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terça-feira, 27 de novembro de 2012

Pesquisa mostra Brasil liderando índice de aproveitamento social do crescimento econômico


Já é lugar comum: qualquer referência ao crescimento do Brasil vem acompanhada ou é retorquida pela ressalva derrotista de que, dentre os BRICs, ele é o que menos cresce. Recentemente, outra objeção vem se somando. Agora, lembra-se sempre que o México tem crescido mais que o Brasil.

O discurso subjacente, acho, é sempre o mesmo. O crescimento da economia brasileira e as mudanças por que passamos é resultado do acaso, do momento mundial – e da política econômica de 15 anos atrás. Existe mesmo quem diga que o Brasil cresce “apesar do Brasil”. No caso do México, que integra o NAFTA e tem política econômica mais liberal, além disso, somam-se as críticas ao sepultamento da ALCA.


Dos arquivos do blog:

Agora, matéria do Valor transcrita abaixo (via Vermelho) revela que, apesar de ter crescido apenas 5,1% em média nos últimos anos, os ganhos sociais da evolução econômica do Brasil equivalem a um crescimento da ordem dos 13% ao ano – ou seja, a um padrão chinês de evolução.

Esse modelo de desenvolvimento econômico, segundo a pesquisa noticiada, referente ao período entre 2006 e 2011, coloca o Brasil na liderança mundial quanto ao aproveitamento social do crescimento econômico. O México, veja você, ocupa a 127ª posição no ranking elaborado, que conta com 150 países.

No que diz respeito aos BRICs, vale repetir o seguinte parágrafo do texto abaixo:

“O estudo também compara o desempenho recente dos BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – na geração de mais bem-estar para os cidadãos. Se em relação à expansão da economia, o Brasil ficou atrás dos seus parceiros entre 2006 e 2011, o país superou a média obtida pelo bloco em áreas como ambiente, governança, renda, distribuição de renda, emprego e infraestrutura, diz Orglmeister. China, Rússia, Índia e África do Sul aparecem apenas em 55º, 77º, 78º e 130º, respectivamente, nessa base de comparação, que é liderada pelo Brasil.”


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O mesmo Valor traz, hoje, em artigo do Delfim Netto, referência a um outro índice de bem estar da população e à sua evolução. E o gráfico com os dados referentes ao período entre 1995 e 2011, copiado abaixo, após apresentação do índice pelo próprio Delfim, revelam uma completa estagnação até 2003, quando é substituída por forte e constante crescimento.

Não sou economista (ou outro “cientista”), mas não consigo “comprar” a ideia de que uma mudança tão repentina quanta acentuada na evolução do tal índice ocorra independente de uma alteração equivalente na condução da política econômica e social. 

"As pesquisas empíricas sugerem que o sentimento de “bem-estar” depende, fundamentalmente, de duas variáveis: 1) do crescimento da renda real dos cidadãos, que pode ser aproximada pela sua renda média; e 2) da distribuição entre os cidadãos da renda produzida. Elas sugerem, cada vez mais fortemente que uma melhoria do nível de igualdade aumenta o “bem-estar” de todos.

Diante desses fatos, o grande economista Amartya Sen, ganhador do Nobel de 1998), propôs uma medida engenhosa para simular o “bem-estar social”. Se o índice de Gini (que vai de 0 a 1) “mede” a concentração da renda, o seu complemento (1 menos o índice de Gini) sugere uma medida de “desconcentração”, ou seja, de maior igualdade na distribuição da renda.

É bom lembrar que o índice de Gini mede a “distância média” entre as pessoas, não o seu nível de bem-estar. A sugestão de Sen é construir um indicador composto da renda média real multiplicada pelo índice de “desconcentração”, de forma a captar um pouco melhor as duas variáveis a que nos referimos acima.

Felizmente, um interessante trabalho do Ipea (“A Década Inclusiva (2001-2011)”, Comunicações do Ipea nº 155, 25/10/2012) construiu o tal índice, que reproduzimos no gráfico abaixo. Vemos claramente que na octaetéride (1995-2002) ele permaneceu estagnado."

Gráfico do índice de bem estar social calculado pelo IPEA com base no Gini e na renda média.
Gráfico do índice de bem estar social calculado pelo IPEA com base no Gini e na renda média.

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O Brasil foi o país que melhor utilizou o crescimento econômico alcançado nos últimos cinco anos para elevar o padrão de vida e o bem-estar da população. Se o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu a um ritmo médio anual de 5,1% entre 2006 e 2011, os ganhos sociais obtidos no período são equivalentes aos de um país que tivesse registrado expansão anual de 13% da economia.

A conclusão é de levantamento feito pela empresa internacional de consultoria Boston Consulting Group (BCG), que comparou indicadores econômicos e sociais de 150 países e criou o Índice de Desenvolvimento Econômico Sustentável (Seda, na sigla em inglês), com base em 51 indicadores coletados em diversas fontes, como Banco Mundial, FMI, ONU e OCDE.

O desempenho brasileiro nos últimos anos em relação à melhoria da qualidade de vida da população é devido principalmente à distribuição de renda. "O Brasil diminuiu consideravelmente as diferenças de rendimento entre ricos e pobres na década passada, o que permitiu reduzir a pobreza extrema pela metade. Ao mesmo tempo, o número de crianças na escola subiu de 90% para 97% desde os anos 1990", diz o texto do relatório "Da riqueza para o bem-estar", que será oficialmente divulgado hoje. O estudo também faz referência ao programa Bolsa-Família, destacando que a ajuda do governo às famílias pobres está ligada à permanência da criança na escola.

Gráfico do Ranking dos países que fizeram mais progressos na elevação dos padrões de vida, entre 2006 e 2011.
Ranking dos países que fizeram mais progressos na elevação dos padrões de vida, entre 2006 e 2011.
Nessa comparação de progressos recentes alcançados, o Brasil lidera o índice com 100 pontos, pontuação atribuída ao país que melhor se saiu nesse critério de avaliação. Aparecem a seguir Angola (98), Albânia (97,9), Camboja (97,5) e Uruguai (96,9). A Argentina ficou na 26ª colocação, com 80,4 pontos. Chile (48º) e México (127º) ficaram ainda mais atrás.

Foram usados dados disponíveis para todos os 150 países e que fossem capazes de traçar um panorama abrangente de dez diferentes áreas: renda, estabilidade econômica, emprego, distribuição de renda, sociedade civil, governança (estabilidade política, liberdade de expressão, direito de propriedade, baixo nível de corrupção, entre outros itens), educação, saúde, ambiente e infraestrutura.

O ranking-base gerou a elaboração de mais três indicadores, para permitir a comparação do desempenho, efetivo ou potencial, dos países em momentos diferentes: 1) atual nível socioeconômico do país; 2) progressos feitos nos últimos cinco anos; e 3) sustentabilidade no longo prazo das melhorias atingidas.

Como seria de se esperar, os países mais ricos estão entre os que pontuam mais alto no ranking que mostra o estágio atual de desenvolvimento. Nessa base de comparação, que dá conta do "estoque de bem-estar" existente, a lista é liderada por Suíça e Noruega, com 100 pontos, e inclui Austrália, Nova Zelândia, Canadá, EUA e Cingapura. Aí o Brasil aparece em posição intermediária, com 47,8 pontos.

Para Christian Orglmeister, diretor do escritório do BCG em São Paulo, o desempenho alcançado pelo Brasil é elogiável, mas deve ser visto com cautela. "Quando se parte de uma base mais baixa, é mais fácil registrar progresso. O Brasil está muito melhor do que há cinco anos em várias áreas, até mesmo em infraestrutura, mas é preciso ainda avançar muito mais."

