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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Keneth Rapoza, na Forbes: as descobertas da Petrobras no pré-sal são, para o Brasil, o que pousar na lua foi para os EUA

Artigo publicado no site da Forbes e (muito mal) traduzido por mim.
As descobertas de petróleo em águas profundas no Rio de Janeiro em 2007 foram um salto à frente gigante para o Brasil.

Entre 1959 e 1969, o orçamento do governo dos EUA para o programa espacial foi de 225 bilhões (dólares de 2007) - e o do amado programa Apollo foi de US$ 136 bilhões. Andar na lua foi a superação dos cosmonautas russos pelos EUA. Foi também uma prova do que ficou conhecido como excepcionalismo americano. Alguns países tem isso. Outros não.

O Brasil tem.

Investidores e aventureiros selvagens, de Jacques Custeau a Sir Richard Branson, disseram que a exploração em alto mar é a próxima grande missão da Terra. Nós podemos explorar o fundo dos oceanos antes que o homem possa explorar Marte. E o que encontraremos no fundo do oceano provavelmente será algo que todos querem: petróleo.

A companhia petrolífera brasileira Petrobras achou - cerca de quatro anos atrás, na costa do Rio de Janeiro, quilômetros abaixo do nível do mar e mais um tanto abaixo do leito de sal do Oceano Atlântico. Estima-se que a Bacia de Santos armazena até 40 bilhões de barris de petróleo. A Petrobras a encontrou. Foi o pouso lunar do Brasil.

Nos próximos 10 anos, a indústria de petróleo e gás vai investir cerca de US $ 3 trillion exploração e perfuração de petróleo ao redor do mundo. Desse total, cerca de um terço será investido no Brasil. Ao longo dos próximos cinco anos, a Petrobras vai investir mais em petróleo de águas profundas (224,7 bilhões de dólares, segundo a empresa) do que a NASA gastou em 10 anos na missão Apollo.

Perfuração em águas profundas é caro. A perfuração do pré-sal exige tecnologias avançadas. É quase impossível ver abaixo todo o aquele sal. "É essencialmente ir onde nenhuma perfuração foi antes", disse José Valera, um advogado de Mayer Brown, ao Financial Times nesta semana. "Em águas profundas, é um verdadeiro esforço de exploração. Agora estamos descobrindo esses tremendos recursos. Isso realmente é uma nova fronteira ".

Cerca de 40% da Bacia de Santos foi leiloado, com outros 60% ainda a leiloar. Alguns poços estavam secos, mas, com base no que a Petrobras confirmou até agora, é provável que o Brasil passe de 19º  para quinto maior produtor de petróleo na Terra. Isso irá colocá-lo perto de Venezuela, um dos cinco maiores produtores de petróleo para os EUA.

A descoberta de petróleo pela Petrobras vai fazer tanto economicamente para o Brasil quanto a missão Apollo fez para a ciência americana. Os poços de petróleo da Petrobras no Atlântico não são um zumbido nacional temporário, como a Copa do Mundo da FIFA, que virá ao Brasil em 2014, ou até mesmo os Jogos Olímpicos de Verão de 2016. Isso é permamente, notícias boas de longo prazo para o Brasil.

"Toda a economia do Brasil vai se beneficiar muito com o que a Petrobras descobriu no oceano", diz Pedro Cordeiro, um analista do setor de petróleo e gás da Bain & Company no Rio de Janeiro. "O Brasil é o que a Noruega foi 34 anos atrás, pouco antes das descobertas do Mar do Norte. Antes disso, a maior exportação da Noruega era o bacalhau. Agora, eles produzem cerca de 2,2 milhões de barris de petróleo por dia. O Brasil vai produzir cerca de 2,5 milhões de barris por dia. Toda a tecnologia da Noruega para petróleo em águas profundas se expandiu, e agora eles exportam mais isso do que petróleo. Eles construíram a sua indústria de petróleo a partir do zero e hoje são um dos centros de petróleo do mundo. "O preço do petróleo Brent bruto é baseado principalmente no petróleo norueguês. "É para ai que o Rio está indo. Vai se tornar a nova Houston."

A Petrobras é de propriedade majoritária do governo, mas, fora os EUA e a Europa, este é um dos únicos mercados de petróleo estrangeiros que permite aos investidores estrangeiros entrar e perfurar. Todas as grandes do petróleo estão no Brasil por causa da Bacia de Santos, apesar de ter que formar parceria com a Petrobras e ceder de 30% da parceria para a gigante petrolífera brasileira. Todas as grandes de serviços de perfuração estão lá, mesmo sendo contra os incentivos do governo, que favorecem o crescimento dos atores locais. Elas estão lá porque tem que estar. O rico em petóleo Oriente Médio é majoritariamente fechado para empresas privadas. O Brasil na década de 2000 é tão bom quanto poderia ser. O setor está tão aquecido, que, quando a OGX Petróleo  (dirigida pelo bilionário da Forbes Eike Batista) fez uma oferta pública inicial para sua empresa em 2008, ela arrecadou quase US $ 5 bilhões dos investidores e ainda não tinha descoberto uma gota de óleo.

"A descoberta da Petrobras será uma bênção para a economia brasileira", diz Cordeiro de seu escritório na Cinelândia, uma região do Rio visitada pelo presidente Barack Obama em março. "Você está olhando para cerca de um trilhão de reais ($ 555 bilhões) em infra-estrutura necessária e eu estimo que 40% desse dinheiro será apenas para a indústria de petróleo e gás", diz ele. "O petróleo e o gás são importantes, mas haverá um montante de investimento devido a esta descoberta em áreas como biocombustíveis ou até mesmo a tecnologia de biocombustíveis."

O Brasil nem sempre percebeu isso bem. Eles estão constantemente propondo novas mudanças nos royalties sobre o petróleo, que pode irritar as companhias de petróleo estrangeiras, e mesmo a Petrobras, que também tem que pagá-los. A Agência Nacional do Petróleo quer leiloar mais campos de petróleo no segundo semestre de 2012, o primeiro leilão desde 2007. A  atual disputa por royaties entre os estados, clamando por sua parte da recompensa, está retardando as coisas tanto quanto o derramamento de óleo BP reduziu a produção no Golfo do México.

Isso é a política brasileira ordinária. A Petrobras enfrenta desafios extraordinários. Mas este é um programa e uma grande multinacional, que a política no Brasil nunca vai enfraquecer.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Foreign Policy: se José Serra for eleito, ele tentará reverter as novas regras que Lula propõe para o petróleo, escreve analista internacional de riscos

Segue artigo publicado pelo Foreign Policy. A tradução é minha mesmo (infelizmente), com alguma ajuda do Googlle.

Brasil se move agressivamente em direção a nacionalismo de recurso.
Qua, 11/25/2009 - 8:52 am


Por Ian Bremmer

A emergência do Brasil como um investidor amigável e a democracia de livre mercado tem sido uma das histórias mais estimulante do mundo nos últimos anos. Enquanto Hugo Chávez, da Venezuela, aperfeiçoa sua presonificaçãp de Fidel Castro, Equador e Bolívia seguem o exemplo de Chávez, e a economia da Argentina estrebucha, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, tem mantido políticas macroeconômicas responsáveis - enquanto redistribui riqueza para diminuir a distancia ainda considerável entre os ricos e os pobres.

Mas, enquanto ele começa o seu último ano de mandato, uma grande descoberta de petróleo no mar encorajou o seu governo a aprofundar o controle estatal do setor energético, turvando o cenário de investimentos.

Lula parece ganhar uma batalha legislativa sobre o futuro do setor de petróleo no Brasil. A estatal petrolífera terá, então, direitos exclusivos de exploração de qualquer nova exploração e produção em campos litorâneos, que, acredita-se, contem uma das maiores jazidas mundiais de petróleo descobertas nos últimos anos. O governo do Brasil irá controlar toda a actividade nos novos domínios, tomando as grandes decisões sobre o funcionamento e gestão do projecto. Ao longo do tempo, a Petrobras vai se tornar uma empresa bem maior, mas menos rentável e menos eficiente.

Não é nenhuma surpresa, então, que as companhias petrolíferas multinacionais oponham-se resolutamente a este plano. Apesar do enorme potencial nas áreas offshore, muitas delas podem simplesmente optar por não trabalhar com a Petrobras, nos termos que o governo brasileiro propôs. É por isso que há um risco real de que o Brasil tenha de recorrer a estatal chinesa e a outras estatais de energia para obter os recursos necessários para trazer este óleo para o mercado.

