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sexta-feira, 8 de abril de 2016

O recorte, a ruína e a construção.

Já não é novidade para ninguém: é possível contar mentiras falando só verdades. A cuidadosa organização de fatos e ideias pode construir conclusões, no mínimo, enviesadas.

A Míriam Leitão publicou esta semana um texto com o bombástico título de “A ruína econômica”. Ele trabalha a imagem de Brasil, terra arrasada, tão cara aos construtores da destituição da Presidenta Dilma. E, claro, arruma fatos incontestáveis de forma a induzir a conclusão inafastável: foi Dilma quem destruiu tudo.


Nesta altura do campeonato, acho que ninguém seria capaz de negar a péssima situação econômica do país. Também não dá pra negar a bagunça política e institucional instalada.

Mas talvez dê pra disputar a ordem dos fatores, que, se não altera o produto, pode sim tornar mais complexo o debate a sobre causas, efeitos e soluções.

Por outro lado, talvez existam outros fatores na construção da nossa situação econômica.

Não disponho do instrumental teórico para fazer, a sério, este debate – apesar de ter sim uma opinião sobre o assunto. E, antes que alguém acuse, sim, ela inclui responsabilidades da Presidenta pelo quadro atual.

Contudo, voltando ao texto da Míriam, dá sim para denunciar a estratégia discursiva adotada por ela - com direito a planilha cheia de dados corretos e de muitas lacunas, arrumados, ambos, para legitimar a opinião da jornalista. Na tabelinha (colada lá no final), ela compara dados econômicos do ano da eleição da Presidenta (2010) e atuais, provando que Dilma causou a “ruína econômica”.

O recado é claro: estava tudo ótimo; aí, veio Dilma; aí, tudo foi arruinado.

Então, tá. Não vou nem lembrar que, lá em 2010, a jornalista não dizia que estava tudo ótimo. Mas será que este recorte temporal (defensável, até) não esconde algo?

Fui atrás dos dados – e eles estão na tabelinha abaixo.



É óbvio que estes dados não desmentem o quadro ruim atual. A economia, de fato, vai mal. Mas, ao contrário da impressão passada pelo recorte escolhido pela Míriam Leitão, não, não descemos ladeira direto desde a eleição da Dilma.

Na verdade, alguns aspectos – como o desemprego! – chegaram a melhorar durante a gestão da Presidenta.

O que a Míriam Leitão fez, e, diante da sua experiência, não tenho porque fingir que não foi intencional, foi juntar dados e, principalmente, lacunas, de forma a excluir da análise, e de qualquer conclusão, uma série de fatores interpostos entre as datas que ela escolheu como referencial.

De novo, não tenho o instrumental teórico para fazer a sério o debate sobre as causas da nossa situação atual. Mas, de qualquer forma, parece bem ilógico tirar do debate, dentre outros, os seguintes fatores, cuidadosamente obliterados pelo recorte temporal feito pela Míriam:

- os efeitos econômicos diretos da Lava Jato, que completa dois anos e afetou setores da economia (construção civil e petróleo), investimentos e arrecadação, havendo quem a responsabilize por uma queda de 2% do PIB só em 2015;
- forte queda do preço do petróleo, iniciada em 2014, que também afeta o setor petroleiro (e toda a sua cadeia), com efeitos sobre os investimentos, o crescimento do PIB e claro, a arrecadação; e
- as incertezas políticas, já que, por acaso (morte do Eduardo Campos) ou por ação das oposições, desde meados de 2014, o Brasil não sabe muito bem quem estará no comando dentro de 6 meses.

Vamos pegar como exemplo os dados de 2013 - terceiro ano do mandato da Dilma e antes da "crise política", da Lava Jato, e da queda do preço do petróleo. O país não crescia mais a 7,5%, mas o desemprego havia caído, o IPCA e a dívida bruta não haviam subido e a SELIC estava mais baixa; e a situação fiscal tinha piorado, sim, mas não parece que de forma explosiva. (O dólar tinha subido. Mas isso é ruim?)

Exceção feita ao desemprego, que caiu!, o jogo começa a virar em 2014, ano de eleição, como lembra a Mírian, mas também ano da queda do preço do petróleo, do começo das propagandas da Lava Jato e do início das grandes incertezas políticas.

Mas estes dados e fatores foram intencionalmente escondidos no texto e nesta tabela da Mírian, que, assim, cria sua verdade sem contar nenhuma mentira, constrói com fatos e lacunas a responsabilidade exclusiva da Presidenta Dilma pela nosso situação atual:


******

Fontes dos dados:
Dívida: http://www.bcb.gov.br/htms/Infecon/seriehistDBGGFC.asp
Resultados: Ipeadata : Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito primário - sem desvalorização cambial - acum. 12 meses e Necessidade de financiamento do setor público (NFSP) - setor público - conceito nominal - sem desvalorização cambial - acum. 12 meses

quinta-feira, 30 de julho de 2015

S&P: das 15 maiores economias, cinco tem viés negativo, Alemanha e Canadá entre elas.



Então é isso: a Standard & Poor´s reviu a perspectiva do risco econômico para investidores no Brasil.

Mantivemos a nota e o tal "investiment grade", mas, segundo a empresa, a tendência não é boa. Nossa nota pode diminuir na próxima avaliação.

Mesmo que voce, como eu, veja estas avaliações com desconfiança, a notícia não é boa. Muita gente, gente com dinheiro, não compartilha nossa opinião e toma decisões de negócio e investimento olhando para estes "ratings".


Por outro lado, a notícia poderia ser pior. Tinha muita gente por aí prevendo, apostando (torcendo?), que perderíamos o grau de investimento. Ficamos a um passo disso, mas não perdemos. Menos mal. Talvez..

De qualquer forma, triunfantes (com a nossa suposta derrota como país), os insuspeitos analistas de sempre, aqueles mesmo que fingem não existir uma crise mundial, apregoam: "viu, a crise brasileira colocou nossa nota em viés negativo".

Beleza: ponto pra eles.

Mas... será?

Hoje de manhã, a mesma S&P publicou no twitter o gráfico acima, com o risco e a perspectiva de risco das 15 maiores economias mundiais.

E o que ele mostra? Entre outras coisas,

(1) que sim, a S&P nos vê com risco alto - mas empatado com a Espanha e, vejam voces, a China e melhores que a Rússia;
(2) que, dos 15, apenas 2 países tem perspectiva de risco positiva - Reino Unido e a sofrida Espanha (dos 25% de desempregados); e
(3) que mais 4 países tem perspetiva de aumento do risco - Rússia, Índia, Canadá (sim, o Canadá) e Alemanha (isso mesmo, a poderosa Alemanha).

Sei não, mas não me parece exatamente um quadro mundial de economia bombando. Ao contrario, na média, de orelhada, não seria mais sensato falar em uma situação de perspectiva de aumento de risco para a economia mundial? Ou, ao menos, trabalhar com essa hipótese nas análises?

