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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Representantes da Indústria de Máquinas e de Base a Guilherme de Barros: decisão do BC foi técnica, acertada, autônoma e corajosa.


Duas notas do Blog do Guilherme Barros e uma mesma impressão: os setores produtivos da economia concordam com o BC.

Mais sobre a redução da SELIC aquiaqui, aqui e aqui.


A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual foi correta e técnica, segundo Paulo Godoy, presidente Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). “Existe um cenário bastante real e forte de prolongamento da crise, com crescimento fraco e dificuldades para equacionar as dívidas gigantescas das principais economias do mundo”, diz.

Para Godoy, o Banco Central acertou em agir rapidamente no sentido de reduzir os juros para tentar manter uma perspectiva razoável de crescimento da economia, já que “as consequências dos problemas econômicos nos países mais ricos chegarão ao Brasil com intensidade maior”.

O presidente da Abdib afirma que o BC conquistou independência na tomada de decisões nos últimos anos. “O nosso Banco Central estudou os indicadores e os cenários e agiu preventivamente para manter perspectivas de crescimento razoáveis para o Brasil. É isso. O resto é esquizofrenia.”

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Abimaq contesta ‘financistas’ que defendem manutenção da Selic

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, defendeu hoje a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 12% ao ano.

Segundo ele, as críticas de que a autoridade monetária cedeu a pressões do governo para cortar os juros partem de um “grupo de financistas”.

“Há uma reação visceral de financistas sobre isso”, afirmou. “Eles estão como bezerros quando desmamam e começam a berrar”, completou.

Aubert Neto disse que a Selic é “o maior câncer” que o Brasil tem atualmente.

“Nos oito anos do governo FHC e nos oito anos de Lula, quem comandou o Banco Central foram pessoas ligadas ao sistema financeiro. O Brasil é o único país do mundo que coloca a raposa para cuidar das ovelhas.”

O presidente da Abimaq disse que a decisão do Copom reforça a autonomia do Banco Central.

“Eles tiveram coragem para reduzir os juros.”

Aubert Neto ressaltou que o corte de 1 ponto percentual da Selic representa uma economia de R$ 16 bilhões com juros. “Nos últimos 16 anos, o Brasil pagou mais de R$ 2 trilhões em juros de dívida. É a maior transferência de renda da história do capitalismo.”

O presidente da Abimaq afirmou que, sem um aperto monetário, a crise internacional poderá trazer impactos à economia brasileira.

“A decisão do Copom foi uma sinalização de que nem tudo está perdido”, completou.

Julio Gomes de Almeida, para o Terra Magazine: decisão do BC foi autônoma e baseada em motivos consistentes


Ana Cláudia Barros

Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Julio Gomes de Almeida considerou acertada a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de baixar em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros, encerrando um ciclo de alta, depois de cinco elevações em 2011. O economista explica que a ação do Banco Central (BC) foi baseada na avaliação de que 2012 virá com um "cenário nebuloso para a economia brasileira".

- É isso que ele está querendo falar. E é possível que isso aconteça. O contexto externo é grave, a desaceleração da nossa economia é forte e o Banco Central está dizendo que, para ele, esse cenário deve prevalecer no início de 2012. Razão pela qual está reduzindo a taxa de juros hoje.

Para Almeida, a medida foi tomada de maneira autônoma, e não sob pressão do Palácio do Planalto, especulação que ganhou corpo devido à declaração da presidente Dilma Rousseff, que, pouco antes da decisão do Copom, manifestou seu desejo de ver juros menores.

- É uma besteira achar que um órgão que tem prerrogativa de fazer isso, que responde com seu prestígio, vai seguir uma decisão de fora. A presidente Dilma falou que quer ver a redução de juros no Brasil, como eu acho que todos os presidentes que passaram por ali falaram. Eu acredito que não teve pressão nenhuma. É uma tolice pensar que as pessoas, cujas cabeças estão a prêmio, vão fazer uma ação baseada em pressão. Não vamos esquecer que a diretoria do Banco Central está protegida. Ninguém seria demitido se tomasse uma medida diferente dessa. Isso não existe. A presidente falou que queria baixar os juros, como muita gente fala quando os juros estão altos.

Confira a entrevista.

