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quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Exame: em sua política de cooperação "sul-sul", Brasil envia a Embrapa para tentar produzir comida na savana africana.

Matéria da Exame, para voltando ao assunto deste post: Do New York Times: os ganhos do Brasil em sua relação com a África.

Cooperação ''é hoje uma ferramenta importante para a política externa e para as relações internacionais'', informou Farani

Brasília - O Brasil destina cerca de US$ 1 bilhão anuais à cooperação do chamado ''eixo Sul-Sul'' e se propõe manter e até aumentar o investimento, disse nesta quinta-feira à Agência Efe o diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), o ministro Marco Farani.

Apesar do atual cenário de crise, ''a tendência é aumentar'' esses valores, pois a cooperação ''é hoje uma ferramenta importante para a política externa e para as relações internacionais'', informou Farani.

Segundo o diretor da ABC, embora esse US$ 1 bilhão anual seja um valor ''considerável'', só representa em torno de 0,02% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, um país que é hoje a sexta economia do mundo. ''Esse papel aumenta o sentimento de responsabilidade, é necessário ajudar ainda mais para criar um mundo melhor'', disse.

A maior parte dos projetos de cooperação desenvolvidos pelo Brasil se concentra na América Latina e na África, regiões que têm desafios sociais e econômicos semelhantes, e estão mobilizados a criar condições que permitam melhorar a vida das sociedades.

O diretor da ABC informou que 21,86% dos projetos que desenvolve com 31 países da América Latina e do Caribe e com outros 42 da África são ligados ao setor agrícola.

Nessa área, o Brasil se consolidou durante os últimos anos como uma ''potência mundial'' e desenvolve suas próprias tecnologias que, através da cooperação internacional, põe à disposição de outros países em desenvolvimento.

Farani explicou na entrevista à Efe que um dos principais projetos da ABC na atualidade é desenvolvido em Moçambique, com a participação do Japão, esperando tornar viável a atividade agrícola nas regiões de savanas.

A ideia se baseia em um modelo aplicado no cerrado brasileiro, que se estende pela região central e onde, graças à processos tecnológicos e apesar da pobreza da terra, hoje se cultiva de algodão até soja.

O diretor da ABC disse que se o projeto em Moçambique der certo, cerca de 14 mil hectares de savana poderiam ser aproveitados e o país passaria a ser um grande produtor de alimentos.

A experiência poderia então ser aplicada em outros países da África, um continente com cerca de 400 mil hectares de savanas ociosas que poderiam ser utilizados para agricultura.

A incentivadora dessa cooperação agrícola entre a África e a América Latina é a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), uma instituição pública voltada para a pesquisa e a biotecnologia, que ajudou a fazer do Brasil um dos maiores produtores mundiais de alimentos.

''É uma instituição forte, que desenvolve tecnologias e processos próprios para as regiões tropicais'', que são facilmente adaptáveis aos países da América Latina e da África, disse Farani.

Na mesma descrição situou também a Fundação Oswaldo Cruz, órgão público dedicado à pesquisa em saúde, uma área que representa 16,28% dos projetos de cooperação internacional promovidos pelo Brasil.

A preocupação da ABC com a vertente social e econômica da parceria, segundo explicou Farani, nasce da própria experiência brasileira que, na última década, permitiu o país tirar da pobreza cerca de 30 milhões de pessoas.

''O Brasil agora pode oferecer solução para os problemas que está resolvendo e pode fazer isso com uma base comprovada de sua própria experiência, por isso a cooperação acontece em um plano de maior igualdade e entre países que compartilham os mesmos desafios para alcançar o desenvolvimento pleno'', declarou.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Do New York Times: os ganhos do Brasil em sua relação com a África

Artigo publicado no New York Times.

O Brasil ganha negócios e influência com suas ofertas de ajuda e empréstimos à África

RIO DE JANEIRO - Em Moçambique, o governo brasileiro está abrindo uma fábrica de  medicamentos anti-retrovirais para combater a epidemia de Aids. O Brasil está emprestando $ 150 milhões para o Quénia construir estradas e diminuir o congestionamento na capital, Nairobi. E, em Angola, a potência petrolífera da África Ocidental, um novo acordo na área de segurança visa expandir a formação de pessoal militar angolano no Brasil.

O Brasil, que tem mais pessoas de ascendência Africana que qualquer outro país fora da própria África, está assertivamente elevando o seu perfil no continente, baseado nos laços históricos do tempo do Império Português.


O conjunto de projetos de ajuda e de empréstimos recentemente oferecidos aos países africanos apontam para as ambições do Brasil tanto de projetar uma maior influência no mundo em desenvolvimento e quanto de expandir seus negócios na África, onde algumas economias estão crescendo rapidamente, apesar de partes do continente ainda lidar com guerras e fome. A ofensiva de charme está se pagando nos no aumento nos fluxos de comércio entre o Brasil ea África, que cresceram de US $ 4,3 bilhões, em 2002, para 27,6 bilhões dólares em 2011.

"Há o sentimento crescente de que a África é fronteira do Brasil", disse Jerry Dávila, um historiador da Universidade de Illinois, que escreveu extensivamente sobre avanços do Brasil em todo o Oceano Atlântico Sul. "O Brasil está na posição privilegiada de finalmente alcançar a capacidade institucional para fazer isso".