Isso será notícia ruim para aqueles que importam petróleo. Embora a Petrobras tenha os conhecimentos técnicos para o trabalho, a empresa já está ficando sobrecarregada com o desenvolvimento dos projetos existentes. O fato de que a Petrobras pode fazer o trabalho não significa que deveria. Parcerias com as multinacionais do petróleo (com muito mais experiência em gerenciamento de projetos para recuperar as quantidades máximas de depósitos de petróleo de profundidade) trariam mais petróleo para os consumidores - e mais mais rapido e eficientemente.

A oposição no Brasil também não está satisfeita com o projeto de Lula, mas sua popularidade (perto de 80%) calou a oposição. Mesmo o Governador de São Paulo, José Serra, o candidato mais provável para derrotar o sucessor preferido de Lula (Chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff) no próximo mês de Outubro, tem mantido a maioria de suas reservas para si mesmo. Os legisladores que normalmente se oporiam a um plano gerido pelo governo estão ansiosos para continuar nas boas graças de Lula como a aproximação das eleições.

As companhias petrolíferas multinacionais também estão se movendo cautelosamente. Elass têm exposto suas críticas através da Petróleo do Brasil Industry Association, mas tem evitado o envolvimento direto na dinâmica eleitoral do Brasil.

Sem uma oposição decidida, a legislação provavelmente irá passar. Se  José Serra ganhar as eleições presidenciais no próximo outono, ele provavelmente tentará reverter a legislação. Mas isso seria um processo longo. Se a Dilma ganhar, as companhias internacionais de petróleo só poderão esperar por uma eventual vitória na Justiça sobre a constitucionalidade do plano de reforma. De qualquer maneira, o setor de energia do Brasil será muito menos amigável com os investidores nos próximos anos.

Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Infomoney: capitalização da Petrobras para o pré-sal será transparente, acreditam analistas.

Matéria do Infomoney:

Analistas acreditam que capitalização da Petrobras será transparente.

Por: Equipe InfoMoney
23/11/09 – 17h56 -InfoMoney

SÃO PAULO - Os analistas da Itaú Corretora acreditam que a Petrobras (PETR3, PETR4) tem claras intenções de se capitalizar de forma transparente, sem prejudicar os acionistas minoritários, com base no comunicado ao mercado divulgado na última quinta-feira (19).

Dentre as principais notas do documento, o destaque foi a criação de um comitê de acionistas minoritários para acompanhar o processo de transferência dos direitos de exploração e a utilização de notas da dívida soberana na capitalização da empresa.

Pontos esclarecidos

Para a equipe da Itaú Corretora, o comunicado não traz nenhuma novidade, mas a empresa tornou alguns pontos mais claros, confirmando as primeiras impressões dos analistas. A instituição destacou três pontos adicionais importantes, sendo os dois primeiros que: o comitê de acionistas minoritários não terá direito de veto; e o valuation de 5 milhões de boe (barris de óleo equivalentes) será feito entre a empresa e a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis).

Além disso, não somente o governo, mas os acionistas minoritários poderão usar notas da dívida soberana brasileira para subscrição no aumento de capital. Também ficou claro que apenas acionistas atuais poderão participar desse aumento, de modo que se trata de uma oferta privada. O tamanho e o prazo para a capitalização, entretanto, ainda não foram definidos.

Recomendação

Na visão dos analistas, embora seja cedo para os investidores relaxarem com relação à capitalização, esse é "um bom começo", e o processo deve ser feito de maneira clara e transparente, segundo a equipe do Itaú. Os analistas chamam atenção para os potenciais efeitos de transação no mercado de capitais do País e na percepção dos investidores estrangeiros ao risco.

Com isso, a Itaú Corretora reiterou a impressão de que a capitalização será feita sem riscos e trará impactos positivos nas ações da empresa. Assim, foi mantida a recomendação outperform (desempenho acima da média do mercado), e o preço alvo de R$ 51,30, com base em dezembro de 2010, para as ações preferenciais da empresa. O valor representa um upside de 33% com base no fechamento de 19 de novembro.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Estadão: Produtividade do pré-sal pode reduzir custos.

ANÁLISE-Produtividade do pré-sal pode reduzir custo de produção.
DENISE LUNA E BRIAN ELLSWORTH - REUTERS

RIO DE JANEIRO - A declaração de alta produtividade de mais um poço do pré-sal, divulgada pela Petrobras na noite de quarta-feira, pode levar a empresa a reduzir ainda mais o número de poços a serem perfurados para os sistemas de produção na região e com isso diminuir seus elevados custos.

Na avaliação do diretor financeiro da estatal, Almir Barbassa, os resultados que vêm sendo obtidos confirmam cada vez mais o potencial da região. Mas não se pode estender a informação para todos os poços do pré-sal.

"Isso (produtividade) pode ter influência na determinação no número de poços, mas não se pode estender essa informação para tudo, não quer dizer que todas as áreas vão produzir nessa ordem", disse o executivo à Reuters nesta quinta-feira.

"A área é muito grande... ainda temos muito trabalho", completou.

Na noite de quarta-feira a Petrobras anunciou ter concluído dois testes de formação no poço 4-RJS-647, local informalmente denominado de Iracema, na parte norte da área de Tupi, registrando elevado potencial de produtividade.

Segundo a empresa, com base nos testes pode-se estimar uma produção inicial de 50 mil barris/dia quando o sistema for implantado.

O poço revelou também óleo mais leve do que em Tupi --32 graus API em Iracema contra 28 na primeira descoberta do pré-sal. Quanto mais perto de 50, melhor a qualidade do óleo e maior seu valor comercial.

Em junho, Barbassa informou que a empresa em 2008 estimava perfurar 30 poços para a produção de 120 mil barris/dia no pré-sal, sendo 20 para produção e dez para a reijeção. Estudos posteriores reduziram essa o número de perfuraçães para 20, sendo 12 para produção e 8 para injeção.

"Aquilo era com o conhecimento da época, agora testamos Iracema e Guará, que estão na faixa de 50 mil bpd ou mais", explicou, sem saber informar quantos poços seriam necessários agora. "Isso ainda depende de estudo de E&P", disse referindo-se à área de Exploração e Produção da companhia que decide esse tipo de trabalho.

"O importante é que os poços que estamos fazendo até agora estão dando resultados melhores do que o esperado", complementou.

O analista de upstream na América Latina da Wood Mackenzie Ruaraidh Montgomery, concorda com a visão de Barbassa.


"O grande custo para esses campos são os poços, porque você tem que fazer uma perfuração profunda, mas os sinais são muito positivos", disse.

Para o consultor Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infra-Estrutura, cada vez que uma notícia dessa é divulgada as dúvidas em relação ao pré-sal vão se diluindo.

"Com certeza essas notícias mostram que o pré-sal é uma reserva bastante grande, e Iracema mostrou que é um negócio ... com um óleo mais leve ainda que em Tupi".

Ele destacou no entanto que apesar das boas indicações a comercialidade desses poços só virá em 2010. "Ainda tem muitas etapas para cumprir antes da declaração de comercilidade", lembrou Pires.

"Mas o importante é que naquela área, seja em Guará, Tupi ou Iara, estamos vendo perfurações acompanhadas de notícias boas", concluiu.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ronaldo Bicalho: com as regras para exploração do pré-sal, "o que está sendo discutido é o país que nós queremos e o que estamos dispostos a fazer para construí-lo."

Segue o artigo publicado por Ronaldo Bicalho em seu blog.

Segundo seu currículo no Sistema Lattes, formado em Engenharia Química pela UFRJ, o autor é pesquisador e professor da mesma institução, onde obteve também o grau de mestre e doutor em Planejamento Energético e Economia da Industria e da Tecnologia, respectivamente.

Postado por Ronaldo Bicalho em 19 outubro 2009 às 11:00

."o cerne da discussão é justamente a ampliação do controle estatal na exploração das riquezas do pré-sal, de forma a auferir o máximo de benefícios dessa exploração, sob uma ótica estratégica de longo prazo que transcende os limites da indústria petroleira. De fato, o que se está discutindo é um projeto de desenvolvimento do país calcado no grande potencial de riqueza representado pelo pré-sal."

