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sexta-feira, 21 de maio de 2010

Valor: a promissora classe C.

Artigo publicado no Valor, copiado daqui e seguido de comentários do Blog do Alê sobre o mesmo texto.

A promissora classe C
Maria Clara R.M. do Prado

Nem todos se deram conta da extraordinária transformação pela qual passa a sociedade brasileira. O ingresso no mercado de boa parte da população que vivia à margem das oportunidades tem enormes implicações que não se esgotam no campo econômico. Muito pelo contrário, as consequências da mudança na renda das famílias tendem a se refletir cada vez com mais intensidade na tomada de consciência do cidadão sobre seus direitos e deveres. A consequência é política, antes de tudo.

A grande maioria dos expectadores das novelas da Globo já não está mais limitada aos sonhos que a vida espetaculosa dos personagens estimulava na tela. As pessoas da nova classe C brasileira viajam de avião, ao invés de pau-de-arara. Vestem-se em lojas de departamento, ao invés do bazar da esquina. Podem comemorar o Dia das Mães no restaurante do bairro, andar em carro próprio, ter mais de um celular e, nestes dias de pré-Copa, comprar aquele aparelho de TV de tela plana que garantirá ao torcedor um novo status.
 

É essa confiança na possibilidade de melhora que move hoje a sociedade. O acesso ao mercado dos chamados "emergentes à classe C" não deve ser tratado como uma simples questão de aumento de consumo a partir da visão simplista do que isso representa em termos de pressão sobre preços, inflação e temas congêneres como taxa de juros e disponibilidade de crédito.

Muito para além dos aspectos puramente macroeconômicos - que, diga-se, envolvem uma preocupação pertinente - a inserção no mercado de uma imensa massa de consumidores nos últimos anos carece de análises mais aprofundadas sobre o significado que isso efetivamente tem, socialmente e politicamente.

Uma recente pesquisa patrocinada pela Febraban e realizada pela empresa Data Popular, dedicada justamente a traçar o comportamento do que chama de "base da pirâmide" no que tange à renda, mostra que a nova classe C percebe o consumo como sinal de inclusão social por meio da melhoria de padrão de vida. Para o "ascendente social", ter acesso a bens que antes só podiam ser almejados com desesperança, funciona psicologicamente como uma espécie de comprovação de que, finalmente, a pessoa conseguiu se desvencilhar das restrições que a mantinham segregada, escondida e sem voz, um ser sem importância, sob qualquer ponto de vista.

Entre os resultados da pesquisa realizada no mês de janeiro com famílias da classe C nas cidades de São Paulo, Rio, Recife e Porto Alegre, está a constatação de que em um país cuja sociedade discrimina pela cor e pela classe social, vestir-se bem e ter tecnologia de última geração é de extrema relevância para os jovens da nova classe C. Mostra que estão economicamente e politicamente inseridos. A pesquisa também apurou que em muitas ocasiões, dependendo do produto, o consumo pode se confundir com investimento: no caso de roupa (vista como uma forma de melhorar a aparência para a conquista ou manutenção de um emprego), computador, moto e educação.

Os filhos da nova classe C são os propulsores das mudanças de comportamento da geração mais velha, seja pela tecnologia, seja pelas opiniões sobre os temas de maior destaque na pauta política como aqueles ligados à questão ecológica, envolvendo gastos com energia, água, tabagismo, enfim.

A nova classe C poupa apenas para comprar mais adiante um bem de maior valor. Tem o objetivo de investir apenas na educação dos filhos. Sabe que a verdadeira ascensão social se faz por meio da educação. Note-se que essa classe já responde, de longe, pela maior fatia de participação em importantes setores da economia. Na área de seguros, 61,9% dos usuários estão na classe C, que também explica 63,6% do consumo de planos de saúde e 61% dos cartões de crédito.

A relação com o cartão de crédito, vale notar, nem sempre segue o padrão usual. Primeiro, é visto por muitos como um instrumento de apoio em momentos de emergência e por isso mesmo, não raro, fica guardado em casa. Mas há situações curiosas como os casos em que os cartões de crédito são emprestados para amigos e familiares. Ninguém se preocupa muito com taxa de juros na nova classe C. Quando o dinheiro vai para a poupança, nos bancos, a motivação principal é a segurança ou um objetivo específico de consumo. Tem razão um economista ouvido pela coluna: "a sociedade brasileira pratica a mais alta taxa de juros do mundo dada a preferência por consumir hoje, ao invés de adiar o consumo para o futuro".
Ele sabe também que o fenômeno tem a ver com a má distribuição de renda e o achatamento do poder aquisitivo da imensa maioria dos brasileiros por anos a fio. Isso explica a alta propensão a consumir desses "emergentes" diante da melhoria da renda.