As incursões do Brasil na África são semelhantes às ambições de outras potências emergentes, como Turquia, que estabeleceu a sua influência no mundo árabe, e promoção, pela Índia, de sua cultura em toda a Ásia.

O destaque dado à África também reflete a mudança do Brasil, de beneficiário de auxílio para provedor. Grandes desafios de desenvolvimento persistem no Brasil, incluindo as lamentáveis ​​escolas públicas e uma forte desaceleração econômica este ano. Mas o Brasil é um grande exportador agrícola, que recentemente ultrapassou a Grã-Bretanha como a sexta maior economia mundial e que, agora, possui mais embaixadas na África do que a Grã-Bretanha - uma notável mudança de quando, na década de 1960, o Brasil dependia da ajuda externa, em grande parte dos Estados Unidos, para aliviar a fome no nordeste pobre do país.

A África agora representa cerca de 55% dos desembolsos pela Agência Brasileira de Cooperação, que supervisiona os projetos de ajuda no exterior, de acordo com Marco Farani, seu diretor. Ao todo, incluindo os intercâmbios educacionais e uma carteira de crédito em expansão, a ajuda externa do Brasil ultrapassa US $ 1 bilhão, disse ele. Grandes porções da ajuda brasileira também vão para países da América Latina, e há um pequeno foco em Timor Leste, antiga colônia Português no Sudeste Asiático.

"Nós ainda temos uma presença menor de ajuda externa do que alguns outros países, mas estamos aprendendo como fazer a cooperação", disse Farani.

O Brasil ainda está atrás de outras nações, nomeadamente a China e os Estados Unidos, que têm programas de ajuda e comércio muito mais expansivos na África. Na América Latina, Venezuela e Cuba têm oferecido diferentes formas de melhorar os laços africanos. A Venezuela organizou uma reunião de cúpula em 2009, entre líderes africanos e sul-americanos, em que o presidente Hugo Chávez estreitou uma aliança com o líder da Líbia, na época, coronel Muammar el-Kadafi.

Durante a guerra fria, tropas cubanas apoiaram governos comunistas na África. Em Angola, esta missão incluiu a tarefa aparentemente paradoxal de proteger um complexo petrolífero da Chevron, ao mesmo tempo que os Estados Unidos apoiavam uma insurgência contra os líderes locais. Mais recentemente, Cuba enviou milhares de médicos para a África.

Mas, enquanto os esforços de Cuba e da Venezuela priorizaram amplamente  a solidariedade do mundo em desenvolvimento com algumas nações africanas, a crescente operação do Brasil na África é mais complexa, envolvendo ambições de fazer do Brasil uma potência diplomática e econômica.

Após uma onda de abertura de missões diplomáticas na última década, o Brasil agora tem 36 embaixadas em África, e espera abrir a sua 37ª no Malawi este ano. O Brasil já está usando esta presença para reforçar suas ações no cenário mundial, enviando jatos para trazer delegações de Serra Leoa, Libéria e Cabo Verde para a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que foi realizada aqui em junho.
Outros projetos são destinados a atrair africanos para estudar no Brasil. Anos apssado, uma nova universidade começou a oferecer aulas a estudantes de  países de Língua Português, incluindo Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe.

Como o Brasil não precisa importar grandes quantidades de petróleo ou de alimentos, os seus planos em África diferem um pouco de outros países em busca de maior influência lá. Os projetos se ligam em grande parte com esforços para aumentar as oportunidades para empresas brasileiras, que às vezes trabalham com o governo do Brasil na oferta de ajuda.

Alguns dos maiores avanços do Brasil, previsivelmente, estão em  países de Língua Português, como Angola, onde a empreitera brasileiras Odebrecht está entre os maiores empregadores, e Moçambique, onde a mineradora Vale iniciou um projeto gigante (de U$6 bilhões) de expansão do carvão.

Mas as empresas brasileiras também estão sondando por oportunidades em outras partes da África, fincando estacas na Guiné e Nigéria. Um banco de investimento líder no Brasil, o BTG Pactual, iniciou em maio um fundo de 1 bilhão dólares, focado em investir em África. Novos vínculos também estão surgindo, incluindo empreendimentos agrícolas brasileiros no Sudão; um vôo a partir de Adis Abeba, capital da Etiópia, para São Paulo; e um cabo de fibra óptica ligando o Nordeste do Brasil à África Ocidental.

Algumas incursões do Brasil na África trouxeram complicações, incluindo críticas quanto o estreitamento de laços com líderes ligados a abusos dos direitos humanos, como presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Uma medida de liberdade de informação permitiu que jornalistas se aprofundassem em negócios africanos de armas de empresas brasileiras, incluindo a venda de bombas de fragmentação para o Zimbabwe.

Estudantes africanos que estudam no Brasil apresentaram inúmeras denúncias descrevendo insultos e agressões, o que complica o mito de "democracia racial" que já prevaleceu aqui, quando estudiosos afirmavam que o Brasil tinha escapado à discriminação, comum em outras sociedades.

