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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Dilma, a guerrilheira que perde o ponto - ou não apaga o email


Fonte: http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/2606iolandagmail-com/


A imagem acima reproduz uma ata notarial entregue pela Mônica Moura como prova de uma de suas alegações à força tarefa da Lava Jato, dadas em troca de sua liberdade.

Segundo a delatora, com dados falsos, ela e Dilma teriam criado uma conta no Gmail, para se comunicarem com segurança.

A comunicação se daria por meio da criação de rascunhos de mensagens, que poderiam ser lidos pelas duas sem transitarem entre contas na rede.

E, de fato, a ata prova que a conta de email existia. Afinal, um tabelião a acessou e atestou a existência e a veracidade dos prints.

Mas parece forçado dizer, como já tem gente dizendo, que ela prova o compartilhamento da conta.

Mas tem mais uma coisa um tanto ridícula na história.

A ata notarial foi lavrada em 13 de julho de 2016 (https://pbs.twimg.com/media/C_ptfFgWsAE5sup.jpg:large). Isso quer dizer que os prints representam o conteúdo da conta de email naquele momento.

O print que aí de cima mostra que, em 13 de julho de 2016, repito sim, havia apenas um rascunho na caixa.
Providencial, o rascunho foi criado em 22 de fevereiro, dia em que a Polícia Federal tentou executar os mandados de prisão da Mônica e de seu marido (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/02/1742270-com-prisao-decretada-joao-santana-e-sua-mulher-chegam-ao-brasil.shtml.)

Obviamente, como não poderia deixar de ser, ele sugere uma mensagem cifrada sobre um espetáculo.

No dia seguinte, eles voltaram ao Brasil e se entregaram a polícia.

Pouco tempo depois, em 08 de março, começaram a circular notícias de que a hoje delatora negociava sua colaboração premiadíssima (http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/mulher-de-marqueteiro-do-pt-negocia-delacao-premiada.html).

Em 04 de abril, surgem notícias de que o MPF fechara o acordo para comprar a delação da Mônica de seu marido (http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/joao-santana-e-monica-moura-fecham-acordo-de-delacao-premiada-na-lava-jato.ghtml).

E, aí, vem a parte tragicômica da prova: neste tempo todo, quase cinco meses desde a prisão, Dilma e seu assessor, que também teria a senha, não se lembraram de entrar na conta e encerrá-la ou, ao menos, apagar o rascunho supostamente incriminador?

É pra levar isso a sério mesmo?

Uma das poucas presas pela Lava Jato que, por acaso, teve chance de preparar sua própria prisão apresenta uma coisa dessas como prova e os investigadores aceitam?

Para quem quer, deve ser mais fácil imaginar um ex-guerrilheira desleixada, do que uma marqueteira aproveitando o tempo que lhe resta de liberdade para criar provas. Provas a serem trocadas por sua liberdade e por uma boa fatia de sua fortuna.

Para mim, é difícil de acreditar;

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Moro, a Lava Jato e as comparações com a Mãos Limpas, na visão de um historiador inglês.


Este texto, porcamente traduzido, é apenas um trecho de um artigo escrito pelo historiados inglês Perry Anderson.

O link para o artigo, que merece a leitura, está embaixo.


Nesta dramática escalada de crise política, o jogador central foi o Judiciário. A noção de que a operação de Moro em Curitiba agia com imparcialidade, inicialmente defensável, foi arruinada com o teatro gratuito, orquestrado com a mídia, de seu ataque de madrugada a casa de Lula, seguido de uma mensagem pública saudando as manifestações pelo impeachment de Dilma: "O Brasil está nas ruas", ele anunciou. "Estou tocado".


Em seguida, com a publicação de escutas de um telefonema entre Lula e Dilma, feito horas depois que a gravação deveria ter sido interrompida, ele quebrou a lei duas vezes: violou o sigilo que cobre tais interceptações, mesmo quando permitidas, para não falar da confidencialidade que supostamente protegeria as comunicações do chefe de estado. Eram tão patentes essas ilegalidades, que elas levaram a uma morna repreensão do juiz do Supremo Tribunal Federal, a quem Moro formalmente responde, mas nenhuma sanção foi imposta. Apesar de 'inadequado', seu superior suavemente observou, a sua ação tinha alcançado o efeito desejado.

Na maioria das democracias contemporâneas, a separação de poderes é uma polida ficção, com as supremas cortes em geral (a americana é uma exceção intermitente) inclinando-se para a vontade dos governos do dia. As contorções do Tribunal Constitucional alemão, frequentemente lembrado como um luminoso exemplo da independência judicial, confirmando violações da Grundgesetz (Constituição) do país e do Tratado de Maastricht a mando de sucessivos regimes em Berlim, pode ser tomadas como o normal.

No Brasil, a politização da mais alta magistratura é uma longa tradição. A figura ubuesque (absurda?) de Gilmar Mendes talvez seja um caso extremo, mas revelador. Como presidente, Cardoso protegeu seu amigo de acusações legais dando-lhe status ministerial antes levá-lo ao Supremo Tribunal - Mendes agora condena Dilma por fazer isso com Lula. Lá, para evitar a atenção indesejada, Cardoso iria se esgueirar para dentro do prédio, pela garagem subterrânea, para conversar com ele. Flagrantemente partidário demais do PSDB até mesmo para Eliane Cantanhede - "tucano demais" (o pássaro é o símbolo do partido) -, uma entrevistadora admiradora da direita, ele podia ser visto almoçando festivamente com líderes proeminentes do partido após absolvê-los de crimes - e não hesitou em empregar fundos públicos para matricular subordinados em uma escola privada de direito que mantêm, para o lucro, enquanto senta-se, como juiz, no mais alto tribunal da nação. Suas diatribes contra o PT são legendárias.