Entre os países que ocupam os primeiros lugares nesse ranking de melhoria relativa dos padrões de vida da população nos últimos cinco anos, a renda per capita anual é muito diversificada, indo desde menos de US$ 1 mil em alguns países da África até os US$ 80 mil verificados na Suíça. Além do Brasil, mais dois países sul-americanos – Peru e Uruguai – aparecem na lista dos 20 primeiros. Também estão nela três países africanos que em décadas passadas estiveram envolvidos em guerras civis – Angola, Etiópia e Ruanda – e que nos anos recentes mostram fortes ganhos em relação ao padrão de vida. Da Ásia, aparecem na relação Camboja, Indonésia e Vietnã.

Nova Zelândia e Polônia também integram esse grupo. O crescimento médio do PIB neozelandês foi de 1,5%, mas a melhora do bem-estar foi semelhante à de uma economia que estivesse crescendo 6% ao ano. Na Polônia e na Indonésia, que atingiram crescimento médio do PIB de 6,5% ano, o padrão de vida teve elevação digna de uma economia em expansão de 11%.

O estudo também compara o desempenho recente dos BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – na geração de mais bem-estar para os cidadãos. Se em relação à expansão da economia, o Brasil ficou atrás dos seus parceiros entre 2006 e 2011, o país superou a média obtida pelo bloco em áreas como ambiente, governança, renda, distribuição de renda, emprego e infraestrutura, diz Orglmeister. China, Rússia, Índia e África do Sul aparecem apenas em 55º, 77º, 78º e 130º, respectivamente, nessa base de comparação, que é liderada pelo Brasil.

O desafio brasileiro, agora, é manter esse ritmo no futuro, afirma o diretor do BCG. "O Brasil precisa avançar em quatro áreas principalmente", diz. "Na melhora da qualidade da educação, na infraestrutura, na flexibilização do mercado de trabalho e nas dificuldades burocráticas que ainda existem para fazer negócios no país."

Para Douglas Beal, um dos autores do trabalho e diretor do escritório do BCG em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, embora os indicadores reunidos para produzir o Seda pudessem ser utilizados para produzir um novo índice, esse não é o objetivo do levantamento. "A meta é criar uma ferramenta de benchmarking, que possa fornecer um quadro amplo. com base no qual os governos possam agir."

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Brasil deve subir cinco colocações em ranking de competitividade industrial.

A Deloitte fez uma pesquisa com 550 executivos-chefes de companhias industrias ao redor do mundo, visando elaborar seu "2013 Global Manufacturing Competitiveness Index". Segundo as impressões dos entrevistados, hoje o Brasil ocuparia o 8º lugar no ranking de competitividade industrial.

Entretanto, a pesquisa também sondou as expectativas dos mesmos executivos acerca da situação dos países em cinco anos. Segundo o relatório (íntegra em PDF aqui), eles acreditam que, em 2017, o Brasil ocupará o 3º lugar no ranking de competitividade industrial, passando países como a Alemanha e os Estados Unidos.

Abaixo, o ranking divulgado no relatório e, depois, o texto da análise específica sobre o Brasil.

2013 Global Manufacturing Competitiveness Index


Surpreendentemente, o  Brasil caiu no ranking GMCI desde 2010, passando do quinto para o oitavo lugar em competitividade atual de produção. Ao contrário da Coréia do Sul e de Taiwan, no entanto, os executivos entrevistados esperam que o ambiente de produção no Brasil melhore rapidamente e acham que o país se tornará a terceira nação mais competitiva do mundo nos próximos cinco anos.

A chave para as vantagens da produção brasileira são os investimentos sectoriais em curso e as ações políticas favoráveis, que ​procuram estimular a competitividade a longo prazo. Especificamente, o recentemente anunciado plano industrial Brasil Maior deverá criar vantagens fiscais favoráveis para os fabricantes brasileiros, bem como reduzir os custos de empréstimos e de energia. Segundo o plano, o governo brasileiro também espera atacar um conjunto obstáculos fiscais, legais, financeiros e de infra-estrutura comumente referidos como o "Custo Brasil", que ajudaram a minar a competitividade das empresas brasileiras, bem como a competitividade de todo o mercado interno quanto à capacidade de importadores e exportadores de lidarem com a competição internacional.

Felizmente, os preparativos para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 devem impulsionar uma série de melhorias. Por exemplo, o Brasil deverá melhorar a infra-estrutura e trazer investimento estrangeiro, o que, provavelmente, terá uma influência positiva sobre na melhora da indústria e do ranking competitivo do país. O Brasil também é um dos poucos países com uma base suficientemente grande de recursos naturais, juntamente com uma infra-estrutura de pesquisa relativamente avançada. Isso coloca o país em uma posição única para capturar etapas mais lucrativas da cadeia de valor através do uso de fontes de energia alternativas ecologicamente sustentáveis.

Os executivos que participaram da pesquisa GMCI/2013 expressaram preocupação com a força de trabalho do Brasil, que alguns sentem representar uma desvantagem competitiva. Isto poderia ser devido a escassa disponibilidade de trabalhadores especializados, agravada pelo alto custo do trabalho no Brasil.

Apesar de algum questionamento acerca da eficácia de longo prazo do Plano Industrial Brasil Maior, a maioria dos executivos concordam que o ambiente de produção no país vai continuar a melhorar enquanto o Brasil enfrentar de forma proativa os desafios políticos, regulamentatórios e de força de trabalho. Investimentos adicionais de empresas da China, Coréia do Sul e América do Norte, que procuram tirar vantagem das oportunidades decorrentes da Copa do Mundo e Olimpíadas, também irá aumentar competitividade.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Guardian: o boom econômico e as armas do Brasil e da América Latina pra enfrentar a crise europeia

Matéria do Guardian, mal traduzida por mim (com ajuda do Google, claro).

A foto é da publicação original e, apesar de não ter muita relação com o assunto, fica porque é de um desfile do Salgueiro.

Brasil e o resto da América Latina desfrutam boom econômico
Gastos, crescimento, dívida pública invejavelmente baixa  - é grande a diferença do velho mundo em crise.
Jonathan Watts, no Rio de Janeiro, Jonathan Franklin em Santiago e Sibila Brodzinsky em Bogotá

carro alegórico do king kong no desfile do Salgueiro no carnaval de 2011


Os caixas de dinheiro em Santiago estão ficando sem dinheiro, mas não é uma fuga dos bancos; os consumidores no Chile estão simplesmente gastando notas de Peso mais rápido do que os caixas automáticos podem fornecê-las. Novos arranha-céus estão surgindo em Bogotá para criar o espaço necessário para escritórios e para o varejo necessário numa economia em crescimento. O México – o novo queridinho dos investidores estrangeiros - está superando as previsões para o PIB. O Brasil, que ultrapassou o Reino Unido como sexta maior economia do mundo no ano passado, acaba de anunciar um plano de estímulo de US $ 66 bilhões (£ 42 bilhões), além do dinheiro que vai gastar na preparação para a Copa de 2014 e as Olimpíadas em 2016.


A América Latina está agora se reajustando, enquanto a maioria das nações espera um crescimento mais lento, porém ainda sólido, e algumas se preparam para mexer nas extensas reservas e gastar num caminho para fora da recessão global.

A sua capacidade de resistir à tempestade que se aproxima terá implicações de longo prazo para as percepções sobre uma região que, até recentemente, era sinônimo de turbulência financeira, gastos irresponsáveis ​​e políticas extravagantes. Recentemente, muitos governos da região têm sido elogiados pela ONU, FMI e Banco Mundial pela construção de fortes reservas e manutenção de níveis geralmente baixos de dívida pública.