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Pesquisadora da FGV: com aumento real de 76% na última década, salário mínimo foi o principal fator na redução da desigualdade.

Da EBC.


Ao completar 75 anos de vigência no Brasil, o salário mínimo registra o maior poder de compra e pode ser considerado fator fundamental para a redução da desigualdade no país. A avaliação é da cientista política, historiadora e professora da Fundação Getúlio Vargas, Dulce Pandolfi.

Dos arquivos do blog:

Ela lembrou que o salário mínimo foi criado pela Lei nº 185 de janeiro de 1936 e surgiu como um direito social em meio à chamada Era Vargas. A partir daí, começou a ser implementada uma legislação focada no trabalhador, que resultou na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada em 1943.

“Nos últimos anos, o país registrou grandes avanços. Na realidade, quando se fala que a desigualdade social diminuiu, a razão principal é ter um salário mínimo com poder de compra maior. O valor real dele aumentou muito. Claro que ainda temos uma quantia baixa, mas este é o período com seu maior poder de compra”, avaliou.

Dados do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Econômicos indicam que cerca de 46,7 milhões de brasileiros – entre empregados domésticos, trabalhadores rurais e beneficiários de programas sociais – têm como remuneração básica o salário mínimo.

O aumento real do mínimo, nos últimos 11 anos, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, foi 76,5%. Com o valor fixado em R$ 788, a partir de 1º de janeiro deste ano, o poder de compra é estimado em 2,22 cestas básicas.

“É a maior média anual registrada desde 1979 e resume bem as conquistas de todos os trabalhadores brasileiros nos últimos 12 anos”, avaliou o ministro Manoel Dias, por meio de nota. “Mesmo diante do quadro econômico atual, são boas notícias, que merecem ser mostradas nesta data”, concluiu.

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rosseto, avaliou o salário mínimo como um extraordinário ganho para garantir renda básica aos trabalhadores e aposentados. “É um reconhecimento do trabalho e a preservação, portanto, de uma qualidade de vida básica”, disse.

sábado, 16 de março de 2013

Os efeitos econômicos da igualdade de gêneros

Uma abordagem meio utilitária, mas, ainda assim, interessante.

A propaganda não é engraçada. E, além de absurda, a concepção ilustrada ainda rouba talentos, capital humano.

Gender Equality Pays Off in Brazil
Otaviano Canuto (Otaviano Canuto é vice-presidente do Banco Mundial e chefe de Redução da Pobreza e Gestão Econômica (PREM))

O sucesso do Brasil na redução da pobreza e da desigualdade de renda tem sido amplamente divulgado nos últimos anos. O que é menos conhecido é que também tem havido progresso em diminuir a desigualdade de gênero nas últimas duas décadas. As taxas de analfabetismo para as mulheres com 15 anos ou mais caiu de 20,3% em 1991 para 9,8% 2008. A parcela da força de trabalho feminina com ensino superior aumentou de 7,4% em 1992 para 11,9% em 2008  e agora é mais elevada que a dos homens. Políticas do governo - algumas delas implementadas em cooperação com o setor privado - também têm abordado as necessidades das mães, provendo cuidados de saúde antes e durante a gravidez e no parto, cuidados com a infância e educação. Na violência de gênero, a promulgação da Lei Maria da Penha já trouxe alguns resultados.



Não obstante esses marcos, ainda há muito a ser feito. Por exemplo, as disparidades de gênero no acesso ao emprego formal e na renda ainda persistem no Brasil. Mesmo que com um aumento na proporção de mulheres empregadas no setor não-agrícola, sua vantagem comparativa em educação não tem se refletido nos salários pagos no mercado - apesar do maior nível de habilidade média da força de trabalho feminina. Em 2008, os salários das mulheres eram apenas 84% o dos homens - e a distância aumenta em níveis mais elevados de educação. Entre aqueles com 12 anos ou mais de escolaridade, as mulheres ganhavam apenas 58% dos salários dos homens. Em grande parte, a diferença salarial parece refletir as práticas discriminatórias e normas sociais. As mulheres brasileiras, mesmo aqueles que trabalham em tempo integral, continuam a suportar o peso do tempo destinado para as tarefas da família.

A este respeito, vale a pena lembrar como Relatório do Banco Mundial sobre o Desenvolvimento Mundial 2012: Igualdade de Género e Desenvolvimento destacou vários canais através dos quais o crescimento econômico e o bem-estar social podem se beneficiar da menor desigualdade de gênero. Por exemplo: pense nas provas bem estabelecidas de que os bebês tendem a ter mais peso e altura quando as mulheres têm mais poder de negociação sobre a renda familiar, com consequências óbvias em termos de saúde e capacidade de trabalho da população adulta.

No caso do Brasil, Pierre-Richard Agênor e eu recentemente mostramos os impactos da redução da desigualdade de gênero no aumento do crescimento econômico, com o desenvolvimento de um modelo macroeconômico com o qual se pode simular os resultados de políticas específicas. Suponha, por exemplo, que o governo implemente com sucesso leis contra a discriminação, que levem a uma completa eliminação da discriminação de gênero contra as mulheres no local de trabalho. Usando dados do Brasil, nossos cálculos baseados nos modelos sugerem que uma política de "trabalho igual, salário igual" poderia adicionar até 0,2 pontos percentuais à taxa de crescimento do produto interno bruto anual do país. Este é apenas o efeito direto do aumento do pagamento que as mulheres "levariam para casa", não considerando outros efeitos sobre a alocação de talentos e a produção de capital humano.

Você pode se surpreender com a variedade de mecanismos através dos quais diminuir a desigualdade de gênero pode impulsionar o crescimento econômico. Pense em investimentos em infra-estrutura, tão terrivelmente necessários atualmente no Brasil. Muitos analistas já apontaram várias maneiras pelas quais mais e melhor infra-estrutura no Brasil elevaria o seu ritmo atual de crescimento, reduzindo o desperdício de tempo e recursos na produção e transporte. O que pode ter sido menos percebido é o seu efeito sobre o crescimento através da ... redução da desigualdade de gênero! Mais e melhor acesso às estradas rurais, água, redes de energia e outros reduziria o tempo das mães alocado para as tarefas domésticas e elevaria o tempo dedicado ao mercado de trabalhos, à acumulação de capital humano e à criação dos filhos. Este último também é produtivo, já que leva à melhoria da saúde tanto na infância e idade adulta. Fundamentalmente, o aumento do tempo dedicado a acumulação de capital humano aumenta o poder de barganha das mulheres, o que se traduz em uma preferência maior da família para a educação de meninas e para a saúde das crianças, em um aumento da percentagem média da renda familiar gasto com as crianças e em  uma menor preferência pelo consumo atual.

Mais uma vez, usando o nosso modelo, simulamos os efeitos de um neutro aumento do orçamento em termos de gastos governamentais com investimento em infraestrutura, do seu valor atual de cerca de 2,1% do PIB para 3,1%. Os cálculos sugerem que esta política poderia adicionar entre 0,5 e 0,9 pontos percentuais à taxa anual de crescimento do Brasil, contabilizando os efeitos diretos e indiretos - mais notavelmente por meio de mudanças na alocação de tempo das mulheres e seu poder de barganha sobre os recursos da família.