Terra Magazine - O Comitê de Política Monetária do Banco Central não só encerrou o ciclo de alta na taxa básica de juros, depois de cinco elevações em 2011, como também a reduziu em 0,5 ponto. Como o senhor avalia a decisão?
Julio Gomes de Almeida - Primeiro, uma observação: O Copom quando está fazendo uma medida agora na taxa de juros, nós estamos em setembro, é para ter algum resultado no fim do primeiro trimestre do ano que vem. Então, vamos dizer, para efeito de reunião da diretoria do Banco Central para avaliar taxa de juros, o ano de 2011 já acabou. Eles estão mirando 2012, especialmente depois do primeiro trimestre.
Então, o que esta ação está dizendo é que o Banco Central avalia que o (dia) 1º de janeiro de 2012 vai vir com um cenário muito nebuloso para a economia brasileira. É isso que ele está querendo falar. E é possível que isso aconteça. É uma avaliação do Banco Central. O contexto externo é grave, a desaceleração da nossa economia é forte e o Banco Central está dizendo que, para ele, esse cenário deve prevalecer no início de 2012. Razão pela qual está reduzindo a taxa de juros hoje.

A crise externa, inclusive, foi uma das principais justificativas do Copom. O argumento, então, é consistente?
Eu acho. Toda ação do Banco Central tem uma dose de avaliação e esta é a avaliação que ele está fazendo. Eu compartilho dessa avaliação. Foi correta.

A decisão do Banco Central provocou surpresa. Não se esperava uma redução da taxa de juros...
Você tem que ver também que, quando se diz que não se esperava, fala-se do mercado financeiro. Quer dizer, o mercado financeiro dita essas expectativas. E na verdade, estamos sempre acostumados que aconteça isso que aconteceu ontem (quarta-feira) do lado inverso. Ou seja, se existe algum receio de que tem algum indício de que haja no futuro uma maior pressão inflacionária, o Banco Central sempre aumenta a taxa de juros. Isso não é surpresa para ninguém. Sempre que há algum indício de redução das pressões inflacionárias, todo mundo acha que o Banco Central não vai baixar os juros. Se ele baixa, provoca uma surpresa. Ou seja, nossas expectativas são muito assimétricas, porque são formadas pelo mercado financeiro. Temos que nos acostumar a um Banco Central que atue e aposte nos dois lados. De novo, se o Banco Central acha que em 2012 teremos um quadro de crescimento relativamente ruim, ele acertou na aposta que fez. Se não, ele vai ter errado, mas só vai ver isso no futuro. Acho que o Banco Central tem elementos para agir da maneira como agiu.*

Quais os efeitos dessa redução da taxa de juros para a população?
Por enquanto, são poucos. Não é uma variação de 0,5 ponto percentual que vai mudar o bolso das pessoas. A taxa de juros de captação dos bancos cai, mas cai muito pouquinho e nessa dimensão de 0,5 ponto percentual. Agora, muda a sinalização, muda a ideia de que o Banco Central acredita num determinado quadro da economia e acha que pode afrouxar a política monetária. Muda o lado das expectativas, vamos dizer assim.

Essa medida terá rebatimentos no consumo?
Pode influenciar, sim. Na sequência de reduções, pode-se acabar influenciando a expectativa dos consumidores. Os consumidores no Brasil, aliás, estão com umas expectativas declinantes, mas é possível que melhore um pouco a partir dessa medida. De concreto, acho que não muda nada por enquanto. Nem ao nível do consumidor nem do empresário.

A redução da taxa de juros pode impactar a inflação, fazer com que o índice aumente?
Isso por si só, não. O Banco Central está mirando o quadro lá, daqui a seis meses. Ele está pensando em melhorar um pouco a expectativa do consumidor e do empresário num quadro da economia mais fraca. Isso não dá inflação.

A presidente Dilma Rousseff havia pedido juros menores. Na avaliação do senhor, a decisão do BC foi sob pressão ou a decisão foi independente, o orgão se manteve autônomo?
É uma besteira achar que um órgão que tem prerrogativa de fazer isso, que responde com seu prestígio, vai seguir uma decisão de fora. A presidente Dilma falou que quer ver a redução de juros no Brasil, como eu acho que todos os presidentes que passaram por ali falaram. Eu acredito que não teve pressão nenhuma. É uma tolice pensar que as pessoas, cujas cabeças estão a prêmio, vão fazer uma ação baseada em pressão. Não vamos esquecer que a diretoria do Banco Central está protegida. Ninguém seria demitido se tomasse uma medida diferente dessa. Isso não existe. A presidente falou que queria baixar os juros, como muita gente fala quando os juros estão altos.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Terra Magazine: elevar taxa de juros pode abortar ciclo de investimento que sobreviveu à crise mundial, escreve Júlio Gomes de Almeida.

