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quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rothkopf, no FP: Dilma assumirá muito melhor preparada que alguns líderes que assumiram grandes potências recentemente.


Artigo publicado pelo Foreign Policy.
Os desafios de escolher o antecessor certo, à moda do Brasil.Postado por David Rothkopf quarta-feira, 29 de setembro de 2010.

 

Se um dos segredos para o sucesso em qualquer trabalho é escolher o antecessor certo, então Dilma Rousseff pode estar começando com um golpe contra ela.

Seu atual chefe e campeão político do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem pode ter a atuação mais difícil de em todo o mundo. Apesar dos esforços de alguns comentaristas em tirar-lhe uma lasca ou duas (assim como jovens atiradores no velho oeste americano tentaram impulsionar sua reputação enfrentando o gatilho mais rápido na cidade), o carismático presidente do Brasil tem feito um trabalho notável. Embaralhando - e mandando para o lixo da história - as antigas distinções entre esquerda e direita, Lula conseguiu um boom econômico, grandes reformas sociais e a elevação d do Brasil para o topo da lista de países no mundo. (Veja a excelente história no Latin Business Chronicle de hoje ... rapidamente se tornando leitura obrigatória para qualquer um interessado na América Latina ... resumindo as recentes realizações económicas do Brasil. É uma coisa deslumbrante.)A pergunta é: O que uma garota tem de fazer? Dilma, que quase certamente se tornará a primeira mulher presidente do Brasil - apesar de um ligeiro deslizamento recente nas pesquisas, devido a um escândalo que não a implica de forma alguma; uma daquelas sugeiradas curiosamente cronometradas para vir à luz nas semanas antes de uma eleição - vai herdar um país com expectativas muito elevadas. Alguns críticos esperam que a ausência dos dons extraordinários de Lula ausente a fará vacilar. Mas leia a sua história e você descobrirá uma gestora excepcionalmente realizada, dura como prego e politicamente astuta, que virá para o cargo muito melhor preparada e equipada do que alguns outros líderes que assumiram as grandes potências recentemente.

De fato, uma vez que uma tarefa central do seu mandato será o esforço para explorar as enormes reservas de petróleo nas costas do Brasil - tornando o Brasil um grande produtor de petróleo - sua experiência como ministra da Energia é o ideal. O fato de que naquela posição ela dirigiu a Petrobras, a gigante estatal de petróleo, que completou recentemente uma captação maciça que fez dela a quarta empresa mais bem capitalizada do mundo, dá-lhe muito mais entendimento sobre negócios que muitos líderes políticos ... mesmo que os seus pontos de vista sobre as responsabilidades de uma empresa nacional de façam desconfortáveis alguns puristas de mercado.

É, na verdade, uma interessante nota que, se Dilma ganhar, ela se juntará Dmitry Medvedev como o segundo chefe de estado do BRIC a ter gerido sua companhia nacional de petróleo. Isso se torna ainda mais ressonante quando visto à luz do fato de um dos principais candidatos a assumir um papel de alto dirigente chinês na próxima transição daquele país é uma ex-engenheiro de energia. O que os BRICs sabem que nós não sabemos?

Há outra comparação com Medvedev que também se coloca: a questão de como você lida com um antecessor poderoso que não vai embora? Dilma vai ser vista como um fantoche de um ativo Lula como Medvedev seria de Putin? Ou será que ela frustrará essa expectativa, como Medvedev? A maioria dos que conhecem Dilma diz que é improvável ela ser fantoche de alguém; mas ela provavelmente vai procurar regularmente por Lula. Isso sugere que um modelo melhor para o relacionamento pode ser encontrado não em Moscou, mas em Cingapura, onde Lee Kwan Yew, o pai daquele estado, tem mantido um papel como Ministro Mentor.