A discussão sobre as propostas do Governo envolvendo a regulamentação da exploração do pré-sal tem sido acalorada. Considerando que o tema é complexo, muitas vezes o calor da disputa gera argumentos que contribuem muito mais para dificultar do que para facilitar a compreensão do que está sendo discutido.

Há uma passagem no clássico de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, em que a personagem principal pergunta ao gato qual o caminho que ela deveria tomar e ele responde: “Isso depende muito de para onde você quer ir”.

A singela resposta do gato à Alice pode ser um bom conselho para quem deseja encontrar o fio da meada que o ajude a compreender as escolhas que estão sendo colocadas na mesa na discussão sobre o pré-sal.
Em um folder produzido pela Petrobras, a justificativa para a adoção pelo Governo brasileiro do regime de partilha é a seguinte:

“Com o regime de partilha, o governo pretende obter maior controle da exploração dessa riqueza e fazer com que os recursos obtidos sejam revertidos de maneira mais equânime para a sociedade brasileira. Portanto, esse modelo é mais apropriado ao contexto atual e ao desenvolvimento social, econômico e ambiental do País.”

A palavra-chave desse parágrafo é controle, pois é ela que nos ajuda a entender mais claramente a proposta do Governo. Na verdade, é justamente a ampliação do controle do Estado sobre a exploração das riquezas presentes no pré-sal que estrutura essa proposta.

Em função disso, a principal questão é entender qual é a natureza desse controle e quem irá exercê-lo.

Aqui, não se trata apenas de ampliar a participação do Estado na renda petrolífera, mas de ampliar o controle do Estado sobre o processo de geração dessa renda. Isto implica em aumentar o controle estatal, não só sobre todas as etapas da produção do petróleo, mas também sobre o destino final dado a este petróleo e sobre todas as articulações do setor petrolífero com os outros setores industriais e de serviços.

Nesse sentido, a questão fundamental não é simplesmente aumentar os benefícios advindos da renda petrolífera per se, mas maximizar o conjunto de benefícios associado a toda a cadeia petrolífera, incluídos aqueles relacionados à criação de um dinamismo industrial calcado na internalização da produção da chamada indústria parapetrolífera.

O controle exigido para se alcançar essa vasta gama de benefícios envolve um conjunto de mecanismos que possibilite a gestão estratégica de um conjunto de variáveis-chave que inclui: o conhecimento geológico, a capacitação tecnológica na produção em águas profundas, a escolha dos fornecedores, o ritmo de exploração dos recursos e o destino dado à produção.

Nesse contexto, o conflito aparente entre os objetivos de se deter um maior controle e de se obter uma renda maior pelo Estado é resolvido pela introdução de uma visão estratégica acerca da exploração da riqueza do pré-sal. Nesse caso, o importante não é alcançar a maior parcela de renda no curto prazo e, em função disso, sacrificar a parcela necessária do controle para atingir tal objetivo; mas, implementar um controle estratégico da exploração que permita auferir o máximo de benefícios durante todo o tempo em que durar essa exploração.

Portanto, trata-se de controlar aspectos fundamentais da exploração do pré-sal que permitam gerir esse processo sob uma perspectiva estratégica de longo prazo, que, no caso específico, envolve um tempo que abarca distintas gerações de brasileiros. Portanto, estamos falando de escolhas mais do que inter-temporais, estamos falando de escolhas inter-geracionais.

Sob essa visão, o maior controle não implica na redução dos benefícios obtidos pelo Estado; pelo contrário, é justamente o maior controle por parte do Estado que viabiliza a maior obtenção desses benefícios no longo prazo. Em outras palavras, trata-se de se contrapor a uma visão de curto prazo, que privilegia a maior obtenção de renda hoje, uma visão de longo prazo que, mesmo sacrificando ganhos aparentes no presente, possibilite auferir de forma sustentável ganhos mais significativos no futuro.

Essa concepção estratégica, de longo prazo, marcada pela busca da ampliação do controle do Estado, se manifesta em vários pontos do conjunto de projetos de lei enviado ao Congresso pelo Executivo brasileiro.

Vejamos os mais importantes:

A mudança do regime de concessão para partilha.

No regime de concessão o controle da produção e do petróleo extraído pertence à empresa que detém a concessão. No caso do regime de partilha, esse controle e essa propriedade passam a ter uma interveniência muito maior do Estado.

No modelo proposto pelo Governo, a União participará diretamente das decisões de cada projeto de exploração e terá a propriedade de parte significativa do petróleo produzido.

Essa participação governamental se dará diretamente no âmbito do Comitê Operacional específico a cada projeto. Caberá a esse comitê administrar o consórcio que detém o direito de explorar cada jazida; definindo os planos de exploração e de avaliação das descobertas; declarando a comercialidade de cada jazida e indicando o plano de desenvolvimento; e definindo os programas anuais de trabalho e produção, os termos de unitização, etc.

O controle dos Comitês Operacionais ficará a cargo do Governo, que indicará a metade dos seus membros e mais o seu presidente, tendo direito a um voto de qualidade e poder de veto nas decisões.

Portanto, o controle do Estado sobre a produção proposto pelo Governo se dá no lócus central das decisões; ou seja, no Comitê Operacional. Logo, a mudança do regime não visa apenas uma maior participação do Estado na renda petrolífera em função da redução do risco exploratório, mas controlar as decisões de produção que irão gerar essa renda.

Por isso, a afirmação de que o regime de concessão, com pequenas alterações, poderia alcançar os mesmos objetivos carece de fundamentação. Se a questão se resumisse a parcela da renda apropriada pelo Estado, essa afirmação mereceria alguma consideração; contudo, se o objetivo pretendido é o controle do processo de geração dessa renda, essa afirmação não se sustenta e, mais do que isso, contribui para esconder a questão central que é justamente aquela referente a quem controla esse processo.

A Petrobras como única operadora do pré-sal


Como operadora, a Petrobras irá conduzir as atividades de exploração e produção, providenciando os recursos humanos e materiais para a execução das atividades. Além de ter acesso à informação estratégica, a Petrobras terá controle sobre a produção e os custos e sobre o desenvolvimento da tecnologia e das relações com os fornecedores de máquinas, equipamentos e serviços.

Dessa forma, todo o processo de aquisição de conhecimento geológico, aprendizagem tecnológica e industrial envolvendo o pré-sal passa a ser controlado pela Petrobras.

Nesse sentido, a participação da Petrobras de 30 % em todos os consórcios surge como uma contrapartida da empresa, em termos do seu comprometimento com as atividades de exploração e produção, ao exercício da exclusividade na função de operadora no pré-sal.

A questão-chave aqui para o exercício do controle do Estado sobre o pré-sal não são os 30 %, mas a exclusividade da Petrobras como operadora nesta área de exploração.

A Petro-sal


Diferentemente do que imaginam alguns analistas, a Petro-sal joga um papel-chave nos mecanismos de controle do Estado proposto pelo Governo.

A Petro-sal irá representar os interesses da união nos contratos de partilha de produção e estará presente nos Comitês Operacionais que definirão as atividades dos consórcios, com direito a voto de qualidade e poder de veto nas decisões; estando representada nesses comitês através de metade dos seus membros mais o presidente.

Entre suas principais atribuições estarão a representação dos interesses da união nos contratos de partilha de produção, o monitoramento e a auditagem dos custos e investimentos nos contratos de partilha e a gestão dos contratos para a comercialização do petróleo da União.

Dessa forma, a natureza do controle do Estado muda radicalmente com a criação da Petro-sal. No regime anterior de monopólio, a União transferia para a Petrobras o exercício do controle da produção, enquanto que no regime de concessão, aplicado a partir de 1998, a União transferia esse controle para as empresas que detinham as concessões obtidas nos leilões.

De agora em diante, o Estado exerce o seu controle diretamente no lócus da decisão de produção que é o Comitê operador de cada jazida. Dessa maneira, o Estado pretende ampliar o seu controle direto sobre o conjunto de empresas que exploram o pré-sal; inclusive sobre a própria Petrobras.

A cessão onerosa e a capitalização da Petrobras


A cessão onerosa e a capitalização da Petrobras devem ser analisadas em conjunto. E aqui não se trata apenas de colocar a disposição da Petrobras um volume importante (5 bilhões de barris) de reservas, de baixo risco e produtividade elevada, que pertence à União, mas, de, mediante o processo de capitalização, aumentar a participação da União na composição do capital da Petrobras.

