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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Semer e a Comissão da Verdade: a tolerância com a tortura é combustível para a persistência da violência policial no Brasil

Lá em baixo, reproduzo um artigo de Marcelo Semer para o Terra Magazine.

Ramsey, Lake Oswego de Mark Morrisroe

Confesso, sem vergonha, que a criação de uma Comissão da Verdade nunca esteve no topo da lista de prioridades na minha agenda política pessoal. Tendia a apoiar boa parte das concessões políticas feitas, neste ponto, em favor da aprovação de medidas voltadas para a construção do futuro deste país.

Continuo acreditando mesmo que, quando possível, é melhor seguir adiante do ficar remoendo o passado. 

Ultimamente, entretanto, tenho me questionado bastante sobre a possibilidade, nesse caso específico, do "seguir em frente sem olhar pra trás". Tenho tido a impressão de que coisas como um certo desapreço pelas instituições democráticas e a leniência com a violência policial, por exemplo, podem mesmo decorrer da nossa opção por não exaurir de vez as nossas contas com o nosso passado antidemocrático.

Talvez tenhamos mesmo que liberar aqueles gritos do passado que ainda restem sufocados, para, aí sim, pararmos de ouvir e viver seus ecos.

*****

Marcelo Semer
De São Paulo

A Câmara dos Deputados pode, finalmente, aprovar nesta quarta-feira o projeto que institui a Comissão da Verdade.

Destinada a jogar luz sobre violações de direitos humanos, praticadas especialmente nos anos de chumbo, a comissão vai possibilitar o encontro do país com a história que lhe vem sendo sonegada há décadas.

Há cadáveres insepultos na sombria memória da ditadura e escondê-los debaixo do tapete não é propriamente uma experiência republicana.

O processo de redemocratização que se iniciou ao final do regime militar não se completará sem que o direito à memória esteja garantido.

Centenas de famílias conviveram com a crueldade de terem tido seus filhos violentamente arrancados de si, sem que tivesse sido possível sequer enterrar os corpos dos que jamais voltaram.

Se hoje pregamos a transparência e nos indignamos com a votação secreta que absolve um parlamentar pelo corporativismo, é sinal de que a verdade continua sendo um valor imprescindível para a sociedade.

Não se constrói democracia sem verdade, nem se ergue da justiça a clava forte, com silêncio, ocultação e mentiras.

O esquecimento não produz conciliação, cria monstros.

Ao justificar a pouca oposição que supunha obter com a matança generalizada de judeus, Hitler costumava indagar a seus oficiais: "quem se lembra do genocídio armênio" -, ocorrido duas décadas antes.

É preciso entender que a comissão da verdade não é uma instância julgadora.

Ainda que se disponha a "promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres", não tem nem terá competência para julgá-los.

Boa parte dos países da América Latina que superaram suas ditaduras, revogaram leis de anistias ou atualizaram suas jurisprudências de acordo com as normas internacionais, para julgar crimes de lesa humanidade cometidos no período.

Por aqui, entretanto, o STF segue ignorando a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que em decisão vinculativa afastou qualquer obstáculo jurídico aos processos.

O objetivo da comissão, no entanto, é outro.

Sua função é escrever a história oficial, "recomendar a adoção de políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos, assegurar sua não repetição e promover a efetiva reconciliação nacional".

A exposição de uma verdade jamais será revanchismo. Ao contrário, impedi-la é um segundo crime que se comete contra as mesmas vítimas.

É preciso entender que a tolerância com a tortura praticada supostamente por razões de Estado é um importante combustível para a violência policial que persiste até nossos dias.

No esconderijo dos erros, a justificativa de que a truculência pode ser admissível quando for para combater um "inimigo".

É assim que os esquadrões da morte que nasceram nos calcanhares da ditadura se perpetuaram como grupos de extermínio. Muitos aplaudem quando eles matam "bandidos" - mas quem não se repugna quando a violência policial atinge uma juíza que se notabilizou por aplicar a lei para puni-los?

O acesso à verdade é um dos componentes da liberdade de expressão.

