quarta-feira, 16 de maio de 2012

Preço da gasolina no Brasil equivale à média mundial e é o 20º menor em levantamento do Bloomberg

O gráfico abaixo foi publicado pelo The Big Picture. Ele é baseado em levantamento publicado pela Bloomberg nesta matéria: "Highest & Cheapest Gas Prices by Country"

Most expensive gas ranking: Price per gallon of premium gasoline:  Norway $9.69 Denmark $9.37 Italy $9.35 Netherland $9.35 Greece $9.23 Sweden $8.97 Hong Kong $8.89 Portugal $8.85 United Kingdom $8.84 Belgium $8.82 France $8.72 Finland $8.59 Germany $8.56 Ireland $8.34 Switzerland $7.95 Slovakia $7.93 Hungary $7.69 Czech Republic $7.59 Japan $7.58 South Korea $7.57 Spain $7.55 Slovenia $7.54 Austria $7.45 Malta $7.32 Latvia $7.26 Luxembourg $7.24 Lithuania $7.24 Estonia $7.05 Poland $7.01 Cyprus $7.00 Bulgaria $6.94 Australia $6.75 Singapore $6.70 Romania $6.59 Chile $6.54 Brazil $6.41 India $6.06 Canada $5.75 South Africa $5.72 Seychelles $5.53 Argentina $5.44 China $5.31 Thailand $4.96 United States $4.19 Indonesia $4.11 Russia $3.71 Malaysia $3.30 Mexico $3.20 Iran $2.78 Nigeria $2.33 United Arab Emirates $1.89 Egypt $1.73 Kuwait $0.88 Saudi Arabia $0.61 Venezuela $0.09
Preços da gasolina na bomba por país

Por um lado, os dados revelam que o Brasil pratica o vigésimo menor preço para a gasolina dentre os 55 países pesquisados. O preço aqui, além disso, é praticamente igual à média daqueles coletados (6,40 por galão, para um valor médio de 6,41).


Dos arquivos do blog:


Na outra ponta, o Brasil aparece como 13º colocado naquilo que o levantamento chamou de "dor na bomba" (pain at pump) - índice medido pela percentagem da renda média diária necessária para comprar um galão de gasolina. O próprio noticioso, entretanto, explica:

"Um galão de gasolina custa menos no Brasil que a média global, mas a modesta renda diária média aumenta a "dor na bomba" para os Brasileiros".

Aqui, no Big Picture, tem a listagem dos preços coletado pelo Bloomberg.

via Highest & Cheapest Gas Prices by Country@Ricamconsult

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ali no espelho, o inimigo



A alteração na poupança para (nós) leigos

O assunto não é simples - e uma boa explicação merece ser reproduzida e espalhada. 


Sempre fui um menino curioso e no curso de jornalismo um aluno aplicado. Na adolescência descobri que os jornais eram a porta para entender o mundo (bons tempos aqueles). Hoje, com o pensamento único dos editorialistas aos colaboradores nem pensar...

Em economia, nunca passei do trivial. Administro bem o orçamento doméstico e considero ter tino para negócios. Não sou consumista, nem gosto de ostentar. Na faculdade ajudava os colegas a entender índices de correção, tabelas, investimentos, etc... Mas, repito, nada além do trivial.

Depois de formado, frequentei a Escola de Governo, o que abriu caminho para conhecer a história do pensamento econômico e acompanhar de perto o principal debate dos anos 80 e 90: o controle da inflação. Hoje, como todos nós bem sabemos, a questão central das economias emergentes são os juros e o câmbio.   

E é sobre juros que quero falar mais uma vez. Não como entendido, mas como curioso. A presidente Dilma decidiu enfrentar uma batalha dura pela redução das taxas cobradas pelos bancos, sobretudo o spread (que mede o risco de calote do devedor). Discussão que deixa muita gente confusa.

Por isso, vou tentar simplificar a questão, quem sabe não consigo ajudar os leigos a entenderem um pouquinho o que está acontecendo e se falar alguma bobagem, pode ser até que alguém mais esperto me ajude, corrigindo-me.

Um país funciona basicamente com produção, emprego, renda, consumo e poupança. Se o emprego vai bem, a renda aumenta, o consumo aumenta e produção e a poupança também. Só que para adquirir determinados bens de maior valor, como carros e imóveis por exemplo, é preciso de empréstimos. Emprestamos até um limite. Quando este limite é alcançado, só contraímos nova dívida depois de pagar o que devemos.

Com o Governo é mais ou menos assim também. Arrecada impostos, paga salários, benefícios, aposentadorias e pensões e cumpre um orçamento, que no caso brasileiro é superavitário. Para obras, investimentos e pagamento de juros de empréstimos contraídos irresponsavelmente no passado são necessários novos empréstimos.

E como o governo toma emprestado? De poupadores e investidores, nacionais ou estrangeiros.

O investidor compra um título da dívida pública que, ao final do prazo, tem que pagar a ele investidor a inflação mais um prêmio. A caderneta de poupança por exemplo paga 6,17% ao ano de juros, livre de IR e taxas bancárias.

Se o governo não tiver um papel que prometa pagar mais do que a poupança, não haverá investidores, certo? Hoje, a taxa selic, que serve de base para remunerar esses papéis está em 9% ao ano, sem descontar impostos e taxa de administração.

Portanto, para atrair investidores, o governo precisaria continuar pagando juros mais altos. E ao pagar mais, atrairia principalmente os que procuram prazos mais curtos. Um dinheiro que tem pressa de entrar, realizar e sair.

Mas quando esse dinheiro entra em boa quantidade no país, ele causa uma pressão sobre o câmbio e valoriza a nossa moeda. Com a nossa moeda mais forte, os preços dos produtos brasileiros ficam mais caros em dólar e, portanto, menos competitivos lá fora. Vendendo menos, o país tem menos divisas.

Além disso, há a competição com os bens que vêm de fora mais baratos. Logo, produzindo menos, a atividade econômica se retrai, empregos são extintos, a renda diminui, as dívidas dos trabalhadores aumentam... Nossa economia se desorganiza.

O que é preciso, então? Evitar que os rentistas fujam da recessão de seus países e fiquem aqui especulando sem produzir e, ao mesmo tempo, incentivar as pessoas a comprarem, o que compensaria a diminuição do consumo lá fora. E como isso seria possível?




Reduzindo-se os juros ainda mais, abaixo do limite do que paga hoje a caderneta de poupança. Grosso modo é rigorosamente isso que o Governo quer fazer, ao propor novo cálculo para rendimento das cadernetas de poupança, ou seja, forçar uma queda ainda maior nos juros.

Com o custo do dinheiro mais baixo, mais fácil fica contrair e pagar por novos empréstimos, o risco diminui para o credor e o spread cai. Só que os bancos privados apostaram que Dilma não mexeria no rendimento da poupança, por acharem a medida impopular, e decretaram que a taxa selic havia chegado ao piso. Perderam mais uma vez.

