplência dos diferentes segmentos de crédito é a taxa de desemprego, que conta com um cenário positivo para este ano. Em que pese o efeito da crise internacional em alguns setores da economia brasileira, o mercado de trabalho vem mostrando um comportamento bem favorável, ao longo dos últimos anos. Para os próximos meses, a tendência é de manutenção deste cenário positivo para o emprego, possibilitado, sobretudo, pela melhora no desempenho da atividade econômica no país ao longo do segundo semestre deste ano. Desta forma, a taxa de desocupação deve permanecer em níveis historicamente baixos.

No que diz respeito aos rendimentos reais, a expectativa é de uma desaceleração nas taxas de crescimento, uma vez que a maior parte do impacto dos reajustes do salário mínimo já foi dissipada. Entretanto a trajetória ascendente dos salários deve continuar.

Outra variável que indica uma tendência de queda da taxa de inadimplência é o indicador de perspectiva de inadimplência do consumidor da Serasa Experian. Como mostra o gráfico 9, esse indicador está em queda, abaixo do nível 100 (nível de equilíbrio de longo prazo), e mostra um comportamento bem próximo ao da taxa de inadimplência do BCB (constituindo um bom indicador de antecedente desta última).

Gráfico - Taxa de inadimplência das pessoas físicas do BCB versus indicador de perspectiva de inadimplência do Serasa
Gráfico 9
Em síntese, a situação atual do mercado de crédito no Brasil é bem diferente da observada nos países, como os Estados Unidos, em que houve crise do sistema financeiro. O volume de crédito ainda é relativamente baixo e de curto prazo. Com a tendência de continuação do cenário positivo no mercado de trabalho e a redução da taxa de juros, o indicador de comprometimento da renda com o serviço da dívida e a taxa de inadimplência devem apresentar trajetórias descendentes. Nesse sentido, ainda, outras diferenças positivas marcantes no caso brasileiro são a solidez do sistema financeiro, o maior cuidado dos bancos na concessão de crédito e o menor grau de alavancagem das famílias.


1. Os dados de crédito imobiliário do Brasil foram calculados com base nas informações do Banco Central do Brasil (BCB) – crédito livre e direcionado. Os dados dos
Estados Unidos e da África do Sul são de 2011 e foram obtidos no site da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
2. “O SCR é um instrumento de registro e consulta de informações sobre as operações de crédito, avais e fianças prestados e limites de crédito concedidos por instituições financeiras
a pessoas físicas e jurídicas no país” (Banco Central do Brasil. SCR, 2004, documento disponível em:<http://www.bcb.gov.br/fis/crc/ftp/SCR_VisaoGeral_v1.00.pdf>).

3. Assunção, J. J.; Benmelech, E.; Silva, F. S. S. Repossession and democratization of credit. Cambridge, MA: National Bureau of Economic Research, 2012, 35 p.
(Working Paper, no 17.858).
4. Loan-to-value é a razão entre o valor do financiamento contratado e o valor do bem dado como garantia.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Marcelo Neri: até 2014 mais 12 milhões de pessoas ascenderão para a classe C

Matéria do Exame.com.

Apesar da desaceleração da economia, pesquisador da FGV Marcelo Neri reafirma projeção de que a classe C terá mais 12 milhões de pessoas até 2014
Keila Cândido

São Paulo - A expansão da classe média brasileira segue robusta, conforme dados apurados até junho, afirma o economista e coordenador do Centro Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Marcelo Neri. Em debate na 22ª Bienal do Livro, em São Paulo, ele reafirmou a projeção de que mais 12 milhões de pessoas ascenderão para esse segmento até 2014. Nas classes A e B, o número de entrantes chegará a 7,7 milhões. Neri não arrisca dizer, contudo, como será o comportamento dessas classes sociais de 2015 em diante. Entre 2003 e 2011, a nova classe média – que tem renda familiar de 1.700 reais – incorporou 40 milhões de pessoas.

Para Neri, foi a nova classe média que estabilizou a economia brasileira e fez crescer o Produto Interno Brunto (PIB) nos últimos anos em que tônica foi a crise internacional. “A classe média é o amortecedor interno da economia. Se ela quebrar, não sabemos para onde vai o país”, disse. O economista, autor do livro “A Nova Classe Média - O Lado Brilhante da Base da Pirâmide”, participou nesta quinta-feira de debate sobre o assunto.

