Mostrando postagens com marcador estadista. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador estadista. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de novembro de 2009

BBC: Lula oferece cooperação tecnológica no combate à fome na Africa.

Segue matéria da BBC Brasil.

Brasil quer ajudar agricultura em savanas africanas.

Pablo Uchoa
enviado especial da BBC Brasil à Roma

O Brasil quer impulsionar um novo conceito de diplomacia – "sul-sul-norte" – e estabelecer, com a ajuda financeira de países ricos, parcerias para desenvolver a agricultura nas savanas africanas.

Em uma reunião paralela à Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar da ONU, que ocorre aqui na capital italiana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu aos países africanos a tecnologia e as lições da experiência brasileira na viabilização agrícola do Cerrado – um tipo de savana.

O presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agrícola (Embrapa), Pedro Antonio Arraes Pereira, disse a jornalistas que muitos dos desafios que a agricultura no cerrado brasileiro enfrentava há três décadas, como acidez do solo e distribuição de chuvas, são semelhantes aos que existem hoje na África subsaariana.

A ajuda brasileira pretenderia seguir o modelo de um projeto de longo prazo que o país está levando a cabo em Moçambique com financiamento japonês e americano.

Estrutura

Nesta iniciativa, que já foi batizada de cooperação "sul-sul-norte", o governo brasileiro entra com a tecnologia e a experiência, os US$ 300 milhões necessários virão da agência japonesa JICA e da americana USAID.

O projeto tem prazo de dez anos e mal engatinha, mas já está sendo qualificado de "estruturante", porque propõe estruturar uma nova maneira de viabilizar o desenvolvimento tecnológico na agricultura africana e assim colaborar para a segurança alimentar da região.

Arraes Pereira afirmou que a Embrapa identificou em 16 países africanos 35 projetos com potencial de promover a transferência agrícola.

Nove estão em execução, alcançando um valor total de US$ 12,7 milhões. Outros 16 estão sendo finalizados, o que adicionaria outros US$ 3,4 milhões.

Para o presidente da Embrapa, além do benefício para os países receptores do intercâmbio, os projetos abrirão mercados para as indústrias brasileiras que atuam na área agrícola, sobretudo em setores como máquinas, fertilizantes e infraestrutura de transportes e armazenagem.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Agência Brasil: presença do Governo Federal à frente facilita a conclusão de negócios, avaliam empresários que participam da nova missão comercial em Angola.

Duas matérias da Agência Brasil, um mesmo assunto: mais uma missão internacional promovida pelo Governo Federal em busca de mercados para nossas empresas.

Além da inciativa em si, chamou minha atenção e, de certa forma, causou um certo orgulho ufanista, o respeito com que o nosso embaixador em Angola tratou o país e recomendou que seja adotado pelos nossos empresários.

Renata Giraldi* (Enviada Especial)

Luanda (Angola) - Em defesa do incremento das relações comerciais entre o Brasil e o Sul da África, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, desembarcou ontem (8) com 98 empresários de vários setores em Luanda, em Angola.

A partir de hoje (9), com uma agenda lotada, o ministro tem reuniões previstas com o presidente daquele país, José Eduardo dos Santos, e seis ministros. Paralelamente os empresários transformam cada oportunidade em balcões de negócios.

“A expectativa é muito boa. Nessas missões, esta é a terceira à África, a maioria tem feito bons negócios e tem tido bons resultados. Temos uma história de bons negócios com a África”, disse o ministro. “Somos mais próximos dos angolanos do que os chineses e norte-americanos [maiores investidores estrangeiros em Angola]. E temos um histórico de cooperação, isso é uma vantagem competitiva.”

Durante a reunião com os empresários hoje (9), o embaixador do Brasil em Angola, Afonso Cardoso, apelou para que eles não concorram com os chineses nem os norte-americanos em determinados nichos comerciais, mas busquem opções.

O diplomata afirmou ainda que o mercado angolano é atraente e aberto, mas que o ideal é buscar aperfeiçoar a mão de obra e respeitar as idiossincrasias locais. Cardoso disse que os angolanos “têm muito orgulho da nação” e destacou que, diferentemente de outros países da África, em Angola não há disputas étnicas. Apenas 4% da população angolana são formados de mestiços e brancos, o restante é negro.

“Vivemos um momento muito especial em Angola, depois de 41 anos de luta, desfruta da paz e da estabilidade”, afirmou o embaixador. “É um pobre país rico. Mas por que os angolanos se acham diferentes? Em primeiro lugar, eles têm a riqueza de que nem todos os países [africanos] dispõem. E ainda é um país que não tem disputas étnicas. O angolano é profundamente nacionalista.”

Com uma economia dominada pela produção de petróleo e diamantes, o governo de Angola tem se dedicado a diversificá-la, estimulando a criação de um fundo de US$ 600 milhões. Segundo o embaixador, a produção de petróleo no país é de cerca de 2 milhões de barris por dia e de mais 10 milhões de quilates por ano de diamantes.

“Esse é um país que tem um projeto de reconstrução nacional, que é ambicioso, e implica fazer muitos investimentos em infraestrutura física e também social. O objetivo do governo de Angola é fazer desse país uma nação forte e potência na região”, disse o diplomata.

Em seguida, o embaixador afirmou: “É necessário capacitar gente e falta gente capacitada. Angola tem créditos brasileiros – de 1997 a 2008 há cerca de US$ 3 bilhões concedidos, mas a China já nos ultrapassou.”