É difícil levantar o estandarte da liberdade de exprimir um pensamento e ao mesmo tempo coonestar com a ocultação de informações que possam justificá-lo.

Liberdades pela metade costumam apenas servir de álibis para a mera proteção de interesses pessoais.

É preciso passar a limpo esta página infeliz da nossa história justamente para que não se repita.


Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Fale com Marcelo Semer: marcelo_semer@terra.com.br ou siga@marcelo_semer no Twitter

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Terra Magazine: nas últimas décadas, Governo Lula foi o único a ter políticas culturais efetivas, diz especialista

Matéria do Terra Magazine.

Carolina Oms
Especial para Terra Magazine

O professor Antonio Albino Canelas Rubim, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), tem acompanhado as políticas culturais brasileiras iniciadas em 1985, com a criação do Ministério da Cultura. Para ele, desde então, o governo Lula foi o único a ter políticas culturais efetivas para a área:
- Eu posso dizer que, pela primeira vez, nós temos um Ministério da Cultura. Ele inexistiu no período do Sarney, Collor e Itamar - porque era o caos completo -, no período Fernando Henrique ele foi inexpressivo, só havia leis de incentivo, mais nada, tanto que, quando o ministro saiu, o orçamento da Cultura era 0,14%, o menor orçamento de todos os Ministérios.

Desde 2006, Rubim coordena dois grupos de pesquisas focados nas políticas culturais brasileiras, desses projetos resultou o livro "Políticas culturais no governo Lula", que será lançado nesta quinta-feira, 27.

O estudioso destaca que o livro não é uma comparação do governo Lula com o governo anterior. Mas a constatação de que no Brasil as políticas culturais tiveram três tradições:

- A tradição da ausência, em muitos momentos nós não tivemos políticas culturais; a tradição do autoritarismo, nos momentos em que houve políticas, elas foram ligadas a governos autoritários; e uma tradição de instabilidade, por exemplo, o Ministério da Cultura foi criado em 1985, entre 1985 e 1994, tivemos dez responsáveis pela cultura no Brasil, quer dizer, o Ministério estava sendo implantado e houve praticamente um ministro por ano.

Apesar de reconhecer os acertos das ações de Gilberto Gil e Juca Ferreira, ministros do governo Lula, Rubim também faz ressalvas: "Não há uma posição clara do Ministério sobre qual é, afinal de contas, o papel do Estado na cultura. Fica oscilando entre a situação do neoliberalismo e a do regime autoritário".

No início de sua gestão, o ministro Gilberto Gil enfatizou que o Estado superaria o domínio do mercado nas questões culturais, mas, de acordo com Rubim, hoje, de cada 100 reais aplicados pelo governo na cultura, 80 são aplicados via lei de incentivo. "Só agora, neste último ano, o governo mandou pro Congresso Nacional o que eles chamam pró-cultura, que é uma mudança no financiamento", critica.

O Palácio da Aclamação, em Salvador, Bahia, sediará o lançamento dos livros "Políticas culturais no governo Lula" e "Políticas Culturais para cidades", ambos organizidos pelo professor Antonio Rubim.

Este segundo livro é uma compilação de depoimentos de diversos especialistas da área, reunidos em um seminário, tratando dos mais variados temas abarcados sobre a área de cultura e cidades.

Serviço:

Quinta-feira, 27, às 20h.
Palácio da Aclamação (Campo Grande)
Salvador, Bahia

terça-feira, 13 de abril de 2010

Terra Magazine: elevar taxa de juros pode abortar ciclo de investimento que sobreviveu à crise mundial, escreve Júlio Gomes de Almeida.

Artigo publicado pelo Terra Magazine.

Julio Gomes de Almeida
De São Paulo (SP)

A princípio, o governo não adotou medidas específicas para incentivar o investimento durante a crise, limitando-se a municiar de recursos o BNDES para que não faltasse financiamento para quem se aventurasse a apostar no futuro. Preferiu concentrar os incentivos fiscais em bens duráveis de consumo (automóvel, geladeira, etc) e em material de construção. A ausência de ações concorreu para que o investimento caísse muito entre o último trimestre de 2008 e o segundo trimestre de 2009.