Sérgio Moro, uma geração mais jovem, é de outra cepa. Os Estados Unidos, que ele costuma visitar, são sua terra de referência. Um batalhador provinciano, ele não deve nada ao clientelismo ou comércio. Mas logo no início - acabara de passar dos trinta - ele mostrou sua indiferença aos princípios básicos da lei ou das regras de evidência em um artigo exaltando o exemplo dos magistrados italianos da década de 1990, "Considerações Sobre a Operação Operação Mãos Limpas ', em termos que anteciparam seus procedimentos de uma década depois.

Sem nenhuma tentativa de pesquisar a extensa literatura sobre Tangentopoli, ele contentou-se com dois encômios do grupo de Milão disponíveis para leitores americanos, citados sem uma de pitada de reflexão crítica, e tomou as alegações de um arrependido chefe da máfia sustentado pelo Estado como um evangelho, apesar de sua rejeição no tribunal. A presunção de inocência não pode ser considerada como "absoluta", ele declarou: é apenas um "instrumento pragmático", que pode ser suplantado pela vontade do magistrado. Os vazamentos para a mídia, ele celebrou como uma forma de "pressão" sobre réus, onde "objetivos legítimos não podem ser alcançados por outros métodos."

O perigo de um sistema judicial atuando neste espírito é o mesmo para Brasil que foi para a Itália: uma campanha absolutamente necessária contra a corrupção se torna tão infectada com desrespeito ao devido processo legal e o conluio sem escrúpulos com a mídia, que, em vez de incutir qualquer nova ética de legalidade, acaba confirmando o antigo desrespeito social com a lei. Berlusconi e sua herança são a prova viva disso.

A cena no Brasil difere da situação em Itália, no entanto, em dois aspectos.

Nenhum Berlusconi ou Renzi estão à vista. Moro, cuja celebridade agora excede a de qualquer um de seus modelos italianos, sem dúvida será chamado a preencher o vácuo político, se a Lava Jato fizer uma limpeza da velha ordem. Mas o destino medíocre de Antonio Di Pietro, o mais popular dos magistrados de Milão, ergue-se como um aviso para Moro, de qualquer maneira, à primeira  vista, mais genuinamente puritano, contra a tentação de entrar na política. O espaço para uma ascensão meteórica também parece ser menor, por causa de uma outra diferença fundamental entre os dois cruzados contra a corrupção. O ataque a Tangentopoli atingiu os governantes tradicionais do país, a Democracia Cristã e o Partido Socialista, que tinham estado no poder juntos por trinta anos, enquanto a Lava Jato fez mira política não nos governantes tradicionais do país, os quais, até agora, poupou, mas nos iniciantes que os substituíram. Ela parece muito mais parcial, e assim sectária.

O sectarismo foi extremamente acentuado por uma segunda diferença entre a Itália da década de 1990 e o Brasil de hoje. Quando Tangentopoli atingiu o sistema político, os meios de comunicação italianos formaram uma paisagem heterogênea. Em geral, jornais independentes tendiam a apoiar o sistema judicial em Milão. O conglomerado do chefe da Olivetti, De Benedetti, onde a maioria dos vazamentos apareceu na imprensa, alardeou as acusações contra Democratas Cristãos e Socialistas, mantendo o maior silencio que podia sobre os outros, que envolviam seu dono. O império de televisão e imprensa de Berlusconi atacou os magistrados. O resultado foi que, com o passar do tempo, houve muito mais questionamento das ações dos diferentes níveis da magistratura - muitas muito corajosas, outros muito dúbias - que no Brasil.

No Brasil, os meios de comunicação têm sido monoliticamente partidários na sua hostilidade ao PT e acrítica da estratégia de vazamentos e pressões de Curitiba, de que tem agido como o caixa de ressonância. O Brasil possui alguns dos melhores colunistas do mundo, cujos escritos analisaram a crise atual em um nível literário e intelectual muito acima do Guardian ou New York Times. Mas essas vozes são em número bem menor que o de uma floresta de conformistas ecoando as perspectivas dos proprietários e editores.

Comparar a cobertura dos meios de comunicação para qualquer vazamento ou revelação danosa ao PT com o tratamento dado à informação ou rumor que afeta a oposição é medir a extensão de seus padrões duplos.

Enquanto a Lava Jato se desenrolava, um exemplo pungente cintilava, Em 1989, um dos mais famosos pontos de virada da história moderna brasileira, Lula, então ainda um radical perigoso, aos olhos do estabelecimento, tinha ao seu alcance a vitória em sua corrida inicial para a presidência. Alguns dias antes do votação decisiva, uma ex-namorada apareceu em um programa de televisão do seu adversário, Collor, paga pelo irmão de Collor, acusando Lula de querer abortar uma criança que ela esperava. A repercussão, ampliada ao limite pela mídia, garantiram sua derrota no dia da votação.

Dois anos mais tarde Cardoso, então senador de destaque do PSDB, já apontado como um futuro candidato presidencial, era conhecido nos círculos políticos por ter uma amante trabalhando para a mesma cadeia de televisão, TV Globo, que arruinou Lula. Quando deu à luz uma criança, ela foi levada a sair do país, para Portugal. Em meados de 1994, após servir como ministro das Finanças, Cardoso estava concorrendo à presidência - e o trabalho dela se tornou cada vez formal, embora a Globo continuasse a pagar seu salário.

Com Cardoso eleito, o seu braço direito, o Magalhães mais jovem, instruiu-a a não retornar ao Brasil por medo de comprometer sua reeleição. Quando a Globo cortou seu salário, um trabalho de ficção foi encontrado para ela, fazendo uma pesquisa de mercado na Europa para uma cadeia de duty-free, com direitos de monopólio concedidos em aeroportos brasileiros por Cardoso. Através desta empresa, seu relato implicaria, Cardoso lavou U$ 100.000 (apoio à criança ou suborno)  para ela através de uma das suas contas nas Ilhas Cayman.