Artigo publicado pelo Terra Magazine.

Julio Gomes de Almeida
De São Paulo (SP)

A princípio, o governo não adotou medidas específicas para incentivar o investimento durante a crise, limitando-se a municiar de recursos o BNDES para que não faltasse financiamento para quem se aventurasse a apostar no futuro. Preferiu concentrar os incentivos fiscais em bens duráveis de consumo (automóvel, geladeira, etc) e em material de construção. A ausência de ações concorreu para que o investimento caísse muito entre o último trimestre de 2008 e o segundo trimestre de 2009.

No último trimestre de 2008, a taxa de investimento (a relação entre o investimento e o PIB) caiu para 18,2%, vindo de 20% no trimestre anterior e atingiria 15,8% no primeiro trimestre de 2009, o mais baixo nível desde o segundo trimestre de 2004.

Somente em julho o governo lançaria um poderoso programa na área do crédito que teve pronto êxito e ajudou a reativar o dinamismo da inversão no país, de forma que uma das melhores surpresas do desempenho brasileiro no imediato pós-crise acabou sendo a intensidade com que o investimento se recuperou. No último trimestre de 2009, a taxa de investimento chegou a 17,9% do PIB. O Programa de Sustentação do Investimento reduziu para praticamente zero a taxa de juros real nos financiamentos do BNDES para a compra de máquinas e equipamentos no país.

É preciso observar que o Brasil vivia desde 2007 uma onda de crescente e envolvente inversão, algo que nos últimos 30 anos não ocorria. Esse processo envolvia investimentos mais "leves" como na agregação marginal de capacidade produtiva e na modernização do parque produtivo das empresas, mas também grandes projetos que visavam à demanda futura. Investimento correndo à frente da demanda é tudo o que uma economia precisa para crescer e simultaneamente evitar problemas inflacionários.

Sem dúvida, a crise interrompeu o curso dessas iniciativas, mas não removeu a perspectiva favorável que nutre a decisão de investir, vale dizer a expectativa de um mercado em expansão que torna possível a antecipação de uma atrativa rentabilidade do capital. Por isso, assim que a economia mostrou sinais de superação da crise, reapareceu a disposição de investir e a "febre" anterior de novos projetos foi resgatada. O risco de interrupção de um processo como esse que não é fácil de ser desencadeado deveria merecer avaliação muito cuidadosa pelo governo antes de voltar a elevar a taxa de juros.

No caso do setor industrial o retorno ao investimento tem sido forte e generalizado e já se mostra capaz de estabilizar a utilização da capacidade produtiva da indústria em um nível confortável como 84%. Esse nível assegura o atendimento da demanda sem pressões sobre os preços e, simultaneamente, confere atratividade a novos investimentos que irão agregar capacidade de produção à economia. Em outros segmentos, como, em especial, infraestrutura e habitação, é muito significativa a disposição de investir.

Nesses casos, vale dizer, nos setores de indústria, infraestrutura e habitação, o governo deveria se preocupar em articular novas modalidades de financiamento. As estruturas existentes no BNDES e no sistema de poupança são boas e ajudam no financiamento corrente desses setores, mas podem não ser suficientes quando há uma grande evolução das inversões. Como se sabe, por enquanto, o BNDES vem suprindo as necessidades de recursos, mas isso vem exigindo uma grande colocação de dívida pública no mercado que talvez encontre um limite nesse ano. No caso da habitação, o sistema em vigor vem se beneficiando do grande aumento da captação de depósitos de poupança que se acentuou no período de crise. Mas esse impulso pode perder força, enquanto a grande demanda de financiamento do setor pode vir a se acentuar ainda mais.

Existem outros problemas e lacunas. Problemas porque há uma ameaça crescente de que os efeitos de propagação e multiplicação do corrente ciclo de investimentos sobre a economia doméstica se reduzam dramaticamente se o comando da realização desses investimentos se situar fora do país e as ordens de fabricação de bens de capital favoreceram a produção no exterior.

Quanto às lacunas, estas existem, por exemplo, na exportação, onde o câmbio valorizado e outros fatores que elevam o custo de produção doméstico (custo da infraestrutura, do crédito, da tributação, dentre outros), impedem que decolem os projetos nessa área. Na inovação, os investimentos tendem a aumentar à medida que o crescimento econômico mostre maior sustentação, mas incentivos mais eficazes poderiam ajudar a antecipá-los.

Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.