Assim, o Estado brasileiro, por um lado, reforça a posição financeira da sua própria empresa para fazer face aos investimentos necessários à exploração do pré-sal, e, por outro, aumenta a sua participação acionária nesta mesma empresa, canalizando a maior parte dos ganhos possíveis para os cofres federais.

Assim, mais uma vez, a questão da ampliação do controle, como forma de viabilizar o acesso a ampla gama de benefícios advindos da exploração do pré-sal, aparece como o elemento estruturante da proposta do Governo brasileiro.

A mudança do contexto


A sustentação da proposta do Governo de maior controle do Estado sobre a indústria de petróleo no Brasil se baseia na consideração de que houve uma mudança radical no contexto desta indústria no país.

Assim, em contraste com a situação na qual atual legislação foi criada, nos anos noventa, em que o Brasil e a Petrobras estavam inseridos em um contexto de instabilidade econômica, de preço baixo de petróleo (Us$ 19 o barril), de dependência do óleo importado e de exploração com elevados riscos, hoje, o contexto é de estabilidade econômica, de preços de petróleo muito mais altos, de auto-suficiência, e de exploração do pré-sal com riscos exploratórios muito mais baixos.

Por outro lado, as condições de tranqüilidade no mercado de petróleo da década passada foram substituídas por tensões cada vez maiores neste mercado que se traduziram na elevação dos preços desse energético e em disputas geopolíticas cada vez mais acirradas.

Assim, a afirmação de que o petróleo seria uma mercadoria como outra qualquer, tão comum nos anos noventa, e que, em parte, sustentava a abertura dos mercados, hoje, diante dos fatos objetivos, encontra muitas dificuldades de ser sustentada.

Essa mudança na percepção do papel do petróleo, na qual ele deixa de ser uma simples commodity para se tornar um insumo energético estratégico, contribui para uma construção institucional que contempla a ampliação do papel do Estado nessa indústria.

Portanto, a proposta de mudança do marco institucional para a província do pré-sal ultrapassa a questão específica do reduzido risco exploratório. Na verdade, a mudança contempla uma visão distinta do papel estratégico a ser desempenhado pelo setor petrolífero brasileiro a partir do pré-sal; tanto no que concerne a uma nova inserção internacional do país, quanto às próprias condições objetivas de sustentação dessa nova inserção.

Nesse sentido, o cerne da discussão é justamente a ampliação do controle estatal na exploração das riquezas do pré-sal, de forma a auferir o máximo de benefícios dessa exploração, sob uma ótica estratégica de longo prazo que transcende os limites da indústria petroleira.

De fato, o que se está discutindo é um projeto de desenvolvimento do país calcado no grande
potencial de riqueza representado pelo pré-sal.

A proposta do Governo traz embutida uma visão de desenvolvimento e do papel estratégico do Estado neste desenvolvimento. Portanto, não diz respeito, simplesmente, a uma discussão sobre vantagens e desvantagens dos regimes de exploração - concessão versus partilha -, das vantagens e desvantagens da participação da Petrobras em todos os consórcios, das vantagens e desvantagens da cessão onerosa e da capitalização da Petrobras, das vantagens e desvantagens da criação de uma nova estatal e, assim por diante. Na proposta governamental há um eixo central que estrutura o conjunto de projetos de lei e é este eixo central que deve ser discutido. Pode-se concordar com ele, ou não. Porém, fatiar a discussão e tentar levar o debate de forma fragmentada não ajuda ao cidadão a compreender o que está sendo, de fato, discutido.

O que está sendo discutido é o controle do Estado brasileiro sobre a exploração das nossas riquezas. O que está sendo discutido é o nível desse controle, os seus custos e os seus benefícios. O que está sendo discutido é qual o nível de soberania que queremos e podemos exercer sobre as nossas riquezas. O que está sendo discutido é o país que nós queremos e o que estamos dispostos a fazer para construí-lo.

Em suma, meus amigos, o que está sendo discutido é o lugar onde se quer chegar e o caminho que se tem que tomar para alcançá-lo. Por isso, seguindo o conselho do gato à Alice, discutir o caminho sem saber onde se quer chegar não tem nenhuma serventia. A não ser que não se saiba onde se quer chegar ou, pior, se saiba, mas não se queira ou não se possa dizê-lo claramente na discussão.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Valor Econômico: por seu tamanho, as reservas do pré-sal são atrativas mesmo com o novo marco regulatório, diz agência internacional especializada.

Segue a matéria, creditada ao Valor Econômico pelo Minaspetro, de cujo site foi tirado o original (ou a cópia copiada), que está aqui.

AIE avalia que interesse de estrangeiros supera restrições

Com tanto petróleo em jogo e o acesso a reservas inexploradas sendo frequentemente restringidas em outros países, a camada do pré-sal brasileiro continuará a atrair as companhias internacionais de petróleo mesmo se o regime de exploração que foi definido em projeto a ser votado pelo Congresso Nacional favorecer o Estado.

É o que diz a Agência Internacional de Energia (AIE), entidade dos países industrializados, que em seu relatório periódico sobre a situação do petróleo analisa as propostas do governo Luiz Inácio Lula da Silva que poderão determinar como "presumíveis" 50 bilhões de barril ou mais de petróleo recuperável serão produzidos na "mais recente e mais significativa fronteira do óleo desde o desenvolvimento no Cáspio".

Destaca que, enquanto o governo moldou o regime de exploração como um "novo dia de independência do Brasil", observadores indagam se o modelo poderia dificultar um desenvolvimento rápido e lucrativo das reservas e restringir o acesso a uma "das poucas oportunidades atrativas nas quais as companhias internacionais de petróleo podem investir".

Para a AIE, uma preocupação é de que o atual ambiente de concorrência possa sofrer "mesmo que a Petrobras seja amplamente admirada por seu rápido desenvolvimento na exploração offshore de petróleo em recentes anos". Lista também temores de que o crescente papel do governo resulte em interferência política nas decisões operacionais. E que o atual regulador de energia, a Agência Nacional de Petróleo (ANP), seja escanteada pelo maior papel do Ministério de Minas e Energia, Petro-sal e Conselho Nacional de Política Energética (CNPE).

Na avaliação da agência dos países industrializados, em todo caso, o maior peso do Estado servirá sobretudo para garantir que a exploração das gigantescas reservas do pré-sal seja gradual, e portanto mais lenta, comparado com um sistema no qual considerações do mercado e de companhias dominariam a velocidade do desenvolvimento, e do declínio, da produção.

A AIE diz que "outros observadores" detectaram imperativos políticos, antecedendo a eleição presidencial do ano que vem, na pressa do governo para aprovar as propostas no Congresso.

Mas constata que a camada do pré-sal é tão grande que continuará atraindo as petroleiras. Nota que elas já são ativas no Brasil e contribuíram para o recente crescimento da produção. Exemplifica que Chevron e Shell começaram neste verão a produção nos seus campos de Frade e Parque das Conchas, que vão resultar em 80 mil e 100 mil barris por dia, respectivamente. BG e Galp compartilham com Petrobras o campo de Tupi, o primeiro campo do pré-sal a ser explorado.

Assim, "apesar do potenciais soluços regulatórios", as reservas do pré-sal deverão ser um dos sustentáculos principais para o crescimento da produção em países não membros da Opep, o cartel do petróleo, conclui a AIE.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Bresser-Pereira: sem a mudança no marco regulatório, a riqueza do pré-sal se tornaria uma maldição.

Segue o artigo, para aqueles que precisam que um tucano lhes diga no que acreditar, com grifos meus e pedidos de deculpas pela pequena e incontrolável maldade.

O original está aqui.


LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

O pré-sal e a nação.

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Ao criticar FHC, Lula errou porque deu a um problema que deve unir a nação um viés político-partidário
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Ao criticar o governo Fernando Henrique Cardoso no lançamento dos projetos do marco regulatório do pré-sal, o presidente Lula errou porque deu a um problema que deve unir a nação um viés político-partidário. Errará também a oposição se adotar uma posição contrária ao cerne de um plano que é do maior interesse nacional.

Se a regulação do pré-sal continuar sob a legislação atual ou for malfeita, essa bênção da natureza pode se transformar em uma maldição, porque significará que não soubemos neutralizar a "doença holandesa" associada à abundância de petróleo. O governo compreendeu esse fato, e, nesses dois anos, realizou os estudos necessários para evitar esse mal. As três decisões que constituem o cerne de seu plano são a opção pelo sistema da partilha, a criação da Petro-Sal e a criação de um fundo soberano para receber os recursos da partilha.