*****



Renata Giraldi*  (Enviada Especial )

Luanda (Angola) - O Hotel AAA, na região central de Luanda, foi transformado hoje (9) em uma espécie de balcão de negócios para empresários brasileiros e angolanos. Cinco salões do hotel estão sendo usados para fechar contratos e vender produtos entre os parceiros.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, com apoio de vários órgãos do governo federal, reuniu empresários de vários setores desde serviços, energia, construção civil até alimentar e têxtil. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, é favorável à diversificação do mercado.
A empresária gaúcha Beatriz Dockhorn, da marca de malhas esportivas Bia Brasil, chegou a Angola com uma mala de camisetas, catálogos de cores e disposição para negociar. “Vir em uma missão, coordenada pelo governo federal, dá mais credibilidade nas negociações. O temor dos estrangeiros é que os produtos não cheguem até eles. Com o governo à frente, o medo diminui.”
O empresário paranaense Gerson Sampaio Filho, da companhia energética Teknergia, veio a Luanda para vender um sistema de software capaz de controlar o abastecimento de energia e reduzir os riscos de pico. “As falhas de energia são um problema neste país. Em uma hora de reunião com o ministro e o embaixador do Brasil, Afonso Cardoso, houve quatro falhas.”
O empresário paulistano Paulo Amanthéa, da Eucatex de produtos de construção civil, afirmou que o mercado angolano é rico em oportunidades. “Temos informações de que o mercado de construção aumenta bastante e há necessidade muito grande de matéria-prima. Trouxe pequenas amostras para poder indicar o
que fazemos.”
Experiente em missões anteriores capitaneadas pelo ministério, o empresário paulista Wilson Martins Point, que atua na lotação de subestações de energia, disse que o apoio do governo nas negociações facilitam os acordos comerciais. Depois de uma missão à Venezuela, por exemplo, Point afirmou estar prestes a fechar um contrato para aluguel de subestações em até 30 cidades.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Kanitz e o legado de Lula: Lula estimulou a criação de empresas brasileiras de classe mundial.

Segue o artigo do Kanitz para seu blog. Trata-se do segundo de uma série de oito prometida acerca do que ele chama de o "legado de Lula".

O primeiro, eu transcrevi aqui.


A idéia de que nações deveriam ser tão eficientes como empresas, que deveríamos criar governos bem administrados e empresas de classe mundial não era bem aceita no passado no Brasil, e nem é até hoje entre alguns partidos políticos deste país, que são contra grandes empresas em geral. Mas é uma antiga bandeira de administradores, e nestes últimos 30 anos há milhares de livros publicados sobre empresas de classe mundial, nunca lidos por membros do governo.

Michael Porter, que foi meu colega em Harvard em 1972, escreveu um influente livro “A Vantagem Competitiva das Nações”. Criou a disciplina de Administração Econômica, o uso de técnicas administrativas para fomentar a Riqueza das Nações.

O mundo, para quem não leu esta linha de pesquisa, será eventualmente dominado por 3000 empresas, 10 empresas distribuídas entre 300 setores importantes da economia, a grosso modo obviamente.

Isto pode assustar muita gente, mas assusta ainda mais se pensarmos que o Brasil nunca se interessou em criar as suas próprias empresas globais para poder melhor competir.

Em 1987, apresentamos Michael Porter ao então Ministro da Fazenda, Bresser Pereira, mas o interesse foi pequeno. Infelizmente, porque na época o Brasil não tinha mais do que duas empresas deste porte, a Vale e a Petrobras. Quando deveria no mínimo ter uns 5% das empresas de Classe Mundial do mundo, ou seja 150 empresas e não duas.

Ao contrario do que muitos imaginam, Lula leu este livro, tanto é que se confunde as vezes citando a “vantagem comparativa das nações”, e não a "vantagem competitiva das nações".

Como a tentativa de aproximar Michael Porter com o governo não ocorreu, por 25 anos mostrei nas Edições de Melhores e Maiores a necessidade de termos empresas de classe mundial. Por isto só posso elogiar um governo que adota teses caras aos administradores há longa data.

Fiz uma palestra na FIESP em 1991, no início do movimento da globalização, onde mostrei ao Conselho da Fiesp, presidido por Mario Amato, que a 500a. maior empresa nacional, num ranking global, caía para a 20.000a. posição. Ou seja seria uma empresa insignificante.

De importante no Brasil, a 500 ésima viraria uma mosca no contexto da globalização.

A maioria dos presentes, da Cofap, da Metal Leve, da Prosdócimo, não se tornaram empresas de classe mundial apesar do alerta. Pior, viraram subsidiárias de empresas estrangeiras em vez de empresas de classe internacional.

Perdemos assim toda a nossa indústria de autopeças e eletroeletrônica, por falta de visão governamental de que empresas brasileiras precisavam ser competitivas a nível mundial.

A tônica de 30 anos de política econômica era impedir inclusive que estas empresas virassem oligopolistas, havia um forte sentimento anti-grande empresa, que perdura até hoje,

A Telebrás, por exemplo, foi pulverizada em nada menos que dezesseis empresas, justamente para impedir o surgimento do “Big Business”. Telefônicas estatais estrangeiras puderam comprar empresas de telefonia brasileiras, o que mostra que o intuito não era privatizar e sim pulverizar o capital.

Nós administradores, também acreditamos em pulverizar e enfraquecer o “capital”, mas não criando empresas fracas, e sim criando capitalistas fracos, onde nenhum é majoritário, via empresas de capital aberto e pulverizado. Enfraquecendo sempre o capitalista, não a empresa.

Assim em vez de consolidar os setores de autopeças, eletroeletrônico, mecânica, etc..., acabamos entregando estes setores a empresas de classe mundial estrangeiras.

Lula numa reunião do Conselho de Economia, se não me engano em 2004, anunciou sua política de empresas de classe mundial, desta forma:

“Precisamos ter empresas líderes mundialmente, empresas capazes de impor seus preços em escala mundial.”