Em um episódio, aqui no Rio, Eleutério Nhantumbo, um oficial de polícia moçambicano, com uma bolsa para estudar segurança pública em uma universidade brasileira, disse que, em uma ocasião, ele foi parado por policiais, que, sob a suspeita de que ele havia roubado algo, mandaram ele para levantar sua camisa ao sair de uma loja. Ele disse que, quando questionou por que o haviam escolhido, os policiais responderam com uma ofensa racial e o advertiram a não falar com eles sem respeito. Ao ouvir seu sotaque Português, eles lhe perguntaram sobre suas origens. "A polícia perguntou: 'Onde pe Moçambique?'", disse Nhantumbo,. "Eles não sabiam que existia um país com esse nome."

O Brasil, durante século intimamente ligado à África por rotas de navegação e pelo comércio de escravos, pensa-se, importou 10 vezes mais escravos que os Estados Unidos, antes da escravidão ser abolida aqui, em 1888. Por um momentono século XIX, o Brasil foi a sede do Império Português, o que tornou sua capital, então o Rio de Janeiro, um centro nervoso do comércio com a África.

Esses laços murcharam até que os líderes civis procuraram estabelecer relações com os governos recém-independentes em África, nos anos 1960. Esse processo esfriou depois que governantes militares tomaram o poder no Brasil, num golpe apoiado pelos Estados Unidos em 1964.

Em seguida, na década de 70, necessidades econômicas e uma busca de construir uma autonomia dos Estados Unidos estabeleceram as bases para o fortalecimento diplomático na África de hoje. Buscando compensar os gastos com importações de petróleo, que incluiam cargas provenientes da Nigéria, os governantes militares buscaram abrir novos mercados na África para as empresas brasileiras. Eles encontraram algum sucesso, nomeadamente na Angola recém-independente.

O ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, trabalhou sobre essas incursões em viagens à África de 2003 a 2010, referindo-se à "dívida histórica" ​​que o Brasil tem com a África em sua formação como nação.

Taylor Barnes contribuiu com reportagem.

terça-feira, 12 de junho de 2012

The Guradian: o Brasil deveria ter um acento permanente no Conselho de Segurança da ONU

O editorial do The Guardian em sofrível tradução minha.

Brasil: um Bric para construir junto
Brasil agora tem um PIB total maior que o Reino Unido e algo que outras nações procuram em vão: liderança sustentada

O Brasil, que abrigará a Cúpula da Terra este mês e uma Copa do Mundo e uma Olimpíada nos próximos quatro anos, vem se beneficiando de uma coisa que você procuraria em vão em grande parte do mundo: liderança sustentada. Primeiro, veio Cardoso, o sociólogo e homem de estado que colocou a economia sob controle. Em seguida, foi Lula, até agora, a melhor reencarnação de Franklin Roosevelt. Emergindo de sua sombra como uma afiada [é isso?] reformadora pragmática, veio a atual presidenta, Dilma Rousseff.

O Brasil ascendeu com a China - abastecendo-a  com soja e minério de ferro - e agora tem um PIB maior do que o Reino Unido. Lula se comparou a um mascate, vendendo mercadorias em todos os lugares; o desafio de Rousseff é destravar a produtividade e criar uma economia mais avançada.

Como os brasileiros já são muito mais ricos do que os chineses ou indianos, seria difícil se aproximar de suas taxas de crescimento. Mas existe uma possibilidade no investimento maciço em infra-estrutura e, mais importante, em educação. Dilma Rousseff terá que transpor sua popularidade e habilidade gerencial em comando sobre Congresso, para definir o ritmo.

Embora seja líder mundial em desigualdade, o Brasil também lidera o seu eficaz enfrentamento. Seus programas sociais merecidamente famosos, uma vitrine para o governo ativista, ajudaram a tirar 20 milhões de pessoas da pobreza e criar um mercado interno. Depois de muito receber sermões econômicos de qualidade variada, Brasília não tem nenhum desejo de começar a dá-los, mas assiste com apreensão as tentativas européias de reduzir a dívida sem crescimento.

Tudo isso deu ao Brasil a credibilidade para assumir um há muito cobiçado papel como uma potência global.

Particularmente sob Dilma Rousseff e seu ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, ele assumiu uma característica mistura de contenção e independência no exercício desse poder. Brasília não só duplicou seus diplomatas na última década, ela redobrou sua ênfase na diplomacia como a única maneira de "multipolaridade benigna".

Em parte, isso é o luxo de um bairro tranquilo (que ainda deve convencer das vantagens e magnanimidade de sua liderança). Mas também reflete longa tradição diplomática e vivência da natureza da soberania e da democratização. Ao acumular poder e responsabilidade, o Brasil não será mais capaz de ser amigo de todos e sentirá a tensão entre soberania e direitos humanos mais intensamente, mas ele aspira ser uma ponte entre potências e, por vezes, será um corretivo para hipocrisia seletividade ocidentais.

Não só o Brasil deveria ter um assento permanente no Conselho de Segurança; ele é o melhor argumento para a reforma do Conselho de segurança e outras tentativas de tornar o sistema internacional mais representativo. Esta é a hora do ocidente, e do resto, abraçar a ascensão do Brasil de forma mais activa e começar uma relação mais profundo.

sábado, 12 de novembro de 2011

Brasil apresenta à ONU o conceito de "responsabilidade ao proteger", visando a proteção da população dos países sob intervenção.

Matéria da BBC Brasil.

