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segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Terra Magazine: as bolhas, suas causas e seus efeitos para leigos.

Segue o artigo de Carlos Drummond para o Terra Magazine, com grifos meus.
Carlos Drummond
De Campinas (SP)

À luz da história das crises financeiras, a taxação recente das aplicações externas no Brasil para evitar a formação de bolhas - como justificou o ministro da Fazenda, Guido Mantega - é correta. Toda bolha financeira é, por definição, insustentável e quando estoura, isto é, quando chega ao fim, prejudica sempre com maior intensidade os grupos sociais mais fracos. Mas nem toda bolha resulta em inovação tecnológica, novos ativos produtivos ou melhora da infraestrutura.

As bolhas são caracterizadas por mudanças relativamente rápidas das condições de funcionamento do mercado, provocando um distanciamento incomum entre os preços dos ativos - ações, imóveis ou outros bens - e as suas médias históricas. A alteração expressiva de preços em curto espaço de tempo costuma produzir euforia e o abandono, pelos participantes do mercado, da análise racional de risco.
Sob entusiasmo contínuo dos aplicadores, o mercado parece ter um só lado e uma única opinião. Há uma indiferença à razão, nas palavras do jornalista financeiro Roger Lowenstein. O risco aumenta e o tamanho do desastre cresce na mesma proporção.

A crise financeira e econômica detonada no final de 2008 nos Estados Unidos assinala o desfecho de duas bolhas consecutivas de hipervalorização: de ações de tecnologia e de imóveis, ambas acompanhadas de manipulações, falcatruas e falências de empresas e de indivíduos. O final repetiu o script de todas as bolhas: desemprego, despejo e dilaceração da base da sociedade.

A bolha das ações de empresas de tecnologia (ou empresas "ponto com") na década de 1990 produziu a expansão da internet ao custo de uma recessão de média intensidade e teria sido mais positiva que negativa. A bolha das hipotecas subprime, detonada no ano passado, deixou apenas um rastro de destruição.

A formação de uma bolha de aplicações financeiras externas hoje no Brasil dificilmente teria consequências positivas além da valorização dos papéis, benéfica para os seus detentores. Diferente é o efeito dos investimentos estrangeiros diretos encaminhados para inovações tecnológicas, ampliação de capacidade produtiva ou de oferta de serviços. Esses não foram atingidos pela taxação.

A sucessão mais recente de bolhas tomou forma em meados da década de 1990, no governo de Bill Clinton, que definiu a meta de cortar o déficit do Tesouro. A medida resultaria em redução das taxas de juros, que conduziriam a um aumento do consumo de bens duráveis como carros e eletrodomésticos, construção de residências e investimentos empresariais.

Com juros baixos, a economia passou a crescer mais rapidamente. Eram os primórdios da chamada Nova Economia, impulsionada pela difusão do uso de computadores e da internet, marcada por uma ascensão vertiginosa seguida de uma queda arrasadora do mercado das ações "ponto com", das empresas do setor.

O índice da National Association of Securities Dealers Automated Quotation System - NASDAQ, bolsa de negociação das ações de empresas de tecnologia da Nova Economia, subiu 42% em 1995 e 22% em 1996, ano em que Greenspan comentou a "exuberância irracional" do mercado de ações.

A onda altista continuou após a reeleição de Clinton. O NASDAQ subiu mais 22% em 1997 e 40% em 1998.

A transição da bolha estourada das ações para a do mercado imobiliário foi rápida. Quando os preços das ações subiram, muitos investidores usaram os ganhos obtidos para adquirir casas. Como o estoque de residências era relativamente estável, o aumento das aquisições pressionou os preços para cima.

Este foi um dos fatores que permitiu passar-se, quase sem interrupção, de uma bolha para outra.
O Fed teve um papel fundamental no processo. Depois da queda da bolsa, reduziu-se as taxas de juros parao seu ponto mais baixo em 50 anos, o que contribuiu para sustentar a alta de preços no mercado de residências, que já estava supervalorizado.

No seu depoimento ao Congresso em 2002, Greenspan assegurou que inexistia uma bolha no mercado imobiliário. Os números evidenciavam uma outra realidade. Os preços nesse segmento, que entre 1953 e 1995 haviam acompanhado a inflação, de 1995 a 2006 subiram mais de 70%, descontada a inflação.