A ampla pesquisa da Febraban impõe relevo à importância da classe C. Teve como objetivo justamente traçar o perfil dessa massa de pessoas que saiu da marginalidade e entender de que forma poderão ser educadas financeiramente. É, para os bancos, um filão a ser conquistado, assim como deveria ser para os políticos e para outros segmentos que teimam em ver o Brasil com olhos dos anos 60!

A preocupação permanente com os efeitos macroeconômicos dessa verdadeira revolução sócio-econômica se reflete no cíclico desequilíbrio entre demanda e oferta. Assim como no primeiro semestre de 2008, hoje as vendas no varejo ultrapassam a casa dos 2 dígitos de crescimento, influenciado, entre outros fatores, justamente pela entrada, em 4 meses, de 1 milhão de novos consumidores, pela via emprego formal. Emprego formal, que aquece a demanda pela via direta da maior remuneração, mas principalmente pela confiança em assumir compromissos de longo prazo. Nos últimos 6 anos, o crédito cresce 20% ao ano no Brasil.

As condições para esse crescimento nas vendas do varejo estavam claramente criadas a partir do terceiro trimestre de 2009, quando se verificou que a crise internacional não havia sido capaz de interromper o ciclo de empregabilidade iniciado em 2004. De fato, surpreendentemente o Brasil criou cerca de 1 milhão de empregos formais em um ano de recessão no mundo e até mesmo no Brasil. Como um país com PIB zero pode criar tantos postos de trabalho?
A resposta pode explicar o atual desequilíbrio entre oferta e demanda que tanto preocupa as autoridades monetárias. O resultado decepcionante das contas nacionais em 2009 se deu principalmente pela via do investimento. O presidente Lula inúmeras vezes assinalou que quem apostar contra o Brasil, perderia dinheiro. E a falta de investimentos ajuda a alimentar o círculo vicioso responsável pela nossa histórica tendência pelo ‘voo de galinha’.

Como mostra com muita precisão a matéria, o Brasil está voltando a crescer pela via da inclusão social, pela introdução no mercado de consumo de uma grande parcela da população que não tem, ainda, capacidade de poupança. Cada real que entra vai para o consumo, seja na melhoria da alimentação, o investimento na educação dos filhos ou mesmo na compra de bens duráveis absolutamente básicos para a vida urbana. São pessoas que estão com urgência para ter aquilo que para a classe média sempre fez parte do seu dia a dia.

Como disse a manchete de uma matéria dessa semana no Valor Econômico, é difícil desacelerar uma economia que gera 300.000 empregos formais por mês. É overdose na veia sem antídoto. Nossa única saída é multiplicar o incentivo ao investimento, despertar o espírito animal do empresariado. Esse novo ciclo de crescimento não pode ser abatido nem por um aperto monetário exagerado que desestimule o empreendedorismo, nem por uma leniência com o imposto inflacionário, pois este afeta principalmente essa promissora Classe C.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Valor: fortemente aplaudido, Lula surpreende executivos espanhois ao acompanhar todo o seminário realizado em Madri.

Matéria do Valor, copiada daqui.

Ator global
Por Assis Moreira, Talita Moreira e Marília de Camargo Cesar, de Madri

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou ontem o papel dos Estados Unidos como "xerife" no Oriente Médio, avisou que o Brasil aspira ser "um grande ator político internacional" e sinalizou que sua mediação no Irã é uma etapa dessa estratégia.

Ao participar do seminário "Brasil: Parceria para uma Nova Economia Global", organizado pelo Valor em parceria com o jornal espanhol "El País", em Madri, Lula repetiu que o Brasil é "um país sério", que se tornou "previsível" em relação às regras do jogo, faz parte do restrito grupo de emergentes que vai liderar o crescimento mundial e quer assumir responsabilidades na governança global.