Alessandra Corrêa (da BBC Brasil em Washington)

O conceito de "responsabilidade ao proteger", apresentado pelo Brasil às Nações Unidas, pode ser a nova arma do país em sua campanha para conquistar uma vaga permanente no Conselho de Segurança.

Ao propor medidas para evitar que intervenções militares acabem provocando mais danos à população civil que deveriam proteger, o Brasil não apenas explica o seu padrão de votações recentes no Conselho de Segurança, como também tenta aumentar sua influência entre os países emergentes e em desenvolvimento.

Dos arquivos do blog:
BBC: mesmo com sanções, Brasil se firma no cenário global, dizem analistas.
Brasil, EUA e Irã: quando os negrinhos não pulam mais.
Associated Press: as mudanças em curso no G20, no Banco Mundial e no FMI podem ser atibuídas diretamente a Lula.

"Não há dúvida de que é um sinal muito positivo com respeito ao contínuo interesse do Brasil em se tornar membro permanente do Conselho de Segurança", disse à BBC Brasil o diretor do programa de estudos da América Latina da Universidade Johns Hopkins, Riordan Roett.

"(A responsabilidade na proteção de civis) é uma questão muito importante e pouco polêmica, e o fato de o Brasil tomar a dianteira nesse tema faz muito sentido do ponto de vista de Brasília", afirma.

O Brasil ocupa um dos 10 assentos rotativos do Conselho de Segurança, mas seu mandato no órgão termina em 31 de dezembro. A conquista de uma vaga permanente, com poder de veto, é uma ambição antiga do governo brasileiro.

Sul-Sul
Já mencionado pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, em setembro, o conceito de "responsabilidade ao proteger" foi proposto nesta quarta-feira em um documento circulado pela delegação brasileira durante debate sobre proteção de civis em conflitos armados.

A embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do Brasil junto às Nações Unidas, leu o discurso preparado pelo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota – que cancelou a viagem a Nova York por motivos pessoais – sobre a "nova perspectiva" na questão da proteção de civis.

A proposta é apresentada como um avanço no conceito de "responsabilidade de proteger", incorporado pela ONU em 2005, que permite que a comunidade internacional recorra a ação coletiva, em situações excepcionais, para garantir a proteção de civis.

Entre as sugestões do Brasil estão a de que o uso da força para a proteção de civis só seja aceito após esgotados todos os recursos diplomáticos e depois de uma análise detalhada das possíveis consequências, que a ação, quando autorizada, seja limitada estritamente aos objetivos estabelecidos pelo Conselho de Segurança, e que a interpretação e a implementação das resoluções autorizando o uso da força sejam monitoradas.

Segundo Roett, a nova iniciativa é parte da política externa implementada pelo Brasil nos últimos anos, com foco na diplomacia Sul-Sul, entre países em desenvolvimento e emergentes, como os Brics (grupo também formado por Rússia, Índia, China e África do Sul), e também reflete o papel ativo desempenhado pelo país em missões de paz da ONU, como no Haiti.

"Deve aumentar ainda mais o status do Brasil entre os países do mundo em desenvolvimento, que estão cada vez mais frustrados com as intervenções unilaterais da Otan (a aliança militar ocidental) e dos Estados Unidos em países como a Líbia", afirma Roe

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Opera Mundi e Der Spiegel: Alemanha Ocidental pagou para criminoso nazista espionar Fidel Castro

Matéria do Opera Mundi, com informações da Der Spiegel


Entre 1958 e 1962, o serviço secreto da Alemanha Ocidental espionou o líder cubano Fidel Castro e, para isso, utilizou os serviços de um criminoso nazista. Walter Rauff era o responsável pelas unidades móveis de câmaras de gás utilizadas pelo regime nazista na Polônia e na Ucrânia.

Após o fim da Segunda Guerra, Rauff fugiu de um campo de prisioneiros e se estabeleceu no Chile, onde foi contatado pelo serviço secreto alemão. As revelações foram feitas neste domingo (25/09) pela revista Der Spiegel, com base em documentos oficiais tornados públicos recentemente.


Leia mais: 


Os papéis revelam que a espionagem alemã conhecia o papel de Rauff durante o nazismo. Apesar disso, o recrutou com a missão de fornecer informações sobre Fidel Castro. Em troca dos serviços, Rauff percebeu 70 mil marcos alemães e foi avisado a tempo de destruir todos os seus documentos quando a Polícia o prendeu em Punta Arenas em 1962. Ele foi capturado a partir de um pedido da justiça alemã, que o acusava pela execução de 98 mil prisioneiros durante o nazismo.

O processo acabou arquivado, porque a justiça chilena considerou que os crimes haviam prescrito por ter passado mais de 15 anos. Ele morreu em 1984 no Chile, onde passou os últimos anos de vida, parte deles protegido pelo regime de Augusto Pinochet.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Rothkopf, no FP: Dilma assumirá muito melhor preparada que alguns líderes que assumiram grandes potências recentemente.


Artigo publicado pelo Foreign Policy.
Os desafios de escolher o antecessor certo, à moda do Brasil.Postado por David Rothkopf quarta-feira, 29 de setembro de 2010.

 

Se um dos segredos para o sucesso em qualquer trabalho é escolher o antecessor certo, então Dilma Rousseff pode estar começando com um golpe contra ela.