No último trimestre de 2008, a taxa de investimento (a relação entre o investimento e o PIB) caiu para 18,2%, vindo de 20% no trimestre anterior e atingiria 15,8% no primeiro trimestre de 2009, o mais baixo nível desde o segundo trimestre de 2004.

Somente em julho o governo lançaria um poderoso programa na área do crédito que teve pronto êxito e ajudou a reativar o dinamismo da inversão no país, de forma que uma das melhores surpresas do desempenho brasileiro no imediato pós-crise acabou sendo a intensidade com que o investimento se recuperou. No último trimestre de 2009, a taxa de investimento chegou a 17,9% do PIB. O Programa de Sustentação do Investimento reduziu para praticamente zero a taxa de juros real nos financiamentos do BNDES para a compra de máquinas e equipamentos no país.

É preciso observar que o Brasil vivia desde 2007 uma onda de crescente e envolvente inversão, algo que nos últimos 30 anos não ocorria. Esse processo envolvia investimentos mais "leves" como na agregação marginal de capacidade produtiva e na modernização do parque produtivo das empresas, mas também grandes projetos que visavam à demanda futura. Investimento correndo à frente da demanda é tudo o que uma economia precisa para crescer e simultaneamente evitar problemas inflacionários.

Sem dúvida, a crise interrompeu o curso dessas iniciativas, mas não removeu a perspectiva favorável que nutre a decisão de investir, vale dizer a expectativa de um mercado em expansão que torna possível a antecipação de uma atrativa rentabilidade do capital. Por isso, assim que a economia mostrou sinais de superação da crise, reapareceu a disposição de investir e a "febre" anterior de novos projetos foi resgatada. O risco de interrupção de um processo como esse que não é fácil de ser desencadeado deveria merecer avaliação muito cuidadosa pelo governo antes de voltar a elevar a taxa de juros.

No caso do setor industrial o retorno ao investimento tem sido forte e generalizado e já se mostra capaz de estabilizar a utilização da capacidade produtiva da indústria em um nível confortável como 84%. Esse nível assegura o atendimento da demanda sem pressões sobre os preços e, simultaneamente, confere atratividade a novos investimentos que irão agregar capacidade de produção à economia. Em outros segmentos, como, em especial, infraestrutura e habitação, é muito significativa a disposição de investir.

Nesses casos, vale dizer, nos setores de indústria, infraestrutura e habitação, o governo deveria se preocupar em articular novas modalidades de financiamento. As estruturas existentes no BNDES e no sistema de poupança são boas e ajudam no financiamento corrente desses setores, mas podem não ser suficientes quando há uma grande evolução das inversões. Como se sabe, por enquanto, o BNDES vem suprindo as necessidades de recursos, mas isso vem exigindo uma grande colocação de dívida pública no mercado que talvez encontre um limite nesse ano. No caso da habitação, o sistema em vigor vem se beneficiando do grande aumento da captação de depósitos de poupança que se acentuou no período de crise. Mas esse impulso pode perder força, enquanto a grande demanda de financiamento do setor pode vir a se acentuar ainda mais.

Existem outros problemas e lacunas. Problemas porque há uma ameaça crescente de que os efeitos de propagação e multiplicação do corrente ciclo de investimentos sobre a economia doméstica se reduzam dramaticamente se o comando da realização desses investimentos se situar fora do país e as ordens de fabricação de bens de capital favoreceram a produção no exterior.

Quanto às lacunas, estas existem, por exemplo, na exportação, onde o câmbio valorizado e outros fatores que elevam o custo de produção doméstico (custo da infraestrutura, do crédito, da tributação, dentre outros), impedem que decolem os projetos nessa área. Na inovação, os investimentos tendem a aumentar à medida que o crescimento econômico mostre maior sustentação, mas incentivos mais eficazes poderiam ajudar a antecipá-los.

Julio Gomes de Almeida é professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.