O seminário foi estruturado para explicar as oportunidades de investimentos no Brasil. Mas o auditório já parecia conquistado pelo desempenho econômico do país. A mediação do Brasil e da Turquia junto ao Irã, com um acordo inicial para evitar sanções envolvendo o programa nuclear de Teerã, acabou sintetizando o novo papel do Brasil na política global.

Pouco antes, em café da manhã com representantes dos dois jornais, Lula reiterou que a relação com o presidente americano Barack Obama é "intocável" e que a relação com os EUA sempre vai ser boa, mas deixou claro que o Brasil procurará o espaço que considera ter direito na cena global.

Para Lula, a reação americana ao acordo que o Brasil e Turquia arrancaram do Irã, para tentar brecar a escalada de tensão no Oriente Médio, não chega a surpreender. "Ninguém gosta de novo ator, mas quem diz que os EUA devem ser o xerife do Oriente Médio e do mundo?"

"Os EUA não podem ver nossa mediação (no Irã) como um confronto, mas como uma conquista, porque eles é que deveriam ter conversado com (o presidente iraniano) Ahmadinejad", acrescentou.

Lula reclamou que novos atores na cena global são considerados como intrusos pelo "clube" que controla o Conselho de Segurança das Nações Unidas, espécie de diretório político do planeta, baseado na geopolítica de 1945, quando Churchill, Stalin e Roosevelt decidiam o destino do mundo em torno de "uma garrafa de uísque".

Mas avisou que isso precisa mudar rapidamente. O presidente francês Nicolas Sarkozy revelou a Lula que vai propor em reunião do G-20, em junho, em Toronto, que a reforma do Conselho de Segurança ocorra até o fim do ano.

Para Lula e outros emergentes, é a fragilidade política das Nações Unidas que deixa "só um país" tentando resolver todos os problemas a sua maneira, às vezes de forma unilateral. "É preciso mais atores e nova governança global", conclamou.

Durante o seminário com a presença de presidentes de companhias espanholas, um dos debatedores, o secretário-geral da Iberoamericana, Enrique Iglesias, afirmou que ""o êxito do Brasil se reflete em vários campos e o país não pode deixar de participar de nenhum tema político e econômico global". Na mesma linha, o ex-presidente do governo espanhol, Felipe Gonzalez, destacou uma configuração diferente do mundo. E que não é gratuito o fato de o presidente Lula estar de retorno do Oriente Médio, a linha de fratura que mais preocupa hoje o mundo. "Antes quando se falava de opinião pública e comunidade internacional, se referia aos EUA e à Europa. Hoje, a comunidade internacional é outra coisa e o Brasil está dentro", afirmou.

O fato que mais reflete a situação do Brasil hoje, na avaliação de Gonzalez, é que ele "se transformou em país previsível, que respeita as regras do jogo, ganhou em eficiência e eficácia, e buscou fórmulas de boa cooperação, como parcerias público-privadas".

Javier Solana, ex-alto representante da União Europeia para relações externas, disse que o Brasil "é um dos países que mais conseguiram mudar internamente sua situação, e ter um papel internacional é inevitável, não pode se furtar a isso".

Carlos Solchaga, ex-ministro de economia da Espanha, apresentou o Brasil como um dos melhores exemplos da globalização. Destacou que ele faz parte dos países com reformas, mas não viradas bruscas, bom manejo do governo e uma oposição prudente. Para ele, o que mais tem contribuído até agora para o desempenho do Brasil é uma gestão da política macroeconômica absolutamente impecável e o fato de Lula ter enterrado a ideia de que um sindicalista na presidência poderia levar a situações econômicas desastrosas.

Em sua exposição recheada de cifras, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, destacou que os países emergentes, especialmente os chamados Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), serão responsáveis por dois terços do crescimento econômico mundial nos próximos cinco anos.

A avaliação dele é de que esse conjunto de países vai crescer a taxas anuais de 5% a 5,5% e o Brasil vai avançar de maneira sustentável, sem descontrole da inflação ou dos gastos públicos. Foi a vez de Mantega reclamar dos países industrializados. Para ele, a crise grega pode retardar a recuperação europeia, mas "não há por que não ter confiança" na melhora da economia desses países.