O povo já entendeu "empiricamente", que mexer com o rendimento da poupança é importante para o país dar mais um salto. E como as pessoas confiam em Dilma (basta ver os níveis de aprovação que ela tem) este é mais um debate superado a favor do Governo. Por isso, pode estar nascendo aí um novo momento econômico para nós.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

B.E.I.J.O

As fotos são todas do Jan Saudek .




First Kiss to a Little Brother, 1982

Kiss the tears away, 1967


Kisses In The Moonlight, 1986

Kisses In The Moonlight, 2001
Brothers, 1986
Once in the South, 1988
Incest, 1988

Tango Nr. 2, 2003

Kiss of Death, 1988

The Sweet Memories from last Summer, 2003





quinta-feira, 12 de abril de 2012

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O Brasil estabelece exemplo a ser seguido pelos EUA em ações afirmativas

Outro texto do painel do NYT sobre as ações afirmativas no Brasil. O primeiro publicado aqui no blog foi este: O que o Brasil faz bem.


Os programas de ação afirmativa no Brasil estão bastante difundidos e crescendo. Baseados em vitórias legais estaduais a partir de 2000 e guiados  a uma expanção ainda maior pelo Estatuto da Igualdade Racial aprovado em 2010, com a exceção de apenas três, todos os 26 estados do Brasil agora tem sistemas de cotas reparativas.

A objecção generalizada de que as categorias raciais brasileiras eram muito fluidas para definir "negro" com fins de política não foi cumprida. Os candidatos definem sua identidade racial eles mesmo e, aparentemente, os desincentivos a proclamãção de uma identidade negra em uma sociedade ainda permeada de presunções racistas são suficientes para afastar a inundação de candidatos brancos mal intencionados, que os adversários alegavam que travaria o sistema.

Além disso, a ação afirmativa brasileira não é apenas racial. Ela é baseada em também em classe e implementada de maneira inteligente. Na maioria dos estados, as famílias dos candidatos cotistas devem cumprir um limite de salário; e um mesmo número de vagas é reservado para crianças que frequentarm o sistema de escolas públicas do Brasil e para estudantes negros. Como a maioria das famílias pobres o suficiente para atender o limite máximo de renda terá enviado seus filhos às escolas públicas, isso significa que a maioria dos estudantes que preenchem o requisito de renda pode se candidatar, independentemente da cor.

Nos EUA, um sistema híbrido semelhante faria muito para corrigir as desigualdades existentes. Infelizmente, os norte-americanos insistem em fechar os olhos para a classe, se recusando a reconhecer o peso esmagador da pobreza através as gerações. Como a pobreza é altamente racializada nos EUA, assim como no Brasil, a despeito das formas desiguais com ​que delimitamos as categorias sociais, políticas afirmativas que levem a classe em conta funcionam melhor nos EUA também. O sistema do Texas, que garantiu a admissão à universidade estadual aos 10% melhores de cada turma de formandos, por exemplo, alcançou taxas de diversidade racial tão altas quanto o sistema de raçasm,  mas o superou ao evitar  a ocupação de até 2/3 das vagas de diversidade por alunos de cor abastados, e muitas vezes estrangeiros, ocorrida no sistema unicamente racial. Igualmente importantes, tais políticas resultam em muito menos evasão.

A questão pode ser melhor colocada em reverso: Será que programas de ação afirmativa no estilo do Brasil funcionariam nos EUA? Dada à sorte que as políticas de ação afirmativa dos EUA sofreram recentemente nas mãos dos tribunais e dos eleitores, a resposta parece clara.

Micol Siegel, professora associada de estudos Afro-Americanos e de Diáspora Africana da Universidade de Indiana, é o autor de "Encontros desiguais: Fazendo raça e nação no Brasil e os Estados Unidos"

Ações afirmativas brasileiras reconhecem e combatem as desigualdades

Um dos textos que integram o painel do NYT sobre as ações afirmativas no Brasil. O outro é este: "O Brasil estabelece um exemplo a seguir"

O que o Brasil faz bem
Jerry Dávila

Nos Estados Unidos e no Brasil, a sombra Jim Crow rendeu entendimentos divergentes sobre a natureza da desigualdade racial e o papel das políticas de consciência racial. Nos EUA, deixar o "separate but equal” (separados mas iguais) no espelho retrovisor alimenta desafios legais à ação afirmativa.

Mas, no Brasil, a distância de Jim Crow molda um crescente reconhecimento de que discriminação racial e desigualdade não são legados, nem são apenas fruto da segregação. Ao contrário, elas têm uma capacidade viral teimosa para se reproduzir e renovar.

A história dos EUA com a segregação racial tem tanta força, que ela consegue ofuscar as formas sutis e muitas vezes ambíguas com que os valores e práticas institucionais reforçam a exclusão racial. Essa força extravasou as fronteiras nacionais, e formatou percepções de relações raciais na América Latina.


Dos arquivos do blog:


No Brasil, a comparação com os EUA tornou mais fácil imaginar que país era uma "democracia racial". No entanto, embora o Brasil nunca tenha promulgado o racismo legal, milhões de negros brasileiros enfrentam desigualdades que são mais profundas do que os EUA

Na ausência de um gatilho como o do “supremacismo branco” nos EUA, o Brasil evitou longamente um questionamento completo sobre suas próprias desigualdades raciais. Na falta disso, uma ágil reinterpretação da discriminação racial está ocorrendo no Brasil, que traz lições para os EUA

No Brasil de hoje, cotas para alunos negros, indígenas e de escolas públicas estão sendo implementadas em muitas das principais universidades. Enquanto isso, programas de financiamento da educação e de expansão do apoio social para os pais que mantenham filhos na escola estão garantindo as primeiras reduções sustentadas da desigualdade social na história moderna do país.

Estas políticas brasileiras não são destinadas a corrigir os legados de racismo: ao contrário, elas reconhecem e combatem as desigualdades em curso. O Brasil, por sua vez, tem tirado uma lição da história dos EUA com ações afirmativas: políticas que promovem a inclusão são insuficientes sem políticas que reduzam a exclusão.

Jerry Dávila é o autor de "Hotel Trópico: o Brasil e o desafio da descolonização Africana" e "Diploma de Brancura:. Raça e Política Social no Brasil" Ele é um professor de história na Universidade da Carolina do Norte em Charlotte e Jorge Paulo Lemann professor de história do Brasil na Universidade de Illinois.

As ações afirmativas brasileiras em debate no NYT.

O artigo abaixo (mal traduzido por mim) foi publicado pelo Psychology Today. Ele resenha um painel realizado pelo New York Times sobre as políticas de ação afirmativa implementadas no Brasil.