Isto lhes dá mais espaço para abrir as torneiras do estímulo fiscal quando a economia começa a esmorecer, como o Brasil fez na quarta-feira com o anúncio de um pacote de estímulo de R$ 133 bilhões. Se eles puderem evitar os piores impactos da crise internacional sem afundar em dívidas - como a maioria das nações aqui fez em 2008 – isso reforçaria uma crescente reputação de gestão económica prudente.

Vários anos de forte crescimento nas economias mais fortes criaram uma dinâmica visível. Em Santiago, os crescentes preços da habitação, as centenas de novos restaurantes e as florestas de gruas no horizonte sugerem que a economia chilena tem costeado os estágios iniciais da última crise. As vendas de automóveis subiram tanto que, em um ponto do ano passado, o governo ficou sem placas de licença e foi forçado a emitir substitutas de papelão, enquanto apressadamente terminava a outra rodada de placas de metal.

Com um crescimento estimado do PIB este ano de 4,5%, além das robustas reservas do governo, o Chile está preparado para enfrentar possíveis conseqüências da Europa. "Nós temos uma posição bastante confortável para enfrentar os desafios em 2012," disse a direitora do orçamento, Rosanna Costa, a jornalistas em Santiago este ano. O governo dispõe de um fundo de estabilização estimado em US$ 14 bilhões, que pode ser usado para estimular a economia através de projectos de obras públicas ou infusões de dinheiro, conforme necessário.

O Peru também está aproveitando a expansão constante, enquanto a Venezuela, impulsionada pelas vendas de petróleo e uma farra de gastos pré-eleitorais de Hugo Chávez, espera um crescimento de mais de 5%, embora a sua capacidade de pagar as suas contas dependa dos preços elevados do petróleo.

Há algumas exceções significativas a essas tendências. A economia argentina deu uma parada na sequência da nacionalização dos ativos locais da YPF, empresa petrolífera espanhola, indicando a influência ainda forte dos mercados financeiros globais na América Latina.

Mesmo assim, a região deverá crescer entre 3 e 4% este ano – uma bonança em comparação com a depressão que aflige as nações latinas no velho mundo. Portugal, Espanha e Itália foram os países com pior desempenho, quando a UE anunciou esta semana que o PIB da zona do euro caiu 0,2% no último trimestre.

Os contrastes são gritantes. Enquanto a Espanha tem implorando por socorros, Juan Carlos Echeverry, o ministro das finanças de sua ex-colônia Colômbia, gabava-se de que este ano o seu governo "não precisa de mais receitas". Graças a taxas crescentes de investimento estrangeiro, desemprego em queda e crescimento anual de 4,5% por mais de uma década, as finanças de seu estado são consideradas em boa forma para suportar as consequências da Europa.

Embora o clima tenha escurecido nos últimos meses, novos símbolos de riqueza estão sendo construídas. A Colômbia está erguendo seu maior arranha-céu, o BD Bacatá, edifício de 66 andares que abrigará um shopping center, escritórios e até apartamentos de alto padrão.

O magnata imobiliário espanhol por trás do projeto, Venerando Lamelas, disse que ele está se movendo de acordo com o momento. "O mercado europeu não está bom. A América Latina é muito importante e dentro da América Latina o melhor mercado é a Colômbia", disse a um jornal local.

Outros estão seguindo as oportunidades atravéz do Atlântico. Gonzalo Rodriguez recentemente desistiu de seu emprego como um operador de títulos no mercado, na Espanha, e se mudou para o Brasil para trabalhar em uma empresa de energia, projetando linhas de transmissão de energia para parques eólicos.

"Eu não estou ganhando tanto aqui quanto na Espanha, mas estou pensando cinco anos à frente", disse em Copacabana o jovem de 25 anos. "Há 100% mais potencial de crescimento na energia no Brasil do que nos bancos espanhóis. Há muitas pessoas talentosas na Espanha sem encontrar emprego. Aqui, é o oposto. Eles não têm número suficiente de pessoas qualificadas."

Tal otimismo será testado nos próximos meses. O Brasil tem sido atingido mais do que qualquer outro país pela crise no exterior - em particular o enfraquecimento da demanda chinesa por commodities. É provável que ele cresça mais lentamente este ano (cerca de 2-3%) do que qualquer das outras grandes economias regionais, o que levou o presidente Dilma Rousseff a lançar o robusto pacote de estímulo de quarta-feira.

Ao contrário do passado, no entanto, ele tem o dinheiro para gastar. As reservas internacionais do Brasil cresceram de US$ 38 bilhões em 2002 para mais de US$ 370 bilhões, o que é um “caixa de guerra” substancial para afastar crise global.

"No passado ano, quando o mundo espirrava, pegamos pneumonia. Esse não é mais o caso", disse Rousseff neste ano. "Posso garantir a você, o Brasil é 100%, 200%, 300% pronto."

Muitos economistas questionam se o Brasil e a região como um todo vão se provar tão resistentes desta vez. A forte demanda da China por soja, cobre, petróleo e outras commodities ajudou a América Latina a costear a crise de 2008-09. Desta vez, com a desaceleração na China, terá de cavar mais fundo em suas reservas. Embora as finanças públicas estejam muito mais fortes do que eram nos anos 80 e 90, a grande questão é saber se ela investiu o bastante em capital humano.

"Trabalhos importantes aqui no Brasil estão sendo preenchidos pelos europeus, especialmente da Espanha e Portugal", disse Nelson de Sousa, professor de finanças na escola de gestão Ibmec. "Nós não colocamos o suficiente em educação e formação. Essa é a nossa grande dificuldade, que é muito diferente dos problemas enfrentados pela Europa.

"O governo brasileiro gasta muito, mas muito mal. Dilma está ciente disso, mas há uma grande diferença entre saber o que fazer e ser capaz de fazê-lo."

Se ela - e outros líderes da região – for bem-sucedida, no entanto, muito mais do que a tocha olímpica pode passando este ano da Europa para a América Latina.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Rodrik: A demanda interna, a dívida pública controlada e a democracia robusta são pontos fortes do Brasil contra a crise.


24 julho de 2012 às 9:52 am

Dani Rodrik

O economista Dani Rodrik não embarcou na recente onda de pessimismo em relação à economia brasileira. Para o professor de economia política internacional da Universidade de Harvard (EUA), o Brasil tem condições de crescer a taxas de 5% ao ano mesmo no ambiente adverso que ele antevê para a economia global, de baixo crescimento por muitos anos, especialmente nos países desenvolvidos.

“O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem alguns pontos fortes”, disse Rodrik, citando as finanças públicas em ordem e o regime democrático estável, mencionando também a grande classe média como um trunfo importante do país.

O economista turco será um dos principais convidados do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco. O evento ocorre hoje e amanhã no Rio, no Espaço Tom Jobim.

Rodrik vê o Brasil, ao lado de Índia e Coreia do Sul, como um dos países “relativamente mais bem posicionados” para enfrentar esse cenário externo adverso dos próximos anos – o crescimento depende mais da demanda interna do que das exportações, a dívida pública está controlada e a democracia é robusta.

São vantagens importantes num mundo que, segundo ele, tem 50% de possibilidade de testemunhar a dissolução parcial da zona do euro nos próximos anos, além do risco de manutenção do impasse entre democratas e republicanos sobre a trajetória fiscal americana.

Rodrik tampouco é otimista quanto às perspectivas para a China, um país que não é democrático e ainda é muito dependente das exportações.

Para o Brasil crescer a um ritmo de 5%, ele aponta como fundamental “sinalizar um ambiente em que serão mantidos os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables [comercializáveis internacionalmente]“, o que requer juros baixos e um câmbio relativamente competitivo.

“Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda”, afirmou Rodrik, que vê ainda com bons olhos as iniciativas do governo de reduzir impostos para setores específicos e tentar impulsionar o investimento por meio do BNDES.

“O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático e revisado à luz da evidência de seu impacto”, diz ele, para quem o verdadeiro teste desse tipo de política é saber desistir dos perdedores, não insistindo com setores, se ficar claro que as medidas não dão resultado.

“A própria experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas”, disse Rodrik, um crítico da globalização exagerada. A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone, na sexta-feira.

Valor
Em artigo recente, o sr. diz que “a economia mundial está entrando numa nova fase difícil a longo prazo – fase que será substancialmente menos favorável para o crescimento do que possivelmente qualquer outro período desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. O mundo está condenado a uma longa era de baixo crescimento?

Dani Rodrik
É muito provável que as próximas décadas tenham crescimento substancialmente menor do que nas duas ou três décadas anteriores à crise financeira.

Há várias razões para isso. A primeira é que os países avançados têm uma dívida pública muito elevada, o que reduz o crescimento.

A outra é que a crise atual na zona do euro também deve ter implicações negativas para as perspectivas de crescimento de longo prazo.

Valor
Por que o sr. não acredita que os países emergentes, em especial a China, tenham um papel importante para impulsionar a economia global, como em 2008 e 2009?

Rodrik
Em primeiro lugar, porque eles não são, em conjunto, tão grandes como os países ricos. Além disso, porque o crescimento dos mercados emergentes nos últimos anos dependeu de um ambiente global permissivo, com mercados abertos nos países industrializados e a disposição dos países desenvolvidos de olhar para o outro lado, enquanto países como a China promoviam amplas políticas industriais para reestruturar as suas economias.

A economia global será muito menos permissiva nesse sentido, o que também vai deprimir o potencial de crescimento dos países emergentes.

Valor
O sr. está preocupado com uma onda protecionista?

Rodrik
Em parte haverá maior protecionismo, mas de modos mais sutis – não estou falando de algo como a onda que ocorreu nos anos 30.

Mas potências exportadoras como a China vão ter mais dificuldades para ter grandes superávits comerciais com os países avançados do que tiveram no passado.

Haverá muito menos cooperação e coordenação global, porque os países ricos vão estar mais preocupados com questões internas.

Valor
A cúpula da União Europeia no fim de junho decidiu pela recapitalização direta dos bancos, mas o rendimentos dos títulos públicos espanhóis e italianos continuaram em níveis altos. Por que a decisão não acalmou os mercados?

Rodrik
Infelizmente, os líderes políticos europeus têm ficado consistentemente atrás dos mercados. Eles sempre fazem o mínimo possível, atuando apenas para adiar os problemas, sem lidar com as questões fundamentais.

Valor
Qual é o cenário mais provável para a zona do euro? Uma ruptura ou os líderes vão conseguir manter a união monetária intacta?

Rodrik
Acho que uma dissolução parcial da zona do euro tem uma possibilidade de 50% de ocorrer nos próximos anos. Há uma boa chance de que a união monetária seja dissolvida.

Valor
Na semana passada, Barry Eichengreen [professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley] disse ao Valor que um colapso do euro seria um desastre financeiro. O sr. concorda com ele?

Rodrik
Eu concordo com ele. As consequências de curto prazo seriam devastadoras do ponto de vista econômico, e acho que haveria consequências políticas ainda mais sérias no médio prazo. É uma tragédia de primeira ordem.

Valor
Como se daria a dissolução da zona do euro?

Rodrik
Há um número de países centrais – Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia – que devem ficar numa união monetária a despeito do que ocorrer com a zona do euro. Mas o futuro de todos os outros está muito em dúvida.

Valor
A saída de algum país pode ocorrer ainda neste ano?

Rodrik
É bastante possível que a Grécia tenha que deixar a zona do euro por volta do fim do ano. Se isso ocorrer, haverá um grande esforço para assegurar que o contágio para países como Espanha e Itália seja limitado, o que pode comprar algum tempo para os outros países.

Valor
Como o sr. vê a estratégia europeia para enfrentar a crise? Há foco demais na austeridade?

Rodrik
Acho que a estratégia é falha, primeiro porque enfatiza demais a austeridade, deixando países como Grécia e Espanha num círculo vicioso em que a austeridade reduz o crescimento, exigindo mais austeridade fiscal, e assim por diante.

Em termos mais estruturais, os líderes políticos têm que decidir se vão dar um salto maior na direção de maior integração fiscal e política, assumindo um compromisso político com essa trajetória.

Ou, se forem incapazes de entrar num acordo em relação a essa opção mais ambiciosa, e a única solução real for menos união econômica, eles deveriam se preparar para isso, em vez de deixar o caos ocorrer.
O caminho de maior união fiscal e política seria de longe o melhor, porque evitaria os custos econômicos e políticos de uma ruptura. Infelizmente, à medida que o tempo passa, um desfecho favorável parece cada vez menos possível.

Valor
A recuperação dos EUA não parece sólida. Uma nova rodada de afrouxamento quantitativo [política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos] ajudaria a sustentar a recuperação?

Rodrik
A política monetária pode ter algum papel, mas é imitado. O problema é que a política fiscal, acima de tudo, exerce um peso sobre a economia.

Nós precisamos de uma melhor estratégia fiscal, que enfatize menos consolidação fiscal agora, especialmente no nível dos Estados, e maior consolidação fiscal no futuro.

Valor
O sr. acredita que os democratas e republicanos vão conseguir evitar o abismo fiscal em 2013 [a combinação do fim de isenção de impostos e forte corte de gastos], que pode provocar uma violenta contração fiscal?

Rodrik
É muito difícil ser otimista em relação a isso, infelizmente. Esse risco continuará a afetar a recuperação e o crescimento.

Valor
Em artigo recente, o sr. diz que, no cenário global atual, Brasil, Índia e Coreia do Sul estão numa posição mais favorável do que o resto do mundo por serem democracias, terem um crescimento puxado pela demanda doméstica, e não pelas exportações, e por terem baixos ou moderados níveis de dívida pública. Esses países vão se sair bem mesmo nesse mundo adverso?

Rodrik
Eu tenho um prognóstico pessimista para a economia global como um todo, mas alguns países estão relativamente mais bem posicionados do que outros.

O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China.

Mas o Brasil tem de fato alguns pontos fortes, como as finanças macroeconômicas estáveis e o regime democrático estável.

Valor
Por que ser uma democracia é uma vantagem nesse cenário global adverso?

Rodrik
As democracias em geral são muito melhores em lidar com turbulência e incerteza, porque esses são os momentos que pedem conciliação e cooperação entre diferentes grupos sociais.

O que a democracia faz é oferecer os mecanismos institucionalizados para que essas barganhas ocorram. Quando se excluem essas barganhas, é verdade que se pode ter alguns ganhos de curto prazo, mas não há nenhum modo para responder ao dissenso e a oposição, o que frequentemente leva ao conflito.
Esse é um risco importante que a China pode enfrentar se a taxa de crescimento ficar mais fraca. Esse é um motivo importante pelo qual eu sou menos otimista em relação às perspectivas para a China.

Valor
Mas a China não tem um potencial mercado interno de grandes proporções?

Rodrik
Sem dúvida, mas eles têm que reorientar a estratégia de crescimento em direção ao mercado doméstico. Como o crescimento dependeu bastante de grandes superávits comerciais, essa mudança produziria um ajuste muito custoso, com fechamento de fábricas e trabalhadores perdendo os seus empregos. Seria muito difícil administrar esse processo.