O ministro reafirmou que a previsão da Fazenda é de um aumento de 6% do PIB brasileiro neste ano. "É uma visão conservadora. Banqueiros e empresários estão esperando mais", ressalvou. "O desempenho da economia brasileira se deve à nova política econômica. É um erro dizer que houve manutenção da política econômica em relação ao governo anterior", afirmou Mantega. "O Brasil entrou em um novo patamar, um novo tipo de crescimento, que gera mais empregos propositalmente. Combina ação econômica com ação social", disse.

O ministro estimou que a taxa de desemprego deve terminar o governo Lula em torno de 6%, o que "no Brasil significa praticamente pleno emprego", afirmou. "Quando a crise atingiu o Brasil, foi muito mais fácil nos desfazermos dela". Como exemplo citou a previsão de que o país deve gerar neste ano um total de 2 milhões de empregos.

O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, destacou as oportunidades de investimentos no Brasil. São projetos de cerca de R$ 1,5 trilhão, indo desde o trem-bala até a exploração do pré-sal, o PAC 2, a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016. "O Brasil é um canteiro de obras", disse.

"O Brasil está reaprendendo a fazer investimentos", afirmou. Pouco depois, o presidente Lula disse que o último governo que tinha feito investimentos importantes, mas endividado o país, fora o do general Ernesto Geisel.

O presidente Lula surpreendeu os executivos, acompanhando todo o seminário. Em sua intervenção, durante o almoço, ele aproveitou tanto para conclamar os empresários a continuarem investindo no Brasil e "ganhar muito dinheiro", como criticou a demora da Alemanha em aprovar o pacote de ajuda à economia da Grécia.

Segundo ele, a atitude alemã contribuiu para espalhar o pânico a outros países europeus. "Ontem, me disseram que a Alemanha dizia assim: " todo mundo sabe que eu quero ajudar a Grécia, mas só posso fazer isso no apagar das luzes"", contou Lula para a plateia. "Como isso é possível?", indagou. "Como pode a União Europeia, tão poderosa, levar três meses para aprovar esse pacote?" Lula lembrou que em três meses adotou todas as medidas necessárias no Brasil para enfrentar a crise.

O presidente insistiu na avaliação de que a crise econômica mundial não acabou e fez uma analogia com o vulcão islandês Eyjafjallajokull, que "todo dia solta um pouquinho de fumaça negra". Para Lula, países como Grécia e Espanha estão sofrendo mais que outros países europeus porque são menores. Disse ainda que o primeiro-ministro espanhol, José Luis Rodrigues Zapatero, está pagando por uma crise que não é dele. Zapatero tem sido duramente criticado pela oposição e por sindicatos porque, na semana passada, anunciou a redução de gastos, inclusive um corte de 5% no salário dos funcionários públicos.

No encerramento, Lula procurou tranquilizar o empresariado espanhol de que nada vai mudar fundamentalmente na política econômica brasileira, seja quem for seu sucessor. "Nunca tivemos uma campanha tão tranquila quanto agora. Não vejo nenhum jornal e nenhum empresário preocupado com quem vai ganhar", disse. De acordo com Lula, embora haja diferenças entre os candidatos, é impossível o Brasil retroceder.

Ele reafirmou a "convicção" de que vai eleger sua candidata, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Porém, destacou que Marina Silva (PV) trabalhou em seu governo "até ontem", e que o candidato do PSBD, José Serra, é "amigo de todos aqui".

"Essa é a novidade no Brasil. Esses meninos sabem que não podem errar. O Brasil é o país da hora, é o país da vez", disse Lula, terminando sob fortes aplausos.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Valor: Bolsa família reduz evasão escolar e melhora aproveitamento dos alunos.

Matéria publicada pelo Valor e copiada daqui.

Bolsa Família tem impacto positivo sobre evasão escolar
Luciano Máximo, de São Paulo

Alunos cujas famílias recebem dinheiro do Bolsa Família apresentam melhores índices de aprovação e abandono escolar que os estudantes regulares da rede pública brasileira. Esse é o principal resultado do cruzamento de informações entre o Educacenso e o Sistema Presença, ferramenta do Ministério da Educação (MEC) que verifica se os filhos dos beneficiados do principal programa social do governo federal estão indo à escola.