“Precisamos ter empresas líderes nos setores de Mineração, Frango, Papel e Celulose, Agropecuária, Bancos, Telecomunicações”, disse Lula
.

A frase “empresas capazes de impor seus preços”, é inusitada no meio intelectual. Parece ser de um ultra-direitista falando, mas na realidade é simplesmente bom senso.

Trabalhadores sabem que empresas fracas sem “vantagens competitivas” significam sindicatos fracos.

Os economistas da CEPAL são conhecidos pela tese de que agricultura, pecuária e mineração eram péssimos setores e precisavam ser abandonados, porque “os termos de troca” sempre seriam desfavoráveis. Isto significava que trocaríamos cada vez mais minérios e produtos agrícolas por menos produtos industrializados.

Daí a tese da CEPAL de que deveríamos privilegiar a produção de produtos com "alto valor adicionado", como informática, bio-tecnologia etc ; e abandonar as commodities, minério, agricultura, café e frango. Imaginem se tivéssemos seguindo este caminho, como seria nossa situação hoje.

Para termos produtos com "elevado valor adicionado", é necessário enormes programas de ciência e tecnologia, com universidades com elevado alento inovador, pesquisa e inovação, escolas de administração independentes e cursos de empreendedorismo. E quem compra produtos com "elevado valor adicionado" são os ricos, exigindo assim uma industria exportadora ou uma sociedade com péssimos índices de distribuição da renda.

Acontece que temos um setor agrícola e de mineração e não temos universidades voltadas a criar produtos de consumo para as empresas, nem uma classe de ricos grande suficiente, como nos Estados Unidos.

A saída do impasse Cepalino é criar empresas fortes nos setores de agricultura, mineração e frango com capacidade de impor seus preços.

E é neste governo que vemos esta consolidação há tanto tempo defendida pela ciência da administração.

A Brasil Foods foi imposição de Lula, contra seu ex-ministro Luiz Furlan que tentava manter a Sadia como empresa familiar. Foi Lula quem defendeu a fusão com a empresa profissional Perdigão, administrada por administradores e não por membros de uma família.

É no governo Lula que vemos a fusão de Itaú-Unibanco, Marfrig, JBS, Duratex-Satipel, Dasa, VCP-Aracruz, criando empresas de classe internacional.

Decisão bastante criticada, em editoriais e artigos, com o temor que estas empresas usariam sua capacidade de determinar preço para abusar do consumidor nacional, ou que seria uma estatização indireta da economia. Ou que estaríamos criando empresas capitalistas fortes, em detrimento do consumidor.

Refutar estes temores requer um país onde o administrador tem colunas em revistas e jornais, onde professores de administração são sistematicamente ouvidos pela imprensa e pelo governo, o que ocorre em outros países mas não no Brasil

Rapidamente, lembre-se somente que a tendência das megas empresas é reduzir preços e não aumentá-los, vide Wall Mart.

Lula sem dúvida criou o inicio de um movimento, que poderá ser mudado em próximos governos, o que seria um erro, porque ainda falta mais 140 empresas brasileiras de classe mundial para chegarmos às 150 que Michael Porter defendia há vinte anos.

Só que estas empresas recém criadas estão agora aí para sempre. Nenhum governo futuro atreverá cindi-las ao meio novamente, e o sucesso delas certamente será um forte estímulo para provar que a tese original da Cepal estava certa mais com sugestões erradas e que Michael Porter e os milhares de professores e defensores de Empresas de Classe Mundial, de empresas Maiores e Melhores, estavam corretos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

JB Online: O bom momento que o Brasil vive se deve, em grande parte, a essa postura. Não fomos ao mundo pedir, nem exigir, mas dizer o que pensamos e o que pretendemos, segundo Santayana.

Segue o excelente artigo acerca da nomeação Samuel Pinheiro Guimarães para a SAE, de Mauro Santayana para o Coisas da Política.

Por Mauro Santayana

O presidente Lula pretende conhecer os termos do acordo que permite a Washington manter bases militares no território colombiano. A leitura do texto não será suficiente para conhecer a extensão do convênio. É comum a existência de cláusulas secretas. Além disso, a flexibilidade, no cumprimento de qualquer acordo, em geral favorece a parte mais forte.

A atitude de Lula, no entanto, vale por duas razões. Ela manifesta a natural desconfiança do continente, de que, com todas as declarações em contrário de Uribe e Obama, os Estados Unidos estejam usando do pretexto das drogas e das Farc para manterem suas tropas na América do Sul. A experiência demonstra que o problema das drogas só se resolverá quando se combater o seu consumo, e não a sua produção. O maior mercado de consumo é o dos Estados Unidos. Se um dia não houver um só arbusto de coca no mundo, nem uma só papoula, outras drogas serão sintetizadas, a fim de produzir o mesmo efeito da cocaína e da heroína, além das que já estão no mercado. Quanto às Farc, trata-se de um problema interno da Colômbia. Elas só serão um problema para os vizinhos, se os seus combatentes ultrapassarem as fronteiras. Nesse caso, cabe ao país violado tomar as medidas que considerar adequadas.