Valor
Depois de vários anos de otimismo em relação à economia brasileira, muitos analistas e investidores se tornaram céticos em relação ao Brasil, em geral citando a falta de reformas estruturais e perspectivas piores para as commodities. Em que medida esses dois fatores podem prejudicar o Brasil?

Rodrik
O processo de reformas estruturais é de longo prazo. Ele sempre caminha com progressos e paradas. Nós não deveríamos ficar tremendamente preocupados com isso.

Em relação aos preços de commodities, eles têm produzido efeitos positivos e negativos para o Brasil. Obviamente a alta de preços estimula o crescimento no curto prazo, mas ao custo de afetar a indústria e valorizar a moeda, como consequência da doença holandesa. Por esse motivo, uma redução dos preços de commodities não é necessariamente algo ruim.

Valor
O sr. escreveu num artigo que, para os países em desenvolvimento, “o imperativo manufatureiro é nada menos do que vital”. A indústria manufatureira brasileira enfrenta uma crise de falta de competitividade, respondendo por 14,6% do PIB. Como esse problema afeta as perspectivas para o Brasil?

Rodrik
É um grande ponto de interrogação. O processo de desindustrialização é algo que está ocorrendo por todo o mundo. É uma questão de administrá-lo.

Eu não acho que o Brasil possa voltar a ter uma indústria respondendo por 20% a 25% do PIB, sem mencionar os 35% a 40% do PIB de alguns países asiáticos.

É uma corrida entre formar capital humano, para que se possa criar empregos de altos salários no setor de serviços, e a perda de emprego na indústria de trabalhadores relativamente pouco qualificados.

Valor
Mas esse problema na indústria não pode ofuscar as três qualidades que o sr. menciona, quando diz que o Brasil está mais bem posicionado que a maior parte dos países?

Rodrik
Comparado com muitos outros países, o Brasil tem capacidades significativas no setor manufatureiro. Não é uma questão de construir algo que não está lá.

A base é muito boa. Com a taxa de câmbio correta e um conjunto correto de políticas industriais, que o Brasil está tentando adotar, o país pode ter um setor manufatureiro saudável.

Valor
O Brasil tem hoje um câmbio mais desvalorizado em relação aos últimos anos e o Banco Central está cortando os juros de modo agressivo, pelo menos para os padrões brasileiros. Em que medida isso vai ajudar o crescimento?

Rodrik
Ela tem o potencial de ajudar um pouco a indústria e o crescimento geral, mas os investidores tomam decisões para períodos que não se limitam aos próximos seis meses ou um ano.

Eles fazem investimentos de longo prazo, de cinco anos, dez anos. Eles olham para o futuro e precisam de algum tipo de garantia de como estarão os juros e o câmbio não apenas hoje ou no mês que vem, mas daqui a dois anos ou daqui a cinco anos.

O que é necessário em termos de administração do câmbio e de política monetária é um ajuste de médio prazo, de sinalizar uma política que levará em conta a taxa de câmbio e a competitividade muito mais do que no passado.

Valor
O BC deve dizer diretamente que tem uma meta para a taxa de câmbio, ou pelo menos que se preocupa com o nível do câmbio?

Rodrik
Eu colocaria do seguinte modo. O nível do câmbio afeta o crescimento potencial da economia e, consequentemente, na medida em que a política monetária é influenciada pelo crescimento potencial, a taxa de câmbio naturalmente entra nas decisões de política monetária.

Há modos de trazer o nível do câmbio para as discussões de política monetária sem que seja necessário mudar fundamentalmente o arcabouço do regime de metas de inflação ou desistir da independência do BC.

Valor
Em março de 2011, o sr. disse, numa entrevista ao Valor, que o Brasil deveria crescer 7%, mas que, devido à combinação de juros altos e baixo investimento, 4% a 5% pareciam um sucesso. Neste mundo de baixo crescimento que o sr. antevê, que taxa o Brasil deve aspirar?

Rodrik
Acho que 5%, neste cenário global em que eu acredito, seria um grande sucesso.

Valor
O Brasil deve crescer menos de 2% neste ano. É algo cíclico ou mostra que crescer a taxas mais altas, como de 5%, é difícil?

Rodrik
Quando mencionei 5%, me refiro a uma média de médio prazo. Flutuações de um ano para o outro são naturais.

Valor
Então mesmo neste ambiente global adverso, ainda é possível para o Brasil crescer a essa taxa de 5% ao ano.

Rodrik
Acredito que, com os pontos fortes que tem, o Brasil é capaz de crescer 5%. O Brasil tem uma grande classe média, e tem potencial para crescer ainda mais.

Valor
O que o Brasil deve fazer para crescer a essa taxa?

Rodrik
A questão principal é sinalizar um ambiente em que se manterão os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables.

É um ambiente de juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda.

Valor
Muitos analistas criticam o governo brasileiro por cortar impostos para setores específicos e tentar usar o BNDES para impulsionar o investimento. Como o sr. avalia essas iniciativas?

Rodrik
Acho que, em geral, vale a pena experimentar políticas industriais desse tipo. O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático, revisado à luz da evidência do seu impacto.

Valor
Escolher setores específicos não é um problema?

Rodrik
Não estou tão preocupado com políticas econômicas seletivas, que favoreçam alguns setores em vez de outros. Tenho mais preocupação em continuar com essas políticas quando elas claramente não estão funcionando.

O teste real é se há capacidade de desistir dos perdedores. É isso o que quero dizer quando falo em abordagem pragmática.

A experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas. Muitas indústrias exportadoras brasileiras não existiriam hoje, se o país não tivesse adotado políticas seletivas no passado.

Fonte: Valor Econômico, Por Sergio Lamucci

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Projeto Nacional: A vez da classe D

Texto do Projeto Nacional - @projetonacional

Por: Fernando Brito



Os últimos anos foram da classe C, que se tornou a vedete do desenvolvimento econômico brasileiro e passou a concentrar 53% dos brasileiros e superar o consumo, somado, das classes A e B.

Dos arquivos do blog:

Agora, segundo levantamento feito pelo jornal Brasil Econômico e pelo Instituto Datapopular, é a vez da classe D tomar o lugar na ribalta.

São perto de 50 milhões de brasileiros, com renda – hoje – entre R$705 e R$1126 e que, até 2012, responderão por R$ 400 bilhões em compras de bens e serviços.

Na verdade, este número é a soma das classes D e E. Só que a E, pelas contas de Renato Meirelles, diretor do Datapopular, estará extinta.

Não, é claro, como desejaria uma parte de nossa elite, fisicamente. Extinta porque terá migrado toda para a classe D.

A pesquisa é ainda mais interessante porque revela outros números promissores.

“Há 800 mil novos universitários na classe D . Há muita gente entrando no mercado de trabalho com empregos formais. E a proporção destes indicadores cresce mais na classe D do que nas demais”, diz Meirelles.

Os analistas ouvidos na matéria são unânimes em apontar os integrantes da classe D como mais equilibrados no uso do crediário e no endividamento, o que prenuncia um impacto sadio no seu perfil de consumo.

Agora, perdoem os estudiosos formuladores de teorias econômicas complicadas, sabem o que vai catalisar esta subida de perfil.

O bom e velho salário-mínimo, que terá uma elevação de cerca de 14% a partir de janeiro.

Se nossa indústria e nosso comércio tiverem um pouquinho de senso de oportunidade, verão que ali vão se abrir grandes oportunidades de venda, se souberem se adequar a um consumidor que terá um ingresso extra entre 60 e 150 reais mensais.

O perfil do que pretendem fazer com este dinheiro extra está desenhado na pesquisa do Datapopular, reproduzido no gráfico.

Se os juros baixarem, se forem oferecidas condições de compra adequadas, se quiserem ganhar menos por unidade e mais por volume, a oportunidade está aí para voltar a girar com força a roda da economia.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Maringoni: desconfie dos técnicos!