Dos arquivos do blog:


2014 – Após a renda do brasileiro ter aumentado nos últimos anos, na esteira do crescimento econômico, o pesquisador não se arrisca a dizer como será sua evolução num intervalo de tempo mais extenso, a partir de 2014. “Estamos em um momento de pleno emprego, mas é arriscado dizer qual será a renda real das famílias da nova classe média”, disse.

Para Neri, por ora, não há sinal de que haverá reversão da ascensão social dos mais pobres. A classe média, aliás, ganhou força, segundo dados apurados até junho. De acordo com o economista, o mercado de trabalho faz mais diferença para o consumo destas pessoas do que o acesso crédito. “O que importa para elas é trabalhar e ter dinheiro no bolso para consumir”, explicou.

Novo consumidor – A nova classe média, hoje com maior poder de compra, tem tido acesso a bens e serviços que, anteriormente, eram restritos às classes A e B, tais como planos de saúde, escolas particulares e previdência privada. Neri lembrou que a má qualidade na oferta de serviços tem gerado nesse novo consumidor uma sensação de frustração. Na avaliação do especialista, é para essa insatisfação que as empresas têm de olhar. “Esta é a nova agenda no Brasil. As pessoas estão consumindo fortemente, e são exigentes”, afirmou.

Segundo Neri, os pacotes do governo para melhorar a infraestrutura do país – tal o programa de investimento de ferrovias e rodovias anunciado nesta quarta-feira – são de “extrema importância” porque esses novos consumidores aumentam os desafios do país. Em outras palavras, as pessoas estão consumindo o que antes não tinham acesso, como viajar de avião, por exemplo, o que tem aprofundado os gargalos dos aeroportos do país.

A alta da inadimplência verificada nos últimos meses não deve ser considerada o pior problema da classe C, na visão do economista. “O problema no Brasil não é de endividamento, mas sim as altas taxas de juros”, declarou. Outro problema, na opinião do pesquisador, é baixa taxa de poupança do brasileiro.

Comparações – Para o pesquisador, não é possível comparar a classe média americana à brasileira porque os perfis são muito diferentes. A renda das famílias e o tipo de consumo são bastante distintos. Neri relata que, desde 2004, quando houve o início da ascensão da classe média, o Brasil teve três saltos: mais pessoas tiveram acesso a cursos técnicos, houve aumento do número de pessoas com carteira assinada e a qualificação profissional também melhorou. Para o pesquisador, o acesso à educação é um avanço muito importante que contribui para a ascensão da classe C. "Quem olha para a classe média com olhar estrangeiro – de fora para dentro – não percebe o valor do que tem acontecido", disse. Essas particularidades representam outros elementos que não permitem equiparar a realidade brasileira com a americana.

O coordenador do CPS/FGV preferiu comparar o crescimento brasileiro ao de China e índia, que classificou como “invejáveis”. Contudo, na opinião do economista, no Brasil há um fator qualitativo: a redução da desigualdade. “No Brasil, o crescimento é mais sustentável porque temos a redução da desigualdade, que vem caindo nos últimos onze anos”, disse. “Este é o ingrediente brasileiro do crescimento”, comemorou.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Guardian: o boom econômico e as armas do Brasil e da América Latina pra enfrentar a crise europeia

Matéria do Guardian, mal traduzida por mim (com ajuda do Google, claro).

A foto é da publicação original e, apesar de não ter muita relação com o assunto, fica porque é de um desfile do Salgueiro.

Brasil e o resto da América Latina desfrutam boom econômico
Gastos, crescimento, dívida pública invejavelmente baixa  - é grande a diferença do velho mundo em crise.
Jonathan Watts, no Rio de Janeiro, Jonathan Franklin em Santiago e Sibila Brodzinsky em Bogotá

carro alegórico do king kong no desfile do Salgueiro no carnaval de 2011


Os caixas de dinheiro em Santiago estão ficando sem dinheiro, mas não é uma fuga dos bancos; os consumidores no Chile estão simplesmente gastando notas de Peso mais rápido do que os caixas automáticos podem fornecê-las. Novos arranha-céus estão surgindo em Bogotá para criar o espaço necessário para escritórios e para o varejo necessário numa economia em crescimento. O México – o novo queridinho dos investidores estrangeiros - está superando as previsões para o PIB. O Brasil, que ultrapassou o Reino Unido como sexta maior economia do mundo no ano passado, acaba de anunciar um plano de estímulo de US $ 66 bilhões (£ 42 bilhões), além do dinheiro que vai gastar na preparação para a Copa de 2014 e as Olimpíadas em 2016.