De acordo com dados cedidos ao Valor pelo MEC, dos 500 mil alunos do ensino médio de 16 e 17 anos que recebem o Bolsa Família 81,1% passam de ano, enquanto a taxa de aprovação média dos mais de 7 milhões de jovens do censo escolar de 2008 no antigo colegial é de 72,6%. O índice de abandono da escola nesse ciclo educacional chega a 7,2% entre os beneficiários de transferência de renda do governo e 14,3% entre o total geral de estudantes contabilizados pelo Instituto de Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão de estatísticas do MEC.

No ensino fundamental, que concentra mais de 30 milhões de crianças matriculadas da 1ª à 8ª séries, a taxa de evasão dos mais de 9 milhões de alunos beneficiários do Bolsa Família é de 3,6%. O restante dos estudantes dessa etapa apresenta índice de 4,8% de abandono da escola. Em termos de aprovação, os alunos do ensino fundamental que não recebem apoio social têm melhor desempenho, com taxa de 82,3%, ante média de 80,5% daquelas crianças cujos pais recebem recursos federais.

Segundo Daniel Ximenes, diretor de estudos e acompanhamento das vulnerabilidades educacionais do MEC, a diferença de desempenho - em termos de frequência e rendimento - está diretamente relacionado com os benefícios do Bolsa Família recebidos pelas famílias pobres.

"A transferência de renda condicionada provoca alerta e cobrança por parte dos pais e reforça o desafio de fazer as crianças permanecerem na escola com maior regularidade. No longo prazo, isso ajuda a corrigir trajetória ruim no processo educacional brasileiro entre crianças e jovens da turma da pobreza", afirma Ximenes.
O diretor do MEC aproveitou para divulgar resultado do mais recente monitoramento de frequência escolar do Bolsa Família, referente aos meses de fevereiro e março. O balanço mostra que 95% dos 14,117 milhões de crianças e jovens beneficiários com identificação escolar cumprem a regra de frequência exigida pelo programa. O acompanhamento revela que 276,9 mil alunos estão abaixo da exigência e 322,9 mil sequer têm um registro de frequência, totalizando quase 600 mil crianças em situação irregular.

Nesse caso, os beneficiários podem ser punidos pelo Ministério do Desenvolvimento Social, que coordena o programa. Para receber o benefício do Bolsa Família em dia, uma das condicionalidades é que os pais matriculem os filhos na escola. Os alunos de até 15 anos precisam manter participação de, no mínimo, 85% das aulas a cada mês. A determinação para adolescentes de 16 e 17 anos é de frequência a pelo menos 75% das aulas

sábado, 20 de março de 2010

Nassif: Veja dá de ombros aos desmentidos da justiça e do ministério público.

Postagem do Blog do Nassif.

Incluí apenas links para os documentos citados por ele, da justiça e do Ministério Público, que derrubariam as matérias da revista.

Aqui, tem uma matéria do Valor Econômico, que esclarece que os fundos de pensão não perderam um tostão na Bancoop e diz, mais uma vez, que o promotor paulista não tem provas de suas acusações.

20/03/2010 - 08:53

O jogo ficou assim:
1. Veja informou que o Vaccari foi denunciado pelo doleiro (que ela chama de consultor financeiro) em um sistema de delação premiada. Deu como provas o relatório sigiloso do depoimento, que estaria no inquérito do “mensalão”. Só disse isso, não apresentou provas maiores. O leitor fica dependendo, então, de confiar na palavra do repórter. Pouco antes, noticiou que o promotor Blat pediria a quebra do sigilo de Vaccari, devido à suspeita de que tivesse havido desvios para financiamento de campanha. São duas denúncias sem apresentação de provas, baseadas exclusivamente na palavra de duas pessoas: do repórter e do procurador. O PT desmentiu, Vaccari desmentiu. Até aí, morreu Neves. É a palavra de um lado contra a do outro.

2. Aí vem o juiz – que recebeu o pedido de quebra do sigilo de Vaccari – e espinafra o promotor. Acusa-o de promover eventos puramente políticos, já que não havia nada que fundamentasse seu novo pedido. Ou seja, a palavra do promotor foi para vinagre.

3. Depois, vem a procuradora de São Paulo que colheu os depoimentos de Funaro. E garante que o nome de Vaccari sequer foi mencionado. Desmontou a palavra do repórter.