A presença americana na Colômbia, por mais que nos expliquem as suas razões, continuará exigindo os cuidados do Brasil e de todos os outros vizinhos. A longa história de intromissão dos Estados Unidos na América Latina rejeita ilusões. A única forma, real e objetiva, de conter o ímpeto imperialista dos Estados Unidos, que faz parte de sua mitologia nacional, é dispor de poder de dissuasão. Além da doutrina do Destino Manifesto, há o grande interesse dos fabricantes de armas, o complexo industrial militar denunciado por Eisenhower em sua despedida do poder. Depois de um dos períodos mais desastrados da política externa, em que o fascínio pelos estrangeiros mais poderosos e o desdém pelos menos poderosos chegaram ao paroxismo, o Brasil recupera a postura que tem predominado ao longo dos quase dois séculos de independência: a da afirmação serena de sua soberania, sem arrogância e sem concessões unilaterais. Muito do êxito obtido pelo chanceler Celso Amorim, na retomada da linha histórica da diplomacia brasileira, se deve ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que, ao atingir a idade limite, teve que se afastar da secretaria-geral. Samuel é um dedicado estudioso das questões nacionais, entre elas, como é de seu ofício, as relações com o mundo, obstinado patriota e coerente em suas ideias. Por isso o demitiram, no governo anterior, de suas funções de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do Itamaraty, por ordem direta de Fernando Henrique Cardoso, pelo fato de opor-se ao Alca. Hoje, quando vemos a situação do México, podemos imaginar o que seria do Brasil se firmássemos aquela ata de vassalagem.

O bom momento que o Brasil vive se deve, em grande parte, a essa postura. Não fomos ao mundo pedir, nem exigir, mas dizer o que pensamos e o que pretendemos. O bom convívio entre as nações, grandes e pequenas, depende do respeito a determinados princípios, alguns deles imemoriais e outros construídos pela necessidade histórica. Entre eles, o de não interferência nos assuntos internos dos estados independentes. É, assim, importante a presença do embaixador Pinheiro Guimarães à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que tem nível ministerial. Samuel é, ao mesmo tempo, homem de pensamento e de ação, e irá ocupar as suas funções com a mesma diligência com que atua na secretaria-geral do ministério.

O novo ministro tem, diante de si, desafiadora tarefa. Entre as questões estratégicas prioritárias se encontram a situação da Amazônia, a reforma agrária, a legitimidade dos títulos de propriedade fundiária em todo o país, e o crime organizado. O combate ao tráfico de drogas, ao contrabando, ao suprimento de armas aos grupos de criminosos não pode ser deixado apenas aos órgãos de repressão, pressionados pela urgência dos fatos. É necessário o exame do problema dentro do conjunto geral da civilização contemporânea. Devemos partir da visão teleológica, mas, ao mesmo tempo realista, de que os estados nacionais existem para promover a felicidade de seus cidadãos. A felicidade se consegue com a justiça, a saúde, a educação, o trabalho e, mais do que tudo, a dignidade – atributos que distinguem os homens na natureza.

sábado, 17 de outubro de 2009

Terra Magazine: a abundância faz crescer a dignidade onde a seca, antes, promovera o império do mais forte, diz Marcelo Carneiro da Cunha.

Segue o artigo publicado pelo Terra Magazine, com alguns grifos meus.

O que dizer? Que partilho com o autor, gravadas para sempre na memória, as chocantes imagens com que me defrontei sertão a dentro - eu, esse carioca classe média – nas andanças promovidas por meus pais periodicamente nas férias?

Não sei. Só sei que, sem me fazer surdo às críticas segundo as quais, antes de irrigar, deveriámos ter distribuido a terra, olho esperançoso para o projeto em andamento. Sei que me pergunto: distribuir terras áridas nos levariam aonde, se depois não viesse a água? E também: tendo a chance de trazer a água, não seria melhor fazê-lo, e depois batalhar pela organização dos sertanejos e pela divisão da terra, em um cenário em que as populações estarão menos enfraquecidas?

O sertão vai mesmo virar mar?
Na seca as pessoas se fragilizam e os mais fortes mandam. Na abundância, quem mais cresce é a dignidade, analisa Marcelo Carneiro da Cunha.
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhares de leitores. Pois a notícia da semana foi brilhantemente reportada pelo meu, o seu, o nosso, Terra Magazine, com o enviado especial mesmo Bob Fernandes narrando a saga da Coluna Lula em visita às obras de transposição do rio São Francisco. Não sei o que vocês pensaram, mas eu sentei pra ler melhor.

Então era pra valer? Então eles vão mesmo fazer o São Francisco dar a volta e ir irrigar o sertão desaquificado que vive no nosso imaginário de brasileiros?

Caramba!

Porque não sei como os milhares de leitores reagiram ao debate, tempos atrás, sobre a Transposição ou Não-Transposição, em um drama shakespeareano com sotaque do sertão. Do lado de cá do rio, nordestinos terminantemente contra. Do lado de lá do rio, nordestinos completamente a favor. O que desempatou a questão, ao menos para esse colunista, foi a greve de fome, ou de sede, agora não lembro, de um bispo da região.

Aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros, onde falta tudo, mas nunca água, se bispo ou a Veja é contra, automaticamente sou a favor. Afinal, eles são contra uma enorme lista de coisas que eu acho essencialmente boas, tais como o sexo, no caso de bispos; e o resto, no caso da Veja. Pronto, passei a defender desde criancinha a transposição, a liquiquificação, a remoção, a despoluição, enfim, qualquer coisa com ão e, portanto, rimasse com sertão, em especial, algo disposto a acabar com o sertão do sertão, que pra mim, sempre foi a seca.

Quando eu era menino, lá no distante século 12, lia e relia um romance chamado A Aldeia Sagrada, um raro livro juvenil que meus pais se deram ao cuidado de me dar. Na maior parte do tempo era pancadaria mesmo, Faulkner, Machado, B.Traven, Cervantes. Nunca meus pais se preocuparam em me proporcionar leituras de inspiração para jovens, para a minha sorte, e ainda não havia Pedro Bandeira, novamente minha sorte. A Aldeia Sagrada era a história de um menino que era expulso da fazendinha pela seca e saia sertão a dentro, chegando até o Antonio Conselheiro e Canudos.

Canudos, minha gente, foi um dos mais terríveis momentos da nossa história, e para a sorte da nossa história, houve Euclides da Cunha. Leiam Os Sertões, sentados. Contemplem a beleza do texto e o terrível da história, nossa história.