A América Latina está agora se reajustando, enquanto a maioria das nações espera um crescimento mais lento, porém ainda sólido, e algumas se preparam para mexer nas extensas reservas e gastar num caminho para fora da recessão global.

A sua capacidade de resistir à tempestade que se aproxima terá implicações de longo prazo para as percepções sobre uma região que, até recentemente, era sinônimo de turbulência financeira, gastos irresponsáveis ​​e políticas extravagantes. Recentemente, muitos governos da região têm sido elogiados pela ONU, FMI e Banco Mundial pela construção de fortes reservas e manutenção de níveis geralmente baixos de dívida pública.

Isto lhes dá mais espaço para abrir as torneiras do estímulo fiscal quando a economia começa a esmorecer, como o Brasil fez na quarta-feira com o anúncio de um pacote de estímulo de R$ 133 bilhões. Se eles puderem evitar os piores impactos da crise internacional sem afundar em dívidas - como a maioria das nações aqui fez em 2008 – isso reforçaria uma crescente reputação de gestão económica prudente.

Vários anos de forte crescimento nas economias mais fortes criaram uma dinâmica visível. Em Santiago, os crescentes preços da habitação, as centenas de novos restaurantes e as florestas de gruas no horizonte sugerem que a economia chilena tem costeado os estágios iniciais da última crise. As vendas de automóveis subiram tanto que, em um ponto do ano passado, o governo ficou sem placas de licença e foi forçado a emitir substitutas de papelão, enquanto apressadamente terminava a outra rodada de placas de metal.

Com um crescimento estimado do PIB este ano de 4,5%, além das robustas reservas do governo, o Chile está preparado para enfrentar possíveis conseqüências da Europa. "Nós temos uma posição bastante confortável para enfrentar os desafios em 2012," disse a direitora do orçamento, Rosanna Costa, a jornalistas em Santiago este ano. O governo dispõe de um fundo de estabilização estimado em US$ 14 bilhões, que pode ser usado para estimular a economia através de projectos de obras públicas ou infusões de dinheiro, conforme necessário.

O Peru também está aproveitando a expansão constante, enquanto a Venezuela, impulsionada pelas vendas de petróleo e uma farra de gastos pré-eleitorais de Hugo Chávez, espera um crescimento de mais de 5%, embora a sua capacidade de pagar as suas contas dependa dos preços elevados do petróleo.

Há algumas exceções significativas a essas tendências. A economia argentina deu uma parada na sequência da nacionalização dos ativos locais da YPF, empresa petrolífera espanhola, indicando a influência ainda forte dos mercados financeiros globais na América Latina.

Mesmo assim, a região deverá crescer entre 3 e 4% este ano – uma bonança em comparação com a depressão que aflige as nações latinas no velho mundo. Portugal, Espanha e Itália foram os países com pior desempenho, quando a UE anunciou esta semana que o PIB da zona do euro caiu 0,2% no último trimestre.

Os contrastes são gritantes. Enquanto a Espanha tem implorando por socorros, Juan Carlos Echeverry, o ministro das finanças de sua ex-colônia Colômbia, gabava-se de que este ano o seu governo "não precisa de mais receitas". Graças a taxas crescentes de investimento estrangeiro, desemprego em queda e crescimento anual de 4,5% por mais de uma década, as finanças de seu estado são consideradas em boa forma para suportar as consequências da Europa.

Embora o clima tenha escurecido nos últimos meses, novos símbolos de riqueza estão sendo construídas. A Colômbia está erguendo seu maior arranha-céu, o BD Bacatá, edifício de 66 andares que abrigará um shopping center, escritórios e até apartamentos de alto padrão.

O magnata imobiliário espanhol por trás do projeto, Venerando Lamelas, disse que ele está se movendo de acordo com o momento. "O mercado europeu não está bom. A América Latina é muito importante e dentro da América Latina o melhor mercado é a Colômbia", disse a um jornal local.

Outros estão seguindo as oportunidades atravéz do Atlântico. Gonzalo Rodriguez recentemente desistiu de seu emprego como um operador de títulos no mercado, na Espanha, e se mudou para o Brasil para trabalhar em uma empresa de energia, projetando linhas de transmissão de energia para parques eólicos.