4. A revista volta ao tema esta semana, espinafra a defesa do PT, critica os que falam de “mídia golpista” mas sobre os desmentidos oficiais à matéria, nada. Fala sobre “evidências” na cobrança de propinas que já haviam sido desmontadas pelo juiz e pela procuradora – em informações que se espalharam por toda a Internet e por todas as redações do país. Depois do desmentido da procuradora, o jovem repórter Diego Escosteguy ficou sob suspeita de ter inventado uma matéria. Ele não pode simplesmente responder indignando-se com a não resposta do PT. Seu papel, agora, é mostrar as provas de que a matéria da semana passada não foi inventada, inclusive para não prejudicar uma carreira promissora.

Da Veja

O PT continua dando de ombros…

…e repete o mesmo erro visto no mensalão: ignora as evidências de que seu tesoureiro cobrava propina e decide mantê-lo no cargo

Na noite da última terça-feira, o lobista e deputado cassado José Dirceu, acusado pela Procuradoria-Geral da República de comandar a “organização criminosa” do mensalão, réu no Supremo Tribunal Federal por corrupção ativa e formação de quadrilha, celebrou seus 64 anos numa alegre festa em Brasília. Dirceu, o perseguido, aproveitou a tertúlia para anunciar sua enigmática convicção de que será absolvido no STF – e propôs um brinde especial ao novo tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, apontado como um dos operadores do mensalão petista e, também, como responsável por desfalques milionários na Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo, a Bancoop. “Vamos defender nossos amigos dessas denúncias infundadas”, arengou o petista, observado de perto pelo presidente do Senado, José Sarney, e pelo senador Renan Calheiros, ambos do PMDB, políticos retos que, como Dirceu, conhecem bem esse tipo de “denúncia infundada”. Até o outrora discreto chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, foi às falas: “Não vamos aceitar linchamento sem provas”. O partido, portanto, está disposto a manter no cargo João Vaccari, o coletor de propina do mensalão junto aos fundos de pensão.
As declarações no convescote de Dirceu demonstram que o PT resolveu aplicar no caso de Vaccari a mesma tática belicosa que adota desde o começo do governo Lula sempre que surgem evidências de malfeitorias cometidas pelos companheiros. É uma estratégia rudimentar, na qual o partido se defende tão somente atacando os autores das denúncias – ou, ainda, o mensageiro delas: “a mídia golpista”. Essa atitude prepotente, de deprezo aos demais protagonistas do jogo democrático, serve ao propósito político de interditar o debate e a validade de quaisquer investigações, ignorando, assim, a substância objetiva das provas apresentadas ao público. A nota divulgada pelo tesoureiro na semana passada – em resposta às revelações de VEJA sobre os depoimentos sigilosos do corretor Lúcio Funaro aos procuradores que investigam o mensalão – ratifica isso. Nela, lê-se apenas que as denúncias visam a “influenciar o processo eleitoral”. Nada diz sobre os fatos. Ou seja, nega sem negar. Não nega que Vacca-ri recebeu o corretor e o deputado mensaleiro Valdemar Costa Neto na sede da Bancoop, no fim de 2004. Não nega que nesse encontro Vaccari explicou que, para fazer negócios nos fundos de pensão, era necessário pagar um pedágio ao PT. Não nega que, na conversa, Vaccari explicou que Funaro e Valdemar também deveriam pagar propina para participar dessas negociatas.
Ao desprezo pelos fatos seguiu-se a terceira linha de defesa do PT, na qual o partido procurou distanciar Vaccari do comitê da campanha presidencial de Dilma Rousseff. Ele é tesoureiro do PT, mas não cuidará das finanças da campanha, asseguram os articuladores do partido. Bobagem. Nem distância física existe. O provável comitê de campanha de Dilma funcionará no mesmo prédio da sede do PT, em Brasília. A partir de abril, quando deixará a Casa Civil para dedicar-se exclusivamente à campanha, Dilma será funcionária do PT. Seu salário sairá dos cofres administrados por Vaccari. Ao menos cinco assessores dela deixarão a Casa Civil e passarão a receber pelo partido. A sigla também bancará, naturalmente, toda a estrutura da caminhada eleitoral de Dilma até julho, quando a campanha começará oficialmente e o comitê poderá arrecadar doações. O partido estima que gastará entre 5 e 8 milhões de reais nesse período de pré-campanha. Tudo com a assinatura de João Vaccari – o homem que pedia comissão a empresários, segundo depoimentos em poder da Procuradoria-Geral da República.
Apesar da soberba petista, a oposição conseguiu, na semana passada, apro-var a convocação de Vaccari para depor numa CPI do Senado. O tesoureiro deve aparecer no Congresso nesta terça-feira, mas não há esperança de que ele se disponha a dar explicações. O promotor José Carlos Blat, que coordena as investigações do caso Bancoop, também irá. O corretor Lúcio Funaro foi convidado, mas não pretende depor. Ele disse a amigos que só quer testemunhar caso Vaccari desminta seu depoimento. “Que-ro ver se ele tem coragem de ir para uma acareação comigo”, desafiou Funaro. “O pessoal está tentando trazer 2005 para a eleição de 2010. Acho pouco eficaz”, disse a ministra Dilma Rousseff. Por “pessoal”, entenda-se adversários. Porém, ao eleger Vaccari como o novo tesoureiro do partido, foi o PT que levou o mensalão para o coração da campanha da ministra.