A história veio à tona em fevereiro, no meio do tornado da mídia em torno de acordos imobiliários de Lula. A mídia fez com que ela recebesse a menor cobertura possível. A empresa está agora sob investigação para uma transação penal. Cardoso protesta sua inocência. Ninguém espera que ele sofra qualquer inconveniente.

O mesmo pode ser dito da oposição em geral?

Moro liberou seus grampos incendiárias em 16 de março. Uma semana depois, a polícia de São Paulo invadiu a casa de um dos executivos da Odebrecht, a maior empresa de construção na América Latina, cujo presidente acabara de ser condenado a 19 anos por suborno. Lá eles encontraram um conjunto de tabelas com listas de 316 líderes políticos e quantidades de dinheiro junto a seus nomes. Apareciam figuras importantes do PSDB, PMDB e muitos outros partidos - um panorama da classe política do Brasil. Objetivamente falando, esta lista era um trovão mais alto do que a conversa entre Dilma e Lula. Mas um menos conveniente: de Curitiba, Moro tomou medidas imediatas no sentido oposto, ordenando a colocação das tabelas sob sigilo para evitar mais especulação.

Ainda assim, um alarme tinha soado: a Lava Jato poderia sair do controle. Se Dilma devia ser derrubada, era essencial que isso fosse feito antes que as tabelas da Odebrecht pudessem ameaçar seus acusadores. Dentro de alguns dias, o PMDB anunciou que estava abandonando o governo, e a contagem regressiva para a votação de impeachment começou. A maioria de três quintos da câmara baixa, que parecia muito objetivo no início do ano, estava agora ao alcance.

Opinião respeitável indicou a farsa de um Congresso repleto de ladrões, Cunha encabeçando, solenemente depor um presidente de irregularidade orçamentária.

(...)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

O recorte, a ruína e a construção.

Já não é novidade para ninguém: é possível contar mentiras falando só verdades. A cuidadosa organização de fatos e ideias pode construir conclusões, no mínimo, enviesadas.

A Míriam Leitão publicou esta semana um texto com o bombástico título de “A ruína econômica”. Ele trabalha a imagem de Brasil, terra arrasada, tão cara aos construtores da destituição da Presidenta Dilma. E, claro, arruma fatos incontestáveis de forma a induzir a conclusão inafastável: foi Dilma quem destruiu tudo.


Nesta altura do campeonato, acho que ninguém seria capaz de negar a péssima situação econômica do país. Também não dá pra negar a bagunça política e institucional instalada.

Mas talvez dê pra disputar a ordem dos fatores, que, se não altera o produto, pode sim tornar mais complexo o debate a sobre causas, efeitos e soluções.

Por outro lado, talvez existam outros fatores na construção da nossa situação econômica.

Não disponho do instrumental teórico para fazer, a sério, este debate – apesar de ter sim uma opinião sobre o assunto. E, antes que alguém acuse, sim, ela inclui responsabilidades da Presidenta pelo quadro atual.

Contudo, voltando ao texto da Míriam, dá sim para denunciar a estratégia discursiva adotada por ela - com direito a planilha cheia de dados corretos e de muitas lacunas, arrumados, ambos, para legitimar a opinião da jornalista. Na tabelinha (colada lá no final), ela compara dados econômicos do ano da eleição da Presidenta (2010) e atuais, provando que Dilma causou a “ruína econômica”.

O recado é claro: estava tudo ótimo; aí, veio Dilma; aí, tudo foi arruinado.

Então, tá. Não vou nem lembrar que, lá em 2010, a jornalista não dizia que estava tudo ótimo. Mas será que este recorte temporal (defensável, até) não esconde algo?

Fui atrás dos dados – e eles estão na tabelinha abaixo.



É óbvio que estes dados não desmentem o quadro ruim atual. A economia, de fato, vai mal. Mas, ao contrário da impressão passada pelo recorte escolhido pela Míriam Leitão, não, não descemos ladeira direto desde a eleição da Dilma.

Na verdade, alguns aspectos – como o desemprego! – chegaram a melhorar durante a gestão da Presidenta.

O que a Míriam Leitão fez, e, diante da sua experiência, não tenho porque fingir que não foi intencional, foi juntar dados e, principalmente, lacunas, de forma a excluir da análise, e de qualquer conclusão, uma série de fatores interpostos entre as datas que ela escolheu como referencial.

De novo, não tenho o instrumental teórico para fazer a sério o debate sobre as causas da nossa situação atual. Mas, de qualquer forma, parece bem ilógico tirar do debate, dentre outros, os seguintes fatores, cuidadosamente obliterados pelo recorte temporal feito pela Míriam:

- os efeitos econômicos diretos da Lava Jato, que completa dois anos e afetou setores da economia (construção civil e petróleo), investimentos e arrecadação, havendo quem a responsabilize por uma queda de 2% do PIB só em 2015;
- forte queda do preço do petróleo, iniciada em 2014, que também afeta o setor petroleiro (e toda a sua cadeia), com efeitos sobre os investimentos, o crescimento do PIB e claro, a arrecadação; e
- as incertezas políticas, já que, por acaso (morte do Eduardo Campos) ou por ação das oposições, desde meados de 2014, o Brasil não sabe muito bem quem estará no comando dentro de 6 meses.

Vamos pegar como exemplo os dados de 2013 - terceiro ano do mandato da Dilma e antes da "crise política", da Lava Jato, e da queda do preço do petróleo. O país não crescia mais a 7,5%, mas o desemprego havia caído, o IPCA e a dívida bruta não haviam subido e a SELIC estava mais baixa; e a situação fiscal tinha piorado, sim, mas não parece que de forma explosiva. (O dólar tinha subido. Mas isso é ruim?)