Nos Estados Unidos, é claro, a maioria dos analistas olha para a questão através do filtro padrão global dos EUA - o que significa para nós? Por um lado, a resposta pode ser menor do que se poderia pensar. Os Estados Unidos perderam influência ao passo que o Brasil astuta e eficazmente traçou um curso independente. (O que é o caminho acertado ... como em encontros ... a instigar o interesse americano.) Esta mudança se sustentou no fato de que a China é hoje tanto o maior parceiro comercial como o maior investidor no Brasil.

A tensão permanente acerca da intervenção do Brasil na disputa nuclear iraniana, e a irrefletida decisão dos EUA de continuar a punir os brasileiros por sua iniciativa mal sucedida mas mal compreendida não vai ajudar. O Brasil de Dilma não vai mudar de rumo – e, de fato, não deveria. Com outras prioridades mais urgentes, Dilma é deve manter a continuidade da experiente e bem sucedida equipe de Amorim no Itamaraty, um grupo que, apesar da controvérsia, levou a níveis sem precedentes a influência internacional do Brasil. (Se o próprio Amorim não ficar, o principal candidato para o Ministério dos Negócios Estrangeiros é extremamente realizado seu vice, Antonio Patriota, um pensador diplomata de carreira de classe mundial.)

Assim, se a próxima líder do Brasil vai enfrentar grandes desafios, cercada pela equipe realizada e eficaz, que produziu muito progresso para o país nos últimos oito anos, ela está bem posicionada para manter a impressionante dinâmica atual desse país.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

The Hindu: ”Lula encarna o líder moderno, que acredita nas instituições.”, escreve cientista chileno.

Artigo publicado pelo The Hindu e (mal) traduzido por mim, com ajuda do Google, claro.

Lula and the Brazilian moment

A revista Time acaba de nomear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o líder mais influente do mundo. Barack Obama é o quarto classificado; o primeiro-ministro Manmohan Singh, o 19 (há apenas quatro chefes de Estado ou de Governo na lista). Este é um exercício um pouco diferente da tradicional seleção da "Pessoa do Ano" que a Time realiza a cada dezembro, mas altamente reveladora, no entanto. Por definição, ela "não é sobre a influência do poder, mas sobre o poder de influência." A Time nunca escolheu um líder latino-americano como a pessoa do ano. Na Índia, Mahatma Gandhi conseguiu isso em 1930.

O Brasil, antes conhecido como o "país do futuro", que sempr o lídere permanecerá como tal, trilhou um longo caminho. Que isto aconteça ao fim do mandato de oito anos do líder do Partido dos Trabalhadores do Brasil, cuja a mera perspectiva de vitória na eleição de 2002 levou a uma fuga do real, a moeda brasileira, e da BOVESPA , a bolsa de São Paulo, é impressionante.

Qual é o segredo do sucesso de Lula e do Brasil? Como é que um país mais conhecido, até há 20 anos por sua inflação galopante e economia de montanha-russa conquistou sua condição atual, de queridinho dos investidores, que aplica políticas sociais altamente eficazes e que tem se posicionado como um jogador de veto em assuntos internacionais, sem uma cuja aquiescência nenhuma grande iniciativa global é viável?

Com uma massa de terra de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, a quinta maior do mundo, comparável ao continental Estados Unidos, o Brasil é mais um continente que um país. Com uma população de 190 milhões, e em rápido crescimento, não está bem na mesma liga que a China e a Índia (o que é o porquê de algumas pessoas terem dito que havia "apenas dois BRICs na parede"), mas ainda é o quinto país mais populoso. Mais de um em cada três latino-americanos é brasileiro. Com um PIB próximo de US $ 2 trilhões, é a oitava maior economia.

No entanto, o Brasil é imenso desde a sua independência, no século 19, mas a sua chegada à linha de frente dos negócios internacionais somente ocorreu nos últimos 20 anos. Por quê?