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sexta-feira, 19 de março de 2010

Valor Econômico: promotor do caso Bancoop acusa sem provas.

Matéria do Valor, copiada daqui.
Além da informação que vai aí no título, a matéria do Valor Econômico traz mais duas informações bem interessantes.

1 - O fundo da Bancoop em que os fundos de pensão aplicaram dinheiro era considerado um investimento muito seguro pela Standard & Poor"s.

Ela havia dado ao FDIC a nota AA. Segundo o Brasil Econômico:  "AAA: É a notação mais elevada, que revela uma capacidade "extremamente forte" do emitente cumprir com as obrigações financeiras."; e "AA: Difere pouco da classificação de AA. A capacidade do emitente em cumprir com as obrigações financeiras é "muito forte"."

Apenas para comparação, a S&P dá nota BBB- para a Petrobrás desde 26/06/2009. Ou seja, no momento de sua cração, segundo a S&P, era mais seguro investir no FDIC da Bancoop do que é, hoje, investir na Petrobrás.


2 - Os fundos de pensão das estatais não perderam um centavo na operação; apenas ganharam menos que o previsto.

Investimento na Bancoop expôs fundos a risco alto.
Ricardo Balthazar, de São Paulo

Um grupo de fundos de pensão estatais que há seis anos se uniu para reforçar os cofres da Cooperativa Habitacional dos Bancários de São Paulo (Bancoop) com a promessa de que teria o dinheiro devolvido em condições generosas só conseguiu recuperá-lo no fim do ano passado, depois de abrir mão de boa parte dos rendimentos que teria recebido se as premissas originais do negócio tivessem sido mantidas.

A transação foi concluída discretamente em novembro, quando a cooperativa desembolsou R$ 18 milhões para quitar suas obrigações com os fundos e um pequeno grupo de investidores que se associou a eles para investir na Bancoop. Eles tinham o direito de receber quase R$ 29 milhões, mas aceitaram o desconto proposto pela cooperativa para evitar os prejuízos que poderiam sofrer se continuassem amarrados à Bancoop por mais tempo.

O envolvimento dos fundos de pensão com a Bancoop nunca foi um segredo, mas a relação entre eles voltou a ser examinada com atenção nas últimas semanas por causa das suspeitas que cercam as atividades da cooperativa. A Bancoop está sob investigação do Ministério Público de São Paulo desde 2007 e seus dirigentes foram acusados pelo promotor José Carlos Blat de desviar dinheiro da cooperativa para o PT.

Entre 2004 e 2005, a Bancoop captou no mercado cerca de R$ 37,5 milhões com o lançamento de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC), em que a devolução do dinheiro dos investidores e seus rendimentos seriam assegurados pelos pagamentos feitos pelos associados da Bancoop. De acordo com a cooperativa, o objetivo da operação era arrecadar recursos para acelerar as obras de seus empreendimentos imobiliários.

A montagem do fundo e seu desempenho nos anos seguintes foram acompanhados de perto pelo tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, que nas últimas semanas virou o alvo principal das investigações conduzidas por Blat. Vaccari presidia o Sindicato dos Bancários quando o FIDC foi criado e pouco tempo depois assumiu o comando da Bancoop, onde permaneceu até fevereiro deste ano.