Asseguradas essas três coisas, o Brasil terá a flexibilidade necessária para neutralizar a "doença holandesa" e promover o desenvolvimento nacional. A opção pelo mecanismo da partilha, em vez do das concessões, está correta porque os riscos das empresas serão pequenos, e porque esse mecanismo facilita à nação se assenhorear das "rendas" do petróleo (os ganhos decorrentes da maior produtividade dos recursos naturais), ficando para as empresas exploradoras os lucros -o s ganhos que dão retorno ao investimento e à inovação. A legislação em vigor, de 1997, usou o mecanismo da concessão porque naquela época o risco era grande e o tema da "doença holandesa" não estava na agenda nacional. Diante dos fatos novos, porém, não faz sentido apegar-se a ela.

O conservadorismo local, entretanto, está acusando os quatro projetos de "nacionalistas" e "estatizantes". Quanto ao primeiro epíteto, não é acusação, é elogio. Os cidadãos dos países ricos são todos nacionalistas - tão nacionalistas que não precisam usar essa palavra para se distinguir uns dos outros. Por isso, seus ideólogos podem usar essa palavra de forma pejorativa procurando, assim, neutralizar o necessário nacionalismo econômico dos países em desenvolvimento.

E o que dizer do epíteto de "estatizante" porque cria a Petro-Sal? Isso também não faz sentido. O Brasil já passou a fase em que o papel do Estado é o de realizar investimentos nas indústrias de base. O setor privado já tem suficiente capital para isso e é reconhecidamente mais eficiente e mais inovador do que o setor estatal em produzir nos setores competitivos da economia. A Petro-Sal será uma pequena empresa 100% estatal; não será operacional, mas proprietária das reservas. Através dela poderemos ter o sistema de partilha com alíquotas flexíveis dependendo do preço internacional do petróleo.

Mas não será o plano "eleitoreiro"? Será se o PSDB insistir em se opor a suas proposições básicas. Não é a posição do governador José Serra, mas poderá ser a de muitos representantes do partido, que, se criticarem o cerne do plano, estarão se identificando com os interesses das empresas petrolíferas internacionais. E, assim, fortalecerão eleitoralmente o candidato do governo. Há certos problemas que não permitem tergiversação. O Brasil já sofre os males da falta de neutralização da "doença holandesa" oriunda das exportações de ferro e de produtos agropecuários. Se também não souber evitar a sobreapreciação muito maior que será proveniente de um pré-sal mal regulado, o processo de desindustrialização em marcha se acelerará, e seu desenvolvimento econômico estará definitivamente prejudicado.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

The Wall Street Jornal: as grandes petroleiras podem conviver com o marco regulatório do pré-sal.

Segue a matéria, retirada daqui, em mais uma (péssima) tradução minha, com alguma ajuda do Google, e com alguns grifos meus.


Dia da Independência: Brasil desenha novas regras para o petróleo maítimo.

O Brasil anunciou, hoje, novas regras para proteger suas inexperadas reservas de petóleo. A grande questão é saber se a longamente esperada mudança realmente fortalece o Brasil e a estatal Petrobras, ou se ela sai pela culatra, por assustar os investimentos de empresas internacionais de petróleo.

As novas regras, trabalhadas por um ano, alteram as regras para os enormes campos marítimos de petróleo do Brasil para realização de acordos de partilha, em vez de concessões totais.

Isto significa que se os preços do petróleo subirem, como alguns esperam, a maioria dos ganhos adviriam para o governo brasileiro,não para as companhias petrolíferas(o preço do petróleo não subiu de hoje, caindo abaixo de 70 dólares por barril.)

As grandes petroleiras podem viver com isso. Estes acordos são a regra na África Ocidental, onde tantos as empresas como as nações, como Angola, lucraram poderosamente.

O presidente brasileiro, Lula anunciou as novas regras como "dia da nova independência" para o Brasil. Eles nomearam a Petrobras como o operador para todos os campos do "pré-sal" marítimo brasileiro (os campos estão sob enormes pedaços de sal no fundo do mar, que constituem o grosso da recente do descoberta do Brasil). A Petrobras terá o direito de explorar algumas áreas exclusivamente. Mesmo aquelas abertas aos investidores internacionais vão a Petrobras detendo uma participação mínima de 30%. E as regras são orientadas para maximizar a receita para o governo brasileiro: licitantes estrangeiros ganhadores serão aqueles que oferecem a maior parcela para o governo.

Isto significa que a Petrobras terá suas mãos cheias e as Exxons e Shells do mundo terão de se contentar com um banco de trás.

Finalmente, para sublinhar como política brasileira para a riqueza do petróleo está se tornando, o país irá criar uma nova estatal, Petrosal, que irá gerenciar todo o seu petróleo e gás. Embora que a Petrosal não tenha nada a dizer sobre os investimentos ou de operações, ela vai ter "direitos de voto e poder de veto que irão definir as atividades do consórcio", segundo a Petrobras.

Cinco anos atrás, essa iniciativa poderia ter parecido arriscada, se não totalmente insensata. Hoje, porém, as coisas mudaram.

Companhias petrolíferas ocidentais, para começar, estão desesperados colocar as mãos em petróleo encontrado em qualquer lugar que eles - e os campos marítimos do Brasil estão entre as maiores descobertas do mundo nas últimas décadas. Recentemente, as grandes petroleiras estão dispostas a aceitar termos cada vez mais duros para a exploração de petróleo no Iraque; a atração dos enormes campos de petróleo da Venezuela, para algumas, supera os riscos de negociar com o governo Chávez.

E à Petrobras não falta experiência na exploração de petróleo no mar, que é mais complicada e mais cara do que a produção em terra.

Ainda assim, colocar o desenvolvimento da riqueza do Brasil em petróleo sobre os ombros da Petrobras poderia testar a empresa. Ela já planeja uma forma legal para levantar novos fundos para sustentar a exploração marítima, que pode precisar de ainda mais dinheiro as novas regras dissuadirem as Exxons, Chevrons e Shells do mundo.

Valor Econômico: novo marco regulatório talvez não afaste empresas privadas.

Segue, com alguns grifos meus, a matérica publicada hoje pelo Valor Econômico.

O original está aqui, disponível apenas para assinantes.

Petroleira sinalizam participação no novo modelo.

De Brasília, São Paulo e Rio - VALOR

As primeiras - e ainda escassas - manifestações das empresas petrolíferas que já operam no Brasil indicam a intenção de ampliar investimentos em exploração e produção de petróleo, o que significa atuar dentro do modelo de partilha da produção. A portuguesa Galp e a britânica BG deram sinais neste sentido ontem. A Galp, cujo presidente Manuel Ferreira de Oliveira esteve ontem com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, foi explícito na intenção de ampliar sua presença no país. “Estaremos presentes em todas as licitações, mas não podemos especular o que resultará desta presença”, afirmou o presidente da Galp.

Já a BG, em resposta enviada ao Valor, ponderou que a empresa pretende “construir um planejamento de atividades de longo prazo no Brasil e espera continuar com a cooperação com o governo brasileiro dentro do novo marco regulatório”. De acordo com a empresa, as propostas do governo precisam ser examinadas “atentamente”, antes da companhia expressar uma visão definitiva sobre o assunto. “No entanto, recebemos bem do governo a garantia de que os contratos existentes não serão afetados pela nova legislação”, acrescentou a empresa, em nota de sua assessoria de comunicação.

Oliveira [presidente da GALP) mostrou apoio à mudança de regras. “Hoje o risco caiu abruptamente, o marco regulatório tem que estar associado ao risco”, explicou. A Galp é sócia da Petrobras em 50 projetos, entre eles seis na camada do pré-sal: Júpiter, Tupi, Iara, Iracema, Caramba e Bem-te-vi. Segundo ele, a visita teve caráter de apoio. “Viemos hoje agradecer ao ministro Lobão pela qualidade do trabalho entregue ao Congresso e manifestar o compromisso da nossa presença aqui”, disse o executivo da Galp.