O debate, disponível aqui, contou com a participação de brasileiros e gringos, entre eles Yvonne Maggie, Marcelo Paixão, Antonio Sérgio Alfredo Guimarães, e João Jorge Santos Rodrigues, presidente do Olodum.

Entre os textos gringos, "traduzi" estes dois:  "O que o Brasil faz bem" e  "O Brasil estabelece um exemplo a seguir".

Problemas surpreendentes na determinação de quem se qualifica para a ação afirmativa no Brasil.
Jefferson Fish

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No New York Times  de hoje (30 de março de 2012), há uma interessante discussão com oito especilistas acerca da pergunta: "O Brasil será beneficiado por ações afirmativas de estilo norte-americano para contrapor a sua história de escravidão?" O painel, entitulado "Desafio da identidade racial no Brasil", foi estimulado pela preparação para as Olimpíadas de 2016 no Brasil e pelo desejo de compreender a cultura do colosso do hemisfério sul. (O Brasil ocupa mais da metade das terras da América do Sul, é maior do que 48 estados americanos contíguos, e, com quase 200 milhões de habitantes, tem a metade da população do continente).

As respostas dos participantes foram prejudicadas pela brevidade do espaço a elas destinado. Uma questão fundamental que não pode ser explorada - e que todos os participantes entendem claramente - é a grande diferença nas concepções de raça que têm americanos e brasileiros. Micol Seigel referiu-se a elas como "as incomensuráveis ​​maneiras com que delimitamos as categorias sociais." No entanto, as respostas confrontaram a questão em um grau raramente atingido nos EUA durante o diálogo nacional sobre raça, do presidente Clinton.

Uma expressão cultural brasileira chave é “dar um jeito” (sic), com uma gama de significados que vão desde criatividade e flexibilidade até trapacear, suborno e corrupção. A escravidão foi muito mais difundida e terminou significativamente mais tarde (em 1888) no Brasil do que nos EUA. No entanto, o Brasil deu um jeitinho e evitou uma guerra civil ao abolir a escravidão em etapas, ao longo de quase quatro décadas. Primeiro, o comércio de escravos foi abolido; depois, qualquer pessoa nascida de um escravo era livre; em seguida, os escravos com idade superior a 60 anos foram libertados; e, finalmente, quando muito menos pessoas ainda estavam escravizadas e a economia tinha tido tempo para se adaptar, a instituição foi finalmente terminada.

Em um contraste semelhante, a América desenhou uma linha acentuada entre brancos e pretos com a sua regra de “one-drop” (uma gota). A idéia norte-americana de raça tem sido tradicionalmente baseada na ascendência, de modo que qualquer um com um dos pais classificado como negro também era considerado negro  - mesmo que tivesse cabelos loiros, olhos azuis e pele muito clara. No Brasil, as pessoas são classificados por sua aparência, em um número de categorias que varia de cerca de dez ou vinte, no sul, a bem mais de uma centena no nordeste. Uma família em Salvador, Bahia, com uma mãe, pai, e seis filhos pode muito bem ser de oito diferentes “cores ou tipos”  - palavras usadas pelos brasileiro ao invés de raça. Além disso, quando as pessoas mais escuras ganham mais dinheiro e alcançam ocupações de maior prestígio, elas podem se tornar menos negras  - a expressão brasileira é "o dinheiro embranquece".

Afro-americanos que visitam o Brasil como turistas - e que às vezes podem até ser confundidos com brasileiros, por causa de sua aparência – voltam para casa com percepções diferentes sobre o racismo brasileiro. Alguns dirão que o Brasil realmente parece aproximar-se do seu ideal de uma "democracia racial", enquanto outros expressam choque com o racismo manifesto encontrado, de uma espécie que praticamente desapareceu nos Estados Unidos. Pode não ter ocorrido a eles que os tratamentos diferenciados que experimentaram dependeu significativamente de o que eles se parecem. Ou seja, em termos brasileiros, alguns não eram discriminados por serem negros, porque no Brasil eles não eram negros. (O julgamento brasileiro é feito com base não apenas na cor da pele, mas em características faciais e na textura do cabelo, para não mencionar as roupas e outros indicadores de classe social.)

Assim, um problema fundamental na reflexão sobre a pergunta é o acerca de "quem é negro?" Havendo benefício a se obter por ser negro, alguns brasileiros têm preocupação de que não-negros (isto é, aqueles que estão fora qualquer categoria estabelecida pelo governo ) dariam um jeitinho e alegariam ser negros. Isso é similar à maneira como alguns americanos têm "redescoberto" suas raízes indígenas após o desenvolvimento dos casinos em reservas. Ele também explica por que alguns dos participantes no debate defendem a ação afirmativa baseada em classe social, em vez de "raça". A alta correlação entre a pobreza e, por falta de um termo melhor, negritude no Brasil significa que o programa afetaria substancialmente as mesmas pessoas.

terça-feira, 20 de março de 2012

BBC: programa brasileiro de estudos no exterior tem escala e velocidadesem precedentes


Matéria publicada pela BBC Brasil.






O programa Ciência sem Fronteiras, que prevê a entrega de milhares de bolsas de estudo para que brasileiros se capacitem no exterior, foi qualificado pela revista britânica The Economist como a "mais ousada tentativa do Brasil de estimular seu crescimento econômico".

Lançado em 2011, em parceria dos ministérios da Ciência e da Educação, o projeto tem como meta formar alunos de graduação e pós-graduação em países como Alemanha, EUA e Reino Unido, para torná-los, nas palavras do governo federal, "competitivos em relação à tecnologia e inovação".

"Até o final de 2015, mais de 100 mil brasileiros (oficialmente, o governo brasileiro diz que serão 75 mil) terão passado cerca de um ano no exterior nas melhores universidades do mundo, estudando temas como biotecnologia, oceanologia e engenharia de petróleo, que o governo considera essenciais para o futuro do país", escreveu a Economist em sua edição que chegou às bancas nesta sexta-feira. "Isso custará R$ 3 bilhões, sendo um quarto disso pago por empresas e o resto, pelo dinheiro dos impostos."

Dos arquivos:
O vira-lata, a cramberry e a jabuticaba
Keneth Rapoza, na Forbes: as descobertas da Petrobras no pré-sal são, para o Brasil, o que pousar na lua foi para os EUA
Corte seco.
Valor: Bolsa família reduz evasão escolar e melhora aproveitamento dos alunos.
Jornal da Ciência: UFRJ inaugura laboratório que impulsiona programa nuclear
Portal Exame: Embrapa se prepara para atender a demanda externa por seus serviços e sua tecnologia.
Newsweek: com suas conquistas desde 2003, o Brasil surge como modelo na luta contra a pobreza.

A revista cita autoridades defendendo que a melhoria na qualidade da mão de obra brasileira pode fazer "uma grande diferença" - ainda que no longo prazo - no fomento às taxas de crescimento da economia, atualmente menores que as de outros países do grupo Bric.