Nunca esqueci aquela Canudos, nunca esqueci a Matadeira, nunca esqueci a imagem em mau desenho do Conselheiro, no livro. E ele dizia que o sertão iria vivar mar, e o mar iria virar sertão, no que, para ele, parecia ser uma coisa ruim.

Não sei quanto ao mar virar sertão, o que parece um tanto dramático, especialmente para os peixes e outros desacostumados com a baixa umidade. Mas o sertão virar mar, sempre, sempre mesmo, me pareceu uma ótima idéia.

Uma das passagens que mais me impressionava no livro, era quando os retirantes, mais uma palavra desconhecida, como cacimba, atacavam uma vaca e a comiam, mortos de fome.

Eu, menino crescendo da serra gaúcha, me sentava pensando, como, como, como? Mas não é a sede o problema? Por que eles sentem fome, e ainda por cima num calorão danado desses?

Meninos gaúchos, em especial na serra italiana, não eram muito treinados no que fosse fome, muito menos sede. Nosso maior perigo, creio, era overdosar em polenta ou doce de uva!

Anos mais tarde meu pai resolveu curar essa nossa ingenuidade, colocando a mim e irmãos em um ônibus, para nos levar em alegre bando de retirantes ao contrário até a Bahia. Lembro de olhar as casinhas de barro com teto de nada, lembro de ver os campos marrons, de uma cor que eu nunca teria imaginado, crescido no verde absoluto da serra sulista, lembro de ver as carnes penduradas em vigas, e descobrir que aquilo era um açougue. Lembro de ver as crianças e as barrigas delas. Dali fomos a Salvador e à praia e coqueiros e todo o tropicalismo disponível. Mas nunca esqueci do resto.

E, quando falaram em transposição, me veio a memória daquela viagem, e de tudo que o meu país precisa fazer por ele mesmo, antes de virar uma outra coisa, onde fome e sede sejam mesmo memórias distantes, como Canudos. Essas memórias mais o bispo eram tudo que eu precisava e passei a ansiar pelo momento em que o Velho Chico, como chamam, fosse se meter aridez adentro, transformando o sertão em um pampa, unindo a minha infância com o futuro.

Pois parece que começou e agora vai em frente! Sentei.

Nao sei o que os milhares de leitores sentem, ou pensam. Imagino que aqueles que me escrever para dizer que são orgulhosos leitores da Veja estejam achando tudo um horror. Pois eu escondo uma lágrima furtiva e digo a todos que sinto muita alegria por ser brasileiro, por saber que estamos fazendo alguma coisa sobre o que existe de mais arcaico e profundo em nosso imaginário. Se vai custar bilhões, ora me deixem em paz! O que não custa bilhões nesses tempos inflacionários? Tirar petróleo vai custar bilhões e até a Veja acha uma boa. Enviar água pode custar o que custar, é água, minha gente. Se vai ajudar os coronéis, como dizem muitos, duvido. Coronel que é coronel gosta de seca perguntem ao Sarney se ele não adora uma sequina, uma secona? Na seca as pessoas se fragilizam e os mais fortes mandam. Na abundância, quem mais cresce é a dignidade. Olhem o que o povo do sertão fez com o PFL, assim que ganhou um folegozinho? Desvotou tanto que eles mudaram de nome, para esse ridículo e sem-noção Democratas! Ponham água lá que o povo vai saber o que fazer com ela.

Não que isso aconteça com leveza e doçura. Água, onde não existe, é mais do que tudo. Quem viu o Chinatown, do agora preso Polansky, viu um filme cujo pano de fundo era a luta pela água na California.

Algo assim vai acontecer, mas uma coisa é brigar pelo que não existe, e parte da inação das pessoas do sertão pode estar ligada a esse vazio. Outra coisa é brigar pelo que finalmente vai chegar, e nessa hora, tenho a certeza de que as pessoas de lá vão saber se organizar e garantir o que é seu, de direito.

Nos anos 30 foi o grande presidente Roosevelt quem fez os grandes projetos que levaram água, ou a controlaram, e energia para o empobrecido Sul americano, criando um país mais completo.

Agora é a nossa vez, e não pode ser surpresa que quem conduz o processo é nada mais nada menos do que mais brilhante filho do sertão, o sobrevivente da falta de água e maior estadista do mundo de hoje, na opinião do mundo de hoje, mesmo que não na opinião da Veja. Ele é a maior lembrança do que o sertão é capaz de produzir, desde que minimamente irrigado.

Esse ex-menino da serra aqui, filho do excesso de água e de verde, só pode se sentir um sujeito um pouco melhor, por conta do verde que espera que logo, logo passe a surgir em outro canto que ele conheceu de passagem, e espera nunca, nunca mais ver do mesmo jeito. Quando isso acontecer, finalmente, e quando pararem de queimar o verde amazônico, finalmente, estaremos chegando lá, dessa vez, pela primeira vez, todos nós, brasileiros.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

The Independent: os esforços de Lula ajundaram a esmagar o G8, e a substituí-lo pelo G20.

Segue o artigo do The Independent, com alguns grifos meus e em mais uma terrível tradução minha, com alguma ajuda do Google.

O link para o original está no próprio título

A ascensão e a ascenção do Brasil: Mais rápido, mais forte, mais alto.
Organizar os Jogos Olímpicos 2016 seria a cereja no topo do bolo para a nação sul-americana que está finalmente cumprindo o seu potencial.