O presidente da empresa portuguesa garantiu ainda que participará também da licitação das áreas de petróleo fora da região do pré-sal, que será realizada pelo governo. O ministro disse ontem que ela deverá acontecer em novembro. Para o presidente da Galp, o país adotou modelo praticado em outros países. Em 2000, quando foram feitas as primeiras licitações e não se conhecia o potencial do pré-sal e o risco era alto, o melhor era a concessão, no seu entender.

Oliveira disse ainda que vê como vantagem a participação da Petrobras como única operadora em todos os blocos do pré-sal, como prevê o projeto do governo. Segundo ele, se houvesse mais operadores teria necessidade de “um entendimento profundo”. Ferreira de Oliveira comemorou ainda o fortalecimento da Petrobras. Ele disse que parceria é isto, “nos alegramos com o sucesso dos nossos parceiros”.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, demonstrou preocupação com o novo modelo definido pelo governo para o pré-sal. Se as mudanças introduzidas gerarem desconfiança ou insegurança, ele advertiu que isso pode vir a “sepultar” os investimentos planejados por muitas empresas estrangeiras de petróleo e gás no país. (Agências noticiosas)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Dow Jones: O BG Group pretende continuar operando no Brasil sob o novo marco regulatório.

Segue a nota, retirada daqui, em mais uma (péssima) tradução minha, com alguma ajuda do Google, e com alguns grifos meus.


RIO DE JANEIRO - (Dow Jones) - o BG Group PLC (BG.LN), gigante britânico do petróleo, elogiou a intenção do governo brasileiro de honrar os contratos de concessão existentes para as promissoras jazidas de petróleo, segundo comunicado da emrpesa.

"Saudamos as garantias do governo de que os contratos existentes não serão afetados pela nova legislação. Portanto, acreditamos que o desenvolvimento das concessões existentes irá decorrer conforme planejado," o BG disse em um comunicado enviado por email.

O BG é um importante operador do bloco BM-S-52, que contém o Corcovado-1. A empresa tem uma participação de 40% no bloco, enquanto a estatal brasileira de energia gigante Petrobras (PBR) detém uma quota de 60%.

O BG também tem uma participação de 25% no BM-S-11 block, que inclui as descobertas de Tupi e Iara. As reservas recuperáveis dos dois campos foram estimados entre 8 bilhões e 12 bilhões de barris de óleo equivalente.

Apesar das alterações propostas ao quadro regulamentar do Brasil, o BG disse que a estabilidade global de regulamentação fez do país um bom lugar para se operar.

"Nós valorizamos o clima investidor que o Brasil tem desenvolvido. Estabilidade contratual, designadamente quando as empresas assumiram riscos consideráveis e os desafios técnicos, é um princípio fundamental", disse o BG Group .

"Pretendemos construir uma actividade materia a longo prazo no Brasil, e o BG Group aguarda com expectativa a continuação da cooperação com o governo brasileiro dentro do novo quadro regulamentar", a empresa acrescentou.

O discurso de Lula na apresentação do novo modelo de exploração de petróleo para o pré-sal.

Segue, na íntegra, o discurso proferido ontém pelo Presidente Lula. É longo e, portanto, pode vir a ser considerado maçante por muitos. Mas, além de um documento histórico, ele tem a virtude de explicar as razões do governo para a adoção do que propôs. Obviamnte. ninguém precisa concordar com elas, mas qual será o motivo para escondê-las, tratando tudo como oba-oba eleitoreiro e doença nacionalista.

Independente do modelo que venha a ser implantado, trata-se de um momento histórico, que pode sim significar uma virada na vida deste país. Assim, assusra a leviandade com a qual o assinto é tratado.

Grifei muitos trechos do original.

Minha querida companheira Marisa Letícia,
Excelentíssimo senhor presidente do Senado, José Sarney,
Excelentíssimo presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer,
Ministra Dilma Roussef, ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República; ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, em nome dos quais cumprimento todos os ministros aqui presentes,
Quero cumprimentar todos os governadores que vieram ao lançamento do pré-sal,
Quero cumprimentar as autoridades dos Superiores Tribunais aqui de Brasília,
Quero cumprimentar os nossos amigos senadores e deputados que estão presentes,
Quero cumprimentar os membros do corpo diplomático,
Quero cumprimentar os prefeitos aqui presentes,
Em nome dos empresários eu gostaria de cumprimentar o nosso companheiro José Sérgio Gabrielli, presidente da nossa gloriosa Petrobras,
E o Luciano Coutinho, presidente do BNDES,

Minhas amigas e meus amigos,

Hoje é um dia histórico.

O governo está enviando ao Congresso Nacional sua proposta do marco regulatório para a exploração de petróleo e gás no chamado pré-sal.

Estou seguro de que, nos próximos meses, os deputados e senadores, recolhendo também as contribuições de governadores e prefeitos, aperfeiçoarão as propostas do governo, trabalhando com responsabilidade, espírito público, compromisso com o país e, sobretudo, muita visão de futuro.


Estou seguro também de que o povo brasileiro entrará de corpo e alma nesse debate tão importante para o destino do Brasil e para o futuro dos nossos filhos.

Porque esse não é um assunto apenas para os iniciados e especialistas. Nem é tampouco um tema que deva ficar restrito somente ao parlamento. Ao contrário, ele interessa a todos e depende de todos.

Por isso mesmo, quero convocar cada brasileiro e cada brasileira a participar desse grande debate. Trabalhadores, donas de casa,
lavradores, empresários, intelectuais, cientistas, estudantes, servidores públicos, todos podem e devem contribuir para que tomemos as melhores decisões.

Minhas amigas e meus amigos,

O chamado pré-sal contém jazidas gigantescas de petróleo e gás, situadas entre cinco e sete mil metros abaixo do nível do mar, sob uma camada de sal que, em certas áreas, alcança mais de 2 mil metros de espessura.

Não se pode ainda dizer, com certeza, quantos bilhões de barris o pré-sal acrescentará às reservas brasileiras. Mas já se pode dizer, com toda segurança, que ele colocará o Brasil entre os países com maiores reservas de petróleo do mundo.

Trata-se de uma das maiores descobertas de petróleo de todos os tempos. E em condições extremamente importantes: as reservas encontram-se num país de grandes dimensões, de grande população e de abundantes recursos naturais. Um país que conta com um regime político estável e instituições democráticas em pleno funcionamento. Um país pacífico que faz questão de viver em paz com seus vizinhos. Um país que possui uma economia sofisticada, com um parque industrial diversificado, uma agropecuária de ponta e um setor de serviços moderno. Um país que, tendo dado passos importantes na superação das desigualdades sociais, encontrou seu caminho e está maduro para dar um salto no desenvolvimento.

Como já disse em outra oportunidade, o pré-sal é uma dádiva de Deus. Sua riqueza, bem explorada e bem administrada, pode impulsionar grandes transformações no Brasil, consolidando a mudança de patamar de nossa economia e a melhoria das condições de vida de nosso povo.

Mas o pré-sal também apresenta perigos e desafios. Se não tomarmos as decisões acertadas, aquilo que é um bilhete premiado pode transformar-se em fonte de enormes problemas. países pobres que descobriram muito petróleo, mas não resolveram bem essa questão, continuaram pobres.

Outros caíram na tentação do dinheiro fácil e rápido. Passaram a exportar a toque de caixa todo o óleo que podiam e foram inundados por moedas estrangeiras. Resultado: quebraram suas indústrias e desorganizaram suas economias. E, assim, o que era uma dádiva transformou-se numa verdadeira maldição.

Para evitar esse risco, desde o primeiro instante, determinei à comissão de ministros que preparou o marco regulatório do pré-sal que trabalhasse em cima de três diretrizes básicas.

Primeira: o petróleo e o gás pertencem ao povo e ao Estado, ou seja, a todo o povo brasileiro. E o modelo de exploração a ser adotado, num quadro de baixo risco exploratório e de grandes quantidades de petróleo, tem de assegurar que a maior parte da renda gerada permaneça nas mãos do povo brasileiro.

A segunda diretriz é de que o Brasil não quer e não vai se transformar num mero exportador de óleo cru. Ao contrário, vamos agregar valor ao petróleo aqui dentro, exportando derivados, como gasolina, óleo diesel e produtos petroquímicos, que valem muito mais. Vamos gerar empregos brasileiros e construir uma poderosa indústria fornecedora dos equipamentos e dos serviços necessários à exploração do pré-sal.

