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segunda-feira, 7 de junho de 2010

R7: suibstituir Belo Monte por eólicas custaria de 2 a 4 vezes mais, diz estudo do MME.

Matéria do R7.

Estudo mostra que cerca de 10.160 turbinas gerariam energia de hidrelétrica do Xingu.

A usina hidrelétrica Belo Monte, que será construída no rio Xingu (PA), é mais barata do que fontes alternativas, como as usinas eólicas. Esse é o resultado de estimativas feitas pela área técnica do Ministério de Minas e Energia levando em conta toda a energia que poderia ser gerada por Belo Monte - 11,2 mil megawatts (MW).

O custo da hidrelétrica no Pará é estimado em ao menos R$ 19 bilhões – um dos mais altos do mundo para uma obra do tipo. O governo deve bancar a maior parte por meio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

O estudo do ministério, feito a pedido do jornal O Estado de S.Paulo, mostra que, em caso extremo, se toda a energia de Belo Monte tivesse de ser gerada em centrais eólicas ou solares, o gasto seria maior e o custo da energia também.

Devido ao ciclo de cheias do rio Xingu, Belo Monte não deve atingir sua capacidade máxima em praticamente nenhum momento. Os técnicos do ministério fizeram projeções com base na "garantia física" da hidrelétrica, que é a energia média que efetivamente será produzida: 4.571 megawatts médios (MWmed).

Para chegar a essa energia, seriam necessárias 10.160 turbinas eólicas para captar a energia do vento. O custo varia de R$ 47,8 bilhões a R$ 83,6 bilhões.

Debate ambiental

A comparação leva em conta os principais argumentos contra a construção da usina. Em qualquer debate sobre Belo Monte, é comum ouvir que o dinheiro usado na construção da usina poderia ser usado para produzir energia por meio de outras fontes, em tese mais amigáveis ao meio ambiente, como centrais de energia eólica ou PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas).

Para o ministro de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, as hidrelétricas ainda são a fonte mais barata de geração de energia. Belo Monte deve estar entre as três maiores usinas do mundo, atrás de Itaipu (Brasil) e de Três Gargantas (China).

- No Brasil, ainda temos hidrelétricas para explorar e são a fonte mais barata. Então, tenho de fazer delas o carro-chefe. Outras fontes, como eólicas, biomassa e PCHs são excelentes para complementar, mas não têm as características para liderar a expansão.

Além dos efeitos econômicos, chama atenção o espaço físico necessário para as torres das turbinas eólicas.

Se fosse construída uma grande central eólica, contínua, para gerar a mesma energia de Belo Monte, as torres ocupariam área de até 3.047 quilômetros quadrados, duas vezes a cidade de São Paulo. A área alagada para Belo Monte será de 516 quilômetros quadrados.

Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de energias renováveis do Greenpeace Brasil, ressalta que, na mesma área onde as centrais eólicas são instaladas outras atividades podem coexistir, como pecuária e agricultura. No caso das hidrelétricas, diz, mesmo se ao lago for dada outra destinação (como turismo), a população precisa ser deslocada.

terça-feira, 13 de abril de 2010

OI: sobre Belo Monte, jornais brasileiros destacam opinião de Cameron e omitem a de Marina Silva.

Artigo publicado pelo Observatório da Imprensa.

POLÍTICA & AMBIENTE Jornalismo de frases de efeito.
Por Luciano Martins Costa em 13/4/2010
Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/4/2010

A ex-ministra do Meio Ambiente e pré-candidata à Presidência da República, senadora Marina Silva, foi a convidada principal do seminário sobre economia de baixo carbono, organizado pela revista CartaCapital em São Paulo, na segunda-feira (12/4). Os jornais de terça-feira registram o evento apenas para destacar opiniões da senadora sobre a disputa eleitoral.

Marina Silva disse entre outras coisas que, sem Lula na disputa, a campanha será um confronto de candidatos carrancudos – e a imprensa gostou da frase. A senadora disse muito mais do que isso, e os outros participantes também ofereceram farto material sobre a questão do desenvolvimento sustentável, que deveria estar no centro dos debates eleitorais. Mas os jornais parecem estar interessados apenas em frases de efeito.