Seu atual chefe e campeão político do Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem pode ter a atuação mais difícil de em todo o mundo. Apesar dos esforços de alguns comentaristas em tirar-lhe uma lasca ou duas (assim como jovens atiradores no velho oeste americano tentaram impulsionar sua reputação enfrentando o gatilho mais rápido na cidade), o carismático presidente do Brasil tem feito um trabalho notável. Embaralhando - e mandando para o lixo da história - as antigas distinções entre esquerda e direita, Lula conseguiu um boom econômico, grandes reformas sociais e a elevação d do Brasil para o topo da lista de países no mundo. (Veja a excelente história no Latin Business Chronicle de hoje ... rapidamente se tornando leitura obrigatória para qualquer um interessado na América Latina ... resumindo as recentes realizações económicas do Brasil. É uma coisa deslumbrante.)A pergunta é: O que uma garota tem de fazer? Dilma, que quase certamente se tornará a primeira mulher presidente do Brasil - apesar de um ligeiro deslizamento recente nas pesquisas, devido a um escândalo que não a implica de forma alguma; uma daquelas sugeiradas curiosamente cronometradas para vir à luz nas semanas antes de uma eleição - vai herdar um país com expectativas muito elevadas. Alguns críticos esperam que a ausência dos dons extraordinários de Lula ausente a fará vacilar. Mas leia a sua história e você descobrirá uma gestora excepcionalmente realizada, dura como prego e politicamente astuta, que virá para o cargo muito melhor preparada e equipada do que alguns outros líderes que assumiram as grandes potências recentemente.

De fato, uma vez que uma tarefa central do seu mandato será o esforço para explorar as enormes reservas de petróleo nas costas do Brasil - tornando o Brasil um grande produtor de petróleo - sua experiência como ministra da Energia é o ideal. O fato de que naquela posição ela dirigiu a Petrobras, a gigante estatal de petróleo, que completou recentemente uma captação maciça que fez dela a quarta empresa mais bem capitalizada do mundo, dá-lhe muito mais entendimento sobre negócios que muitos líderes políticos ... mesmo que os seus pontos de vista sobre as responsabilidades de uma empresa nacional de façam desconfortáveis alguns puristas de mercado.

É, na verdade, uma interessante nota que, se Dilma ganhar, ela se juntará Dmitry Medvedev como o segundo chefe de estado do BRIC a ter gerido sua companhia nacional de petróleo. Isso se torna ainda mais ressonante quando visto à luz do fato de um dos principais candidatos a assumir um papel de alto dirigente chinês na próxima transição daquele país é uma ex-engenheiro de energia. O que os BRICs sabem que nós não sabemos?

Há outra comparação com Medvedev que também se coloca: a questão de como você lida com um antecessor poderoso que não vai embora? Dilma vai ser vista como um fantoche de um ativo Lula como Medvedev seria de Putin? Ou será que ela frustrará essa expectativa, como Medvedev? A maioria dos que conhecem Dilma diz que é improvável ela ser fantoche de alguém; mas ela provavelmente vai procurar regularmente por Lula. Isso sugere que um modelo melhor para o relacionamento pode ser encontrado não em Moscou, mas em Cingapura, onde Lee Kwan Yew, o pai daquele estado, tem mantido um papel como Ministro Mentor.

Nos Estados Unidos, é claro, a maioria dos analistas olha para a questão através do filtro padrão global dos EUA - o que significa para nós? Por um lado, a resposta pode ser menor do que se poderia pensar. Os Estados Unidos perderam influência ao passo que o Brasil astuta e eficazmente traçou um curso independente. (O que é o caminho acertado ... como em encontros ... a instigar o interesse americano.) Esta mudança se sustentou no fato de que a China é hoje tanto o maior parceiro comercial como o maior investidor no Brasil.

A tensão permanente acerca da intervenção do Brasil na disputa nuclear iraniana, e a irrefletida decisão dos EUA de continuar a punir os brasileiros por sua iniciativa mal sucedida mas mal compreendida não vai ajudar. O Brasil de Dilma não vai mudar de rumo – e, de fato, não deveria. Com outras prioridades mais urgentes, Dilma é deve manter a continuidade da experiente e bem sucedida equipe de Amorim no Itamaraty, um grupo que, apesar da controvérsia, levou a níveis sem precedentes a influência internacional do Brasil. (Se o próprio Amorim não ficar, o principal candidato para o Ministério dos Negócios Estrangeiros é extremamente realizado seu vice, Antonio Patriota, um pensador diplomata de carreira de classe mundial.)

Assim, se a próxima líder do Brasil vai enfrentar grandes desafios, cercada pela equipe realizada e eficaz, que produziu muito progresso para o país nos últimos oito anos, ela está bem posicionada para manter a impressionante dinâmica atual desse país.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Revista Fórum: governos e agências estrangeiros financiam oposição a Chávez, revela relatório espanhol.

Matéria da Revista Forum.

Por Eva Golinger [Segunda-Feira, 21 de Junho de 2010 às 18:27hs]

Um relatório preparado pelo Instituto FRIDE, da Espanha, com financiamento e apoio da Fundação Nacional para a Democracia (National Endowment for Democracy - NED) e pelo Movimento Mundial para a Democracia (entidade criada pela NED), revela que distintas agências internacionais investem entre 40 e 50 milhões de dólares em setores da oposição na Venezuela a cada ano.