A resposta é simples: uma liderança presidencial. Para a maioria seria muito difícil citar um presidente brasileiro dos anos 1960 a 1990. Por 20 anos o país foi governado por generais obscuros e, em 1985, com o retorno da democracia, por civis sem brilho, que pouco fizeram para combater a inflação galopante e os desequilíbrios profundos em uma das sociedades mais desiguais do mundo.

Lula tem feito um trabalho notável, mas ele está sobre os ombros de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1994-2002). Foi como um improvável ministro das Finanças do presidente Itamar Franco em 1993 que Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, deixou sua marca. Ele foi o autor do Plano Real, que controlou a inflação e lançou-lhe direto ao Planalto, o palácio presidencial em Brasília. Da mesma maneira que 1991 foi um ano de virada para a Índia, quando sob o ministro das Finanças, Manmohan Singh, o país começou a liberalizar e abrir sua economia, 1993 o foi para o Brasil, e ele nunca olhou para trás.

Cardoso percebeu que o Brasil precisava não apenas estabilizar sua moeda, mas também abrir e liberalizar a sua economia, sufocada por décadas de protecionismo desenfreado. Ele privatizou empresas estatais, abriu as portas para o FDI e empurrou os negócios para os mercados de exportação. Considerando que em 1990 o comércio exterior atingia 11% do PIB, ele é agora de ao menos 24%. Considerando que, até 1990, o Brasil atraia menos de US $ 1 bilhão por ano em FDI, hoje, depois da China, é o país do mundo em desenvolvimento que mais atrai, chegando a até US$ 40 bilhões por ano nos últimos tempos.

Ao estabilizar a política e a economia (o Brasil teve quatro presidentes 1985-1994), Fernando Henrique Cardoso em seus oito anos fez muito para limpar a vegetação rasteira para Lula. E apesar de todas as críticas que Lula levantou, da oposição, contra as supostas políticas "neoliberais" de Cardoso, uma vez que assumiu o cargo, em janeiro de 2003, ele percebeu que só a política econômica ortodoxa iria manter o fantasma da inflação à distância. Lula nomeou um banqueiro conservador, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e instriu-o a ficar de olho na inflação. Como a The Economist apontou, para um país cuja média anual de inflação no início de 1990 chegou a 700%, ter em 2006, pela primeira vez, uma taxa de crescimento superior à taxa de inflação foi uma façanha.

Lula, um ex-metalúrgico que perdeu um dos dedos no chão de fábrica, também veio com uma política de social imaginativa, o Bolsa de Família. Ele transfere renda em dinheiro para cerca de 11 milhões de famílias, que têm de cumprir determinadas condições (incluindo a freqüência escolar das crianças e visitas mensais a órgãos do governo), e diminuiu a desigualdade de renda no Brasil.

Como um homem que estreiou na política no movimento sindical, Lula sabe tudo sobre ganhar sempre nas negociações. Ele também tem uma capacidade notável para se dar bem com todo mundo - de George W. Bush a Hugo Chávez. O PT é apenas um entre muitos no fragmentado sistema partidário brasileiro (que controla governos em apenas 03 dos 27 Estados do Brasil) e conduz um governo de coalizão, que inclui partidos de extrema-direita, na coalizçao presidencial dificil de gerenciar do Brasil. "Ele estruturou um equilíbrio delicado em que o setor privado é a força motriz da economia, mas o Estado desempenha um papel importante, através de entidades como o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), que tem um orçamento maior do que empréstimos do Banco Mundial, e a Petrobras, a companhia estatal de petróleo.

Em um país conhecido por suas demagógicas tradições populistas, Lula encarna o líder moderno, que acredita nas instituições. Em uma região onde muitos presidentes querem se perpetuar no cargo, ele rejeitou a possibilidade de mudar a Constituição para lhe permitir um terceiro mandato. Sua própria trajetória “trapos-à-riquezas” e a austeridade de seus hábitos pessoais fizeram com que os escândalos de corrupção que afetaram alguns de seus funcionários nunca prejudicassem seriamente a sua popularidade, levando à alcunha de "presidente teflon". Seus índices de aprovação atingem 80%. Ele foi mencionado para vários dos principais cargos internacionais, uma vez que ele deixa o cargo em 01 de janeiro de 2011 - de presidente do Banco Mundial a Secretário-Geral das Nações Unidas.