Os maiores fundos de pensão do país apostaram no FIDC da Bancoop. A Funcef, dos funcionários da Caixa Econômica Federal (CEF), entrou com R$ 11 milhões. A Petros, dos empregados da Petrobras, aplicou R$ 10 milhões. A Previ, dos funcionários do Banco do Brasil, investiu R$ 5 milhões. Os dirigentes dos três fundos têm laços antigos com o PT e o Sindicato dos Bancários de São Paulo.

Quando o FIDC foi lançado, ele parecia um bom negócio. A promessa era que os recursos seriam devolvidos em três anos, corrigidos pela variação do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), mais 12,5% de juros ao ano, uma taxa considerada excelente para esse tipo de aplicação. A agência de classificação de risco Standard & Poor"s analisou a operação e deu ao fundo da Bancoop a nota AA, reservada para investimentos considerados muito seguros.

Mas havia problemas na administração da cooperativa, como ficou evidente pouco tempo depois. Auditores contratados pela Bancoop em 2005 revelaram que as prestações pagas pelos associados eram insuficientes para cobrir os custos de vários empreendimentos. Para tapar o buraco, a cooperativa decidiu cobrar novos pagamentos dos cooperados. Revoltados, muitos deixaram de pagar as prestações em dia e foram à Justiça contra a Bancoop.

O resultado foi um aumento da inadimplência na cooperativa, que se refletiu sobre a qualidade da carteira de títulos formada para assegurar os rendimentos dos fundos de pensão e dos outros investidores que haviam apostado no FIDC da Bancoop. Em maio de 2006, quando faltava pouco mais de um ano para o fundo ser liquidado e os investidores reaverem seu dinheiro, as regras do FIDC foram alteradas.

O prazo para encerramento do fundo foi esticado de três para sete anos e critérios desenhados para assegurar sua rentabilidade e manter baixa a inadimplência da sua carteira foram eliminados. A mudança foi aprovada por todos os cotistas do fundo da Bancoop, exceto a Previcq, fundo de pensão dos servidores de vários órgãos subordinados ao Ministério da Ciência e Tecnologia.

Nos anos seguintes, novas mudanças foram feitas nas regras do FIDC, para garantir aos fundos de pensão que os resgates programados para ocorrer uma vez por ano pudessem ser antecipados sempre que houvesse dinheiro disponível. Mas os problemas da Bancoop continuaram se agravando. A Standard & Poor"s passou a considerar o fundo de alto risco e a situação chegou a um ponto em que a cooperativa só conseguia cumprir suas obrigações com os cotistas fazendo novos aportes de recursos no FIDC.

Em agosto do ano passado, a Bancoop propôs o encerramento das atividades do fundo, oferecendo aos cotistas o saldo remanescente das suas aplicações com uma correção menor do que a combinada na criação do FIDC, equivalente à variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), mais 6% de juros ao ano. Os fundos de pensão aceitaram o desconto e o pagamento foi feito pela cooperativa em novembro.

Os fundos de pensão não perderam dinheiro com a Bancoop. Eles poderiam ter ganho muito mais se as condições originais da transação tivessem sido preservadas. Mas eles saíram do FIDC da Bancoop com o patrimônio preservado e rendimentos suficientes para manter o equilíbrio financeiro de suas carteiras. Ainda assim, ao permanecer por tanto tempo num fundo tão problemático, eles se expuseram a níveis de risco bastante elevados.

Em resposta a questionamentos feitos pelo Valor, a Previ, a Petros e a Funcef justificaram a demora pela necessidade de encontrar uma saída que evitasse prejuízos maiores, que poderiam ter ocorrido se o FIDC da Bancoop tivesse deixado de pagar os cotistas, ou se a questão fosse levada à Justiça, medida que os fundos de pensão seriam obrigados a tomar se levassem calote do fundo.

Somados todos os resgates feitos até o encerramento do FIDC da Bancoop, a Petros recebeu R$ 12,7 milhões, a Funcef levou R$ 14,6 milhões e a Previ recuperou R$ 7,8 milhões. O promotor Blat desconfia que o fundo tenha sido usado para desviar recursos para o PT, mas não tem nenhuma prova de que isso tenha ocorrido. Há duas semanas, a Justiça autorizou o Ministério Público a examinar a movimentação financeira do FIDC para conferir a sua tese. (Colaborou Alessandra Bellotto)