"Eu não estou ganhando tanto aqui quanto na Espanha, mas estou pensando cinco anos à frente", disse em Copacabana o jovem de 25 anos. "Há 100% mais potencial de crescimento na energia no Brasil do que nos bancos espanhóis. Há muitas pessoas talentosas na Espanha sem encontrar emprego. Aqui, é o oposto. Eles não têm número suficiente de pessoas qualificadas."

Tal otimismo será testado nos próximos meses. O Brasil tem sido atingido mais do que qualquer outro país pela crise no exterior - em particular o enfraquecimento da demanda chinesa por commodities. É provável que ele cresça mais lentamente este ano (cerca de 2-3%) do que qualquer das outras grandes economias regionais, o que levou o presidente Dilma Rousseff a lançar o robusto pacote de estímulo de quarta-feira.

Ao contrário do passado, no entanto, ele tem o dinheiro para gastar. As reservas internacionais do Brasil cresceram de US$ 38 bilhões em 2002 para mais de US$ 370 bilhões, o que é um “caixa de guerra” substancial para afastar crise global.

"No passado ano, quando o mundo espirrava, pegamos pneumonia. Esse não é mais o caso", disse Rousseff neste ano. "Posso garantir a você, o Brasil é 100%, 200%, 300% pronto."

Muitos economistas questionam se o Brasil e a região como um todo vão se provar tão resistentes desta vez. A forte demanda da China por soja, cobre, petróleo e outras commodities ajudou a América Latina a costear a crise de 2008-09. Desta vez, com a desaceleração na China, terá de cavar mais fundo em suas reservas. Embora as finanças públicas estejam muito mais fortes do que eram nos anos 80 e 90, a grande questão é saber se ela investiu o bastante em capital humano.

"Trabalhos importantes aqui no Brasil estão sendo preenchidos pelos europeus, especialmente da Espanha e Portugal", disse Nelson de Sousa, professor de finanças na escola de gestão Ibmec. "Nós não colocamos o suficiente em educação e formação. Essa é a nossa grande dificuldade, que é muito diferente dos problemas enfrentados pela Europa.

"O governo brasileiro gasta muito, mas muito mal. Dilma está ciente disso, mas há uma grande diferença entre saber o que fazer e ser capaz de fazê-lo."

Se ela - e outros líderes da região – for bem-sucedida, no entanto, muito mais do que a tocha olímpica pode passando este ano da Europa para a América Latina.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Rodrik: A demanda interna, a dívida pública controlada e a democracia robusta são pontos fortes do Brasil contra a crise.


24 julho de 2012 às 9:52 am

Dani Rodrik

O economista Dani Rodrik não embarcou na recente onda de pessimismo em relação à economia brasileira. Para o professor de economia política internacional da Universidade de Harvard (EUA), o Brasil tem condições de crescer a taxas de 5% ao ano mesmo no ambiente adverso que ele antevê para a economia global, de baixo crescimento por muitos anos, especialmente nos países desenvolvidos.

“O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem alguns pontos fortes”, disse Rodrik, citando as finanças públicas em ordem e o regime democrático estável, mencionando também a grande classe média como um trunfo importante do país.

O economista turco será um dos principais convidados do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco. O evento ocorre hoje e amanhã no Rio, no Espaço Tom Jobim.

Rodrik vê o Brasil, ao lado de Índia e Coreia do Sul, como um dos países “relativamente mais bem posicionados” para enfrentar esse cenário externo adverso dos próximos anos – o crescimento depende mais da demanda interna do que das exportações, a dívida pública está controlada e a democracia é robusta.

São vantagens importantes num mundo que, segundo ele, tem 50% de possibilidade de testemunhar a dissolução parcial da zona do euro nos próximos anos, além do risco de manutenção do impasse entre democratas e republicanos sobre a trajetória fiscal americana.

Rodrik tampouco é otimista quanto às perspectivas para a China, um país que não é democrático e ainda é muito dependente das exportações.

Para o Brasil crescer a um ritmo de 5%, ele aponta como fundamental “sinalizar um ambiente em que serão mantidos os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables [comercializáveis internacionalmente]“, o que requer juros baixos e um câmbio relativamente competitivo.

“Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda”, afirmou Rodrik, que vê ainda com bons olhos as iniciativas do governo de reduzir impostos para setores específicos e tentar impulsionar o investimento por meio do BNDES.