Uma das conclusões de um recente simpósio sobre Desigualdade de Gênero em Mercados Emergentes, no Green Templeton College, Universidade de Oxford foi:

A desigualdade de gênero é ruim pra economia. Ela priva economias nacionais dos talentos das mulheres. Ela reduz o potencial produtivo da força de trabalho. Ela restringe o consumo, diminui as receitas fiscais e limita os benefícios nacionais e pessoais do investimento em educação feminina, forçando as mulheres para profissões e ocupações que exigem menos que i pleno uso de suas habilidades e capacidades.

Nossos experimentos numéricos com Igualdade de Género e Crescimento Econômico no Brasil corroboram isso.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A inflação está voltando?

E, mais uma vez, começa a gritaria: "a inflação voltou". E, mais uma vez, repete-se a mistificação de que, até 2002, ela estava sob controle. E, mais uma vez, alardeia-se que a inflação está cada vez maior. Voltou? Estava sob controle em 2001/2002? Está aumentando?

Dos arquivos do blog:


Sei não, mas acho que estes dados  mostram outro quadro (o que não quer dizer que a inflação não deva preocupar):
- o primeiro governo FHC registrou um IPCA anual médio de 9,71%, tendo começado com a inflação na casa dos 22% e terminado com ela perto de 1,5%;
- no segundo mandato do FHC, a inflação anual média teve pequena queda, para 8,78%, mas a curva ascendente foi bem acentuada, já que o índice saltou de 1,65% no término do primeiro período para 12,53% em 2002;
- o primeiro governo Lula registrou um IPCA anual médio mais baixo, de 6,14%, reverteu a curva ascendente e terminou com uma inflação de 3,14% em 2006;
- o segundo mandato do Lula começou com um IPCA anual de 4,46% e terminou com um índice de 5,91%, registrando, na média, uma inflação anual de 5,15%, ainda mais baixa que a do mandato anterior;
- tendo por base as projeções de inflação para o biêmio 2013/2014, o governo Dilma encerrará com um IPCA médio 5,89%, ligeiramente superior aos 5,15% do segundo governo Lula, mas ainda inferior à metade do índice do último ano sob FHC;
- considerados os dois mandatos de cada um, sob FHC tivermos um IPCA anual médio de 9,24%, frente a uma taxa média de 5,79% registrada ao longo do governo do Lula; e, finalmente,
- tendo por base as projeções de inflação para o biênio 2013/2014, durante todo o governo do PT, a média anual do IPCA seria de 5,82%, dois terços daquela registrada no governo anterior.
Pergunta-se: dá pra dizer a sério que a inflação voltou agora? Que ela estava sob controle no quadriênio 1999/2002, quando registrou-se uma média de quase 9% ao ano - e em curva ascendente?

Abaixo, seguem alguns gráficos que ajudam a visualizar essa sopa de números.

gráfico ipca inflacao anual 1994 2014

gráfico do ipca inflacao media FHC LULA DILMA

grafico do ipca inflacao media I FHC LULA DILMA

Duas observações:
1 – eu sei que o IPCA anual em 1994, ultimo ano do mandato do Itamar e ano do Plano Real, foi de 916,43%; e
2 – os índices marcados com “**”, obviamente, são expectativas, obtidas aqui.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Financial Times: Brasil saiu de moda no mercado financeiro, mas ainda é "o país mais empolgante do mundo".

Matéria da BBC Brasil.

Ruth Costas, da BBC Brasil

Deu no Financial Times: o Brasil é "o país mais empolgante do mundo". Ao menos foi o que defendeu a última edição da revista semanal desse diário econômico britânico, com a manchete Aí vem o Brasil e artigos que tratam de temas ligados ao boom da classe C brasileira.

Dos arquivos do blog:


A realidade, porém, é que desde 2012 ficou mais difícil encontrar quem partilha dessa "empolgação" nos mercados e na imprensa internacional. "Após um período de quase euforia com o Brasil no exterior, por volta de 2009 e 2010, as percepções sobre o país parecem ter sido ajustadas com a decepção gerada pelo desaquecimento da economia", diz Daniel Buarque, jornalista e autor do livro Brasil, um país do presente: A imagem internacional do "país do futuro" (Ed. Alameda), que será lançado no dia 7 de março.

Segundo um levantamento feito a pedido da BBC Brasil pelo consultor Simon Anholt, responsável por um ranking dos países mais admirados do mundo pelo público em geral, em 2012 houve uma queda até na pontuação do Brasil na pesquisa, de 57,91 para 57,86 (de um total de 70 pontos).

Mesmo o FT em sua cobertura diária tem adotado um tom bastante cético e crítico sobre o manejo da economia brasileira desde que o PIB desacelerou dos 7,5%, de 2010, para os 1,6%, de 2012. E a revista britânica The Economist chegou a chamar a economia do país de "criatura moribunda".

A novidade que parece refletida no especial sobre o Brasil do jornal britânico, porém, é que um grupo cada vez maior de observadores externos tem enfatizado que, em meio a esses altos e baixos, é preciso mais “realismo” nas análises sobre o país - e, principalmente, é preciso separar entre as perspectivas de longo e de curto prazo para sua economia.

Ajuste
"Precisamos marcar bem a diferença entre a perspectiva do mercado financeiro e a dos que fazem investimentos diretos e apostam na economia real", enfatiza Richard Lapper, diretor do Brazil Confidential, o serviço de análises sobre o Brasil do Financial Times.

Ele diz que, para os investidores de curto prazo, a queda dos juros, as incertezas sobre a inflação e o fato de que a economia brasileira está crescendo menos que a de países como o México reduziram bastante a atratividade do país.

"Já para o investidor direto, de longo prazo, o Brasil continua a ser um mercado atraente - e foi para essas tendências mais duradouras que olhamos na nossa revista: o desemprego está em níveis historicamente baixos, há estabilidade econômica e política e o consumo continua aquecido com a expansão da classe C, especialmente em alguns setores."

Lapper nota que, apesar da desaceleração do PIB, o volume de investimentos diretos estrangeiros no Brasil permaneceu robusto no ano passado - por volta de US$60 bilhões. O desemprego também foi uma surpresa positiva: ficou em 5,4% em janeiro, o menor para o mês desde o início da série histórica, em 2002.

"Quando o assunto é Brasil é preciso cuidado para distinguir o que é notícia e o que é barulho", opina o criador do termo BRIC, Jim O'Neill, que vem sendo questionado sobre se o País deve ser mantido no grupo das "nações emergentes" mesmo crescendo a um ritmo inferior a China, Rússia e Índia.

Novo 'status'
O'Neill diz acreditar que embora no curto prazo os dados sobre o PIB brasileiro ainda devam decepcionar, as "tendências demográficas e sociais" que sustentam as boas perspectivas para o País e sua mudança de status global são "consistentes".