Uma das informações oferecidas aos presentes dá conta do crescente interesse da imprensa brasileira pelo tema da preservação ambiental. A ex-ministra informou, por exemplo, que em 2003, quando ela assumiu o cargo, sua assessoria coletava nos jornais uma média de catorze notícias sobre a questão ambiental por dia. Hoje, a imprensa brasileira publica diariamente pelo menos uma centena de notas e reportagens sobre o assunto.

O detalhe, que nenhum dos participantes se animou a comentar, continua sendo a qualidade desse noticiário. Pela baixa repercussão que o evento produziu nos jornais do dia seguinte, pode-se concluir que a imprensa ainda não entendeu que o desafio ambiental é a grande notícia neste início do século 21.

Como um filme

Os jornais noticiam na terça-feira (13), por exemplo, que o diretor de cinema James Cameron se juntou aos protestos em Brasília contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu. Mas apenas dão espaço para a manifestação de uma celebridade, sem avançar uma linha no debate a respeito do projeto, que já tem mais de vinte anos.

A própria senadora Marina Silva, sobre cujas preocupações ambientais e conhecimento do tema não pairam dúvidas, afirmou que não tem opinião formada contra a construção de Belo Monte. Mas os jornais não publicaram sua declaração. Preferiram divulgar a opinião amadora de James Cameron, cujo interesse é basicamente divulgar os subprodutos do seu filme Avatar, como o videogame ambientado no planeta imaginário de Pandora.

Vista pelas páginas dos jornais, a realidade brasileira parece cada vez mais um filme de Hollywood.

***

Como alimentar preconceitos

As edições de terça-feira dos jornais dão destaque à manifestação do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcísio Bertone, que se declarou publicamente a favor de levar à justiça comum os casos consistentes de pedofilia que tenham como acusados sacerdotes católicos .

Mas uma declaração da autoridade religiosa, pela maneira como foi reproduzida pela imprensa brasileira, pode provocar alguma confusão entre pedofilia e homossexualidade, com risco de alimentar os preconceitos contra homossexuais.

O cardeal Bertone afirmou que "muitos psicólogos e psiquiatras demonstraram que não há relação entre celibato e pedofilia, mas outros demonstraram que há entre homossexualidade e pedofilia". Essa declaração, mal digerida na leitura ligeira dos diários, pode alimentar o preconceito segundo o qual homossexuais são propensos a abusar de crianças.

Nos mesmos jornais, há citação de opiniões contrárias às do secretário de Estado do Vaticano, como a de teólogos que relacionam o celibato como uma das causas do problema da pedofilia envolvendo sacerdotes católicos.

Ao reproduzir frases opinativas, sem esclarecer essas declarações com interpretações mais densas de especialistas, os jornais podem estar contribuindo para reforçar tendências preconceituosas de seus leitores.

O fato de aparecer na mesma edição o noticiário sobre a prisão do pedreiro Admar de Jesus, suspeito de haver estuprado e assassinado seis jovens numa cidade de Goiás, pode ser um agravante na confusão que normalmente se forma em torno do tema.

Longe do debate

A questão da pedofilia, muito presente na imprensa nos últimos meses, ainda não foi devidamente discutida pelos jornais.

Tramita no Congresso um projeto de lei de autoria do senador Gérson Camata, do Espírito Santo, propondo a adoção da castração química nos casos de pedofilia e outros crimes sexuais. No entanto, há muita controvérsia entre juristas sobre a questão.

O fato de alguém ter praticado pedofilia uma vez, e sido condenado por isso, não assegura que voltaria a cometer o mesmo crime, alegam especialistas.

A hipótese de dar ao Estado o direito de punir preventivamente alguém pela suposição de que pode vir a cometer um crime assombra muitos especialistas. Mas a imprensa ainda nem chegou perto desse debate.