Artigo de Gilberto Maringoni para o Carta Maior.

Desconfie daqueles que tentam lhe convencer da existência de medidas puramente técnicas em administrações públicas. Geralmente buscam encobrir o essencial: a ação governamental tem sempre ganhadores e perdedores. É sempre política.
Gilberto Maringoni

A virtual quebra da economia grega representa o grau máximo de submissão de uma autoridade pública aos ditames do mercado. Ou seja, ao mundo privado. Embora as relações de troca se deem na esfera pública, suas regras, dinâmicas e procedimentos acontecem a partir daquela pequena mas poderosa parcela da sociedade que concentra capital e, por conseguinte, poder.

O governo grego, capitaneado por um partido que tem a denominação de “socialista” – o que hoje não significa muita coisa – resolveu tomar lado no dilema colocado à sua frente. Se suspendesse os pagamentos do serviço de sua dívida pública, estaria ameaçado de sofrer uma retaliação brutal por parte dos bancos credores – em sua maior parte europeus – e de ser tratado como um pária no sistema financeiro internacional. Uma espécie de leproso da Idade Média, de quem nada ou ninguém quer se aproximar e muito menos oferecer linhas de crédito.

Uma escolha soberana desse tipo teria também efeitos devastadores para a economia européia. Uma moratória ou default por parte do país, além de arrastar bancos franceses e alemães, contaminaria toda a zona do euro (na dupla acepção do termo) e poderia dizimar a credibilidade da moeda única, dizimando economias maiores que enfrentam problemas fiscais de difícil solução.

O governo grego tomou a não decisão: aceitar todas as exigências das autoridades monetárias européias e dos bancos credores. Arrebentarão o país, mas serão reconhecidos como bons pagadores.


O bom senso da rendição
Entre as duas opções, a administração de George Papandreou escolheu a alternativa tida como a mais sensata. Na novilíngua global, bom senso quer dizer render-se às circunstâncias ou caminhar passivamente para o matadouro (apesar das multidões não quererem isso).

Alguns governos europeus, de esquerda e de direita, trafegam pela mesma senda diante do tsunami da crise. A administração de José Luis Zapatero, na Espanha, chegou ao cúmulo de pretender colocar uma apertadíssima meta de déficit público na letra da Constituição, para se adequar às orientações do sistema financeiro.

Um ponto tem unido governos de distintas colorações: arrocho fiscal, redução do papel social do Estado e absoluta prioridade ao atendimento das demandas do mercado. Cada vez mais se buscam “consensos” que tornam as ações econômicas de distintos partidos no poder quase indiferenciadas entre si.


Neutras e limpas
A justificativa para o grande público é que as medidas adotadas seriam “técnicas” e nada teriam a ver com a esfera política. Algo semelhante ao que é decidido nas reuniões do Copom, do Banco Central brasileiro. Elevações estratosféricas das taxas de juros seriam decisões tomadas por um pessoal especializado que não se deixa dominar pelas paixões da política. Paixão, todos sabem, é aquela força estranha, algo irracional, que nos deixa em estado catatônico e nos faz pensar o dia inteiro na pessoa amada.

Opções técnicas seriam feitas em ambientes neutros, limpos, de pura racionalidade, quase esterilizados, repletos de indicadores, estatísticas, balancetes e várias engenhocas de última geração. A decisão seria tão isenta quanto trocar o pneu furado de uma bicicleta.

O reino da política, por sua vez, seria sujo, cheio de interesses inconfessáveis, corrupto, parcial e tocado por gente da pior espécie. Se fosse num filme, poderia ser retratado como um local esfumaçado, repleto de vícios, drogas, álcool e negociatas variadas. Pior ainda se fosse contaminado pelo vírus da ideologia, essa praga que só serve para confundir as coisas e evitar que se faça o que tem de ser feito. Aliás, este era o slogan da campanha de Mario Covas (PSDB-SP) à reeleição para governador, em 1998: “Fazendo o que tem que ser feito”.

A diretriz tecnicista é tão óbvia e de fácil entendimento, que costuma se tornar popular. Por isso, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, gerou enorme empatia ao dizer que seu novo partido, o PSD. Ele “não é de direita, nem de esquerda e nem de centro”. É uma agremiação que fará o que tem de ser feito, um partido sem esse vício pernicioso da política. Um partido técnico, enfim.


É a política, é a política!
Poucos se aventuram atualmente a investir contra esse cipoal de meias verdades tecnicizantes.

Um deles é o ex-presidente Lula. Ele disse, durante a solenidade em que recebeu o título de doutor honoris causa do Instituto de Estudos Políticos de Paris, no último dia 27, que a crise econômica se resolve essencialmente no terreno da política. "A hora não é de negar a política, e sim fortalecê-la”, completou ele.
A frase toca num dos pontos mais caros aos conservadores e às lideranças políticas que buscam justificar medidas impopulares. Para eles, cortes orçamentários, restrições salariais, taxas de juros estratosféricas, entre outras iniciativas, seriam medidas “técnicas”, não “contaminadas” pelas “paixões políticas ou ideológicas”. Age-se como se existisse uma economia desprovida de ganhadores e perdedores, algo distante do arbítrio das decisões humanas.


História antiga
A distinção entre a política e medidas tidas como técnicas não nasceu com os ultraliberais de hoje. Como dizia o ex-governador Leonel Brizola, essa formulação vem de longe.

Uma das principais referências teóricas do pensamento conservador em economia é o Tratado de Economia Política, escrito pelo francês Jean-Baptiste Say (1767-1832),. Escrito em 1803, o trabalho é tido como um dos pilares do liberalismo. Say é um seguidor de Adam Smith (1723-90).
Say coloca no papel teses que se tornaram caras aos liberais ao longo dos séculos, como, por exemplo, a completa separação entre economia e política:

“Durante muito tempo, confundiu-se a Política propriamente dita, a ciência da organização das sociedades, com a Economia Política, que ensina como se constituem, se distribuem e se consomem as riquezas que satisfazem as necessidades das sociedades. Entretanto, as riquezas são essencialmente independentes da organização política. Desde que bem administrado, um Estado pode prosperar sob qualquer forma de governo”.

Em certa medida, é o que o economista liberal brasileiro Eugenio Gudin (1886-1986) defende em 1938, em um texto chamado Aspecto econômico do corporativismo brasileiro. Ali ele comenta a história do capitalismo nos séculos XIX e XX:

“Quem acompanhou a marcha e a evolução do chamado regime capitalista de 1875 a 1914, até rompimento da Guerra Mundial, constatou que o enriquecimento geral prosseguia seu ritmo natural e benéfico, a difusão de capitais se processava com regularidade, as condições de trabalho melhoravam por toda parte, o comércio internacional melhorava todos os anos. E se guerra houve, foi inteiramente gerada pelas paixões e ambições políticas e militares e em que os fatores econômicos menor papel representaram, essa foi a guerra de 1914, que desencadeou sobre o mundo uma das maiores crises econômicas da história”.

Gudin também separava economia de política. O conservadorismo vê a sociedade formada por partes estanques entre si.

Desconfie dos técnicos. O Brasil de 1964 estava cheio deles. Eram todos apolíticos, mas não vacilaram em aderir ao golpe triunfante e compor a tecnoburocracia da ditadura. Hoje encastelam-se no sistema financeiro, têm colunas na imprensa e continuam defendendo privatizações, desregulamentações, superávits primários, arrochos variados e recomendando fazer o que tem de ser feito.

Todos são sensatos, isentos e racionais. Longe da sujeira da política.

Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Representantes da Indústria de Máquinas e de Base a Guilherme de Barros: decisão do BC foi técnica, acertada, autônoma e corajosa.


Duas notas do Blog do Guilherme Barros e uma mesma impressão: os setores produtivos da economia concordam com o BC.

Mais sobre a redução da SELIC aquiaqui, aqui e aqui.


A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual foi correta e técnica, segundo Paulo Godoy, presidente Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (Abdib). “Existe um cenário bastante real e forte de prolongamento da crise, com crescimento fraco e dificuldades para equacionar as dívidas gigantescas das principais economias do mundo”, diz.

Para Godoy, o Banco Central acertou em agir rapidamente no sentido de reduzir os juros para tentar manter uma perspectiva razoável de crescimento da economia, já que “as consequências dos problemas econômicos nos países mais ricos chegarão ao Brasil com intensidade maior”.

O presidente da Abdib afirma que o BC conquistou independência na tomada de decisões nos últimos anos. “O nosso Banco Central estudou os indicadores e os cenários e agiu preventivamente para manter perspectivas de crescimento razoáveis para o Brasil. É isso. O resto é esquizofrenia.”

*****

Abimaq contesta ‘financistas’ que defendem manutenção da Selic

O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, defendeu hoje a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir a taxa Selic em 0,5 ponto percentual, para 12% ao ano.

Segundo ele, as críticas de que a autoridade monetária cedeu a pressões do governo para cortar os juros partem de um “grupo de financistas”.

“Há uma reação visceral de financistas sobre isso”, afirmou. “Eles estão como bezerros quando desmamam e começam a berrar”, completou.

Aubert Neto disse que a Selic é “o maior câncer” que o Brasil tem atualmente.

“Nos oito anos do governo FHC e nos oito anos de Lula, quem comandou o Banco Central foram pessoas ligadas ao sistema financeiro. O Brasil é o único país do mundo que coloca a raposa para cuidar das ovelhas.”

O presidente da Abimaq disse que a decisão do Copom reforça a autonomia do Banco Central.

“Eles tiveram coragem para reduzir os juros.”

Aubert Neto ressaltou que o corte de 1 ponto percentual da Selic representa uma economia de R$ 16 bilhões com juros. “Nos últimos 16 anos, o Brasil pagou mais de R$ 2 trilhões em juros de dívida. É a maior transferência de renda da história do capitalismo.”

O presidente da Abimaq afirmou que, sem um aperto monetário, a crise internacional poderá trazer impactos à economia brasileira.

“A decisão do Copom foi uma sinalização de que nem tudo está perdido”, completou.

Nelson de Sá: na mídia nacional, hoje é dia de notas de falecimento da autonomia do BC; na mídia estrangeira, não.


Mais sobre a redução da SELIC aquiaquiaqui e aqui.

Escrito por Nelson de Sá


Como ironizou Vinicius Torres Freire, hoje está sendo um "dia de divulgação de notas de falecimento da autonomia do Banco Central e de diagnósticos sobre o enlouquecimento de seus diretores", por quase toda mídia.

Mas não no exterior.

A "Economist" já traz na edição de hoje a análise "Mudando de direção", com o subtítulo "Aperto fiscal, afrouxamento monetário". Cita argumentos para um lado e outro, não toma posição e fecha dizendo que "o Banco Central do Brasil está diante de uma ação complicada de equilíbrio".

A tradicional seção Lex, do "Financial Times", vai na mesma linha, sob o enunciado "Espaço para manobra":

Banqueiros centrais ao redor do mundo devem estar olhando para o Brasil com uma mistura de emoções. O corte do Banco Central inspira admiração, medo e inveja. A admiração é pelo arrojo persistente. O BC está respondendo bravamente à súbita deterioração do ambiente econômico global. Se o fraco verão global terminar logo ou se a inflação brasileira voltar a subir, o banco vai parecer bobo. Mas a aposta na desaceleração parece boa... Porém o corte abre precedentes temerários. Primeiro: fraqueza política.  A crise tornou os banqueiros centrais muito mais políticos, mas na maioria dos países eles têm vantagem sobre políticos e reguladores. No Brasil, parece que cedeu à pressão do governo... Pelo menos os brasileiros têm espaço para manobra. Na maioria dos outros país, mais estímulo monetário não faria nada além de encher bolhas financeiras. Os banqueiros centrais podem se sentir desculpados por invejar a liberdade dos brasileiros.

Também no site do "FT", que até verte para o inglês o comunicado do BC, o editor de América Latina, John Paul Rathbone, ressalta que "o BC do Brasil claramente não sentiu que sentar no muro era uma alternativa" e reproduz nota do HSBC, sobre a provável influência sobre os outros emergentes:

A ação do Brasil mostrou que os bancos centrais dos mercados emergentes estão mais defensivos do que alguns podem ter pensado. O trauma de 2008 simplesmente bateu fundo. Espere que todo mundo deixe de lado o aperto monetário por um tempo, com algumas poucas exceções pontuais como a Índia e talvez a Tailândia. 

Rathbone acha que a China pode ser outra exceção, mantendo o aperto para evitar insatisfação política derivada da inflação, mas acrescenta:

A situação do Brasil é muito diferente. Seu governo não precisa se preocupar com revoltas por aumento no preço dos alimentos. Está mais preocupado com o crescimento e em manter o muito necessário fortalecimento da infraestrutura do país.

Julio Gomes de Almeida, para o Terra Magazine: decisão do BC foi autônoma e baseada em motivos consistentes


Ana Cláudia Barros

Ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Julio Gomes de Almeida considerou acertada a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de baixar em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros, encerrando um ciclo de alta, depois de cinco elevações em 2011. O economista explica que a ação do Banco Central (BC) foi baseada na avaliação de que 2012 virá com um "cenário nebuloso para a economia brasileira".

- É isso que ele está querendo falar. E é possível que isso aconteça. O contexto externo é grave, a desaceleração da nossa economia é forte e o Banco Central está dizendo que, para ele, esse cenário deve prevalecer no início de 2012. Razão pela qual está reduzindo a taxa de juros hoje.

Para Almeida, a medida foi tomada de maneira autônoma, e não sob pressão do Palácio do Planalto, especulação que ganhou corpo devido à declaração da presidente Dilma Rousseff, que, pouco antes da decisão do Copom, manifestou seu desejo de ver juros menores.

- É uma besteira achar que um órgão que tem prerrogativa de fazer isso, que responde com seu prestígio, vai seguir uma decisão de fora. A presidente Dilma falou que quer ver a redução de juros no Brasil, como eu acho que todos os presidentes que passaram por ali falaram. Eu acredito que não teve pressão nenhuma. É uma tolice pensar que as pessoas, cujas cabeças estão a prêmio, vão fazer uma ação baseada em pressão. Não vamos esquecer que a diretoria do Banco Central está protegida. Ninguém seria demitido se tomasse uma medida diferente dessa. Isso não existe. A presidente falou que queria baixar os juros, como muita gente fala quando os juros estão altos.

Confira a entrevista.

Terra Magazine - O Comitê de Política Monetária do Banco Central não só encerrou o ciclo de alta na taxa básica de juros, depois de cinco elevações em 2011, como também a reduziu em 0,5 ponto. Como o senhor avalia a decisão?
Julio Gomes de Almeida - Primeiro, uma observação: O Copom quando está fazendo uma medida agora na taxa de juros, nós estamos em setembro, é para ter algum resultado no fim do primeiro trimestre do ano que vem. Então, vamos dizer, para efeito de reunião da diretoria do Banco Central para avaliar taxa de juros, o ano de 2011 já acabou. Eles estão mirando 2012, especialmente depois do primeiro trimestre.
Então, o que esta ação está dizendo é que o Banco Central avalia que o (dia) 1º de janeiro de 2012 vai vir com um cenário muito nebuloso para a economia brasileira. É isso que ele está querendo falar. E é possível que isso aconteça. É uma avaliação do Banco Central. O contexto externo é grave, a desaceleração da nossa economia é forte e o Banco Central está dizendo que, para ele, esse cenário deve prevalecer no início de 2012. Razão pela qual está reduzindo a taxa de juros hoje.