"É preciso pensar no longo prazo para o Brasil: ainda acho que o país pode muito bem crescer de 4% a 5% ao ano na década", opina.

Para Anthony Pereira, diretor do Instituto Brasil da King's College London, é natural que haja suspeitas sobre a sustentabilidade do crescimento brasileiro, até por uma questão de precedentes históricos: o "milagre econômico" dos anos 70 descambou na pior crise da história do país, nos anos 80.

"Mas uma perspectiva histórica também dá a medida de quão sólidos são os avanços em termos sociais e institucionais, na conquista de estabilidade econômica e política", diz Pereira.

"Os velhos desafios são conhecidos: o Brasil ainda precisa avançar na questão da educação, infraestrutura e burocracia. Mas a decepção também é consequência de um aumento das expectativas - não dá para querer que o país cresça como a Índia, onde a proporção da população rural ainda é equivalente a do Brasil nos anos 60."

Imagem externa
As percepções externas sobre um país importam por uma série de razões, segundo Anholt. No campo econômico, uma boa reputação pode ajudar a atrair investimentos, e impulsionar os fluxos de comércio e turismo.

"Antes de fazer um investimento direto, por exemplo, empresários calculam qual seria a dificuldade para se convencer funcionários-chave a viver naquele lugar", diz o consultor.

Uma melhoria de 10% nos índices gerais de aprovação de um país, calculado por Anholt com base em 38 mil entrevistas, resultaria em um crescimento de 11% na chegada de turistas a seu território. E a correlação seria semelhante para o crescimento das exportações.

"Se um país se torna sinônimo de qualidade, pode cobrar mais por seus produtos. Consumidores tendem a pagar mais caro por um celular japonês que por um aparelho produzido em outro país asiático, por exemplo."

No caso do Brasil, Anholt enfatiza que, apesar de o país ter deixado de ser a menina dos olhos da imprensa e mercados internacionais, a mudança em sua imagem entre o público em geral foi pequena e o país permaneceu na 20ª posição no ranking das nações mais admiradas do globo.

Por outro lado, mesmo durante o período em que o Brasil esteve “na moda”, também avançou pouco - subindo apenas uma posição em 2009.

"No geral, o Brasil ainda está associado a festa, futebol e carnaval. É um país que todo mundo vê com simpatia, mas ninguém leva a sério. Sinônimo de ‘alegria’, que pouquíssimos se aventuram a visitar", afirma o consultor.

Já Buarque - que baseou seu livro em mais de 100 entrevistas com formadores de opinião, elites acadêmicas, políticas e econômicas nos EUA – tem uma perspectiva diferente. Para ele, ao menos entre essas elites tomadoras de decisão, não há como negar que as mudanças na “imagem do país” tem sido bastante significativas.

"Ainda que haja clichês ligados ao imaginário internacional sobre o Brasil, em setores da elite política e econômica global, o país tem de fato se tornado mais relevante no mundo, ainda que seja difícil precisar quanto", afirma.

“Além disso, mesmo que a frequência das demonstrações de 'empolgação' sobre o Brasil tenha diminuído, não acho que tenhamos voltado a uma situação pré 2008-2010 em termos de imagem externa. O que há agora é um maior equilíbrio - a euforia foi substituída por uma avaliação mais sóbria, mesmo quando positiva."

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Businessweek: baixa recorde no desemprego cria escassez de empregadas domésticas no Brasil


Por David Biller and Raymond Colitt

Por uma década, Geane Menezes ganhou não mais que US$ 250 por mês limpando a casa de uma família rica brasileira. Agora, ela vende lembrancinhas em uma loja no aeroporto na cidade nordestina do Recife e planeja abrir um negócio.

"Eu me sinto mais valorizada e ganho duas vezes mais", disse Geane, 34 anos, arrumando as redes e castanhas de caju da loja.

Geane não é a única pendurando seu avental. Com o desemprego em mínimos históricos na maior economia da América Latina, as mulheres pobres, que por décadas formaram uma fonte de trabalho doméstico barato para as classes média e alta, estão buscando empregos melhor remunerados e mais qualificados. O resultado é uma oferta cada vez menor de ajuda, o que permitiu que as babás, empregadas domésticas e cozinheiras restantes exigissem aumentos salariais maiores que o dobro da taxa de inflação desde 2006.

Dos arquivos do blog:


Os custos podem subir ainda mais rápido, e deixar o serviço doméstico inatingível para a classe média, se o Congresso aprovar uma legislação que garante aos empregados domésticos o pagamento de horas-extras, bónus anuais e outros direitos atualmente desfrutados pelo resto da força de trabalho do Brasil. A defensora do projeto, a deputada Benedita da Silva, do Partido dos Trabalhadores, diz que tais benefícios estão muito atrasados.

Mesmo com os recentes avanços  na redução da pobreza, o Brasil ocupa o 14º pior lugar em igualdade de renda (abaixo da Nigéria e Rússia) dentre os 154 países listados nos Indicadores de Desenvolvimento Mundial do Banco Mundial .

"Hoje, eu não teria que ser uma empregada doméstica", disse Benedita da Silva, de 70 anos de idade, que em sua juventude trabalhou como uma no Rio de Janeiro, enquanto vivia em uma favela. "O mercado de trabalho oferece oportunidades muito melhores."

Redução da Pobreza
O Brasil liderou a redução da pobreza na América Latina na última década, com uma expansão  de mais de 40% em sua classe média (aqueles que ganham de US$10 a US$ 50 por dia), de acordo com um estudo do Banco Mundial publicado neste mês.

Por tráz do progresso,  a inflação baixa e a estabilidade econômica, que levou a um crescimento médio anual na década de 3,8%, além de uma expansão nos gastos com combate à pobreza durante a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011), um ex-metalúrgico. A Taxa de desemprego em todo o país mergulhou para um quase recorde de 5,4% em setembro, menos da metade do nível de uma década antes.

Enquanto o Brasil ganha mobilidade social, o número de empregados domésticos caiu de 7,2 milhões em 2009 para 6,7 ​​milhões no ano passado, de acordo com a última pesquisa da agência nacional de estatística.

Idade Média
A média de idade também está aumentando, enquanto a juventude brasileira fica mais tempo na escola, se preparando para obter empregos melhor remunerados onde a escassez de mão de obra qualificada existe atualmente, como na engenharia e comércio. Apenas 5,8% dos empregados domésticos têm entre 18 e 24 anos, em comparação com 14,8% no total da força de trabalho, de acordo com um estudo do ministério das finanças em 2011. Tradicionalmente, as mulheres pobres no Brasil começavam a limpar casas em seus 20 anos ou, às vezes, até como adolescentes.

"A filha do empregada já não quer ser empregada doméstica", disse Marcelo Neri, um economista que pesquisa tendências de pobreza e é presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, do governo federal, conhecido como IPEA. "Ela está estudando, indo para a escola secundária, e quer uma profissão melhor."