Segundo o relatório, que foi publicado em maio de 2010, os fundos multimilionários estão exclusivamente orientados para fins políticos e incluem grandes contribuições para partidos políticos venezuelanos, como Primeiro Justiça, Um Novo Tempo e Copei.

No relatório, o governo do presidente Hugo Chávez está classificado como "autoritário" e "ditatorial", além de "violador dos direitos humanos". Os fundos internacionais destacados no relatório estão destinados a grupos venezuelanos com o objetivo de lutar contra o governo de Hugo Chávez, para "restaurar o Estado democrático".

Os autores do relatório admitem que a "assistência internacional" para fins políticos na Venezuela começou somente em 2001/2002 e, após o fracasso do golpe de Estado de abril de 2002, cresceu. Desde então, o principal objetivo dessas organizações tem sido impulsionar uma "mudança de regime" na Venezuela para conseguir derrocar permanentemente o presidente Chávez e acabar com a Revolução Bolivariana.

Mais de 6 milhões de dólares estão destinados a grupos políticos na Venezuela este ano através das agências estadunidenses, como a Usaid, a NED, o Centro Carter, o Instituto Republicano Internacional (IRI), o Instituto Democrata Nacional (NDI), a Freedom House, a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (PADF) e o Instituto da Sociedade Aberta (OSI). O OSI pertence ao bilionário húngaro George Soros, conhecido por seu extenso financiamento e apoio às chamadas "revoluções de cores", em países como a Sérvia, a Ucrânia e a Geórgia, entre outros da Europa Oriental.

Porém, não são somente os Estados Unidos que financiam a oposição na Venezuela. O relatório revela que devido aos "perigos" enfrentados pelos grupos venezuelanos que recebem as colaborações de Washington para fins políticos no país, criaram uma rede de "triangulação" para canalizar fundos através de fundações europeias e canadenses. A Comissão Europeia (EC) é uma das principais entidades que está filtrando esses fundos, com investimentos entre 6 e 7 milhões de euros a cada ano para grupos opositores na Venezuela. Este ano, segundo o relatório, a Comissão Europeia doou até 3 milhões de euros para financiar ONGs e projetos dedicados a demonstrar as supostas ameaças contra os direitos humanos e pela liberdade de expressão na Venezuela.

A ajuda estadunidense se canaliza da seguinte maneira:

Desde 2002, a contratista Development Alternatives Inc (DAÍ) investiu mais de 40 milhões de dólares em pequenas ONGs e programas dirigidos à formação e capacitação de jovens líderes políticos, movimentos estudantis, companhias midiáticas e "assuntos sociais";

O Instituto Democrata Nacional (NDI) financia desde 2002 partidos políticos da oposição e organizações de observação eleitoral. Fundou a organização venezuelana Olho Eleitoral e subministrou grandes contribuições a Súmate;

O Instituto Republicano Internacional (IRI) financia e apoia estrategicamente aos partidos políticos da direita, como Copei, Primeiro Justiça e Um Novo Tempo;

A NED investe ao redor de 1 milhão de dólares anualmente em distintas ONGs dedicadas aos temas "democracia" e "liberdade de expressão", na Venezuela;

Freedom House está desde 2004 na Venezuela trabalhando com os temas de direitos humanos e liberdade de expressão;

A Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (PADF) financia diretamente a ONGs venezuelanas para "fortalecer a sociedade civil";

O OSI está financiando projetos relacionados com as campanhas eleitorais da oposição.

O relatório da NED revela que várias fundações alemãs também estão trabalhando com os partidos políticos e ONGs da oposição na Venezuela. As principais fundações da Alemanha são Konrad Adenauer (KAS) e Friedrich Ebert Foudation (ILDIS-FES). Essas duas fundações alemãs investem ao redor de 500 mil euros anuais em projetos com Copei, Primeiro Justiça e com a Universidade Católica Andrés Bello (Ucab), além de outras ONGs e grupos políticos na Venezuela.

Os governos do Canadá e da Espanha são os outros principais doadores das atividades da oposição venezuelana, apesar de que muitos de seus fundos são também provenientes de Washington.

Finalmente, o relatório evidencia que uma maioria das organizações venezuelanas que estão recebendo essas contribuições internacionais são realmente entidades "virtuais". Não têm escritórios nem equipamentos, nem trajetórias de trabalho. São canais para filtrar recursos para a oposição venezuelana, para manter vivo o conflito político no país.

Também afirmam no relatório que a maioria das agências Internacionais, com exceção da Comissão Europeia, está trazendo os fundos em moeda estrangeira e cambiando-os no mercado paralelo, em clara violação da lei venezuelana. Em alguns casos, como destaca o relatório da NED, abre contas no exterior para depositar os recursos ou os entregam em euros e em dólares em efetivo. A Embaixada dos Estados Unidos na Venezuela poderia utilizar a mala diplomática para trazer grandes quantidades de dólares ou euros ao país que, em seguida, seriam entregues a atores venezuelanos de forma ilegal, sem nenhuma contabilidade formal do Estado venezuelano.

A maioria das agências estadunidenses que hoje financiam a oposição venezuelana opera através da Embaixada dos Estrados Unidos em Caracas. Quando antes tinham escritórios na Venezuela, agora operam a partir do exterior, para evitar o monitoramento do governo venezuelano.