Dado que também na política externa Lula fez um grande impacto, não é surpreendente. Com Celso Amorim como seu ministro das Relações Exteriores, ele capitalizou o "PIB diplomático" do Brasil.

Com um excelente Ministro dos Negócios Estrangeiros - conhecido como "Itamaraty", pelo palácio do século 19 no Rio de Janeiro que se usou como casa antes que a capital se mudasse para Brasília - O Brasil tem exercido a sua diplomacia com sutileza e eficácia. Na frente multilateral, a sua capacidade para construir alianças, para dar a direção para a agenda internacional e para lidar com as principais questões de governança global têm se destacado. Ele tem mostrado isso no âmbito da OMC e das Nações Unidas, bem como na criação de (ou inclusão em) miríade de siglas como BRICs, BRICSAM, o IBAS, o + G20, o G4, o O5 e, principalmente, no G20 no nível de líderes (o "comité de direcção da economia mundial"), lançado em Washington em Novembro de 2008, e cuja próxima reunião está sendo realizada em Toronto no final de junho. Ele também colocou seu dinheiro onde sua boca está: num momento em que muitos Ministérios dos Negócios Estrangeiros reduziram os orçamentos e fecharam embaixadas, o Brasil, agarrando-se a que a diplomacia se tornou mais e não menos importante na era da globalização, fez o oposto. De 2003 a 2008, abriu 32 embaixadas no exterior, e agora tem 134.

Na América Latina, o Brasil também tem desempenhado um papel fundamental. Tem sido a força motriz por trás de novas entidades, como a Unasul, que reúne todas as nações da América do Sul, o Conselho de Defesa da América do Sul, desenvolvido para oferecer uma alternativa para o obsoleto Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. Ele assumiu a liderança em estabilizar o Haiti por meio da MINUSTAH, a primeira missão de paz da ONU formada por uma maioria de tropas latino americanas e liderada por um general brasileiro. Ele está disposto a trabalhar com Washington, mas não se isso implicar sacrificar princípios, tais como o regime democrático, como mostrado na crise hondurenha do ano passado.

Em vez de ceder aos chamados imperativos da globalização, como tantas outras nações em desenvolvimento têm feito, Lula levou o Brasil a afirmar a sua autonomia e independência, estabelecendo as suas próprias condições para lidar com uma ordem internacional em mutação. Ele é o melhor exemplo do poder da deligência e da iniciativa em política externa e diplomacia.

(Jorge Heine holds the Chair in Global Governance at the Balsillie School of International Affairs, is Professor of Political Science at Wilfrid Laurier University and a Distinguished Fellow at the Centre for International Governance Innovation in Waterloo, Ontario. His book (with Andrew F. Cooper), Which Way Latin America? Hemispheric Politics Meets Globalization, is published by United Nations University Press.)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

JB Online: O bom momento que o Brasil vive se deve, em grande parte, a essa postura. Não fomos ao mundo pedir, nem exigir, mas dizer o que pensamos e o que pretendemos, segundo Santayana.

Segue o excelente artigo acerca da nomeação Samuel Pinheiro Guimarães para a SAE, de Mauro Santayana para o Coisas da Política.

Por Mauro Santayana

O presidente Lula pretende conhecer os termos do acordo que permite a Washington manter bases militares no território colombiano. A leitura do texto não será suficiente para conhecer a extensão do convênio. É comum a existência de cláusulas secretas. Além disso, a flexibilidade, no cumprimento de qualquer acordo, em geral favorece a parte mais forte.