Por mais de um século, o Nordeste do Brasil, origem de Lula e Geane, produziu uma constante migração de trabalhadores para as cidades do sul industrializado – e muitos deles acabaram trabalhando como empregados domésticos. Agora, os empregos estão sendo criados no Nordeste, onde o crescimento econômico supera o resto do país, e as empregadas estão voltando para casa, disse Fernando Aquino, presidente do Conselho de Regional de Economia de Pernambuco.

A Montadora italiana Fiat, que está construindo uma fábrica de R$ 3,5 bilhões (US $ 1,7 bilhão) em Pernambuco, e a Kimberly-Clark Corp, com sede em Dallas,  estão entre os fabricantes se estabelecendo na região para explorar o seu mercado de trabalho e crescente classe consumidora.

Escola noturna
Geane disse que ela está fazendo planos de frequentar a escola notirna para estudar turismo e hospitalidade, e um dia quer abrir sua própria loja em frente à praia em Recife. Ela disse que confia o crédito governamental vai ajudar a alcançar esse objetivo.

"Eu espero não ter que voltar para a limpeza", disse ela.

Sob Lula, o Brasil aumentou os gastos com os pobres. Ele expandiu o seu principal programa social para os pobres, o Bolsa Família, de 3,6 milhões de famílias em 2003 para 12,7 milhões em 2010, de acordo com o IPEA. Sua protegida e sucessora, Dilma Rousseff, mais do que duplicou o seu programa habitacional, que, até agosto de 2012, subsidiou o crédito para 1 milhão de famílias, pobres em sua maioria, comprarem sua primeira casa.

Número cada vez menor
Os números cada vez menores de pessoas dispostas a trabalhar como empregada fazem encontrar funcionário um desafio para as agências de colocação, como a Maid in Brasil. Ela analisa 20 mulheres oferecendo serviços de limpeza por dia em 2008, quando começou a conectar famílias do Rio de Janeiro com a ajuda, disse a co-diretora Magaly Mega. Agora, é sorte entrevistar apenas 7 empregadas domésticas por dia - a maioria das quais é menos qualificada, exige melhores salários e demite-se sem hesitação, se o seu empregador é muito exigente, ela disse.

"Houve uma mudança radical," Magaly disse em uma entrevista por telefone. "Antes, havia uma grande quantidade de pessoas dispostas a ser empregada doméstica e morar no serviço, e todas aceitavam o salário mínimo imediatamente", disse ela. "Agora, isso é muito raro."

A escassez também se reflete nos salários para os trabalhadores domésticos, que aumentaram 83% desde 2006, mais do dobro da taxa de inflação, de acordo com a agência nacional de estatística. O salário médio mensal para os trabalhadores domésticos foi de R$723 em setembro, de acordo com a agência de estatísticas. O salário mínimo legal do Brasil é atualmente de R$ 622.

Dependências de empregada
A mudança afeta atitudes culturais, refletidas até na forma como casas estão sendo projetados. Menos casas de classe média estão sendo construídas com quartos de dormir para empregadas domésticas, e elevadores de serviço, tradicionalmente utilizadas pela ajuda, já não são um acessório comum.

"A maneira como as pessoas cuidam de suas próprias casas, utilizando mais as máquinas de lavar e contratando uma diarista em vez de empregadas residente, é um sinal de modernização", disse Neri, Ipea. "Isso é difícil para as famílias acostumadas a serem servidas."

O boom de empregos contribuiu para um aumento de 91% na renda dos 10% mais pobres do Brasil na última década, mais de cinco vezes mais rápido do que o poder aquisitivo dos 10% mais ricos, de acordo com um estudo do IPEA publicado em setembro.

No entanto, quase 3/4 dos empregados domésticos são pagos por baixo dos panos, privando-os dos direitos legais, como aposentadoria.

'Herança Maldita'
A congressista Benedita da Silva disse que sua proposta de emenda constitucional, que, no início do mês, passou em uma comissão da Câmara por unanimidade, tem como objetivo acabar com tais práticas e ser mais um passo para acabar com a "herança maldita" de injustiça econômica do Brasil.

O Brasil foi o último país do hemisfério ocidental a abolir a escravidão, em 1888, e seu legado continua a penetrar o tecido social do país. Embora a proposta de lei garanta direitos adicionais, os custos adicionais podem levar os empregadores a demitir cerca de 10% das empregadas atualmente com contratadas, de acordo com Mario Avelino, que dirige uma organização sem fins lucrativos chamada Doméstica Legal, que promove direitos trabalhistas para empregadas domésticas.

"É como um tiro no pé", Avelino disse por telefone do Rio de Janeiro. "A classe alta não vai desistir de ter uma empregada. É a classe média, em que ambos os pais têm que trabalhar, que vai sentir o impacto. "

Rosane Aguiar, uma pediatra com uma casa em Santo da cidade Antonio de Pádua, no Rio de Janeiro, perdeu a conta de quantas empregadas domésticas ela viu ir e vir ao longo dos últimos cinco anos, e disse que salários mais altos para menos horas de trabalho fazem a despesa insustentável.

"Nos fins de semana, eu fico na cozinha e lavando roupas", Rosane, 54 anos, disse em entrevista por telefone. "Nós temos que nos acostumar com o modelo norte-americano, que está chegando aqui. A classe média fica com poucas alternativas. "

Para contatar o repórter desta história: David Biller, no Rio de Janeiro, dbiller1@bloomberg.net; Raymond Colitt, na Redação de Brasília, rcolitt@bloomberg.net;

Para contactar o editor responsável por essa história: Joshua Goodman em jgoodman19@bloomberg.net

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Brasil deve subir cinco colocações em ranking de competitividade industrial.

A Deloitte fez uma pesquisa com 550 executivos-chefes de companhias industrias ao redor do mundo, visando elaborar seu "2013 Global Manufacturing Competitiveness Index". Segundo as impressões dos entrevistados, hoje o Brasil ocuparia o 8º lugar no ranking de competitividade industrial.

Entretanto, a pesquisa também sondou as expectativas dos mesmos executivos acerca da situação dos países em cinco anos. Segundo o relatório (íntegra em PDF aqui), eles acreditam que, em 2017, o Brasil ocupará o 3º lugar no ranking de competitividade industrial, passando países como a Alemanha e os Estados Unidos.

Abaixo, o ranking divulgado no relatório e, depois, o texto da análise específica sobre o Brasil.

2013 Global Manufacturing Competitiveness Index


Surpreendentemente, o  Brasil caiu no ranking GMCI desde 2010, passando do quinto para o oitavo lugar em competitividade atual de produção. Ao contrário da Coréia do Sul e de Taiwan, no entanto, os executivos entrevistados esperam que o ambiente de produção no Brasil melhore rapidamente e acham que o país se tornará a terceira nação mais competitiva do mundo nos próximos cinco anos.