As importações da Ásia, em especial as da China, mantinham a inflação baixa. O Fed garantia juros baixos. O mercado financeiro havia criado um arsenal de instrumentos inovadores. Tudo concorria para manter o crescimento do mercado imobiliário. A bolha continuava inchando. Muitas autoridades - a começar por Greenspan -, empresários e economistas sabiam que um dia estouraria, mas agiam como se a bonança aparente pudesse perdurar por tempo indefinido.

Enquanto as remunerações milionárias dos dirigentes das instituições permaneciam intocadas, as famílias estadunidenses perdiam perto de US$ 5 trilhões, cerca de US$ 70 mil por proprietário de residência, em consequência do estouro da bolha. Entre 2002 e 2006 os preços reais das residências estavam nada menos do que 70% acima da média dos últimos 100 anos.

Os Estados Unidos, "a terra das bolhas", segundo o escritor e banqueiro Charles A. Morris, conhecem esses movimentos pelo menos desde o século 19, quando surgiram várias delas na esteira de inovações tecnológicas e de avanços da economia.

Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp.

Bloomberg: as perspectivas de crescimento econômico para o Brasil são possivelmente as melhores das últimas décadas, diz a Goldman Sachs.

Segue a matéria da Bloomberg, com grifos meus e em péssima tradução minha.

By Paulo Winterstein

26 de outubro (Bloomberg) - As ações brasileiras não estão caras, mesmo depois do índice Bovespa subir 73% neste ano e cortar posições pode ser "perigoso" para os investidores, disse a Goldman Sachs Group Inc.

Avaliações prévias sugerem que é arriscado ser 'underweight' em Brasil", Stephen Graham, um analista de São Paulo escreveu em uma nota aos clientes. "O risco soberano brasileiro e as taxas de juros estão em ou perto dos recordes mínimos, enquanto as perspectivas de crescimento econômico sustentável são possivelmente melhores do que em qualquer período nas últimas décadas."

A Bovespa pode chegar aos 85.000 pontos até meados do próximo ano, ele escreveu. Isso representa um ganho de 31% desde o encerramento em 23 de outubro. O índice de negócios está em 16,5 vezes os lucros estimados, em comparação com 17,16 vezes para o MSCI Latin America Index, de acordo com dados da Bloomberg.

O lucro por ação provavelmente vai crescer 46% no próximo ano e 23% em 2011, o que significa que as avaliações futuras permanecerão estáveis, mesmo que o índice suba para 85.000, escreveu Graham.

O índice oscilou pouco hoje, subindo menos do que 0,1% para 65,085.55 em São Paulo.

A Bovespa está pronta para seu maior ganho anual em seis anos enquanto a economia se recupera da primeira recessão desde 2003, amparada pelo recorde de juros baixos e pelo aumento da demanda doméstica. Os economistas prevêem que o PIB do Brasil aumentará 4,8% no próximo ano, após crescer 0,18% em 2009, segundo a previsão média em outubro num levantamento do Banco Central em cerca de 100 analistas publicado hoje.

'Baby Boom'

Um "baby boom" na década de 1980 significa que consumidores na faixa dos 20 anos estão entrando agora no mercado com o "volumes de crédito nunca antes disponíveis", aumentando a demanda no mercado interno do Brasil, escreveu ele.

O crescimento da população poderá elevar o Brasil a terceiro mercado mundial de computadores e telefones ano que vem, escreveu Graham. A estabilidade financeira do país levou a 77% de crescimento em contas bancárias em sete anos e a um crescimento de 18% no número de cartões de crédito desde 2001, escreveu o estrategista.

Os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e Jogos Olímpicos de 2016 provavelmente vão acelerar o financiamento para projetos necessários de infra-estrutura, escreveu Graham. O Brasil está assistindo "alguns dos maiores projetos de transmissão de energia, gasodutos, hidrelétricas, e de telecomunicações em curso no mundo", enquanto a atenção global dos eventos desportivos coloca o governo sob pressão para acelerar o ritmo da construção, ele escreveu.

Maior economia da América Latina, tem também uma vantagem sobre as outras nações produtoras de commodities porque vende a China, que cresce rápido, em vez de depender das vendas para mercados de crescimento mais lento na Europa e os EUA, escreveu Graham.