Hugh O'Shaughnessy Domingo, 27 de setembro, 2009
Deus pode não ser brasileiro, como alardeiam orgulhosamente muitos dos habitantes do Rio de Janeiro, mas o Todo-Poderoso parece estar barndindo sua nada desprezível influência a favor da Maravilhosa Cidade no oceano Atlântico Sul, enquanto ela se lança fortemente para a possibilidade derealizar os Jogos Olímpicos de 2016. Os seus três rivais - Tóquio, Madri e Chicago - parecem estar desaparecendo à medida que se enquiminham diretamente para o dia D, daquia a cinco dias. Em 2 de outubro, a cidade vitoriosa deve ser anunciada em Copenhague, assistido por um bilhão de telespectadores em todo o mundo.
Na terça-feira, em Brasília, os senadores se mexeram para aprovar a legislação necessária para garantir todo o que requer uma oferta bem sucedida - de financiamento aos regulamentos para brecar o sobrepreço para os quartos de hotéis. Na quarta-feira, o The New York Times pareceu desistir da Windy City, às margens frias do Lago Superior, prevendi que o presidente brasileiro, Luis Inácio da Silva, a quem todos chamam de Lula ( "A Lula"), teria a tarefa mais fácil do mundo para levar o prêmio pra casa. Lula, o ex-metalúrgico e líder sindical que anos atrás perdeu um dedo em uma prensa hidráulica, confessou que tinha a vantagem. Ele será acompanhado em Copenhague por sua esposa, Marisa, enquanto Michelle Obama vai estar lá sem o marido. "Então, vai ser dois para um,", destacou com alegria tranquila.
A votação do próximo mês pode ser um marco na jornada do Brasil para longe de ser o eterno país do futuro - e aquele para o qual o futuro nunca chega - para se tornar uma potência mundial indiscutível, com uma presença permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas e com o dinheiro para alimentar, educar e cuidar de sua população de quase 200 milhões de habitantes.
Lula, que quando criança completava o orçamento de sua mãe vendendo amendoim em torno do porto de Santos, está revelando em sua nova eminência, a liberdade de culpar os "banqueiros de olhos azuis" pela atual crise financeira mundial e para impor respeito. O pânico dos banqueiros e o alarme dos meios de comunicação em Londres e em Wall Street nos últimos meses antes de sua primeira vitória eleitoral maciça em 2002 são coisas do passado. Hoje o Brasil é um dos chamados "BRIC", junto com Rússia, Índia e China, e admirado pelos banqueiros e economistas. E não só o presidente Obama chamá-lo o líder mais popular do mundo, mas, após um período em que a corrupção do governo parecia que poderia derrubá-lo, a taxa de aprovação de Lula pelos os eleitores é agora de cerca de 80%.
Não mais um caso perdido financeiro lutando com a hiperinflação, o Brasil está olhando para a frente do tsunami de riquezas que irá inundá-lo quando a Petrobras, a altamente bem-sucedida estatal de petróleo, alcançar toda a produção dos enormes novos campos de petróleo em águas profundas brasileiras. Lula está planejando usar o dinheiro novo para corrigir os abusos que resultaram do golpe militar de 1964 e dos anos subsequentes de selvagem repressão e tortura, que jogaram para baixo o seu padrão de vida e de milhões de outros brasileiros pobres. O Brasil também é um exportador maciço de alimentos - reconfortanso quando a fome espreita em muitos outros lugares.
As últimas semanas têm demonstrado que Lula está aproveitando a riqueza do futuro como a alavanca da influência internacional de hoje. O primeiro chefe de estado a falar no debate na Assembleia Geral da ONU na quarta-feira, ele entrou antes de o coronel Khadafi incomodar a todos com seu discurso de 90 minutos. Ele aproveitou a oportunidade para desancar as idéias das potências ocidentais durante a crise financeira. "O que foi ao chão foi o conceito social, político e econômico aceito como inquestionável", disse ele em nítida cutucada em políticos e banqueiros que se opõem à regulamentação governamental dos mercados. Os esforços de Lula ajudaram a esmagar o Grupo dos Oito países ricos, substituindo-o pelo Grupo dos 20, que inclui os países em desenvolvimento e que se reuniu em Pittsburgh, na quinta-feira para iniciar a reforma das finanças do mundo.
Na Assembleia-Geral, ele também exigiu o fim imediato do golpe de Estado em Honduras, onde a embaixada brasileira está abrigando Manuel Zelaya, o legítimo presidente, deposto em 28 de junho por um impostor com apoio militar. Lula está clamando por uma ação do Conselho de Segurança contra o cada vez mais bárbaro regime, ameaçando-o com toda a força do direito internacional, particularmente se ela continuar a privar os diplomatas brasileiros e seus convidados de energia, água e alimentos. A ação brasileira, apoiada de perto pelo governo venezuelano, deixou Washington mal, expondo o claro abismo na questão hondurenha entre Obama, que deseja uma ação decisiva para restaurar Zelaya, e as hesitações de Hillary Clinton, cuja ala direita de conselheiros têm outras idéias.
Lula é, também, um líder no novo bloco político da União de Nações Sul-Americanas. Unasul está resistindo à militarização da América do Sul, que muitos acham que se seguirá se a Colômbia, um aliado próximo de os E.U.A, permitir que o Pentágono crie sete novas bases na sua terra. Isso permitiria aos EUA o envio de aviões a qualquer parte do continente, exceto a Patagônia. Como precaução, Lula está comprando armas na França e na Rússia.
Em seus esforços para acelerar a unidade da América Latina, Lula tem tomado riscos políticos em casa, ousando desafiar as poderosas empresas de electricidade. A fim de cimentar as relações com seu vizinho pobre, o Paraguai, ele prometeu um novo acordo sobre a gigantesca hidrelétrica de Itaipu, cuja potência supostamente seria compartilhada por ambos os países, mas quem, na verdade, vai esmagadora para o Brasil.
No entanto, se o Rio ganhar nesta sexta-feira, Lula vai se voltar para a tarefa de dar esperança aos despossuídos da cidade - e garantir que os primeiros Jogos Olímpicos da América do Sul se passem de forma pacífica.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

The Economist: Este é um grande momento para ser um brasileiro...