A terceira diretriz: não vamos nos deslumbrar e sair por aí, como novos ricos, torrando dinheiro em bobagens. O pré-sal é um passaporte para o futuro. Sua principal destinação deve ser a educação das novas gerações, a cultura, o meio ambiente, o combate à pobreza e uma aposta no conhecimento científico e tecnológico, por meio da inovação. Vamos investir seus recursos naquilo que temos de mais precioso e promissor: nossos filhos, nossos netos, nosso futuro.

Ao examinar os projetos de lei que estamos enviando hoje ao Congresso, depois de tanto trabalho e estudo, vejo com satisfação que eles estão em perfeita sintonia com essas diretrizes.

Minhas amigas e meus amigos,

Uma mudança importante no marco regulatório será a adoção do modelo de partilha de produção no pré-sal e em outras áreas de potencial e características semelhantes. É uma mudança absolutamente necessária e justificada.

Estamos vivendo hoje um cenário totalmente diferente daquele que existia em 1997, quando foi aprovada a Lei 9.478, que acabou com o monopólio da Petrobras na exploração do petróleo e instituiu o modelo de concessão.

Naquela época, o mundo vivia um contexto em que os adoradores do mercado estavam em alta e tudo que se referisse à presença do Estado na economia estava em baixa. Vocês devem se lembrar como esse estado de espírito afetou o setor do petróleo no Brasil. Altas personalidades naqueles anos chegaram a dizer que a Petrobras era um dinossauro – mais precisamente, o último dinossauro a ser desmantelado no país. E, se não fosse a forte reação da sociedade, teriam até trocado o nome da empresa. Em vez de Petrobras, com a marca do Brasil no nome, a companhia passaria a ser a Petrobrax – sabe-se lá o que esse xis queria dizer nos planos de alguns exterminadores do futuro.

Foram tempos de pensamento subalterno. O país tinha deixado de acreditar em si mesmo. Na economia, campeava o desalento. O Brasil não conseguia crescer, sofria com altas taxas de juros, de desemprego, e juros estratosféricos, apresentava dívida externa elevadíssima e praticamente não tinha reservas internacionais. Volta e meia quebrava, sendo obrigado a pedir ao FMI ajuda, que chegava sempre acompanhada de um monte de imposições.

Além disso, não produzíamos o petróleo necessário para nosso consumo. Ferida, desestimulada e desorientada, a Petrobras vivia um momento muito difícil. Tinha dificuldades de captação externa e não contava com recursos próprios para bancar os investimentos. Nessa época, é bom lembrar – e a Dilma já falou – o preço do barril do petróleo estava em torno de US$ 19.

Hoje, nós vivemos um quadro é inteiramente diferente. Em primeiro lugar, os países e os povos descobriram na recente crise financeira internacional que, sem regulação e fiscalização do Estado, o deus-mercado é capaz de afundar o mundo num abrir e fechar de olhos. O papel do Estado, como regulador e fiscalizador, voltou, portanto, a ser muito valorizado.

A economia do Brasil vive também um novo momento. De 2003 a 2008, crescemos em média, 4,1% ao ano. Nos últimos dois anos, nosso crescimento foi superior a 5%. Nesse período, o país gerou cerca de onze milhões de empregos com carteira assinada. O desemprego caiu de 11,7% para 8%, em 2008. Hoje, as taxas de juros atuais são as menores de muitas décadas em nosso país.

Não só pagamos a dívida externa pública, como acumulamos reservas superiores a US$ 215 bilhões. E mais: reduzimos de modo consistente a miséria e as desigualdades sociais. Mais de 30 milhões de brasileiros saíram da linha da pobreza e 20 milhões ingressaram na nova classe média, fortalecendo o mercado interno e dando vigoroso impulso à nossa economia.

O fato é que hoje temos uma economia organizada, pujante e voltada para o crescimento. Uma economia que foi testada na mais grave crise internacional desde 1929 e saiu-se muito bem na prova. Não só não quebramos, como fomos um dos últimos países a entrar na crise e estamos sendo um dos primeiros a sair dela. Antes, éramos alvo de chacotas e de imposições. Hoje, nossa voz, a voz do Brasil, é ouvida lá fora com muita atenção e com muito respeito.

Meus queridos companheiros e companheiras,

Desde o primeiro instante, meu governo deu toda força à Petrobras. Passamos a cuidar com muito carinho do nosso querido dinossauro. Os recursos da empresa destinados à pesquisa e ao desenvolvimento deram um salto de US$ 201 milhões, em 2003, para R$ 960 milhões, em 2008.

A companhia voltou a investir, aumentou a produção, abriu concursos para contratação de funcionários, encomendou plataformas, modernizou e ampliou refinarias, além de construir uma grande infra-estrutura de gás natural e entrar também na era de biocombustíveis.

Deixamos claro que nossa política era fortalecer, e não debilitar, a Petrobras. E a companhia – estimulada, recuperada e bem comandada – reagiu de forma impressionante
.

Resultado: a Petrobras vive hoje um momento singular. É o orgulho do país. É a maior empresa do Brasil. É a quarta maior companhia do mundo ocidental. Entre as grandes petroleiras mundiais, é a segunda em valor de mercado. É um exemplo em tecnologia de ponta. Descobriu as reservas do pré-sal, um feito extraordinário, que encheu de admiração o mundo e de muito orgulho os brasileiros. É uma empresa com crédito e autoridade internacionais. Tanto que, nos últimos meses, levantou cerca de US$ 31 bilhões em empréstimos. Seus investimentos previstos até 2013 somam US$ 174 bilhões.

E ainda para ajudar, para completar, o preço do barril de petróleo oscila hoje em torno de US$ 65, mais do triplo do que em 1997.

Em suma, os tempos e o ambiente no mundo são outros. A situação da economia brasileira é outra. O Brasil e o prestígio do Brasil são outros. A Petrobras é outra. E outra também é a situação do mercado do petróleo.

Minhas amigas e meus amigos,

Também não há termos de comparação entre as áreas que vinham sendo exploradas até agora e as áreas do pré-sal.

No pré-sal, os riscos exploratórios são baixíssimos. A taxa de sucesso dos poços operados pela Petrobras na área é de 87%, sendo que nos blocos situados na Bacia de Santos ela é de 100%. Foram 13 poços perfurados. E nos 13 comprovou-se a existência de grandes quantidades de óleo e gás, com excelentes perspectivas de viabilidade econômica.

Nessas circunstâncias, seria um grave erro manter na área do pré-sal, de baixíssimo risco e grande rentabilidade, o modelo de concessões, apropriado apenas para blocos de grande risco exploratório e baixa rentabilidade.

No modelo de concessões, a União, proprietária do subsolo, permite que as companhias privadas procurem petróleo, mediante o pagamento de uma taxa chamada bônus de assinatura. Se elas encontrarem óleo ou gás, podem extraí-lo e comercializá-lo como quiserem. São donas do petróleo arrancado das entranhas da terra, porque, a partir da boca do poço, a União perde os direitos de propriedade, recebendo apenas uma parcela pequena da renda do petróleo, na forma de royalties e participações especiais.

Já no modelo de partilha, que prevalece em todo o mundo em áreas de baixo risco exploratório e grande rentabilidade, a União continuará dona da maior parte do petróleo e do gás mesmo depois de sua extração. Nesse modelo, o Estado não transfere toda a propriedade do óleo para grupos privados, mas fecha contratos para a exploração e a produção em determinada área – diretamente com a Petrobras ou, mediante licitação, no caso de outras companhias.

No modelo de partilha, as empresas são remuneradas com uma parcela do óleo extraído, suficiente para cobrir seus custos e investimentos e ainda proporcionar uma rentabilidade adequada ao risco do projeto. Já o Estado fica com a maior parte dos lucros da exploração e produção de petróleo, parte esta bem superior ao que recebe hoje no regime de concessão. A regra do modelo de partilha é clara: nas licitações, vence a empresa que oferecer a maior parcela do lucro da operação para o Estado e para o povo brasileiro.

Amigas e amigos,

Como no modelo de partilha a maior parte do petróleo, mesmo depois de extraído, continuará a pertencer ao Estado, ela controlará o processo de produção. Assim, ela poderá definir claramente o ritmo de extração, calibrando-o de acordo com os interesses nacionais, sem se subordinar às exigências do mercado. Dessa maneira, ficará mais fácil para o Brasil contornar os riscos inerentes à produção excessiva, que poderia inundar o país de dinheiro estrangeiro, desorganizando nossa economia – aquilo que os especialistas chamam de doença holandesa.