A chave para as vantagens da produção brasileira são os investimentos sectoriais em curso e as ações políticas favoráveis, que ​procuram estimular a competitividade a longo prazo. Especificamente, o recentemente anunciado plano industrial Brasil Maior deverá criar vantagens fiscais favoráveis para os fabricantes brasileiros, bem como reduzir os custos de empréstimos e de energia. Segundo o plano, o governo brasileiro também espera atacar um conjunto obstáculos fiscais, legais, financeiros e de infra-estrutura comumente referidos como o "Custo Brasil", que ajudaram a minar a competitividade das empresas brasileiras, bem como a competitividade de todo o mercado interno quanto à capacidade de importadores e exportadores de lidarem com a competição internacional.

Felizmente, os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 devem impulsionar uma série de melhorias. Por exemplo, o Brasil deverá melhorar a infra-estrutura e trazer investimento estrangeiro, o que, provavelmente, terá uma influência positiva sobre na melhora da indústria e do ranking competitivo do país. O Brasil também é um dos poucos países com uma base suficientemente grande de recursos naturais, juntamente com uma infra-estrutura de pesquisa relativamente avançada. Isso coloca o país em uma posição única para capturar etapas mais lucrativas da cadeia de valor através do uso de fontes de energia alternativas ecologicamente sustentáveis.

Os executivos que participaram da pesquisa GMCI/2013 expressaram preocupação com a força de trabalho do Brasil, que alguns sentem representar uma desvantagem competitiva. Isto poderia ser devido a escassa disponibilidade de trabalhadores especializados, agravada pelo alto custo do trabalho no Brasil.

Apesar de algum questionamento acerca da eficácia de longo prazo do Plano Industrial Brasil Maior, a maioria dos executivos concordam que o ambiente de produção no país vai continuar a melhorar enquanto o Brasil enfrentar de forma proativa os desafios políticos, regulamentatórios e de força de trabalho. Investimentos adicionais de empresas da China, Coréia do Sul e América do Norte, que procuram tirar vantagem das oportunidades decorrentes da Copa do Mundo e Olimpíadas, também irá aumentar competitividade.

sábado, 6 de outubro de 2012

O cachorro que dedurou o prefeito gatuno (da entrevista da Dilma no FT)

Eu gosto de ler, e colar no blog, textos estrangeiros sobre o que acontece por aqui. Certo, certo, na verdade, só trago pra cá aqueles que sejam de alguma forma positivos. Confesso.

Este perfil / entrevista aí abaixo até preenche o requisito, mas, como meio que chove no molhado, quase desisti de publicá-lo. O que o salvou foi a historieta sobre o cachorro que denunciou o prefeito - que está lá no penúltimo parágrafo. 

FT Entrevista: Dilma Rousseff 
Por Joe Leahy 

A 36ª presidente do Brasil se inclina para frente e lança um olhar atento ao redor da mesa, assegurando que ninguém perdeu sua ideia simples, mas ousada do que ela quer para o país.

Depois de quase 10 anos de governo do Partido dos Trabalhadores (PT), a maior economia da América Latina reduziu as taxas de pobreza e percorreu um longo caminho na redução da desigualdade - uma tendência que contraria o alargamento da distância noutros lugares.

"Isso, eu acho, é um ganho muito importante para o Brasil – isto é, transformar o Brasil numa população de classe média", diz Dilma Rousseff em seu escritório no Palácio do Planalto, em Brasília, a maravilha modernista de mármore projetada por Oscar Niemeyer, o arquiteto brasileiro. "Nós queremos isto; queremos um Brasil de classe média."

Um notável progresso tem sido feito para melhorar o destino de milhões de pessoas nesta que continua sendo uma das sociedades mais desiguais do mundo. Seu milagre econômico ajudou a elevar 30 a 40 milhões de pessoas da pobreza, criou mercados para empresas nacionais e multinacionais e atraiu investidores globais.

No entanto, após quase uma década de condições globais altamente favoráveis, de repente a economia desacelerou para um nível rasteiro. Para consolidar sua prosperidade recém-descoberta e continuar sendo um dos motores do crescimento global, ao lado de Rússia, Índia e China, os outros países dos BRICs, Dilma deve encontrar um novo modelo de desenvolvimento. Em um mundo afligido pela crise econômica, a questão é se ela pode impulsionar as mudanças necessárias para o arranque de uma segunda década de crescimento. Isso inclui resolver as questões espinhosas da falta do Brasil de competitividade e dos altos custos trabalhistas.

"Temos que fazer as coisas difíceis", diz José Scheinkman, professor de economia brasileira na Universidade de Princeton.

Mas se Dilma está sentindo a pressão, não há nenhum sinal disso quando ela entra na modesta sala de conferências ao lado de seu escritório no palácio presidencial, parecendo confiante, mas, aparentemente, evitando correr riscos: no pulso, há um tradicional amuleto para afastar o mal olhado.

Ela tem a reputação de uma gestora dura, conhecida por fazer ministros chorarem em reuniões se não tiverem feito seu dever de casa. Mas quando um falante de espanhol na sala tenta falar português com um forte sotaque, ela gentilmente provoca-lhe imitando seu ritmo? "Nós falamos espanhol aqui também", diz ela, bem humorada.

Quando Dilma chegou ao poder, em janeiro do ano passado, como sucessora ungida por Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente, havia ceticismo sobre se esta tecnocrata, que nunca havia ocupado um cargo eletivo, seria capaz de controlar sua coalizão de mais de 10 partidos, liderada pelo PT. Com o que os críticos não contavam, no entanto, era a determinação da primeira mulher eleita presidente do Brasil. Em 1967, ela se juntou a um grupo de militantes de esquerda rebelados contra a ditadura de direita do país, adotando o nome de guerra de Estela. No início dos anos 1970, ela foi amargou a captura, a tortura e quase três anos de prisão.

Quando o Sr. Lula da Silva chegou ao poder em 2003, ele escolheu Dilma Rousseff, economista de formação, como sua ministra de energia e, em seguida, sua chefe de gabinete. Como presidente, ela tem compensado sua falta de experiência eleitoral sendo diferente. No ano passado, quando ministros seus se viram envolvidos em escândalos de corrupção, ela fez algo incomum em Brasília: não os defendeu, mas, em vez disso, simplesmente os demitiu - sete deles no total. Os Eleitores aplaudiram.

Enquanto isso, a taxa de desemprego continuou a cair, atingindo este ano um recorde de baixa, inferior a 6%, e levando sua popularidade para um recorde - mais de 70%.

"As pessoas diziam que ela não tinha experiência política", disse Fernanda Montenegro, a estrela de cinema brasileira indicada ao Oscar e, diz-se, atriz favorita de Dilma Rousseff, em um evento em sua homenagem no ano passado em Nova York. "Eu acredito, no entanto, que nós ganhamos com Dilma porque ela ... não se enquadrar na maneira tradicional de fazer política no Brasil. "

Mas, enquanto o ano passado testou suas habilidades políticas, este ano ela está sob pressão para reavivar a economia. Depois de atingir 7,5% em 2010, na carreira dos altos preços das commodities e  de um boom de crédito e de consumo, o crescimento no ano passado caiu para 2,7%. Este ano ele pode ser tão baixo quanto 1,5%.