Além disso, brasileiros diplomados ganham, em média, 3,6 vezes mais do que os formados apenas no ensino médio, segundo a publicação britânica.

Mão de obra qualificada
"Empresários se queixam da dificuldade em encontrar mão de obra qualificada (no Brasil). Pessoas treinadas em áreas científicas são especialmente escassas. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) diz que muitos dos 30 mil engenheiros formados anualmente no país vêm de instituições medíocres", prossegue a reportagem.

"As autoridades esperam que estudantes retornem com boas ideias do exterior e elevem os níveis (de ensino) esperados nas universidades brasileiras."

A revista também cita Allan Goldman, do grupo sem fins lucrativos Institute of International Education, dizendo que o programa brasileiro tem "escala e velocidade sem precedentes".

Até então, o envio de brasileiros para estudos no exterior era menor que o de países como Índia e China.
"Os EUA são o destino mais popular, mas até o ano passado havia apenas 9 mil brasileiros em campi americanos (excluindo-se os estudantes de idiomas). Juntos, os chineses e indianos somavam 260 mil", afirma a Economist.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Eu só sei de mim - e olhe lá.

Corte seco

Os pés estão absolutamente paralelos - um ao outro e ao meio fio junto deles. O corpo e a coluna, em unidade, são mantidos perfeitamente estirados perpendicularmente ao solo, como se os quisesem substitutos de um poste. O homem estende o braço direito, até então alinhado junto ao troco, na altura exata de seu ombro e em direção ortogonal a da calçada. Desta forma, ele solicita a parada do ônibus.

O veículo para ao lado do homem. Girando o corpo precisos noventa graus, ele se coloca de frente para o coletivo e, com os pés novamente em rígido paralelismo, perfaz a distancia até a porta com passos idênticos. Diante da porta, em seu exato centro, o sujeito suspende simultaneamente os dois braços até as alças e, depois uma, das pernas, formando com seu joelho um ângulo reto. Firme e seguro, ele traz a outra perna para o primeiro degrau, sem que se altere a angulação entre sua coluna, o chão e o vão da porta; repetindo a operação, novamente precisa, ele se coloca diante da roleta.

Ali, após um novo giro de noventa graus, com que se põe frente a frente com o trocador e com o peito paralelo ao balconete, o homem estica por completo seu braço esquerdo para o lado, postando sua mão à altura de seus ombros, e descreve com ela um setor de circulo para efetuar o pagamento. Recebido o troco, realiza o movimento inverso com seu braço para, em seguida, vencer a roleta com com precisão que impede qualquer meneio da cabeça ou a oscilação de uma mísera vértebra ou do quadril.

Parado agora justo no meio do corredor, o passageiro gira sobre o eixo de sua coluna, virando-se para a dianteira do ônibus. Segue então seu caminho até o primeiro banco do veículo, a passos rigorosamente iguais, como atestaria quem os medisse. Com apenas um exato passo lateral, posta-se em posição para sentar-se, finalizando a operação com harmonia perfeita, simétrica, absoluta - geométrica, poderíamos dizer.

Instantes depois, em alta velocidade e desgovernado pelo estouro de um pneu, o ônibus colide frontal e ortogonalmente contra um poste. Em um vôo cheio de voltas barrocas, o homem é atirado contra o para-brisa e, através dele, à calçada.

Estatelado sobre a calçada, depois de cruzá-la sem direção certa, aos rodopios e meias-cambalhotas, em posição digna de um contorcionista - aparentando ter mais membros que de fato tem – o corpo do homem finalmente volta a conhecer ângulos variados e a possibilidade de curvaturas e posturas assimétricas.

Pena, porém, já não haver, então, proveito para essas vãs liberdades.

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Achei esse texto (bem velhinho) no HD e deu vontade de postar aqui.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Holanda manda delegação conhecer experiência do Conselhão

Matéria publicada pelo Brasília em tempo real.


O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social recebeu nesta sexta, dia 2, representantes do Conselho Científico Holandês que está em missão no Brasil. Os conselheiros holandeses tinham como objetivo principal conhecer melhor o trabalho desenvolvido pelo CDES e entender melhor como o tema do novo padrão de desenvolvimento está sendo tratado.

A reunião entre o CDES e o Conselho Científico Holandês foi aberta pelo conselheiro Murillo de Aragão que apresentou o trabalho do Conselho, falando de como se deu a criação do CDES no Brasil, passando pela composição, chegando, por fim, nos principais temas tratados. Aragão enfatizou a importância do Conselho como fórum de diálogo, lembrando que as recomendações feitas pelo CDES são fruto de um intenso debate em que a busca pelo consenso é um dos principais objetivos.

Leia também:
O vira-lata, a cramberry e a jabuticaba
Keneth Rapoza, na Forbes: as descobertas da Petrobras no pré-sal são, para o Brasil, o que pousar na lua foi para os EUA
Portal Exame: Embrapa se prepara para atender a demanda externa por seus serviços e sua tecnologia.
Newsweek: com suas conquistas desde 2003, o Brasil surge como modelo na luta contra a pobreza.

Ao comentar a apresentação, Peter van Lieshout, um dos representantes do conselho holandês, se mostrou muito impressionado com a amplitude de representações presentes no CDES. Comparando com seu similar holandês e com outros conselhos europeus, ele ressaltou que as instituições internacionais tendem a ter uma composição dividida entre empresários e trabalhadores o que de alguma forma restringe sua atuação. Ary Quintella, diretor internacional da Secretaria de Assuntos Estratégicos explicou que essa multiplicidade de representações se dá muito em função das dimensões e diversidades econômicas, sociais, culturais e regionais brasileiras.

Em um segundo momento da reunião, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ricardo Bielchowsky, fez uma apresentação sobre o novo modelo de desenvolvimento brasileiro. Bielchowsky foi consultor do CDES quando da elaboração da Agenda do Novo Ciclo de Desenvolvimento, lançada em junho de 2010. O professor fez um resumo rápido sobre os principais padrões de comportamento brasileiros, que seriam: 1) 1930 a 1980 - desenvolvimento via industrialização com alto crescimento econômico (7,4% de 1950 a 1980); 2) 1980 - 2002 - período de instabilidade macroeconômica (1980 a 1994), caracterizado pelo baixo crescimento da economia; 3) a partir de 2003 - novo padrão de desenvolvimento, com retomada do crescimento econômico.

Para o professor Bielchowsky há hoje um embrião de um promissor projeto de desenvolvimento nacional, que consiste de três "motores" de investimento, que seriam i) o crescimento e redistribuição de renda por meio da produção e consumo de massa, ii) atividades provenientes de recursos naturais (como petróleo e hidrelétricas) e iii) a infraestrutura. Como "turbinadores" destes "motores", o professor coloca i) a ciência e tecnologia e inovação e ii) políticas adequadas para os setores tradicionais.

