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sexta-feira, 16 de março de 2012

Corte seco

Os pés estão absolutamente paralelos - um ao outro e ao meio fio junto deles. O corpo e a coluna, em unidade, são mantidos perfeitamente estirados perpendicularmente ao solo, como se os quisesem substitutos de um poste. O homem estende o braço direito, até então alinhado junto ao troco, na altura exata de seu ombro e em direção ortogonal a da calçada. Desta forma, ele solicita a parada do ônibus.

O veículo para ao lado do homem. Girando o corpo precisos noventa graus, ele se coloca de frente para o coletivo e, com os pés novamente em rígido paralelismo, perfaz a distancia até a porta com passos idênticos. Diante da porta, em seu exato centro, o sujeito suspende simultaneamente os dois braços até as alças e, depois uma, das pernas, formando com seu joelho um ângulo reto. Firme e seguro, ele traz a outra perna para o primeiro degrau, sem que se altere a angulação entre sua coluna, o chão e o vão da porta; repetindo a operação, novamente precisa, ele se coloca diante da roleta.

Ali, após um novo giro de noventa graus, com que se põe frente a frente com o trocador e com o peito paralelo ao balconete, o homem estica por completo seu braço esquerdo para o lado, postando sua mão à altura de seus ombros, e descreve com ela um setor de circulo para efetuar o pagamento. Recebido o troco, realiza o movimento inverso com seu braço para, em seguida, vencer a roleta com com precisão que impede qualquer meneio da cabeça ou a oscilação de uma mísera vértebra ou do quadril.

Parado agora justo no meio do corredor, o passageiro gira sobre o eixo de sua coluna, virando-se para a dianteira do ônibus. Segue então seu caminho até o primeiro banco do veículo, a passos rigorosamente iguais, como atestaria quem os medisse. Com apenas um exato passo lateral, posta-se em posição para sentar-se, finalizando a operação com harmonia perfeita, simétrica, absoluta - geométrica, poderíamos dizer.

Instantes depois, em alta velocidade e desgovernado pelo estouro de um pneu, o ônibus colide frontal e ortogonalmente contra um poste. Em um vôo cheio de voltas barrocas, o homem é atirado contra o para-brisa e, através dele, à calçada.

Estatelado sobre a calçada, depois de cruzá-la sem direção certa, aos rodopios e meias-cambalhotas, em posição digna de um contorcionista - aparentando ter mais membros que de fato tem – o corpo do homem finalmente volta a conhecer ângulos variados e a possibilidade de curvaturas e posturas assimétricas.

Pena, porém, já não haver, então, proveito para essas vãs liberdades.

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Achei esse texto (bem velhinho) no HD e deu vontade de postar aqui.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Os milagres, a língua e o carnaval

Duas anotações e duas pinturas: só isso.
Carnaval em Madureira, de Tarsila do Amaral

"Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grande são secretos."

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"Assim como nós criamos as línguas, elas também nos cria a nós. Mesmo que não o façamos de forma deliberada, todos tendemos a selecionar palavras que utilizamos com maior frequência, e esse uso forma-nos ou deforma-nos, no corpo e no espírito. Um carroceiro, que os dicionários definem como aquele que conduz carroças, quer aquele que se comporta de forma grosseira, adquire pouco a pouco a natureza áspera dos tabuísmos que utiliza. Tabuísmo, poupo-vos por esta vez a consulta ao dicionário, é como chamamos às palavras e locuções consideradas chulas ou demasiado agressivas. Palavrões. Um político ganha com o tempo o aspecto esquivo, cinzento, pouco confiável, de vocábulos como constitucionalmente, compromisso, fraturante etc. (longo bocejo). Os palhaços usam, ou deixam-se usar, por palavras largas e coloridas (a prosódia é intolerável). Os militares – como os rappers – preferem monossílabos, acrónimos, termos sólidos e duros, como guerra, de origem germânica, quase um berro, como aqueles dois erres espinhosos que arranham a garganta.

Podemos alargar esta tese para as diferentes nações. Claro que quanto mais ampla for a generalização maior o risco de errar. Feito o aviso, não custa atribuir a obstinada melancolia dos portugueses ai uso desregrado da palavra saudade, no fado, na poesia, no discurso dos filósofos e dos políticos. Seria interessante estudar o quanto o culto à saudade contrariou, vem contrariando, o esforço para desenvolver Portugal. Já a famosa arrogância e o otimismo dos angolanos poderiam dever-se à insistência em termos como bué (“Angola kuia bué”), futuro, esperança ou vitória. No que respeita à alegria dos brasileiros, poderíamos talvez imputá-la as duas ou três palavras fortes que acompanham desde há muito a construção e o crescimento do país: mulato/mulata, bunda, carnaval.”