Segue em (péssima) tradução minha (com uma ou outra ajuda o Google) e alguns grifos meus, o editorial da The Economist.

O original está aqui.

Novas alianças na América Latina
De que lado o Brasil está?

Tempo para Lula para defender a democracia em vez de abraçar autocratas


Esse é um grande momento para ser um brasileiro e, especialmente, Luiz Inácio Lula da Silva, o inspirador presidente do país. Por muito tempo o gigante da América Latina com desempenho cronicamente baixo, hoje, o Brasil está em todas as listas de meia-dúzia ou mais novos lugares que importam no século 21. Parece que nenhum encontro internacional, seja para discutir a reforma financeira ou a mudança climática, está completo sem Lula, um ex-metalúrgico e líder sindical cuja bonomia e instinto de conciliação entre os opostos políticos fazem dele amigo em toda parte. "Ele é meu homem", jorrou Barack Obama na cúpula do G20 em Londres; Fidel Castro o chama de "nosso irmão Lula".

O novo destaque do Brasil é merecido. Ele decorre, em grande parte, do sucesso de Lula e seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, em estabilizar uma economia previamente disfuncional, levando a um rápido crescimento econômico. Uma das dez maiores economias do mundo, foi uma das últimas delas a entrar em recessão e, agora, parece ser uma das primeiros a abandoná-la. Quando o Goldman Sachs o juntou com China, Índia e Rússia, como as economias do BRIC e disse que eles iriam dominar o mundo, em 2050, houve muitas considerações sobre o Brasil não pertencer à companhia tão musculosa. Certamente, a marca "BRIC" deu ao Brasil um diferencial de marketing. Mas agora é a Rússia, com sua economia deprimida e dependente do petróleo, que parece deslocada.

Lula também merece muito do louvor amontoado sobre ele. Ao tomar posse, em 2003, ele mostrou coragem política na manutenção de políticas econômicas responsáveis, ignorando os clamores de seu Partido dos Trabalhadores, de esquerda, para não pagar a dívida. Seu instinto para a economia racional o transformou de um protecionista em um defensor do livre comércio. Suas políticas sociais ambiciosas ajudaram a triar 13 milhões brasileiros da pobreza, estreitando cada vez mais as desigualdades marcantes da renda. Apesar dos índices de popularidade quase sobrenaturais, ele sabiamente rejeitou falar de mudar a Constituição para concorrer a um terceiro mandato.

O sucesso em casa tem dado oxigênio para a ambição de salto da política externa do governo Lula. Seu Brasil quer ser visto como uma grande potência, definindo-se como o líder de uma América Latina unida e, ao mesmo tempo, buscando novas alianças com outras potências emergentes do "sul" global. Graças a capacidade de Lula para ser tudo para todos os homens, até agora o Brasil tem conseguido influenciar sem estar sob o peso de responsabilidade. Mas, olhando mais de perto, se arrisca a legar uma herança decepcionantemente ambivalente. Acima de tudo, o Brasil precisa decidir o que ele representa e quem são seus reais amigos - sob grande risco de que outros façam essa escolha para ele.

Êxitos do Sul e desconfortos


Embora a história também lhe tenha dado o parentesco com a África, de onde milhões foram trazidos como escravos, o Brasil é, à primeira vista, o mais "ocidental" dos BRICs. Ao contrário da China ou da Rússia, é uma democracia numa região essencialmente democrática. Mas os líderes brasileiros muitas vezes tem preferido ver o seu país como uma potência do sul, um líder do mundo em desenvolvimento. Sob Lula, esse viés tem endurecido. De certa forma, isso é saudável. Lula está certo ao exigir a reforma das instituições mudiais para refletir a evolução do equilíbrio de poder. As exportações do Brasil tem encontrado novos mercados na Ásia, África e Oriente Médio. Mas o que realmente une estes países? Para desgosto do Brasil, a China ajudou a bloquear sua candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, enquanto a Índia fez muito para parar um acordo de comércio mundial. E o viés do Sul passou sw mão em mão com traços mais negativos.

Admiravelmente para uma possível grande potência, o Brasil renunciou às armas nucleares. Menos admiravelmente para um país que defende o Tratadio de não-Proliferação Nuclear, se recusou a assinar um protocolo adicional, negando a inspetores internacionais o completo acesso às suas instalações nucleares civis.

O governo Lula mostra também uma indiferença enigmática com a democracia e os direitos humanos para além das fronteiras do Brasil. Celso Amorim, o ministro das Relações Exteriores, argumenta que as condenações dos países ricos aos países pobres por abusos são tendenciosas e ineficientes. Grupos de direitos humanos reclamam que no Brasil da ONU se alinha com países como China e Cuba para proteger regimes abusivos. Lula felicitou Mahmoud Ahmadinejad por sua vitória nas eleições profundamente falhas do Irã, comparando os protestos da oposição maciça aos torcedores de futebol cujo time perdeu. A primiera viagem internacional de Ahmadinejad após a posse será para Brasília. Obama pediu a Lula para "usar sua influência" para convencer seu convidado para travar o seu suspeito trabalho nuclear. Se o Brasil ocupa um assento rotativo no Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Janeiro próximo, pode ter que escolher se quer a volta de sanções mais duras contra o Irã.

No triangulação entre democratas e autocratas

Em muitas destas circunstâncias há um rastro tácito ds anti-americanismo. Isso é mais caro para o Brasil na América Latina. A influência ianque lá está em declínio, enquanto a influência da China e outros países está a crescer. Se agora há receios de uma "nova guerra fria" na região, como alguns no Brasil se preocupam, o homem que arrisca começá-la não é Obama, mas um dos amigos de Lula, Hugo Chávez, da Venezuela.