Ao fim do encontro, os representantes holandeses se disseram muito bem impressionados com a amplitude do trabalho que vem sendo realizado pelo CDES e disseram que a missão no Brasil irá se reunir com mais de quarenta instituições brasileiras. O Conselho Científico Holandês é o principal órgão de aconselhamento do governo, sendo vinculado ao Gabinete do Primeiro Ministro.  Atualmente, está trabalhando no projeto intitulado: "Como viveremos daqui a 20 anos?", com o objetivo de guiar a estratégia de crescimento econômico do país.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O vira-lata, a cranberry e a jabuticaba.

A publicação ficou longa, mas eu queria manter os textos abaixo bem juntinhos. São três artigos, publicados, nesta ordem, pela Carta Capital, pelo Valor Econômico e pela Revista de História da Biblioteca Nacional.

Flor da jabuticabeira
Flor da Jabuticabeira
Os dois primeiros artigos tratam de uma mesma questão, por óticas distintas. Eles falam desta mania brasileira, a arraigada noção de que tudo feito, decidido, inventado ou imaginado por aqui é pior, quando comparado ao que se passa alhures, especialmente em países desenvolvidos (ou asiáticos em desenvolvimento). É o tal do complexo de vira-latas.


Dos arquivos do blog:
O Brasil é a Nova América?


O último artigo trata de outro assunto: a relevância do conceito de inimigo na formação da identidade norte-americana. Pra isso, especifica rapidamente o processo de colonização e independência dos Estados Unidos. Em seguida, talvez para reforçar aspectos relevantes para a tese, compara aquele processo de emancipação com o Brasil, bastante distintos.

Essa comparação, na verdade, em diversos sentidos, poderia mesmo servir de argumento (bem determinista) para o reforço do complexo. Algo do tipo: "Tá vendo, até nossa independência foi meia boca..."

Por outro lado, a comparação suscita (só em mim?) uma outra questão: e se aqueles colonos instalados nas longínquas terras inglesas na América se vissem como vira-latas, teriam eles promovido as mudanças que promoveram? Se aquele pessoal impertinente, esquecido naquelas colônias abandonadas, incorporasse a ideia que deles tinham os ingleses, teriam sido os americanos capazes de inventar todo um novo sistema?

Talvez os EUA só sejam o que são hoje (se bom ou ruim, é outra questão), entre outros fatores, porque os tais "pais fundadores" acreditaram que sim, apesar de perdidos no fim do mundo, eles podiam inventar algo novo, não necessariamente pior que o existente na metrópole.  Porque naqueles debates todos que geraram o modelo norte-americano ninguém lançou com sucesso a frase, tão paralisante quanto viralática: "se só existe nas 13 colônias e não é Cranberry, não pode ser bom".


Leia também:
Holanda manda delegação conhecer experiência do Conselhão
Keneth Rapoza, na Forbes: as descobertas da Petrobras no pré-sal são, para o Brasil, o que pousar na lua foi para os EUA
Portal Exame: Embrapa se prepara para atender a demanda externa por seus serviços e sua tecnologia.
Newsweek: com suas conquistas desde 2003, o Brasil surge como modelo na luta contra a pobreza.



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Roberto Amaral


“A ponte Rio-Niterói é, portanto, uma linda obra turística, cuja prioridade não se justifica em um país de escassos recursos que se defronta com necessidades berrantes que aí estão nesta mesma região do País, clamando pela ação do Governo”.
Eugênio Gudin, O Globo, 2/3/1974

Foi Nelson Rodrigues, em crônica às vésperas da Copa do Mundo de 1958 (Manchete esportiva, 31/5/1958), quando a seleção brasileira partia desacreditada para a disputa na Suécia, quem grafou o conceito de “complexo de vira-latas”, resumo de um colonizado e colonizador sentimento de inferioridade em face do estrangeiro e do que vem de fora, seres e coisas, ideias e fatos.

Impecável a definição, cujas raízes nos levam à empresa colonial e ao escravismo, à dependência cultural às diversas Cortes que sobre nós reinaram e ainda reinam.

Peca, porém, o teatrólogo genial e reacionário militante ao atribuir tal “complexo” a um fenômeno nacional, como se fosse ele um sentimento de nosso povo, de nossa gente, pois nada é mais povo brasileiro do que o torcedor de futebol.

Esse sentimento existe, mas regado pela classe dominante brasileira, desde a Colônia, que sempre viveu de costas para o país e com os sonhos, as vistas e as aspirações voltadas para a Europa. Terra de “índios desafeitos ao trabalho”, de “negros manimolentes e banzos” e “europeus de segunda classe”, nosso destino, traçado pelos deuses, era a de eternos coadjuvantes. História própria, industrialização, destino de potência… ah, isso jamais!

Nem no futebol, pois havíamos perdido as copas de 1950 e 1954 justamente porque éramos (eram nossos jogadores) um povo mestiço.

Pensar grande, pensar na frente, projetar-se no mundo e na História, isso é coisa de visionários ou políticos “populistas”.

Tal cantochão reacionário foi construído pelos pensadores dos interesses dominantes (desde os que no Império advogavam o “embranquecimento da raça” e por isso, só por isso, chegaram a admitir a abolição da escravatura), e ainda hoje é o refrão da direita impressa.


Para essa gente, o destino de nosso país era o de exportador de café e importador de manufaturas (“porque produzir aqui se podemos importar o produto estrangeiro, melhor e mais barato?”), e agora é o de exportador de soja e minério in natura. Amanhã, que os fados nos protejam, o destino que nos devotam é de exportadores de óleo bruto, como o Iraque, o Irã, a Venezuela, a Arábia Saudita…

O único engenho concedido ao nosso povo é o carnaval, comercializado pela tevê monopolizada. Mas dizem ao nosso povo os jornalões que não temos capacidade de construir meia dúzia de estádios.

Mesmo o futebol entrou em questionamento, depois que o Santos caiu de quatro nos gramados japoneses. A grande imprensa agora prescreve que o futebol brasileiro precisa reaprender com o catalão, repleto de atletas estrangeiros, inclusive, brasileiros…

Um bom representante desse pensamento conservador – que no Império ceifou pioneiros como Mauá – é Eugênio Gudin, criador (ao lado de Octavio Gouvêa de Bulhões) do ensino da economia em nosso país, e fundador do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas. Monetarista e anti-desenvolvimentista, anti-varguista e anti-juscelinista, iluminador do moderno neoliberalismo brasileiro, combatia a intervenção do Estado na economia, o apoio (com incentivos ou o que fosse) à industrialização, e defendia com unhas e dentes, desconsiderando a realidade objetiva, o equilíbrio financeiro e a austeridade fiscal.