Convidada a citar os principais desafios, Dilma aponta para um suspeito habitual. A política monetária frouxa nos EUA, quando não acompanhada de políticas fiscais para absorver excesso de fundos, leva à desvalorização da moeda competitivos e inflação. "Políticas monetárias expansionistas que levam à desvalorização da moeda são as políticas que criam assimetrias nas relações comerciais - assimetrias graves", diz ela.

Com os EUA e outros países querendo sair da crise por meio das exportações, o Brasil recusou-se a se tornar um mercado de bens favorecidos por dumping. O governo tem tentado proteger suas indústrias através de medidas como aumento de impostos sobre carros compostos por mais de 40% de componentes importados.

Isso, e uma recente medida de aumento de tarifas sobre centenas de produtos, de tubos de ferro a pneus de ônibus, levou a queixas de parceiros comerciais, incluindo os EUA. No entanto, Dilma Rousseff, em discurso na Assembléia Geral da ONU no mês passado, rebateu que "medidas legítimas de defesa" não podem rotuladas como protecionismo.

"Este país não montar coisas, apenas", diz Dilma. "Nós queremos um país que produz, que cria conhecimento e o aplica aqui; queremos uma força de trabalho qualificada."

Mas ela reconhece que muitos dos problemas do Brasil são também caseiros. Elevados custos do trabalho, baixa produtividade, infra-estrutura precária e alta tributação - com gastos do governo em 36% do produto interno bruto, o equivalente a muitos países avançados europeus, mas sem os mesmos níveis de eficiência - criaram uma situação em que a inflação surge sempre que o economia começa a crescer.

Tony Volpon, economista da Nomura, em Nova York, afirma que a taxa de crescimento potencial do Brasil - a velocidade em que ela pode se expandir sem gerar inflação alta - caiu de 4%, na última década, para mais perto de 3%. Isso porque o crescimento na última década foi, em parte, o resultado da entrada de grande número de pessoas na força de trabalho formal. Hoje, com o desemprego relativamente baixo, essa low-hanging fruit desapareceu.


"A questão é: nós seremos mais ambiciosos e resolveremos outras coisas?", pergunta o Sr. Volpon, "ou não, e seremos uma economia que cresce de 3% com inflação alta." 

*****

Embora a presidenta não prometa um explosivo pacote de reformas - como visto recentemente na Índia, que desregulamentou os setores de varejo e de companhias aéreas –, Dilma diz que o Brasil está cortando o custo do trabalho, reduzindo os impostos sobre a folha de pagamento. Até agora, 40 setores industriais foram beneficiadas. Outras medidas fiscais estão por vir. "Isso é importante porque não queremos penalizar aqueles que empregam as pessoas", diz ela.

O governo também está acelerando a entrega de concessões de infra-estrutura, já tendo concedido aeroportos em São Paulo, Campinas e Brasília, os maiores do país. Ele também está se preparando para descarregar R$ 133 bilhões em concessões rodoviárias e ferroviárias. Portos são os próximos. Esses grandes projetos são vistos como cruciais antes do Brasil sediar a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e os Jogos Olímpicos dois anos depois. "Queremos parceiros do setor privado, de qualquer origem", diz ela.

Outro grande projeto do governo é reduzir os índices tradicionalmente altos de juros do Brasil. O Banco Central cortou as taxas em 500 pontos-base em 12 meses, para uma baixa recorde de 7,5%. Mas Dilma e seus ministros entraram com força, intimidando os bancos a abaixar os juros de empréstimos. Enquanto os bancos são criticados por cobrar taxas usurárias no Brasil - nos cartões de crédito pode exceder os 100 % - a intervenção verbal do governo levantou temores de interferência no mercado. Dilma Rousseff é não se desculpa.

O Brasil foi o último almoço grátis no mundo para os bancos, diz ela, referindo-se às altas taxas de juros que cobradas dos clientes. "Estamos a voltando para um lugar com níveis normais de rentabilidade. Isso significa que alguns de nós precisaremos começar a procurar lucros adequados em atividades produtivas que são boas para o país. "

Ela é igualmente inflexível sobre uma outra área em que o governo é acusado de interferência no setor privado - a sua decisão de cortar os lucros que as operadores de energia elétrica estão autorizados a fazer. Puxando um bloco de notas, ela desenha um gráfico representando a vida média de uma planta hidrelétrica, em que a unidade continua a produzir energia por muito tempo após o investimento inicial ter sido pago - mas as empresas querem continuar a cobrar os mesmos preços elevados.

Então, o governo tem dado aos operadores uma escolha: reduzir os preços agora, e renovar o contrato, ou aguardar o contrato a expirar, e arriscar perdê-lo. O resultado foi um corte de 16% nas tarifas da energia para os consumidores e uma redução de 28% nas tarifas para os clientes industriais. "Isso é muito importante, pois precisamos reduzir os custos", diz Dilma Rousseff sobre a iniciativa.

Enquanto seu antecessor apreciava a ribalta internacional, Dilma Rousseff é uma diplomata indiferente. Ela arrepiou as penas americanas e europeias na Assembléia Geral da ONU, mês passado, alegando que a islamofobia está em ascensão em países desenvolvidos. Mas, geralmente, ela descreve um Brasil que é amigo de todos, com relações especiais com os países africanos lusófonos e laços estreitos com a Europa através da imigração. "O mundo para nós é multipolar", diz ela.

Mais perto de casa, ela não quis comentar o paradigmático processo de corrupção na Supremo Curte, datado do primeiro mandato de Lula da Silva. O chamado Mensalão, ou "grande subsídio mensal ", envolve muitos chefes do partido do ex-presidente, acusados ​​de usar fundos públicos para pagar políticos da oposição para apoiar a agenda legislativa do governo no Congresso. Alguns já foram condenados.

[Sim, eu vou fazer um comentário. A historinha de compra de votos de parlamentares aliados é tão inverossímil, que o coitado jornalista americano se enrolou e, usando um pouco de lógica, errou na descrição da acusação. Segundo ele, membros do partido do governo seriam acusados ​​de usar fundos públicos para pagar políticos da oposição  para apoiar a agenda legislativa do governo no Congresso".]

Mas Dilma parece claramente preocupada com a governança. Ela conta a história de um prefeito que deveria estar construindo duas escolas com recursos do governo federal, mas, de fato, estava construindo apenas uma e embolsando o resto. Ele foi obrigado a postar fotos na internet das escolas sendo construídas. Mas acabou sendo pego quando o mesmo cão apareceu em fotos do que deveriam ser duas escolas diferentes.

"Você tem que estar pronto para tudo na vida - mas um cão denunciando um prefeito?", diz a presidenta, rindo. De repente, ela se torna grave. "Estamos informatizando toda a estrutura do governo, porque isso vai nos permitir controlar o que é feito." Esses processos são "triviais", mas necessários, diz ela.