Exceção feita ao desemprego, que caiu!, o jogo começa a virar em 2014, ano de eleição, como lembra a Mírian, mas também ano da queda do preço do petróleo, do começo das propagandas da Lava Jato e do início das grandes incertezas políticas.

Mas estes dados e fatores foram intencionalmente escondidos no texto e nesta tabela da Mírian, que, assim, cria sua verdade sem contar nenhuma mentira, constrói com fatos e lacunas a responsabilidade exclusiva da Presidenta Dilma pela nosso situação atual:


******

Fontes dos dados:
Dívida: http://www.bcb.gov.br/htms/Infecon/seriehistDBGGFC.asp
Resultados: Ipeadata : Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito primário - sem desvalorização cambial - acum. 12 meses e Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito nominal - sem desvalorização cambial - acum. 12 meses

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Dilma e suas prioridades: Mariana x Chico

As mentiras vão sendo contadas e repetidas. E novamente repetidas. Até que, de repente, elas assumem a cara da verdade.

Verdades? Mentiras? Fatos? Versões? Tudo balela, né? Não existem verdades, apenas pontos de vistas e tal.

Pode ser. É uma discussão filosófica bem interessante.

Mas, aqui no nosso dia a dia mais corriqueiro, acho que dá pra gente lidar com conceitos mais rasteiros. Aconteceu ou não aconteceu?


Pois bem.

Bastou a Dilma manifestar repúdio ao ataque sofrido pelo Chico Buarque para determinada mentira (versão?) voltar a ser repetida mil e tantas vezes. Danem-se os fatos! Vamos repetir a nossa versão - até ela parecer verdade sabida.

Tem acontecido um sem número de vezes. E não vai parar, eu sei.

Mas vamos lá. Faça uma pesquisa, por exemplo no seu Twitter. Digite Dilma e Mariana.

Aí vai um exemplo dos resultados que você encontrará:


Lindo. Critica-se a escolha de prioridades da Presidenta com esta premissa: ela demorou mais pra falar de Mariana que do Chico. Segundo esta verdade sabida, Dilma teria levado uma semana para falar sobre as barragens da Vale/BHP/Samarco

Tivesse isso ocorrido, poderíamos debater sobre a escala de prioridades das mazelas nacionais. Um debate necessário, sem dúvida.

E, pra ninguém precisar supor, lá vai minha posição: o acidente  (crime?) ocorrido em Mariana é gravíssimo; mas nossa onda de intolerância (de qualquer lado!) também o é.

Agora, o problema é que, debates filosóficos à parte, a premissa da critica é falsa! Isso mesmo: é mentira! Pra esclarecer: não é factual, naquele nível suficiente para o nosso cotidiano medíocre.

Quer ver? Taí, na imagem abaixo: o perfil da Dilma no Twitter no dia 06/11, dia seguinte ao da tragédia provocada pela Vale e seus sócios.


É obvio que a reação da Presidenta ao desastre de Mariana não pode ser medida por uma publicação no Twitter. É possível debater se o seu governo agiu ou não rapidamente.

Mas esta não é a questão aqui.

As postagens criticam a postura da Dilma por sua manifestação no Twitter. E, bem, neste caso, como em muitos outros, a base da crítica é simplesmente falsa.




sábado, 17 de outubro de 2015

FMI repete Dilma: Lava Jato causou queda do PIB brasileiro. Cadê as manchetes?




Em 27 de julho, a Dilma afirmou que a Operação Lava Jato "(...) provocou uma queda de um ponto percentual no PIB brasileiro".

No dia seguinte, O Globo saiu com a capa aí de cima, com a manchete marota, dando a entender que a presidenta fica procurando novos culpados para a crise a cada momento. Entretanto, tudo que ela dissera é que parte da cada do PIB pode ser explicada como efeito das investigações.

O genial economista Rodrigo Constantino publicou um texto sobre o assunto. Compara Dilma a uma criança procurando culpados pelas suas próprias traquinagens, debocha da análise da presidenta, mas não apresenta nenhuma razão que demonstre equívoco da assertiva dela. Sei lá, vai ver que a economista dele estava de férias.


Mais de um mês depois, foi a vez do juiz Sérgio Moro reagir. O magistrado embaralhou as coisas e se saiu com a estapafúrdia comparação: "não é o policial que descobre o crime, o culpado pelo cadáver". Para que a comparação fizesse sentido, Dilma teria que ter culpado a Lava Jato pelas propinas ou pelo sobrepreço em obras. Ou a Lava Jato investiga a queda do PIB brasileiro?

De qualquer forma, acho que o juiz perdeu uma bela chance de ficar calado. Dilma não criticara a operação; ela apenas indicara um efeito colateral adverso da apuração.

Aliás, muitos remédios para doenças graves os tem, e apontá-los não significa crítica ao seu uso. Por outro lado, fingir que estes efeitos adversos não existem impede que se adeque a "posologia" e que se busque maneiras para mitigá-los.

Enfim, agora, passados quase três meses, o insuspeito (neste ponto!) diretor do FMI foi além da Dilma. Ele não disse, como a presidenta, que parte da queda do PIB brasileiro é efeito da Lava Jato. Ele afirmou que a contração da economia brasileira este ano decorre principalmente da "paralisia dos investimentos privados para esperar para ver onde vai dar a investigação dos escândalos", e não apenas de questões macroeconômicas.

Fico pensando: o que Moro pensa disso? Constantino vai pintar lá na sede do FMI e se oferecer para um debate econômico com o diretor do fundo?

Mas, sobretudo, tenho uma dúvida: esta informação não mereceria capa de O Globo? Os leitores do jornal não merecerem receber esta informação? Se o chefão do FMI tivesse dito o contrário, que a Dilma estava errada, a fala teria rendido manchete?