Gudin, como a maioria dos economistas, gostava de falar em “custo de oportunidade”, que procura medir o que poderia ter sido feito em saúde, educação e mais isso e mais aquilo, com os gastos de determinada obra ou melhoramento. Por exemplo, quanto poderíamos ter investido em saúde se não investíssemos na transposição do São Francisco, em que pese ao preço de deixar à míngua milhões de brasileiros do semi-árido nordestino…

Por isso, Gudin, como a classe dominante e a direita impressa, foram contra Brasília e mesmo contra a ponte Rio-Niterói, e são, agora, contra o trem-bala que ligará Campinas-São Paulo ao Rio de Janeiro.

Ainda na ditadura, um falecido jornalão carioca insurgiu-se contra as obras do metrô em nossa cidade, sob o tacanho argumento de “que ainda não haviam sido esgotadas as possibilidades do trânsito de superfície”.
Chateaubriand, nosso Cidadão Kane, mobilizou sua cadeia de jornais e rádios para combater os investimentos da União na triticultura gaúcha “porque era muito mais barato importar trigo dos EUA’”, que então renovavam seus estoques de guerra.

Agora mesmo há os que julgam desperdício os investimentos em hidroelétricas e em Angra III.

Ora, em país que de tudo carece, tudo é urgente e igualmente tudo é adiável. Mais importante do que o “custo de oportunidade” é a oportunidade do investimento, ainda que signifique o atraso de obras e serviços “inadiáveis”.

Assim foram os investimentos dos anos 50 na Petrobras (que Gudin e outros consideravam um desperdício, até por que “o Brasil não possuía petróleo”) e a seguir os investimentos da estatal em pesquisa, de que a prospecção em águas profundas é apenas um dos frutos. Aos míopes daquele então, pergunto: que seria o Brasil de hoje dependente da importação de petróleo? Que será o Brasil de amanhã sem energia elétrica?

Aí então é que não podemos pensar em saúde e educação universais. Mas, para os áulicos do conservadorismo, tudo o que significa investimento com vistas ao futuro deve ser adiado, como supérfluo. Daí o desmantelamento tecnológico de nossas forças armadas, daí o atraso da indústria nuclear, daí o atraso na indústria espacial, daí o atraso na produção de fármacos, na recuperação das ferrovias.

Paremos aqui, pois o rol é interminável.

O Brasil de hoje mostra a relevância dos “injustificáveis investimentos” na construção de Brasília (incorporando à economia mais da metade do território nacional) e da ponte Rio-Niterói, a qual, aliás, já dá sinais de saturação.

Todo mundo pode construir seu trem-bala. Podem o Japão, a China, a Itália, a França, a Espanha… mas o Brasil, não, pois aqui “há outras necessidades exigindo recursos”. E na China e na Espanha por acaso já não há mais nada pedindo investimentos? Seus críticos de boa e de má-fé reduzem o projeto à ligação entre as duas maiores metrópoles do país, ou seja, a um simples sistema de transporte, o que, convenhamos, já o justificaria.

Mas aos esquecidos lembremos o processo de urbanização que essa nova via proporcionará, criando em torno de seu trajeto e de suas estações novas condições de vida e moradia, desafogando os grandes centros, atraindo serviços e indústrias, ou seja, promovendo o desenvolvimento que ensejará investimentos em saúde, educação, saneamento etc.


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O Brasil já deu certo - apesar dos céticos


Alberto Carlos Almeida


Grande parte da mídia brasileira se especializou em falar mal do Brasil. Graças a isso, a percepção que a sociedade tem de si mesma, em diversos aspectos, é inteiramente equivocada. Vende-se algo que não existe: a visão de que somos piores em quase tudo, quando comparados com a maioria dos países desenvolvidos. Nem mesmo as boas notícias são recebidas de maneira positiva. Por exemplo, a recente informação de que ultrapassamos o Reino Unido quanto ao PIB foi divulgada cheia de ressalvas, afirmando-se que o PIB per capita é um indicador mais relevante e coisas do gênero.

A covardia com o Brasil atinge o ápice quando se tenta comparar nosso sistema político com o dos outros países. Afirma-se que o presidencialismo é pior do que o parlamentarismo, mas não dizem que os países parlamentaristas têm gastos públicos sistematicamente maiores do que os presidencialistas e que é justamente por isso que a Europa se encontra mergulhada na pior crise econômica de sua história recente. Diz-se que o sistema eleitoral distrital é melhor do que o proporcional com lista aberta, mas não dizem que um dos países que melhor escapou da crise mundial é a Suécia, que adota o mesmo sistema eleitoral que o nosso tão criticado Brasil. Como sempre, a lista de críticas ao Brasil é muito longa. É difícil imaginar como um país tão ruim, com tantas coisas negativas, possa ter chegado aonde chegou. Opa, para os críticos ele não chegou a lugar algum, continua lá atrás, sendo um dos países mais problemáticos do mundo.

A crítica permanente ao Brasil está fundamentada em excesso de provincianismo: como não se conhece o que acontece em outros lugares, assume-se que aquilo que conhecemos de muito perto, em detalhes, é muito ruim. A greve dos policiais da Bahia e a desordem e criminalidade resultantes é um prato cheio para a frase típica dos que sofrem de complexo de inferioridade: "Isso só acontece no Brasil". É possível ver o outro lado da moeda, o lado positivo. A greve dos policiais baianos será resolvida de uma forma inteiramente diferente de greves congêneres que ocorrem nos Estados Unidos. Ao contrário de nosso vizinho mais rico, aqui não será dado um aumento salarial que comprometa a situação de nossas finanças públicas.

É isso mesmo. Para aqueles que não sabem, vários Estados e municípios americanos estão quebrados porque concederam aumentos salariais a perder de vista para policiais e bombeiros. Esse é o caso, tão bem relatado por Michael Lewis em seu livro "Bumerangue", recentemente publicado no Brasil, da Califórnia e dos municípios de San Jose e Vallejo. Aqueles que idolatram o federalismo americano deveriam saber que justamente por isso lá não há nada que se assemelhe a nossa Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). Governadores e prefeitos estão livres para exercer sua prerrogativa de gastar muito, endividar o setor público ao ponto de comprometer seu funcionamento para as futuras gerações. Não serve aqui o argumento em abstrato, o princípio teórico, de que descentralizar é necessariamente melhor do que centralizar.

Os policiais da Bahia e de outros Estados estão limitados pela nossa centralização, que se traduz na possibilidade de ter algo como a LRF. Mais do que isso, a simples discussão ora em curso sobre a PEC 300, um sinal evidente de nossa centralização, mostra que jamais nossos Estados ou municípios ficarão na situação, como é o caso de Vallejo, de ter somente um funcionário público, aquele que tem como função pagar os salários, aposentadorias e pensões de policiais e bombeiros. Isso mesmo, em Vallejo, os sinais de trânsito estão todos piscando permanentemente em amarelo. O município, falido, não tem recursos para sustentar uma burocracia que faça valer as leis de trânsito. Isso jamais ocorreu ou ocorrerá no Brasil.