A atitude de Lula, no entanto, vale por duas razões. Ela manifesta a natural desconfiança do continente, de que, com todas as declarações em contrário de Uribe e Obama, os Estados Unidos estejam usando do pretexto das drogas e das Farc para manterem suas tropas na América do Sul. A experiência demonstra que o problema das drogas só se resolverá quando se combater o seu consumo, e não a sua produção. O maior mercado de consumo é o dos Estados Unidos. Se um dia não houver um só arbusto de coca no mundo, nem uma só papoula, outras drogas serão sintetizadas, a fim de produzir o mesmo efeito da cocaína e da heroína, além das que já estão no mercado. Quanto às Farc, trata-se de um problema interno da Colômbia. Elas só serão um problema para os vizinhos, se os seus combatentes ultrapassarem as fronteiras. Nesse caso, cabe ao país violado tomar as medidas que considerar adequadas.

A presença americana na Colômbia, por mais que nos expliquem as suas razões, continuará exigindo os cuidados do Brasil e de todos os outros vizinhos. A longa história de intromissão dos Estados Unidos na América Latina rejeita ilusões. A única forma, real e objetiva, de conter o ímpeto imperialista dos Estados Unidos, que faz parte de sua mitologia nacional, é dispor de poder de dissuasão. Além da doutrina do Destino Manifesto, há o grande interesse dos fabricantes de armas, o complexo industrial militar denunciado por Eisenhower em sua despedida do poder. Depois de um dos períodos mais desastrados da política externa, em que o fascínio pelos estrangeiros mais poderosos e o desdém pelos menos poderosos chegaram ao paroxismo, o Brasil recupera a postura que tem predominado ao longo dos quase dois séculos de independência: a da afirmação serena de sua soberania, sem arrogância e sem concessões unilaterais. Muito do êxito obtido pelo chanceler Celso Amorim, na retomada da linha histórica da diplomacia brasileira, se deve ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que, ao atingir a idade limite, teve que se afastar da secretaria-geral. Samuel é um dedicado estudioso das questões nacionais, entre elas, como é de seu ofício, as relações com o mundo, obstinado patriota e coerente em suas ideias. Por isso o demitiram, no governo anterior, de suas funções de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do Itamaraty, por ordem direta de Fernando Henrique Cardoso, pelo fato de opor-se ao Alca. Hoje, quando vemos a situação do México, podemos imaginar o que seria do Brasil se firmássemos aquela ata de vassalagem.

O bom momento que o Brasil vive se deve, em grande parte, a essa postura. Não fomos ao mundo pedir, nem exigir, mas dizer o que pensamos e o que pretendemos. O bom convívio entre as nações, grandes e pequenas, depende do respeito a determinados princípios, alguns deles imemoriais e outros construídos pela necessidade histórica. Entre eles, o de não interferência nos assuntos internos dos estados independentes. É, assim, importante a presença do embaixador Pinheiro Guimarães à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que tem nível ministerial. Samuel é, ao mesmo tempo, homem de pensamento e de ação, e irá ocupar as suas funções com a mesma diligência com que atua na secretaria-geral do ministério.

O novo ministro tem, diante de si, desafiadora tarefa. Entre as questões estratégicas prioritárias se encontram a situação da Amazônia, a reforma agrária, a legitimidade dos títulos de propriedade fundiária em todo o país, e o crime organizado. O combate ao tráfico de drogas, ao contrabando, ao suprimento de armas aos grupos de criminosos não pode ser deixado apenas aos órgãos de repressão, pressionados pela urgência dos fatos. É necessário o exame do problema dentro do conjunto geral da civilização contemporânea. Devemos partir da visão teleológica, mas, ao mesmo tempo realista, de que os estados nacionais existem para promover a felicidade de seus cidadãos. A felicidade se consegue com a justiça, a saúde, a educação, o trabalho e, mais do que tudo, a dignidade – atributos que distinguem os homens na natureza.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Foreign Policy: atualmente, Celso Amorim é o melhor Ministro de Relações Exteriores do mundo, diz Rothkopf

Seguindo indicação do Blog do Nassif, com alguns grifos meus e em péssima tradução minha mesmo (com alguma ajuda do Google), aí vai o post de David Rothkopf no Foreign Policy.