Sim, o senhor Chávez é eleito, mas ele sempre mostra poucos sinais de estar disposto a abandonar o poder nas urnas e constantemente atiça tensões na região. Foi o medo de que o presidente de Honduras estivesse transformando seu país no mais recente domínio chavista que levou ao equivocado golpe lá em junho. Agora, o senhor Chávez ameaça guerrear contra a Colômbia porque ela está atualizando um acordo que concede instalações em bases militares para os Estados Unidos, que está ajudando a combater as FARC e os traficantes de droga. Só os paranóicos podem interpretar isso como uma ameaça à Venezuela ou a Amazônia. Contudo, o Brasil escolheu manifestar preocupação com as bases, permanecendo em silêncio sobre a escalada armamentista de Chávez e a clara evidência de que o seu povo vendeu armas para as FARC.

Ninguém deve esperar que o Brasil atue como xerife da América. Mas é no seu próprio interesse, para evitar uma nova guerra fria na região. A maneira de fazê-lo não é errar entre democratas e autocratas, como Lula parece pensar. É envergonhar Chávez, traçando uma linha clara e pública a favor da democracia, o sistema que permitiu que um torneiro pobre chegasse ao poder e mudasse o Brasil. Por que outros países deveriam merecer menos?

sábado, 29 de agosto de 2009

Diário de Notícias: Lula e o borogodó?

Artigo já velhinho, pouco mais de um mês, do Diário de Notícias de Lisboa.

O original está aqui.

O que é que Lula tem?por VANESSA RODRIGUES,19 Julho 2009


Prémio. Em seis anos de Presidência do Brasil, Lula da Silva continua com uma imagem intocável, um apoio popular maioritário, imunidade contra sucessivos escândalos e acaba até de arrecadar o Prémio UNESCO de embaixador da paz. Nunca o Brasil teve um presidente assim

Quando, em Abril deste ano, o Presidente norte-americano, Barack Obama disse, num círculo restrito de líderes mundiais, que Lula da Silva "é o político mais popular da Terra", seguido de um gracejar descontraído: "Esse é o homem! Adoro-o!", o Presidente do Brasil, apesar de tímido como uma criança bem-comportada, sabia que o elogio, dito assim no pódio da elite de estadistas internacionais, significava que tinha entrado para o clube restrito dos políticos mais influentes do mundo.

Não é por acaso: Lula foi o primeiro chefe de Estado a encontrar-se com Obama, então ainda Presidente recém-eleito dos Estados Unidos. Há poucos dias, vimo-lo a entregar uma camisola da selecção brasileira de futebol ao homólogo norte-americano e Obama pediu-lhe que o ajudasse a mediar o conflito com o Irão. Agora a UNESCO acaba de lhe entregar o prestigiado prémio de embaixador da paz mundial, o Félix Houphouët-Boigny (caixa).

O que mais surpreende os cientistas políticos é que, no sexto ano de mandato como Presidência da República, a imagem de Lula já deveria ter sofrido "desgaste". Pelo contrário. "Lula, quando faz certo, acerta, quando não faz nada, também acerta, e quando faz algo errado, sai intocável", analisa o cientista político Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

"Para a maioria da população, ele é uma pessoa generosa que apoia até os políticos em más alturas, como no caso da crise no Senado", diz. Nas sondagens de Baía, ficou "evidente que as pessoas se identificam com ele", como se espelhasse os desejos e as frustrações de todos, por isso não o recriminam. Sem diploma universitário, ex-metalúrgico e ex- -sindicalista, Lula dá erros de português, faz metáforas com o futebol e passou fome. "Coisas que só pobre entende", disse Lula na campanha de 2006, quando discursava no interior de São Paulo.

"A maior transformação que o Presidente Lula trouxe para o Brasil, e que o faz ter ainda uma aceitação incrível na sociedade brasileira, é essa capacidade de ser um conciliador nacional", conta Baía ao DN. "Ele afastou-se um pouco da esquerda do PT [Partidos dos Trabalhadores], para ser centro." E o Brasil nunca teve um estadista do centro. "Lula concilia interesses antagónicos e promove os pactos políticos negociados. Com ele a democracia acontece." E com um presidente mais livre do partido, nota o cientista político Murilo Aragão, "a política brasileira aproxima-se a passos largos de um processo de americanização", à semelhança do norte-americano Franklin Delano Roosevelt, que venceu quatro eleições seguidas, mantendo--se na Casa Branca entre 1933 e 1945, proeza nunca mais repetida em Washington. Além de "conciliador nacional", Lula é o mediador da América Latina. Portanto, também o pode ser num contexto internacional e Barack Obama sabe-o.

Essa imagem de um Lula carismático chegou a seduzir o realizador João Moreira Salles no documentário Entreatos, sobre a corrida às eleições de 2006. Ele disse que teve de se afastar para conseguir alguma isenção. Lula também cativou a brasileira Ana Schneider, consultora ambiental. Arrependeu-se do voto. "Com tanta corrupção nestes últimos anos, é uma vergonha." Aliás, foi essa "cegueira" de Lula que a revista britânica The Economist criticou esta semana: a "capacidade de fechar os olhos ao escândalo quando lhe convém". Ao mesmo tempo que protege os políticos, ele pede aos órgãos que "investiguem", mas isso, conta Baía, reforça a imagem de conciliador intocável, com 80% de aceitação.

Quando pressionado com escândalos, Lula diz simplesmente: "Eu não sabia", que é aliás uma característica do "lulismo", isto é, o modo de governação do estadista brasileiro.

E, afinal o que é que Lula tem? Baía arrisca: "Um pragmatismo como ninguém."