Eva Golinger

quinta-feira, 10 de junho de 2010

BBC: mesmo com sanções, Brasil se firma no cenário global, dizem analistas.

Matéria da BBC Brasil.

Alessandra Corrêa*
Da BBC Brasil em Washington

Apesar de o Conselho de Segurança da ONU votar nesta quarta-feira uma resolução prevendo novas sanções contra o Irã, a iniciativa do Brasil em busca de uma solução diplomática para a questão nuclear iraniana marca o reconhecimento de uma maior relevância do país em grandes questões globais, segundo analistas ouvidos pela BBC Brsil.

O Brasil – que no mês passado, ao lado da Turquia, havia obtido um acordo com o Irã, rejeitado pelos Estados Unidos – tentou, sem sucesso, evitar a votação e investir no caminho do diálogo entre os países envolvidos na questão.

“Mesmo que a posição do Brasil não prevaleça, o país vai obter o reconhecimento como um importante ator global, que vai ter influência nas grandes questões internacionais”, diz Michael Shifter, presidente do instituto de análise política Inter-American Dialogue, com sede em Washington.

Segundo Shifter, a atuação do Brasil na busca por um acordo com o Irã marca um ponto de virada.

“Mostra que o Brasil vai ter um papel influente na maioria das questões internacionais sensíveis. Até agora, o Brasil já tinha um papel em questões como G20, aquecimento global. Mas o Irã é uma questão mais sensível, que envolve segurança”, afirma Shifter.

“Há um reconhecimento generalizado, mesmo por parte daqueles que dizem que o Brasil pode ter sido ingênuo na negociação com o Irã, de que o Brasil vai estar envolvido (nas grandes questões).”

Para o jornalista e pesquisador Douglas Farah, do International Asessment and Strategy Center, a postura do Brasil ao negociar com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, pode ter tido um impacto negativo em algumas partes do mundo.

“Há um amplo consenso de que o Irã não é um parceiro democrático, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou um entusiasmo excessivo (na visita a Teerã)”, diz.

“Dito isso, o Brasil provou que pode ser um ator importante no cenário global, que pode ser um interlocutor em situações em que outros fracassaram”, afirma Farah.

Votação

A votação no Conselho de Segurança está marcada para as 10h em Nova York (11h em Brasília), e a expectativa dos Estados Unidos, país que vem pressionando pela adoção de novas sanções, é de que a resolução seja aprovada com pelo menos 12 votos entre os 15 membros do conselho.

Todos os cinco membros permanentes, com direito a veto (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China) já concordaram com a resolução.

Ainda não está claro como votarão Brasil, Turquia e Líbano, países que têm vagas rotativas, sem direito a veto, e se opõem às sanções. Esses países podem votar contra a resolução ou optar pela abstenção.

A falta de apoio desses países não é suficiente para impedir as sanções mas, segundo analistas, prejudica a imagem de união em torno do tema que os Estados Unidos gostariam de transmitir.

Sanções

Na terça-feira, em visita ao Equador, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse que as novas sanções serão “as mais significativas que o Irã já enfrentou”.

As novas sanções endurecem as restrições financeiras e inspeções de cargas já em vigor, expandem o embargo de armas e incluem 40 empresas e um alto funcionário ligado ao programa nuclear a uma lista de pessoas e companhias sujeitas a congelamento de ativos e proibição de viagens.

As medidas buscam pressionar o Irã a interromper seu programa de enriquecimento de urânio, alvo de desconfiança dos Estados Unidos e de outros países. O temor é de que o Irã busque secretamente desenvolver armas nucleares, alegação negada por Teerã.

Apesar das três rodadas de sanções anteriores, o Irã continua se recusando a interromper seu processo de enriquecimento de urânio.

Acordo

No mês passado, durante visita do presidente Lula a Teerã, o Brasil e a Turquia fecharam um acordo pelo qual o Irã se comprometia a enviar urânio com baixo nível de enriquecimento ao território turco e receber em troca o material enriquecido a níveis suficientes para uso médico, mas não militar.

O acordo tinha como base uma proposta feita no ano passado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mas recusada pelo Irã na época.

No entanto, apenas um dia após o anúncio do acordo, os Estados Unidos circularam a proposta de resolução contra o Irã no Conselho de Segurança, alegando que o pacto fechado em Teerã não era satisfatório, especialmente porque o governo iraniano não se comprometia a interromper seu processo de enriquecimento de urânio.

Nesta terça-feira, Ahmadinejad afirmou que, caso as novas sanções sejam aprovadas, seu país vai desistir de manter negociações sobre o programa nuclear.

Ainda na terça-feira, a embaixadora brasileira na ONU, Maria Luiz Ribeiro Viotti, voltou a defender, em um debate no Conselho de Segurança, o acordo firmado em maio e uma solução diplomática para a questão.

Viotti disse que o Brasil “não acredita que este seja o momento de adotar novas sanções contra o Irã”.

Divergência

A decisão dos Estados Unidos de ir adiante com as sanções, apesar do acordo, foi mal recebida pelo governo brasileiro, e nos últimos dias declarações de ambos os lados indicam um aumento da tensão nas relações bilaterais. Clinton chegou a dizer que os Estados Unidos tinham “divergências muito sérias” com o Brasil sobre a questão.