Além disso, poderemos produzir petróleo nas condições que mais convêm ao país. E desse modo poderemos aproveitar a riqueza do petróleo, que Deus nos deu, para produzir mais riqueza ainda com o nosso trabalho.

Dessa forma, consolidaremos uma poderosa e sofisticada indústria petrolífera, promoveremos a expansão da nossa indústria naval e converteremos o Brasil num dos maiores pólos mundiais da indústria petroquímica do mundo.

Trabalhando com essa perspectiva, encomendaremos – e produziremos aqui dentro – milhares e milhares de equipamentos, gerando emprego, salário e renda para milhões de brasileiros.

Minhas amigas e meus amigos,

Para gerir os contratos de partilha e os contratos de comercialização de petróleo e gás, zelando pelos interesses do Estado e do povo brasileiro, estamos criando uma nova empresa estatal na área do petróleo, a Petrosal.

Ela não concorrerá com a Petrobras, já que não participará da prospecção ou da exploração de petróleo e gás. Sua missão é inteiramente diferente. A nova estatal será, isso sim, a representante dos interesses do Estado brasileiro, o olho atento do povo brasileiro, acompanhando e fiscalizando a execução dos contratos firmados na área do pré-sal.

Será uma empresa enxuta, com corpo técnico altamente qualificado, formado por profissionais com experiência comprovada. Em vários países que adotaram o modelo de partilha, empresas com esse caráter revelaram-se imprescindíveis para defender os interesses públicos e nacionais nas negociações e na gestão de contratos e processos complexos e sofisticados como os que caracterizam a indústria petrolífera.

Minhas amigas e meus amigos,

Se vocês estão cansados, imaginem eu. Outra novidade importante é a criação do Fundo Social. Ele será responsável pela administração da renda do petróleo e pela sua aplicação em investimentos seguros e de boa rentabilidade, tanto no Brasil como no exterior.

De um lado, o novo fundo será uma mega-poupança, um passaporte para o futuro, que preservará e incrementará a renda do petróleo por muitas e muitas décadas. Os rendimentos do fundo serão canalizados, prioritariamente, para a educação, a cultura, o meio ambiente, a erradicação da pobreza e a inovação tecnológica. Vamos aproveitá-los para pagar a imensa dívida que o país tem com a educação e para permitir que a aplicação do conhecimento científico seja, na verdade, a nossa maior garantia do nosso futuro.

De outro lado, o novo fundo funcionará, também, como um dique contra a entrada desordenada de dinheiro externo, evitando seus efeitos nocivos e garantindo que nossa economia siga saudável, forte e baseada no trabalho e no talento dos milhões e milhões de brasileiros.

Assim, a renda gerada pela produção do pré-sal será administrada de forma planejada e inteligente. E seu ingresso na economia nacional será dosado de modo a fortalecê-la e a impulsioná-la, jamais a desorganizá-la.

Minhas amigas e meus amigos,

Não poderia deixar de prestar aqui uma sincera homenagem à Petrobras, a sua diretoria e a todo o seu corpo de funcionários.

A descoberta do pré-sal, que coloca o Brasil num novo patamar no cenário mundial, não foi fruto do acaso ou de um golpe de sorte. Ao contrário, ela só foi possível graças ao talento, à competência e à determinação da Petrobras. E também, é claro, graças ao revigoramento da empresa nos últimos anos, à recuperação da sua autoestima e aos investimentos crescentes em pesquisa e prospecção.

Poucas empresas no mundo têm hoje a experiência da Petrobras na exploração de petróleo em águas profundas e ultraprofundas. E nenhuma empresa petrolífera conhece e é capaz de obter resultados tão expressivos em nossa plataforma submarina como ela. Trata-se de um ativo, de um patrimônio de enorme valor, que deve ser bem e de forma extraordinária aproveitado.

Por isso mesmo, a Petrobras terá um status especial no marco regulatório do pré-sal. Será a única empresa operadora nessa província. Outras empresas poderão ter participação, inclusive majoritária, nos consórcios que explorarão os blocos contratados. Mas a operação – vale dizer, a exploração, o desenvolvimento, a produção e a desativação das instalações – estará sempre a cargo da nossa querida e orgulhos Petrobras.

Além disso, as reservas do pré-sal, que pertencem ao Estado e ao povo brasileiro, oferecem uma excelente oportunidade para que a União fortaleça a Petrobras para enfrentar os novos desafios. Nesse sentido, estamos enviando projeto de lei ao Congresso Nacional autorizando a União a promover aumento de capital da companhia. O valor total do aumento de capital será aquilo que a ministra Dilma já falou, de até cinco bilhões de barris equivalentes de petróleo, obviamente, relativos às jazidas contíguas às áreas que a empresa já detém no pré-sal.

Nos termos da lei, os acionistas minoritários que desejarem participar dessa chamada de capital poderão adquirir ações da companhia, o que contribuirá para reforçar economicamente nossa maior empresa nesse momento decisivo.

Se os acionistas minoritários não exercerem integralmente seus direitos de opção, a capitalização promovida pela União implicará aumento da participação do povo brasileiro no capital total da Petrobras.

Minhas amigas e meus amigos,

Nesse momento em que o Brasil discute o melhor caminho para se tornar um grande produtor mundial de petróleo, quero render minhas homenagens a todos os brasileiros que lutaram para que este sonho se transformasse em realidade.

Em primeiro lugar, homenageio os que acreditaram quando era mais fácil descrer. E não deram ouvidos às aves de mau agouro que, durante décadas, apregoaram aos quatro ventos que o Brasil não tinha petróleo. Foram, por isso, chamados de fanáticos e maníacos. Ainda bem que houve fanáticos que nos ensinaram a duvidar dos preconceitos e a ter fé em nossas próprias forças.

Rendo minha homenagem também aos que se insurgiram contra a ladainha que proclamava que, mesmo que o Brasil tivesse petróleo, não teria competência para explorá-lo
. E que deveria deixar essa tarefa para o capital estrangeiro. Muitos foram tachados de lunáticos, prisioneiros de uma idéia fixa, como o grande e saudoso Monteiro Lobato, porque teimaram em lutar para que o Brasil explorasse suas riquezas. Benditos lunáticos que ensinaram o país a enxergar longe, em tempos de escuridão, e iluminaram os caminhos dos que vieram depois.

Rendo minha homenagem ainda aos que saíram às ruas em todo o país na campanha do “O Petróleo é nosso”, levando o presidente Getúlio Vargas a instituir o monopólio estatal do petróleo e a criar a Petrobras. Foi uma batalha travada em condições duríssimas. Basta ler os jornais da época, alguns em circulação até hoje, que ridicularizavam a campanha nacionalista. E eu digo: bendito nacionalismo, que permitiu que as riquezas da nação permanecessem em nossas mãos.

Rendo homenagem muito especial, por fim, a todos os que defenderam a Petrobras quando ela foi atacada ao longo de sua história – e ainda hoje – e aos funcionários e petroleiros que se mantiveram de pé quando a empresa passou a ser tratada como uma herança maldita do período jurássico. Benditos amigos e companheiros do dinossauro, que sobreviveu à extinção, deu a volta por cima, mostrou o seu valor. E descobriu o pré-sal – patrimônio da União, riqueza do Brasil e passaporte para o nosso futuro.

Olho para trás e vejo que há algo em comum em todos esses momentos, algo que unifica e dá sentido a essa caminhada, algo que nos trouxe até aqui e ao dia de hoje: é, sinceramente, a capacidade do povo brasileiro de acreditar em si mesmo e no nosso país. Foi em meio à descrença de tantos que querem falar em seu nome… O povo – principalmente ao povo – devemos esse momento atual.

É como se houvesse uma mão invisível – não a do mercado, da qual já falaram tanto, mas outra, bem mais sábia e permanente, a mão do povo – tecendo nosso destino e construindo nosso futuro. Não creio que seja uma coincidência o fato de a Petrobras ter descoberto as grandes reservas do pré-sal justamente num momento da vida política nacional em que o povo também descobriu em si mesmo grandes reservas de energia e de esperança. Num momento em que o país, deixando para trás o complexo de inferioridade que lhe inculcaram durante séculos, aprendeu como é bom andar de cabeça erguida e olhar com confiança para o futuro.


Muito obrigado, companheiros.