O melhor Ministro de Relações Exteriores do mundo.

Esse pode ter sido o melhor mês para o Brasil, desde cerca de junho 1494. Foi quando o Tratado de Tordesilhas foi assinado e concedeu a Portugal tudo no mundo novo a leste de uma linha imaginária, que foi declarada existente a 370 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde. Isso asegurou que o que viria a se tornar o Brasil seria Português e, portanto, desenvolver uma cultura e uma identidade muito diferente das do resto espanhol da América Latina . Isso garantiu que o mundo teria samba, churrasco, "A Garota de Ipanema", e, através de alguma cadeia incrivelmente fortuita e entrelaçada de eventos, Gisele Bundchen.

Embora o Brasil tenha levado algum tempo para superar a máxima sarcástica segundo a qual ela era "o país do futuro e sempre seria," há pouca dúvida de que o amanhã já chegou ao país, mesmo que ainda haja muito trabalho a ser feito para superar seus graves desafios sociais e tocar seu potencial econômico extraordinário.

A evidência de que algo novo e importante estava acontecendo no Brasil começou transparecer anos atrás, quando o então presidente, Fernando Henrique Cardoso, engedrou uma mudança para a ortodoxia econômica, que estabilizou um país atormentado por ciclos de altos e baixos e inflação estonteante. Ela ganhou impulso no entanto, durante todo o extraordinário período do atual presidente, Luis Inácio Lula da Silva.

Algo deste impulso se deve ao compromisso de Lula com a preservação dos fundamentos econômicos dispostos por Fernando Henrique Cardoso, um movimento político corajoso para um líder trabalhista de longa data, pertencente ao Partido dos Trabalhadores, de oposição. Algo disso é devido à sorte: uma mudança de paradigma energético mundial ajudou a fazer os 30 anos de investimentos do Brasil em biocombustíveis começarem a se justificarem em importantes novos caminhos; descobertas maciças de petróleo ao largo da costa do Brasil; e uma demanda crescente da Ásia, que permitiu ao Brasil a tornar-se um líder mundial nas exportações agrícolas e assumir o papel de "celeiro da Ásia". Mas muito desse impulso é devido à grande habilidade dos líderes do Brasil no aproveitamento de um momento com que muitos dos seus antecessores provavelmente teriam se atrapalhado.

Dentre esses líderes, grande parte do crédito vai para o presidente Lula, que tornou-se um pouco como uma estrela do rock na cena internacional, aproveitando sua energia, diligência, carisma, invulgar intuição e senso comum de forma tão eficaz, que a sua falta de educação formal mal foi impedimento. Alguns créditos vão para outros membros de sua equipe, como sua chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, uma ex-ministra da Energia que se tornou uma chefe de equipe muito durona e uma possível sucessora de Lula.

Mas eu acredito que uma grande parte dos créditos deveria ir para Celso Amorim, que idealizou a transformação do papel do Brasil no mundo, que quase não tem precedentes na história moderna. Ele foi ministro das Relações Exteriores de Lula desde 2003 (ele também atuou no mesmo papel na década de 1990), mas acho que há colocação justa a ser feita: a de que ele é, atualmente, o ministro de Relações Exteriores mais bem sucedido do mundo.