“O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático e revisado à luz da evidência de seu impacto”, diz ele, para quem o verdadeiro teste desse tipo de política é saber desistir dos perdedores, não insistindo com setores, se ficar claro que as medidas não dão resultado.

“A própria experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas”, disse Rodrik, um crítico da globalização exagerada. A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone, na sexta-feira.

Valor
Em artigo recente, o sr. diz que “a economia mundial está entrando numa nova fase difícil a longo prazo – fase que será substancialmente menos favorável para o crescimento do que possivelmente qualquer outro período desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. O mundo está condenado a uma longa era de baixo crescimento?

Dani Rodrik
É muito provável que as próximas décadas tenham crescimento substancialmente menor do que nas duas ou três décadas anteriores à crise financeira.

Há várias razões para isso. A primeira é que os países avançados têm uma dívida pública muito elevada, o que reduz o crescimento.

A outra é que a crise atual na zona do euro também deve ter implicações negativas para as perspectivas de crescimento de longo prazo.

Valor
Por que o sr. não acredita que os países emergentes, em especial a China, tenham um papel importante para impulsionar a economia global, como em 2008 e 2009?

Rodrik
Em primeiro lugar, porque eles não são, em conjunto, tão grandes como os países ricos. Além disso, porque o crescimento dos mercados emergentes nos últimos anos dependeu de um ambiente global permissivo, com mercados abertos nos países industrializados e a disposição dos países desenvolvidos de olhar para o outro lado, enquanto países como a China promoviam amplas políticas industriais para reestruturar as suas economias.

A economia global será muito menos permissiva nesse sentido, o que também vai deprimir o potencial de crescimento dos países emergentes.

Valor
O sr. está preocupado com uma onda protecionista?

Rodrik
Em parte haverá maior protecionismo, mas de modos mais sutis – não estou falando de algo como a onda que ocorreu nos anos 30.

Mas potências exportadoras como a China vão ter mais dificuldades para ter grandes superávits comerciais com os países avançados do que tiveram no passado.

Haverá muito menos cooperação e coordenação global, porque os países ricos vão estar mais preocupados com questões internas.

Valor
A cúpula da União Europeia no fim de junho decidiu pela recapitalização direta dos bancos, mas o rendimentos dos títulos públicos espanhóis e italianos continuaram em níveis altos. Por que a decisão não acalmou os mercados?

Rodrik
Infelizmente, os líderes políticos europeus têm ficado consistentemente atrás dos mercados. Eles sempre fazem o mínimo possível, atuando apenas para adiar os problemas, sem lidar com as questões fundamentais.

Valor
Qual é o cenário mais provável para a zona do euro? Uma ruptura ou os líderes vão conseguir manter a união monetária intacta?

Rodrik
Acho que uma dissolução parcial da zona do euro tem uma possibilidade de 50% de ocorrer nos próximos anos. Há uma boa chance de que a união monetária seja dissolvida.

Valor
Na semana passada, Barry Eichengreen [professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley] disse ao Valor que um colapso do euro seria um desastre financeiro. O sr. concorda com ele?

Rodrik
Eu concordo com ele. As consequências de curto prazo seriam devastadoras do ponto de vista econômico, e acho que haveria consequências políticas ainda mais sérias no médio prazo. É uma tragédia de primeira ordem.

Valor
Como se daria a dissolução da zona do euro?

Rodrik
Há um número de países centrais – Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia – que devem ficar numa união monetária a despeito do que ocorrer com a zona do euro. Mas o futuro de todos os outros está muito em dúvida.

Valor
A saída de algum país pode ocorrer ainda neste ano?

Rodrik
É bastante possível que a Grécia tenha que deixar a zona do euro por volta do fim do ano. Se isso ocorrer, haverá um grande esforço para assegurar que o contágio para países como Espanha e Itália seja limitado, o que pode comprar algum tempo para os outros países.

Valor
Como o sr. vê a estratégia europeia para enfrentar a crise? Há foco demais na austeridade?

Rodrik
Acho que a estratégia é falha, primeiro porque enfatiza demais a austeridade, deixando países como Grécia e Espanha num círculo vicioso em que a austeridade reduz o crescimento, exigindo mais austeridade fiscal, e assim por diante.

Em termos mais estruturais, os líderes políticos têm que decidir se vão dar um salto maior na direção de maior integração fiscal e política, assumindo um compromisso político com essa trajetória.