Uma presidente que dá atenção aos detalhes, ainda que triviais, é talvez o que o Brasil precisa ao procurar consolidar as conquistas da última década e continuar a sua emergência como um país de classe média. Mas, com a reforma apenas começando, muito ainda vai depender de quanto ela está disposta a fazer as "coisas difíceis".

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

O Brasil é a Nova América?

O artigo abaixo foi publicado no Bullish on Books, um blog da CNBC sobre livros de negócios. O autor, James Dale Davidson, escreveu também o livro "O Brasil é a Nova América: como o Brasil oferece mobilidade ascendente em um mundo em colapso".

Nem sei se, tomado o conjunto da obra, eu gostaria que o Brasil algum dia vire uma "nova América"; não gosto muito da ideia de que a gente venha a repetir o tal sonho americano - que, claro, tem aspectos positivos. Prefiro que a gente construa um outro tipo de sociedade, ainda que aproveitando coisas boas que eles, os norte-americanos, fizeram por lá.

Mas não deixa de ser interessante ver um autor norte-americano fazendo aquilo que, por aqui, é coisa rara: louvar o que nós temos conquistado. 

Capa do livro "O Brasil é a Nova América: como o Brasil oferece mobilidade ascendente em um mundo em colapso"
Brazil Is the New America: How Brazil Offers Upward Mobility in a Collapsing World



Há não muito tempo atrás, havia uma crença generalizada de que os Estados Unidos era o melhor destino do mundo para alcançar ascenção social, uma aspiração que se tornou conhecida como "o sonho americano".

Pela a maior parte dos séculos 19 e 20 isso realmente parece ser verdade.

Mas não mais.

Hoje, o passaporte mais valioso do mundo no mercado negro não é o dos EUA, mas o brasileiro.

O Brasil não só vem crescendo a uma taxa média de 5% enquanto a economia dos EUA patina; o Brasil parece muito mais perspectiva de crescimento no futuro. O Brasil é o maior país tropical do mundo, com uma reserva incrível de recursos inexplorados.

Pra começar, em um mundo árido, o Brasil é a nova superpotência da água. A revista The Economist afirmou: "segundo a avaliação da ONU sobre a água do mundo, de 2009, o Brasil tem mais de 8 trilhões de km³ de água renovável a cada ano, sem dificuldades, mais do que qualquer outro país." Para referência, existem 264 bilhões de galões em um km³. Então, 8 trilhões (ou 8 trilhões) de km³ é um monte de água.

Dos arquivos do blog:


Trinta e cinco anos atrás, o Brasil importava alimentos. Hoje, é o maior exportador mundial de cinco culturas princípais, bem como de carne e frango. Cientistas brasileiros projetaram novas versões tropicais, de ciclo curto, de culturas temperadas, como soja e milho. Elas amaduressem de 8 a 12 semanas mais rápido do que as versões originais temperadas, tornando possível, aos agricultores brasileiros, produzir duas colheitas por ano em vez de uma, como nos Estados Unidos.

Em 2002, o rendimento médio global para a soja no Brasil (2,6 toneladas / hectare) superou o rendimento médio nos Estados Unidos (2,4 toneladas / hectare). Mais significativamente, o custo de produção de soja no Brasil caiu para cerca de US $ 6, 23 por saca de 60 kg, apenas 50% do nível dos EUA, de US $ 11,72.

Enquanto ninguém, fora alguns investidores profissionaism, estava olhando, o Brasil calmamente ultrapassou os Estados Unidos na liderança mundial para a mobilidade ascendente. Com uma população apenas dois terços do tamanho de os EUA, o Brasil criou mais de 15 milhões de empregos ao longo dos últimos 8 anos, enquanto os EUA perderam milhões de vagas. Combinando a independência energética e vastos recursos naturais, incluindo 60% das terras ociosas aráveis do mundo e 25% de sua água doce, o Brasil é a primeira superpotência tropical do mundo, oferecendo uma nova fronteira de crescimento.

Mas não cometa o erro de pensar que o Brasil é apenas um grande e bem regada fazenda. O Brasil tem uma economia diversificada e moderna. Na verdade, a agricultura representa apenas 5,5% da economia brasileira. O Brasil tem também um grande setor de mineração, mas 84% ​​das exportações brasileiras são de produtos manufaturados. Começando com os automóveis e aviões (o Brasil é 3 º produtor mundial de aviões comerciais), aço, ferramentas, têxteis e vestuário, calçados, cimento, produtos químicos, fertilizantes, vagões e locomotivas também são importantes exportações brasileiras. E provavelmente surpreenderia a maioria dos americanos saber que, em vários momentos na última década, o Brasil também foi o maior exportador mundial de programas de televisão, habilmente dublados do português para outras línguas.

Consideremos o embaraçoso tema da independência energética. Os políticos norte-americanos tem falado sobre alcançar a independência energética por décadas. No entanto, eles fizeram pouco ou nada para avançar para esse objetivo. A importação de petróleo pelos EUA subiram de cerca de 30% do consumo, em 1970, para em torno de 70% recentemente.

O Brasil, por outro lado, fez um progresso dramático. Em 1974, o Brasil importou cerca de 80% do seu petróleo. Hoje, a percentagem líquida das importações de petróleo pelo Brasil é inferior a zero. O Brasil se tornou um exportador de petróleo em 2009. Hoje o Brasil tem cerca de 100 bilhões de barris de reservas de petróleo e é amplamente reconhecido como líder mundial em biocombustíveis.

O salário real médio nos Estados Unidos tem estado estagnado durante um quarto de século e um em cada sete americanos agora participa do programa de cupons de alimentação, refletindo um crescimento preocupante da pobreza. (Pelos cálculos oficiais, 5,4 milhões de norte-americanos afundaram na pobreza durante o primeiro ano da presidência de Obama). Enquanto isso, quase 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza para a classe média na última década.

Enquanto o crescimento do emprego nos Estados Unidos foi rudimentar, e mais americanos se qualificaram para invalidez permanente do que encontraram empregos durante o atual mandato presidencial, o desemprego brasileiro está em 5,8% e os salários estão subindo devido à escassez de trabalhadores.

Não muito tempo atrás, quem queria viver o "sonho americano" de mobilidade ascendente tinha que viver nos Estados Unidos. Mas o que era verdade nos séculos 19 e 20 já não é no despetar do século 21. Não só 40 milhões de brasileiros saíram da pobreza para entrar na classe média na última década; o Brasil tornou-se um ótimo lugar para ficar rico, somando 19 novos milionários a cada dia desde 2007. Nada mal em comparação com os Estados Unidos, que perdeu 353 milionários a cada dia, só em 2011.

Não é de admirar que um número crescente de americanos estão migrando para o Brasil por  uma oportunidade. Como Scott e Mandy Harker disseram sobre sua decisão de deixar os EUA para o Brasil, "Para nós, era como estar em um navio afundando, esperando ele ir para baixo."