RIO  -  A queda prevista do PIB brasileiro de 3% este ano não é explicada apenas por questões macroeconômicas, mas principalmente por uma paralisia dos investimentos de empresas, diante da expectativa de saber como vão terminar as investigações em curso na força-tarefa da Operação Lava-Jato, afirmou nesta sexta-feira Otaviano Canuto, diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI). 

“Estou entre aqueles que acham que a desaceleração do PIB este ano no Brasil não é explicável por questões macroeconômicas stricto sensu. Ela é principalmente explicada por uma paralisia dos investimentos privados para esperar para ver onde vai dar a investigação dos escândalos”, afirmou, durante assembleia do Conselho Empresarial da América Latina (Ceal), no Rio de Janeiro. O FMI espera queda de 3% no PIB brasileiro em 2015.

(Continua)

quinta-feira, 30 de julho de 2015

S&P: das 15 maiores economias, cinco tem viés negativo, Alemanha e Canadá entre elas.



Então é isso: a Standard & Poor´s reviu a perspectiva do risco econômico para investidores no Brasil.

Mantivemos a nota e o tal "investiment grade", mas, segundo a empresa, a tendência não é boa. Nossa nota pode diminuir na próxima avaliação.

Mesmo que voce, como eu, veja estas avaliações com desconfiança, a notícia não é boa. Muita gente, gente com dinheiro, não compartilha nossa opinião e toma decisões de negócio e investimento olhando para estes "ratings".


Por outro lado, a notícia poderia ser pior. Tinha muita gente por aí prevendo, apostando (torcendo?), que perderíamos o grau de investimento. Ficamos a um passo disso, mas não perdemos. Menos mal. Talvez..

De qualquer forma, triunfantes (com a nossa suposta derrota como país), os insuspeitos analistas de sempre, aqueles mesmo que fingem não existir uma crise mundial, apregoam: "viu, a crise brasileira colocou nossa nota em viés negativo".

Beleza: ponto pra eles.

Mas... será?

Hoje de manhã, a mesma S&P publicou no twitter o gráfico acima, com o risco e a perspectiva de risco das 15 maiores economias mundiais.

E o que ele mostra? Entre outras coisas,

(1) que sim, a S&P nos vê com risco alto - mas empatado com a Espanha e, vejam voces, a China e melhores que a Rússia;
(2) que, dos 15, apenas 2 países tem perspectiva de risco positiva - Reino Unido e a sofrida Espanha (dos 25% de desempregados); e
(3) que mais 4 países tem perspetiva de aumento do risco - Rússia, Índia, Canadá (sim, o Canadá) e Alemanha (isso mesmo, a poderosa Alemanha).

Sei não, mas não me parece exatamente um quadro mundial de economia bombando. Ao contrario, na média, de orelhada, não seria mais sensato falar em uma situação de perspectiva de aumento de risco para a economia mundial? Ou, ao menos, trabalhar com essa hipótese nas análises?

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Inclusão pelo consumo: entre 2002 e 2014, Brasil reduziu número de subalimentados em 82,1%.

Textinho do MDS, compilando dados sobre o Brasil da versão 2015 do relatório "O Estado de Insegurança Alimentar no Mundo".

Inclusão pelo consumo?

Gráfico - fome - redução - brasil


Ações de transferência de renda e de segurança alimentar são citadas como exemplo de que a proteção social gera um círculo virtuoso de crescimento inclusivo

O relatório O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015, divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) nesta quarta-feira (27), destaca os avanços brasileiros na redução do número de pessoas em situação de fome conquistado nos últimos anos. O Brasil é o país, entre os mais populosos, que teve a maior queda de subalimentados entre 2002 e 2014, que foi de 82,1%. No mesmo período, a América Latina reduziu em 43,1% esta quantidade.

Entre os mais populosos, o país também é aquele que apresenta a menor quantidade de pessoas subalimentadas. São 3,4 milhões no Brasil, pouco menos de 10% da quantidade total da América Latina, que é de 34,3 milhões. “O relatório confirma o esforço e reconhece a trajetória do Brasil na ação de redução da pobreza e do combate à fome”, ressaltou a ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

Dos arquivos do blog:

“O Brasil, ao contrário de outros países do mundo, sempre foi um grande produtor de alimentos. E, mesmo assim, a população passava fome. O nosso problema não era a disponibilidade de alimentos, o nosso problema era acesso aos alimentos e à renda. E isso conseguimos alcançar com políticas públicas”, explicou.

A publicação aponta também que o país alcançou todas as metas das Nações Unidas em relação à fome. O Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM) era de reduzir pela metade a fome e o da Cúpula Mundial de Alimentação era de reduzir pela metade os números absolutos de subalimentados. O Brasil é um dos 29 países que conseguiram alcançar essas duas metas. “O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que está em processo de formatação, tem o objetivo de reduzir até menos de 5% até 2030. Desde o ano passado, nós já conseguimos alcançar esta meta”, contou a ministra.

As ações de segurança alimentar desenvolvidas e o Programa Bolsa Família foram citados como cruciais para o crescimento inclusivo que o Brasil alcançou. “A proteção social pode estabelecer um círculo virtuoso de progresso à população pobre com melhores salários, empregos e rendas”, destaca o relatório. “Estes programas reduziram significativamente a desigualdade de renda - entre 2000 e 2012, a renda média do quintil [20%] mais pobre da população cresceu três vezes mais rápido que a dos 20% mais ricos.”

A ministra Tereza Campello explica que o país agora enfrenta um novo desafio. “O Brasil saiu do Mapa da Fome. Temos a primeira geração de crianças alimentadas, que estão na escola e não vão repetir a trajetória de seus pais. E nos deparamos com o Brasil vivendo problemas de saúde típicos de países desenvolvidos, como a obesidade. E, principalmente, a obesidade infantil”, destacando que é um dos principais temas que serão tratados pelos governos e sociedade durante a 5ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, no segundo semestre deste ano.