É impossível apontar apenas um ponto de virada nos esforços de Amorim para transformar o Brasil, de uma embaraçada potência regional de influência internacional duvidosa, em um dos jogadores mais importantes no cenário mundial, reconhecido pelo consenso global para desempenhar um papel de liderança sem precedentes. Ele pode ter ocorrido quando ele desempenhou um papel central e e ajudou a engendrar uma resposta dos países emergentes contrária a uma poderosa encenação dos EUA e da Europa durante as conversações sobre o comércio de 2003 em Cancún. Pode ter sido a forma prudente como os brasileiros usaram questões como a sua liderança em biocombustíveis para forjar novos diálogos e influência, tanto com os Estados Unidos como com outras potências emergentes. Ele ( o ponto de virada) certamente envolveu a adoção da idéia de transformar o BRIC de um acrônimo numa importante colaboração geopolítica, trabalhando com os seus homólogos da Rússia, Índia e China para institucionalizar o diálogo entre os países e coordenar suas mensagens. (Provavelmente, o BRIC mais ajudado por esta aliança é o Brasil. Rússia, China e Índia ganham todos os lugares à mesa, devido à capacidade militar, o tamanho da população, poder econômico ou de recursos. O Brasil tem todas essas coisas ... mas menos do que os outros.) Também envolveu inúmeras outras coisas, como os laços aprofundados e reforçados do Brasil com países como a China; a promoção tanto de fluxos de investimento e com de uma reputação de ser relativamente segura em face dos reverses  da economia global; o nível de conforto do novo Presidente da América com o seu correspondente brasileiro – que se extendeu a incentivá-los a desempenhar um papel de canal com, por exemplo, os iranianos. Concorde-se ou não com todos os seus movimentos, em lugares como Honduras ou OEA em Cuba, o Brasil também continuou a desempenhar um importante papel regional, mesmo que seja claro o seu foco mudou para a escala global.

Nada ilustra o ponto a que o Brasil chegou ou a eficácia da equipe de Lula-Amorim quanto os eventos das últimas semanas. Em primeiro lugar, os países do mundo rifaram o G8 e adotaram o G20, garantindo ao Brasil um lugar permanente na mesa mais importantes do mundo. Em seguida, o Brasil se torna o primeiro país da América Latina a receber o direito de sediar os Jogos Olímpicos. O FT de ontem trouxe a notícia de que "A Ásia e o Brasil lideram o aumento na confiança do consumidor", um reflexo da reputação que o governo tem efetivamente vendido (com a maior parte do crédito indo para um ressurgido setor privado brasileiro.) E as histórias desta semana, vindas  da  reunião do FMI-Banco Mundial realizada em Istambul, mostram uma maior institucionalização do novo papel do Brasil, com o acordo para alterar a estrutura do Fundo Monetário Internacional. Segundo o Washington Post de hoje: "As nações também concordaram preliminarmente em reformular a estrutura de voto no fundo, prometendo um plano para dar mais força para os gigantes emergentes, como Brasil e China, em Janeiro de 2011."

Não é um mau trabalho para alguns dias. E, apesar de ser o Ministros das Finanças do Brasil que você vai encontrar nas reuniões do FMI- Banco Mundial, o arquiteto indiscutível desta notável transformação no papel do Brasil foi Amorim.

Muito trabalho resta a ser feito, é claro. Parte disso tem a ver com o novo papel que tem sido moldado. O Brasil quer um lugar permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e mais liderança em outras instituições internacionais. Ele pode muito bem ganhá-los, mas terá de manter seu crescimento e estabilidade para chegar lá. Além disso, o Brasil parece inclinado a minimizar as ameaças regionais, tais como as decorrentes da Venezuela (brasileiros tendem a olhar de cima seus vizinhos ao norte, quase tanto como eles fazem com seus amigos da Argentina para o sul ... e, assim, subestimar a capacidade de homens como Hugo Chávez para causar muito dano.) E eles têm uma eleição chegando, que pode alterar o elenco de jogadores que, claro, podem alterar a trajetória atual de inúmeras maneiras – boas e más.

Mas é difícil pensar em outro ministro de Relações Exteriores que tenha osquestrado tão eficazmente uma transformação significativa do papel internacional de seu país. E é por isso que, se me pedissem hoje para lançar um voto no melhor ministro do mundo, provavelmente elw iria para o filho nativo de Santos, Celso Amorim.