Ou, se forem incapazes de entrar num acordo em relação a essa opção mais ambiciosa, e a única solução real for menos união econômica, eles deveriam se preparar para isso, em vez de deixar o caos ocorrer.
O caminho de maior união fiscal e política seria de longe o melhor, porque evitaria os custos econômicos e políticos de uma ruptura. Infelizmente, à medida que o tempo passa, um desfecho favorável parece cada vez menos possível.

Valor
A recuperação dos EUA não parece sólida. Uma nova rodada de afrouxamento quantitativo [política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos] ajudaria a sustentar a recuperação?

Rodrik
A política monetária pode ter algum papel, mas é imitado. O problema é que a política fiscal, acima de tudo, exerce um peso sobre a economia.

Nós precisamos de uma melhor estratégia fiscal, que enfatize menos consolidação fiscal agora, especialmente no nível dos Estados, e maior consolidação fiscal no futuro.

Valor
O sr. acredita que os democratas e republicanos vão conseguir evitar o abismo fiscal em 2013 [a combinação do fim de isenção de impostos e forte corte de gastos], que pode provocar uma violenta contração fiscal?

Rodrik
É muito difícil ser otimista em relação a isso, infelizmente. Esse risco continuará a afetar a recuperação e o crescimento.

Valor
Em artigo recente, o sr. diz que, no cenário global atual, Brasil, Índia e Coreia do Sul estão numa posição mais favorável do que o resto do mundo por serem democracias, terem um crescimento puxado pela demanda doméstica, e não pelas exportações, e por terem baixos ou moderados níveis de dívida pública. Esses países vão se sair bem mesmo nesse mundo adverso?

Rodrik
Eu tenho um prognóstico pessimista para a economia global como um todo, mas alguns países estão relativamente mais bem posicionados do que outros.

O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China.

Mas o Brasil tem de fato alguns pontos fortes, como as finanças macroeconômicas estáveis e o regime democrático estável.

Valor
Por que ser uma democracia é uma vantagem nesse cenário global adverso?

Rodrik
As democracias em geral são muito melhores em lidar com turbulência e incerteza, porque esses são os momentos que pedem conciliação e cooperação entre diferentes grupos sociais.

O que a democracia faz é oferecer os mecanismos institucionalizados para que essas barganhas ocorram. Quando se excluem essas barganhas, é verdade que se pode ter alguns ganhos de curto prazo, mas não há nenhum modo para responder ao dissenso e a oposição, o que frequentemente leva ao conflito.
Esse é um risco importante que a China pode enfrentar se a taxa de crescimento ficar mais fraca. Esse é um motivo importante pelo qual eu sou menos otimista em relação às perspectivas para a China.

Valor
Mas a China não tem um potencial mercado interno de grandes proporções?

Rodrik
Sem dúvida, mas eles têm que reorientar a estratégia de crescimento em direção ao mercado doméstico. Como o crescimento dependeu bastante de grandes superávits comerciais, essa mudança produziria um ajuste muito custoso, com fechamento de fábricas e trabalhadores perdendo os seus empregos. Seria muito difícil administrar esse processo.

Valor
Depois de vários anos de otimismo em relação à economia brasileira, muitos analistas e investidores se tornaram céticos em relação ao Brasil, em geral citando a falta de reformas estruturais e perspectivas piores para as commodities. Em que medida esses dois fatores podem prejudicar o Brasil?

Rodrik
O processo de reformas estruturais é de longo prazo. Ele sempre caminha com progressos e paradas. Nós não deveríamos ficar tremendamente preocupados com isso.

Em relação aos preços de commodities, eles têm produzido efeitos positivos e negativos para o Brasil. Obviamente a alta de preços estimula o crescimento no curto prazo, mas ao custo de afetar a indústria e valorizar a moeda, como consequência da doença holandesa. Por esse motivo, uma redução dos preços de commodities não é necessariamente algo ruim.

Valor
O sr. escreveu num artigo que, para os países em desenvolvimento, “o imperativo manufatureiro é nada menos do que vital”. A indústria manufatureira brasileira enfrenta uma crise de falta de competitividade, respondendo por 14,6% do PIB. Como esse problema afeta as perspectivas para o Brasil?

Rodrik
É um grande ponto de interrogação. O processo de desindustrialização é algo que está ocorrendo por todo o mundo. É uma questão de administrá-lo.