Veja mais dados elaborados pelo MDS em relação ao relatório

terça-feira, 12 de maio de 2015

Gasto do Governo Federal com educação tem aumento real de 285% em 10 anos.

Matéria do Valor, copiada do site do Todos pela Educação.

Palácio Gustavo Capanema

Gasto federal com ensino sobe 285% em dez anos, focado nos níveis superior e técnico


O governo federal aumentou seus gastos reais em educação em expressivos 285% nos últimos dez anos. Em 2014, a despesa da União com Educação somou R$ 94,2 bilhões, ou 1,71% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo estudo recém-concluído por Marcos Mendes, assessor legislativo do Senado Federal. Em proporção da receita líquida do Tesouro, os desembolsos para o setor alcançaram 9,3% no ano passado, 130% acima da parcela de 4% detida em 2004.

Dos arquivos do blog:

Brasil sobe 4 posições e fica em 43º entre 133 países em ranking de progresso social.Desde 2003, número de filhos por família entre mais pobre no NE caiu 26% (frente a 10% no geral).
Para o Banco Mundial, o Brasil é hoje referência internacional na área de saúde pública.
A carga tributária, os "tributos de país desenvolvido" e os serviços públicos brasileirosBrasil tem alto desempenho no desenvolvimento humano e é modelo para o mundo, diz ONUA revolução do sistema de aquisição de alimentação escolar do Brasil (sustentabilidade + apoio à agricultura familiar).OCDE: nos últimos anos, o Brasil soube aproveitar bem seu investimento em educação.Pesquisa mostra Brasil liderando índice de aproveitamento social do crescimento econômico

O aumento apontado no estudo é real, já descontada a inflação no período, e considera os gastos com o Fies (o fundo de financiamento estudantil) como despesa, embora tecnicamente não sejam. Mesmo sem esse gasto, o aumento continua muito alto: 245% entre 2004 e 2014.

Embora os dados mostrem que a Educação foi bastante privilegiada na alocação dos recursos federais, Mendes levanta um senão. "Essa expansão é positiva se os programas nos quais o dinheiro público está sendo gasto realmente trouxerem retornos para a sociedade", pondera. E o assessor legislativo vê uma "aposta" nas escolhas feitas no último ano.

Um exemplo está na explosão dos recursos relacionados ao Fies. Essa despesa já é a segunda de maior importância entre os principais gastos do governo federal, com R$ 13,8 bilhões no ano passado, valor 1.110% superior ao de 2004. Ele representou 15% de todas despesas federais em Educação no ano passado, e só "perdeu" para os gastos com pessoal e encargos.

Outros programas até cresceram mais que o Fies, como a complementação ao Fundeb (o fundo do Ensino básico) e os gastos com Educação profissional e tecnológica, mas o montante desses gastos foi proporcionalmente menor que o do Fies (ainda que o mecanismo desse fundo não envolva gasto direto do Tesouro e teoricamente os recursos devam ser ressarcidos no futuro). E o Fies é mais recente, pois embora já existisse em 2004, o crescimento acontece a partir de 2010, quando envolveu R$ 1,2 bilhão, valor quase idêntico ao de 2004.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A inflação está voltando?

E, mais uma vez, começa a gritaria: "a inflação voltou". E, mais uma vez, repete-se a mistificação de que, até 2002, ela estava sob controle. E, mais uma vez, alardeia-se que a inflação está cada vez maior. Voltou? Estava sob controle em 2001/2002? Está aumentando?

Dos arquivos do blog:


Sei não, mas acho que estes dados  mostram outro quadro (o que não quer dizer que a inflação não deva preocupar):
- o primeiro governo FHC registrou um IPCA anual médio de 9,71%, tendo começado com a inflação na casa dos 22% e terminado com ela perto de 1,5%;
- no segundo mandato do FHC, a inflação anual média teve pequena queda, para 8,78%, mas a curva ascendente foi bem acentuada, já que o índice saltou de 1,65% no término do primeiro período para 12,53% em 2002;
- o primeiro governo Lula registrou um IPCA anual médio mais baixo, de 6,14%, reverteu a curva ascendente e terminou com uma inflação de 3,14% em 2006;
- o segundo mandato do Lula começou com um IPCA anual de 4,46% e terminou com um índice de 5,91%, registrando, na média, uma inflação anual de 5,15%, ainda mais baixa que a do mandato anterior;
- tendo por base as projeções de inflação para o biêmio 2013/2014, o governo Dilma encerrará com um IPCA médio 5,89%, ligeiramente superior aos 5,15% do segundo governo Lula, mas ainda inferior à metade do índice do último ano sob FHC;
- considerados os dois mandatos de cada um, sob FHC tivermos um IPCA anual médio de 9,24%, frente a uma taxa média de 5,79% registrada ao longo do governo do Lula; e, finalmente,
- tendo por base as projeções de inflação para o biênio 2013/2014, durante todo o governo do PT, a média anual do IPCA seria de 5,82%, dois terços daquela registrada no governo anterior.
Pergunta-se: dá pra dizer a sério que a inflação voltou agora? Que ela estava sob controle no quadriênio 1999/2002, quando registrou-se uma média de quase 9% ao ano - e em curva ascendente?

Abaixo, seguem alguns gráficos que ajudam a visualizar essa sopa de números.

gráfico ipca inflacao anual 1994 2014

gráfico do ipca inflacao media FHC LULA DILMA

grafico do ipca inflacao media I FHC LULA DILMA

Duas observações:
1 – eu sei que o IPCA anual em 1994, ultimo ano do mandato do Itamar e ano do Plano Real, foi de 916,43%; e
2 – os índices marcados com “**”, obviamente, são expectativas, obtidas aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Financial Times: Brasil saiu de moda no mercado financeiro, mas ainda é "o país mais empolgante do mundo".