A crise externa, inclusive, foi uma das principais justificativas do Copom. O argumento, então, é consistente?
Eu acho. Toda ação do Banco Central tem uma dose de avaliação e esta é a avaliação que ele está fazendo. Eu compartilho dessa avaliação. Foi correta.

A decisão do Banco Central provocou surpresa. Não se esperava uma redução da taxa de juros...
Você tem que ver também que, quando se diz que não se esperava, fala-se do mercado financeiro. Quer dizer, o mercado financeiro dita essas expectativas. E na verdade, estamos sempre acostumados que aconteça isso que aconteceu ontem (quarta-feira) do lado inverso. Ou seja, se existe algum receio de que tem algum indício de que haja no futuro uma maior pressão inflacionária, o Banco Central sempre aumenta a taxa de juros. Isso não é surpresa para ninguém. Sempre que há algum indício de redução das pressões inflacionárias, todo mundo acha que o Banco Central não vai baixar os juros. Se ele baixa, provoca uma surpresa. Ou seja, nossas expectativas são muito assimétricas, porque são formadas pelo mercado financeiro. Temos que nos acostumar a um Banco Central que atue e aposte nos dois lados. De novo, se o Banco Central acha que em 2012 teremos um quadro de crescimento relativamente ruim, ele acertou na aposta que fez. Se não, ele vai ter errado, mas só vai ver isso no futuro. Acho que o Banco Central tem elementos para agir da maneira como agiu.*

Quais os efeitos dessa redução da taxa de juros para a população?
Por enquanto, são poucos. Não é uma variação de 0,5 ponto percentual que vai mudar o bolso das pessoas. A taxa de juros de captação dos bancos cai, mas cai muito pouquinho e nessa dimensão de 0,5 ponto percentual. Agora, muda a sinalização, muda a ideia de que o Banco Central acredita num determinado quadro da economia e acha que pode afrouxar a política monetária. Muda o lado das expectativas, vamos dizer assim.

Essa medida terá rebatimentos no consumo?
Pode influenciar, sim. Na sequência de reduções, pode-se acabar influenciando a expectativa dos consumidores. Os consumidores no Brasil, aliás, estão com umas expectativas declinantes, mas é possível que melhore um pouco a partir dessa medida. De concreto, acho que não muda nada por enquanto. Nem ao nível do consumidor nem do empresário.

A redução da taxa de juros pode impactar a inflação, fazer com que o índice aumente?
Isso por si só, não. O Banco Central está mirando o quadro lá, daqui a seis meses. Ele está pensando em melhorar um pouco a expectativa do consumidor e do empresário num quadro da economia mais fraca. Isso não dá inflação.

A presidente Dilma Rousseff havia pedido juros menores. Na avaliação do senhor, a decisão do BC foi sob pressão ou a decisão foi independente, o orgão se manteve autônomo?
É uma besteira achar que um órgão que tem prerrogativa de fazer isso, que responde com seu prestígio, vai seguir uma decisão de fora. A presidente Dilma falou que quer ver a redução de juros no Brasil, como eu acho que todos os presidentes que passaram por ali falaram. Eu acredito que não teve pressão nenhuma. É uma tolice pensar que as pessoas, cujas cabeças estão a prêmio, vão fazer uma ação baseada em pressão. Não vamos esquecer que a diretoria do Banco Central está protegida. Ninguém seria demitido se tomasse uma medida diferente dessa. Isso não existe. A presidente falou que queria baixar os juros, como muita gente fala quando os juros estão altos.

Jose Roberto Toledo: política econômica é isto mesmo: política. "Por isso o substantivo na expressão"


Mais sobre a redução da SELIC aquiaquiaqui e aqui.

por Jose Roberto de Toledo

“É a opinião pública, estúpido!” Ao contrário da frase imortal de James Carville, a economia parece ter trocado de lugar com a política na ordem natural das coisas. Será?

O Banco Central surpreendeu essa entidade mítica, “o mercado”, ao cortar a taxa de juros antes da hora. Antes da hora na opinião dos analistas que erraram suas previsões, é claro. Foi pressão política de Dilma Rousseff? Ou choque de realidade no Copom, que descobriu que o Brasil não é um planeta isolado da economia global? Ambos.

Como aponta o repórter Fernando Nakagawa, no Estado, o corte ocorreu um dia depois de Dilma ter dito vislumbrar a possibilidade de um ciclo de redução dos juros. Postos nessa ordem, parecem causa e efeito. Mas o contrário é mais provável: Alexandre Tombini, o presidente do Banco Central, deve ter feito chegar aos ouvidos da presidente a tal possibilidade, e ela apenas se antecipou.

A novidade é que Ministério da Fazenda e Banco Central parecem trabalhar alinhados em uma mesma política. O primeiro anuncia cortes de gastos públicos e cria oportunidade para o outro cortar os juros, tudo no espaço de três dias, com a declaração presidencial no meio. Sugere coordenação. Se dará certo é outra questão, mas parece superada a fase dos conflitos na área econômica.

O Banco Central demonstrou preocupação de que isso seja interpretado como ameaça à sua independência -do contrário, não teria divulgado um comunicado tão longo quanto inédito para explicar imediatamente o corte dos juros. Outra interpretação é que mais forças, além de “o mercado”, passaram a influir nas decisões do Copom. Basicamente, a opinião pública.

“Sacrilégio!”, clamarão “os analistas”. “As decisões de política monetária e fiscal devem ser tomadas com base em critérios estritamente técnicos, segundo os cânones consagrados”. Consagrados por quem? Por “o mercado”. Mas mesmo a oposição ao governo no Congresso apoiou o corte de juros, porque sabe que a opinião pública é a favor. E porque, se der errado, a culpa não será dela, mas do governo.

Por mais técnica que seja, em qualquer questão cabem interpretações diferentes. Não fosse assim, por que 11 ministros no Supremo Tribunal Federal e seus julgamentos rachados? O próprio Comitê de Política Monetária, o Copom, dividiu-se quanto ao corte imediato de 0,5 ponto porcentual dos juros: cinco votaram a favor e dois contra.

As decisões são baseadas em fatos como a queda da confiança do consumidor, mas o peso que se atribui a eles é uma interpretação de cada integrante do Copom. E ela está ligada ao que se quer: uma inflação maior ou menor versus um ritmo de crescimento da economia idem idem. Do jogo de forças entre essas metas surgem as decisões de política econômica. Por isso o substantivo na expressão é “política”.

Como é política a busca de Dilma por um equilíbrio arriscado entre popularidade (leia-se economia aquecida e juros menores) e ajustes necessários ao controle da inflação (leia-se corte de gastos e juros altos). Se pender muito para a primeira, “o mercado” pode apostar contra ela e acelerar a alta de preços. Mas se perder popularidade, Dilma se enfraquecerá para negociar com aliados e opositores no Congresso. Sua margem de erro é cada vez menor.


Juros altos ou baixos, alguma coisa está errada quando o preço da banana é duas vezes mais alto nos EUA do que no Brasil. Por mais “bananeiras” que pareçam as rusgas entre Barack Obama e os republicanos no Congresso, nada justifica ser teoricamente possível o Brasil comprar bananas “norte-americanas” com vantagem. Já basta ter que importar etanol.