Na Grécia, não há cartões de crédito na grande maioria dos estabelecimentos comerciais. A razão é simples: o pagamento em dinheiro vivo está a serviço da mais fácil e completa sonegação de impostos. Não adianta dizer que os gregos são uma piada e isso e aquilo. Sempre foi assim, desde o momento em que a Alemanha aceitou a entrada da Grécia no acordo que estabeleceu o euro. Os gregos vão muito além de não utilizar cartões de crédito. Em ano eleitoral, o governo relaxa o controle fiscal, faz vista grossa para o não pagamento de impostos. É muito interessante que o Brasil seja tão ruim, mas que um país europeu utilize o (não) pagamento de impostos como moeda de troca eleitoral. Cá entre nós, comprar votos em comunidades pobres é muito mais redistributivo. Nosso sistema de controle fiscal pode não ser germânico, mas certamente temos uma burocracia muito mais avançada do que muitos países europeus. Os críticos contumazes do Brasil não sabem disso, são provincianos demais para imaginar que algum país supostamente desenvolvido possa não controlar o pagamento de impostos, como se faz na nação de Macunaíma.

Aliás, nada mais distante do espírito germânico do que Macunaíma, nosso herói sem caráter. Ele é um retrato da nossa incredulidade. O brasileiro jamais acredita no que se diz. Essa credulidade alemã não faz parte da nossa cultura. Foi graças a isso que os alemães sempre acharam que a Grécia estava cumprido as metas de gastos definidas pelo tratado de Maastricht. Um burocrata ou um ministro da Fazenda brasileiro jamais confiaria na Grécia quanto a isso.

O livro "Bumerangue" é um excelente antídoto para o excesso de pessimismo quanto ao Brasil. Michael Lewis mostra que nos Estados Unidos, Grécia, Islândia, Irlanda e Alemanha aconteceram e acontecem coisas terríveis, que jamais atingiram e provavelmente nunca farão parte de nossa realidade. É claro que temos coisas ruins e abomináveis, mas isso está longe de ser o cenário catastrófico pintado pelos críticos. Todo país e toda sociedade têm problemas, mas também não somos piores do que os outros em tudo ou quase tudo.

Os alemães de Lewis são crédulos ao ponto de serem os únicos que, já com a crise no horizonte, continuavam comprando os papéis do "subprime" em Wall Street. Aliás, quando um "trader" americano tinha dificuldade para vender tais papéis, recebia invariavelmente a seguinte recomendação: "Venda para aqueles otários de Dusseldorf, que eles compram de tudo". Não creio que algum dia será possível trocar otários de Dusseldorf por otários de São Paulo ou do Rio de Janeiro, e muito menos de Brasília.

Os brasileiros acreditam em coisas mágicas como o boto da Amazônia ou o nêgo d'água em Minas Gerais. Ambos cumprem o mesmo papel de justificar, em uma sociedade conservadora, a gravidez de mulheres solteiras ou a traição das casadas. Isso causa muito menos prejuízo aos cofres públicos do que os duendes nos quais acreditam. Isso mesmo, na Islândia se acredita em duendes e quando uma empresa como a Alcoa foi se instalar por lá teve que aguardar por seis meses, até que fosse concluído um estudo que verificaria que em determinada área não havia duendes. É a mesma Islândia que transformou dezenas de pescadores em banqueiros. Isso mesmo, os banqueiros islandeses tinham sido pescadores durante toda sua vida profissional.

Mais do que isso, David Oddsson, que foi primeiro-ministro e presidente do Banco Central islandês, nunca teve experiência alguma com bancos e era poeta de formação. Talvez por isso os bancos alemães tenham colocado US$ 21 bilhões na Islândia, a Holanda tenha apostado US$ 305 milhões, o Reino Unido US$ 30 bilhões e a Universidade de Oxford tenha perdido US$ 50 milhões. No Brasil, é impensável que alguém que não tenha familiaridade com o mercado financeiro assuma a presidência do Banco Central. Mesmo assim, há aqueles que insistem em criticar tudo ou quase tudo.

Trata-se de uma questão de ponto de vista, de como olhamos o Brasil. O exemplo da centralização é emblemático. Não há nada necessariamente melhor em ser tão descentralizados como são os Estados Unidos. Uma postura cética indica que o que melhor e pior, o benéfico e maléfico, dependerão das consequências. A comparação entre os gastos com funcionários públicos estaduais e federais no Brasil e nos Estados Unidos mostra que a centralização política e administrativa tem sido mais efetiva para conter seu descalabro. Indo além, ser um pouco macunaímico quando se trata de comprar papéis do "subprime" teria sido bom para os germânicos. Nada disso se escolhe: são coisas que as nações são ou não são. Ultimamente, temos sido os grandes beneficiários de ser como somos.

Alberto Carlos Almeida, sociólogo e professor universitário, é autor de "A Cabeça do Brasileiro" e "O Dedo na Ferida: Menos Imposto, Mais Consumo".
E-mail: Alberto.almeida@institutoanalise.com
www.twitter.com/albertocalmeida


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Leandro Karnal


Para se viabilizar como nação, americanos elegem adversários – indígenas, comunistas e terroristas – desde a Independência

Tendo atrás a estátua do presidente Lincoln e à frente o obelisco que homenageia George Washington, em 28 de agosto de 1963 o pastor Martin Luther King Jr. fez um discurso histórico: “Eu tenho um sonho”.  Combatendo o racismo da sociedade norte-americana, o futuro Prêmio Nobel da Paz usou uma imagem interessante para definir o episódio da Declaração de Independência dos Estados Unidos, de 1776: uma espécie de cheque a ser descontado pelas gerações futuras do país.

O líder dos direitos civis explicou que o cheque, levado ao banco por mãos negras, voltou com a marca “fundos insuficientes”.  O discurso foi um protesto contra este estelionato, pois os afrodescendentes ainda lutavam por seu 4 de julho, 187 anos depois da ruptura com a Inglaterra. Em defesa do voto feminino, mulheres recorreram a argumentos semelhantes, assim como os conservadores do século XXI do Tea Party – grupo político republicano conservador – invocam o espírito da Independência ao proclamar suas ideias e projetos.