Matéria da BBC Brasil.

Ruth Costas, da BBC Brasil

Deu no Financial Times: o Brasil é "o país mais empolgante do mundo". Ao menos foi o que defendeu a última edição da revista semanal desse diário econômico britânico, com a manchete Aí vem o Brasil e artigos que tratam de temas ligados ao boom da classe C brasileira.

Dos arquivos do blog:


A realidade, porém, é que desde 2012 ficou mais difícil encontrar quem partilha dessa "empolgação" nos mercados e na imprensa internacional. "Após um período de quase euforia com o Brasil no exterior, por volta de 2009 e 2010, as percepções sobre o país parecem ter sido ajustadas com a decepção gerada pelo desaquecimento da economia", diz Daniel Buarque, jornalista e autor do livro Brasil, um país do presente: A imagem internacional do "país do futuro" (Ed. Alameda), que será lançado no dia 7 de março.

Segundo um levantamento feito a pedido da BBC Brasil pelo consultor Simon Anholt, responsável por um ranking dos países mais admirados do mundo pelo público em geral, em 2012 houve uma queda até na pontuação do Brasil na pesquisa, de 57,91 para 57,86 (de um total de 70 pontos).

Mesmo o FT em sua cobertura diária tem adotado um tom bastante cético e crítico sobre o manejo da economia brasileira desde que o PIB desacelerou dos 7,5%, de 2010, para os 1,6%, de 2012. E a revista britânica The Economist chegou a chamar a economia do país de "criatura moribunda".

A novidade que parece refletida no especial sobre o Brasil do jornal britânico, porém, é que um grupo cada vez maior de observadores externos tem enfatizado que, em meio a esses altos e baixos, é preciso mais “realismo” nas análises sobre o país - e, principalmente, é preciso separar entre as perspectivas de longo e de curto prazo para sua economia.

Ajuste
"Precisamos marcar bem a diferença entre a perspectiva do mercado financeiro e a dos que fazem investimentos diretos e apostam na economia real", enfatiza Richard Lapper, diretor do Brazil Confidential, o serviço de análises sobre o Brasil do Financial Times.

Ele diz que, para os investidores de curto prazo, a queda dos juros, as incertezas sobre a inflação e o fato de que a economia brasileira está crescendo menos que a de países como o México reduziram bastante a atratividade do país.

"Já para o investidor direto, de longo prazo, o Brasil continua a ser um mercado atraente - e foi para essas tendências mais duradouras que olhamos na nossa revista: o desemprego está em níveis historicamente baixos, há estabilidade econômica e política e o consumo continua aquecido com a expansão da classe C, especialmente em alguns setores."

Lapper nota que, apesar da desaceleração do PIB, o volume de investimentos diretos estrangeiros no Brasil permaneceu robusto no ano passado - por volta de US$60 bilhões. O desemprego também foi uma surpresa positiva: ficou em 5,4% em janeiro, o menor para o mês desde o início da série histórica, em 2002.

"Quando o assunto é Brasil é preciso cuidado para distinguir o que é notícia e o que é barulho", opina o criador do termo BRIC, Jim O'Neill, que vem sendo questionado sobre se o País deve ser mantido no grupo das "nações emergentes" mesmo crescendo a um ritmo inferior a China, Rússia e Índia.

Novo 'status'
O'Neill diz acreditar que embora no curto prazo os dados sobre o PIB brasileiro ainda devam decepcionar, as "tendências demográficas e sociais" que sustentam as boas perspectivas para o País e sua mudança de status global são "consistentes".

"É preciso pensar no longo prazo para o Brasil: ainda acho que o país pode muito bem crescer de 4% a 5% ao ano na década", opina.

Para Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil da King's College London, é natural que haja suspeitas sobre a sustentabilidade do crescimento brasileiro, até por uma questão de precedentes históricos: o "milagre econômico" dos anos 70 descambou na pior crise da história do país, nos anos 80.

"Mas uma perspectiva histórica também dá a medida de quão sólidos são os avanços em termos sociais e institucionais, na conquista de estabilidade econômica e política", diz Pereira.

"Os velhos desafios são conhecidos: o Brasil ainda precisa avançar na questão da educação, infraestrutura e burocracia. Mas a decepção também é consequência de um aumento das expectativas - não dá para querer que o país cresça como a Índia, onde a proporção da população rural ainda é equivalente a do Brasil nos anos 60."

Imagem externa
As percepções externas sobre um país importam por uma série de razões, segundo Anholt. No campo econômico, uma boa reputação pode ajudar a atrair investimentos, e impulsionar os fluxos de comércio e turismo.

"Antes de fazer um investimento direto, por exemplo, empresários calculam qual seria a dificuldade para se convencer funcionários-chave a viver naquele lugar", diz o consultor.

Uma melhoria de 10% nos índices gerais de aprovação de um país, calculado por Anholt com base em 38 mil entrevistas, resultaria em um crescimento de 11% na chegada de turistas a seu território. E a correlação seria semelhante para o crescimento das exportações.

"Se um país se torna sinônimo de qualidade, pode cobrar mais por seus produtos. Consumidores tendem a pagar mais caro por um celular japonês que por um aparelho produzido em outro país asiático, por exemplo."

No caso do Brasil, Anholt enfatiza que, apesar de o país ter deixado de ser a menina dos olhos da imprensa e mercados internacionais, a mudança em sua imagem entre o público em geral foi pequena e o país permaneceu na 20ª posição no ranking das nações mais admiradas do globo.

Por outro lado, mesmo durante o período em que o Brasil esteve “na moda”, também avançou pouco - subindo apenas uma posição em 2009.