Eu não acho que o Brasil possa voltar a ter uma indústria respondendo por 20% a 25% do PIB, sem mencionar os 35% a 40% do PIB de alguns países asiáticos.

É uma corrida entre formar capital humano, para que se possa criar empregos de altos salários no setor de serviços, e a perda de emprego na indústria de trabalhadores relativamente pouco qualificados.

Valor
Mas esse problema na indústria não pode ofuscar as três qualidades que o sr. menciona, quando diz que o Brasil está mais bem posicionado que a maior parte dos países?

Rodrik
Comparado com muitos outros países, o Brasil tem capacidades significativas no setor manufatureiro. Não é uma questão de construir algo que não está lá.

A base é muito boa. Com a taxa de câmbio correta e um conjunto correto de políticas industriais, que o Brasil está tentando adotar, o país pode ter um setor manufatureiro saudável.

Valor
O Brasil tem hoje um câmbio mais desvalorizado em relação aos últimos anos e o Banco Central está cortando os juros de modo agressivo, pelo menos para os padrões brasileiros. Em que medida isso vai ajudar o crescimento?

Rodrik
Ela tem o potencial de ajudar um pouco a indústria e o crescimento geral, mas os investidores tomam decisões para períodos que não se limitam aos próximos seis meses ou um ano.

Eles fazem investimentos de longo prazo, de cinco anos, dez anos. Eles olham para o futuro e precisam de algum tipo de garantia de como estarão os juros e o câmbio não apenas hoje ou no mês que vem, mas daqui a dois anos ou daqui a cinco anos.

O que é necessário em termos de administração do câmbio e de política monetária é um ajuste de médio prazo, de sinalizar uma política que levará em conta a taxa de câmbio e a competitividade muito mais do que no passado.

Valor
O BC deve dizer diretamente que tem uma meta para a taxa de câmbio, ou pelo menos que se preocupa com o nível do câmbio?

Rodrik
Eu colocaria do seguinte modo. O nível do câmbio afeta o crescimento potencial da economia e, consequentemente, na medida em que a política monetária é influenciada pelo crescimento potencial, a taxa de câmbio naturalmente entra nas decisões de política monetária.

Há modos de trazer o nível do câmbio para as discussões de política monetária sem que seja necessário mudar fundamentalmente o arcabouço do regime de metas de inflação ou desistir da independência do BC.

Valor
Em março de 2011, o sr. disse, numa entrevista ao Valor, que o Brasil deveria crescer 7%, mas que, devido à combinação de juros altos e baixo investimento, 4% a 5% pareciam um sucesso. Neste mundo de baixo crescimento que o sr. antevê, que taxa o Brasil deve aspirar?

Rodrik
Acho que 5%, neste cenário global em que eu acredito, seria um grande sucesso.

Valor
O Brasil deve crescer menos de 2% neste ano. É algo cíclico ou mostra que crescer a taxas mais altas, como de 5%, é difícil?

Rodrik
Quando mencionei 5%, me refiro a uma média de médio prazo. Flutuações de um ano para o outro são naturais.

Valor
Então mesmo neste ambiente global adverso, ainda é possível para o Brasil crescer a essa taxa de 5% ao ano.

Rodrik
Acredito que, com os pontos fortes que tem, o Brasil é capaz de crescer 5%. O Brasil tem uma grande classe média, e tem potencial para crescer ainda mais.

Valor
O que o Brasil deve fazer para crescer a essa taxa?

Rodrik
A questão principal é sinalizar um ambiente em que se manterão os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables.

É um ambiente de juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda.

Valor
Muitos analistas criticam o governo brasileiro por cortar impostos para setores específicos e tentar usar o BNDES para impulsionar o investimento. Como o sr. avalia essas iniciativas?

Rodrik
Acho que, em geral, vale a pena experimentar políticas industriais desse tipo. O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático, revisado à luz da evidência do seu impacto.

Valor
Escolher setores específicos não é um problema?

Rodrik
Não estou tão preocupado com políticas econômicas seletivas, que favoreçam alguns setores em vez de outros. Tenho mais preocupação em continuar com essas políticas quando elas claramente não estão funcionando.

O teste real é se há capacidade de desistir dos perdedores. É isso o que quero dizer quando falo em abordagem pragmática.

A experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas. Muitas indústrias exportadoras brasileiras não existiriam hoje, se o país não tivesse adotado políticas seletivas no passado.

Fonte: Valor Econômico, Por Sergio Lamucci