Esse sentimento vem de longe. Fundadas no século XVII, as 13 colônias inglesas da América do Norte foram abandonadas à própria sorte, pois a Inglaterra estava ocupadíssima com crises internas, especialmente a sua guerra civil, quando o Parlamento liderou a luta contra o absolutismo dos reis Stuart. No século XVIII, tudo mudara. Estável e rica, a Inglaterra dava os primeiros passos da industrialização.  As colônias teriam um novo papel. [Sim, abusado, eu vou fazer um aparte: entendeu? Não foi a qualidade dos colonizadores - "magníficos ingleses no lugar de portugueses idiotas e bandidos" - que fez a diferença. Foi a disparidade entre os momentos políticos vividos pelas metrópoles que determinou um sistema colonial diferente entre a América do Norte e a nossa América Latina + México) 

John Hancock chegou a exagerar o tamanho da assinatura na Declaração para o rei George III ler com clareza, um gesto ousado de humor

Foi a partir de 1764, quando o Parlamento de Londres endureceu e reafirmou seu papel de metrópole no controle das colônias, que as lideranças do Novo Mundo iniciaram os boicotes e protestos violentos contra a ordem reinstaurada. As leis inglesas passaram a restringir o comércio e a liberdade das colônias americanas, como a lei do açúcar e a do chá. As hostilidades evoluíram para choques armados e, em 4 de julho de 1776, para espanto do mundo, congressistas reunidos na Filadélfia proclamaram a Independência, fato até então inusitado no Novo Mundo. O princípio revolucionário de que “todos os homens foram criados livres e iguais” tornara-se concreto pela primeira vez na História.

Quando homens brancos e ricos puseram suas assinaturas na declaração formal de independência, estavam rompendo o modelo político colônia-metrópole. John Hancock (1737–1793) chegou a exagerar o tamanho da assinatura para o rei George III ler com clareza, um gesto ousado de humor, porque todos conheciam a força do império. A posteridade, no entanto, rendeu homenagem à ousadia e Hancock virou sinônimo de assinatura.

Para nós, brasileiros, a comparação é interessante [Ver RHBN nº 66]. O gesto simbólico da nossa Independência de 1822 foi pintado em “O grito do Ipiranga” somente em 1888, por Pedro Américo. No quadro, foi cristalizado o imaginário bem digerido em textos didáticos e em filmes: D. Pedro grita, de forma romântica e passional: “Independência ou Morte!” Já a cena da Filadélfia, também representada no século XIX por John Trumbull (1756-1843), recorre à tinta racional: homens discutem e definem os motivos pelos quais são levados ao ato da ruptura. Dois momentos e dois países diferentes.

O príncipe Pedro estabeleceu mais um slogan do que um programa. Os EUA nasceram a partir de uma declaração pormenorizada, com princípios iluministas de liberdade para todos, igualdade, e considerando a felicidade como um direito universal. O que ocorreu nos séculos seguintes foi, sistematicamente, a busca desta utopia. Uma espécie de guia para deixar uma construção teórica e formal de liberdade e caminhar na direção de conquistas concretas, como a do voto feminino ou dos direitos dos negros. Querendo ou não, fazendeiros, escravocratas, comerciantes e profissionais liberais daquele salão na Filadélfia estabeleceram a base de uma agenda de 200 anos de protestos.

Diferentemente do processo americano, a Independência do Brasil foi apropriada pelo Estado e, apesar da participação popular em alguns episódios, como as lutas da Bahia [Ver RHBN nº 48], sempre foi considerada herança governamental e responsabilidade oficial. O processo de ruptura entre as 13 colônias e a Coroa britânica foi incorporado mais amplamente. O 7 de setembro (lembrança da independência brasileira) e o 4 de julho (norte-americana) sempre seriam muito diferentes: oficial o primeiro e popular o segundo.

Na própria Declaração de Independência, os colonos reconhecem que seria melhor deixar tudo como estava

Da memória da independência dos EUA retiram-se metáforas, exemplos e propostas de ação que servem desde recusa conservadora da presença do Estado na economia, como prega o Tea Party, até a proposta de maior inclusão do negro na sociedade, caso do “Eu tenho um sonho”.  Nos dois casos, a disputa pela memória existe porque o processo é muito amplo e permite adaptações e usos diversos. É possível exigir, como fez Martin Luther King, que o Estado promova uma política efetiva contra a segregação racial em nome dos “pais fundadores”. Também é igualmente possível exigir que o Estado não lance novos impostos, respeite a iniciativa privada e o direito do indivíduo de prosperar. Desta maneira, 1776 é um signo aberto, ou seja, pode ser associado a diversos contextos. Cada momento ou grupo conseguiu, quase livremente, constituir seu ideal do que tenha sido a “essência” do 4 de julho.

Como toda unidade nacional, a dos EUA foi fruto de elaboração variada e histórica. Para formar uma nação com um mínimo de coesão, foi sempre necessário combater um perigo externo: os ingleses do século XVIII, os índios do XIX, os comunistas do XX ou os atuais “terroristas islâmicos” deste início do XXI. Todos serviram de poderosos catalisadores para viabilizar a nação.

A realidade das 13 colônias era de profunda variedade religiosa, econômica e social. Em 1776, não havia nada próximo de um país. O esforço inicial dos colonos no processo de luta contra o Parlamento inglês foi o de pertencimento. Seus documentos pedem reconhecimento de seus direitos como parte viva e igual do império britânico. Na própria Declaração de Independência, os colonos reconhecem que seria melhor deixar tudo como estava, já que não havia um sentido claro da Coroa britânica em prejudicá-los.

Feita a Independência, restava o desafio de construir uma nação. Valores como igualdade tinham de ser redefinidos dentro de limites socialmente seguros. Símbolos deveriam ser inventados. Tratava-se de dar forma a uma comunidade surgida a partir de uma guerra.

O país que tinha nascido sem nome teria sua diversidade aumentada enormemente com a imigração. Como constituir uma nação e criar instituições com navios despejando lituanos, italianos, espanhóis e irlandeses todos os dias? Sem resolver a complexa questão, uma das respostas foi a guerra.

Lutar contra o outro forja um dos sentimentos mais intensos de identidade. Permite a um grupo, irredutível na sua alteridade, sentir a continuidade e a força do objetivo comum. O coletivo aumenta a força, justifica a violência e dilui responsabilidades.

A história americana pós-1776 estabeleceu com clareza quem seria o outro, o inimigo, mas nunca conseguiu  definir com nitidez quem seria o americano. Este é o grande desafio até hoje, quando a excepcionalidade americana é cada vez menos reconhecida. Resta o “admirável mundo novo” (brave new world: expressão da peça “A Tempestade”, de Shakespeare), que, por sinal, nasceu de ideias contidas no sonho da Independência dos EUA.

Leandro Karnal é professor de História da América na Universidade de Campinas, autor de Estados Unidos: A formação da nação (Ed. Contexto, 2005) e coautor de História dos Estados Unidos (Contexto, 2007).

Saiba Mais:
BAILYN, Bernard. As origens ideológicas da Revolução América. Bauru: Edusc, 2003.
DRIVER, Stephanie Schwartz. A Declaração de Independência dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
MCCULLOUGH, David. 1776: A história dos homens que lutaram pela independência. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
FILMES
Revolução”, de Hugh Hudson, 1985.
O Patriota”, de Roland Emmerich, 2000.


Tá difícil...