"No geral, o Brasil ainda está associado a festa, futebol e carnaval. É um país que todo mundo vê com simpatia, mas ninguém leva a sério. Sinônimo de ‘alegria’, que pouquíssimos se aventuram a visitar", afirma o consultor.

Já Buarque - que baseou seu livro em mais de 100 entrevistas com formadores de opinião, elites acadêmicas, políticas e econômicas nos EUA – tem uma perspectiva diferente. Para ele, ao menos entre essas elites tomadoras de decisão, não há como negar que as mudanças na “imagem do país” tem sido bastante significativas.

"Ainda que haja clichês ligados ao imaginário internacional sobre o Brasil, em setores da elite política e econômica global, o país tem de fato se tornado mais relevante no mundo, ainda que seja difícil precisar quanto", afirma.

“Além disso, mesmo que a frequência das demonstrações de 'empolgação' sobre o Brasil tenha diminuído, não acho que tenhamos voltado a uma situação pré 2008-2010 em termos de imagem externa. O que há agora é um maior equilíbrio - a euforia foi substituída por uma avaliação mais sóbria, mesmo quando positiva."

segunda-feira, 7 de maio de 2012

A alteração na poupança para (nós) leigos

O assunto não é simples - e uma boa explicação merece ser reproduzida e espalhada. 


Sempre fui um menino curioso e no curso de jornalismo um aluno aplicado. Na adolescência descobri que os jornais eram a porta para entender o mundo (bons tempos aqueles). Hoje, com o pensamento único dos editorialistas aos colaboradores nem pensar...

Em economia, nunca passei do trivial. Administro bem o orçamento doméstico e considero ter tino para negócios. Não sou consumista, nem gosto de ostentar. Na faculdade ajudava os colegas a entender índices de correção, tabelas, investimentos, etc... Mas, repito, nada além do trivial.

Depois de formado, frequentei a Escola de Governo, o que abriu caminho para conhecer a história do pensamento econômico e acompanhar de perto o principal debate dos anos 80 e 90: o controle da inflação. Hoje, como todos nós bem sabemos, a questão central das economias emergentes são os juros e o câmbio.   

E é sobre juros que quero falar mais uma vez. Não como entendido, mas como curioso. A presidente Dilma decidiu enfrentar uma batalha dura pela redução das taxas cobradas pelos bancos, sobretudo o spread (que mede o risco de calote do devedor). Discussão que deixa muita gente confusa.

Por isso, vou tentar simplificar a questão, quem sabe não consigo ajudar os leigos a entenderem um pouquinho o que está acontecendo e se falar alguma bobagem, pode ser até que alguém mais esperto me ajude, corrigindo-me.

Um país funciona basicamente com produção, emprego, renda, consumo e poupança. Se o emprego vai bem, a renda aumenta, o consumo aumenta e produção e a poupança também. Só que para adquirir determinados bens de maior valor, como carros e imóveis por exemplo, é preciso de empréstimos. Emprestamos até um limite. Quando este limite é alcançado, só contraímos nova dívida depois de pagar o que devemos.

Com o Governo é mais ou menos assim também. Arrecada impostos, paga salários, benefícios, aposentadorias e pensões e cumpre um orçamento, que no caso brasileiro é superavitário. Para obras, investimentos e pagamento de juros de empréstimos contraídos irresponsavelmente no passado são necessários novos empréstimos.

E como o governo toma emprestado? De poupadores e investidores, nacionais ou estrangeiros.

O investidor compra um título da dívida pública que, ao final do prazo, tem que pagar a ele investidor a inflação mais um prêmio. A caderneta de poupança por exemplo paga 6,17% ao ano de juros, livre de IR e taxas bancárias.

Se o governo não tiver um papel que prometa pagar mais do que a poupança, não haverá investidores, certo? Hoje, a taxa selic, que serve de base para remunerar esses papéis está em 9% ao ano, sem descontar impostos e taxa de administração.

Portanto, para atrair investidores, o governo precisaria continuar pagando juros mais altos. E ao pagar mais, atrairia principalmente os que procuram prazos mais curtos. Um dinheiro que tem pressa de entrar, realizar e sair.

Mas quando esse dinheiro entra em boa quantidade no país, ele causa uma pressão sobre o câmbio e valoriza a nossa moeda. Com a nossa moeda mais forte, os preços dos produtos brasileiros ficam mais caros em dólar e, portanto, menos competitivos lá fora. Vendendo menos, o país tem menos divisas.

Além disso, há a competição com os bens que vêm de fora mais baratos. Logo, produzindo menos, a atividade econômica se retrai, empregos são extintos, a renda diminui, as dívidas dos trabalhadores aumentam... Nossa economia se desorganiza.

O que é preciso, então? Evitar que os rentistas fujam da recessão de seus países e fiquem aqui especulando sem produzir e, ao mesmo tempo, incentivar as pessoas a comprarem, o que compensaria a diminuição do consumo lá fora. E como isso seria possível?




Reduzindo-se os juros ainda mais, abaixo do limite do que paga hoje a caderneta de poupança. Grosso modo é rigorosamente isso que o Governo quer fazer, ao propor novo cálculo para rendimento das cadernetas de poupança, ou seja, forçar uma queda ainda maior nos juros.

Com o custo do dinheiro mais baixo, mais fácil fica contrair e pagar por novos empréstimos, o risco diminui para o credor e o spread cai. Só que os bancos privados apostaram que Dilma não mexeria no rendimento da poupança, por acharem a medida impopular, e decretaram que a taxa selic havia chegado ao piso. Perderam mais uma vez.

O povo já entendeu "empiricamente", que mexer com o rendimento da poupança é importante para o país dar mais um salto. E como as pessoas confiam em Dilma (basta ver os níveis de aprovação que ela tem) este é mais um debate superado a favor do Governo. Por isso, pode estar nascendo aí um novo momento econômico para nós.