O governo Obama ignorou a iniciativa do Brasil e da Turquia. A iniciativa deveria ao menos ter sido explorada”, diz o professor Zachary Lockman, chefe do departamento de estudos islâmicos e de Oriente Médio da New York University (NYU). “Obviamente o Brasil e a Turquia não estão felizes com isso”, afirma Lockman.

Segundo Farah, há “um grande problema de comunicação entre o governo Obama e o governo Lula”.

“O Brasil pensava que a negociação com o Irã iria ajudar, representar um avanço no processo. O governo Obama surpreendeu o Brasil ao não aceitar o acordo”, diz Farah. “Acho que vai acrescentar uma significativa dose de tensão nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil.”

No entanto, segundo Michael Shifter, as divergências observadas na questão iraniana são um sinal de uma mudança nas relações bilaterais, que vai exigir um ajuste de ambos os lados.

“O Brasil está se afirmando no cenário global, e os Estados Unidos terão de aceitar essa realidade”, afirma Shifter.

“Isso não significa que os dois países não poderão cooperar em outras questões. Mas obriga a uma abordagem diferente da tradicional, na qual os Estados Unidos definiam a agenda e o Brasil seguia”, diz o presidente do Inter-American Dialogue.

*Colaborou Camila Viegas Lee, de Nova York

sexta-feira, 7 de maio de 2010

The Hindu: ”Lula encarna o líder moderno, que acredita nas instituições.”, escreve cientista chileno.

Artigo publicado pelo The Hindu e (mal) traduzido por mim, com ajuda do Google, claro.

Lula and the Brazilian moment

A revista Time acaba de nomear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o líder mais influente do mundo. Barack Obama é o quarto classificado; o primeiro-ministro Manmohan Singh, o 19 (há apenas quatro chefes de Estado ou de Governo na lista). Este é um exercício um pouco diferente da tradicional seleção da "Pessoa do Ano" que a Time realiza a cada dezembro, mas altamente reveladora, no entanto. Por definição, ela "não é sobre a influência do poder, mas sobre o poder de influência." A Time nunca escolheu um líder latino-americano como a pessoa do ano. Na Índia, Mahatma Gandhi conseguiu isso em 1930.

O Brasil, antes conhecido como o "país do futuro", que sempr o lídere permanecerá como tal, trilhou um longo caminho. Que isto aconteça ao fim do mandato de oito anos do líder do Partido dos Trabalhadores do Brasil, cuja a mera perspectiva de vitória na eleição de 2002 levou a uma fuga do real, a moeda brasileira, e da BOVESPA , a bolsa de São Paulo, é impressionante.

Qual é o segredo do sucesso de Lula e do Brasil? Como é que um país mais conhecido, até há 20 anos por sua inflação galopante e economia de montanha-russa conquistou sua condição atual, de queridinho dos investidores, que aplica políticas sociais altamente eficazes e que tem se posicionado como um jogador de veto em assuntos internacionais, sem uma cuja aquiescência nenhuma grande iniciativa global é viável?

Com uma massa de terra de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, a quinta maior do mundo, comparável ao continental Estados Unidos, o Brasil é mais um continente que um país. Com uma população de 190 milhões, e em rápido crescimento, não está bem na mesma liga que a China e a Índia (o que é o porquê de algumas pessoas terem dito que havia "apenas dois BRICs na parede"), mas ainda é o quinto país mais populoso. Mais de um em cada três latino-americanos é brasileiro. Com um PIB próximo de US $ 2 trilhões, é a oitava maior economia.

No entanto, o Brasil é imenso desde a sua independência, no século 19, mas a sua chegada à linha de frente dos negócios internacionais somente ocorreu nos últimos 20 anos. Por quê?

A resposta é simples: uma liderança presidencial. Para a maioria seria muito difícil citar um presidente brasileiro dos anos 1960 a 1990. Por 20 anos o país foi governado por generais obscuros e, em 1985, com o retorno da democracia, por civis sem brilho, que pouco fizeram para combater a inflação galopante e os desequilíbrios profundos em uma das sociedades mais desiguais do mundo.

Lula tem feito um trabalho notável, mas ele está sobre os ombros de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1994-2002). Foi como um improvável ministro das Finanças do presidente Itamar Franco em 1993 que Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, deixou sua marca. Ele foi o autor do Plano Real, que controlou a inflação e lançou-lhe direto ao Planalto, o palácio presidencial em Brasília. Da mesma maneira que 1991 foi um ano de virada para a Índia, quando sob o ministro das Finanças, Manmohan Singh, o país começou a liberalizar e abrir sua economia, 1993 o foi para o Brasil, e ele nunca olhou para trás.

Cardoso percebeu que o Brasil precisava não apenas estabilizar sua moeda, mas também abrir e liberalizar a sua economia, sufocada por décadas de protecionismo desenfreado. Ele privatizou empresas estatais, abriu as portas para o FDI e empurrou os negócios para os mercados de exportação. Considerando que em 1990 o comércio exterior atingia 11% do PIB, ele é agora de ao menos 24%. Considerando que, até 1990, o Brasil atraia menos de US $ 1 bilhão por ano em FDI, hoje, depois da China, é o país do mundo em desenvolvimento que mais atrai, chegando a até US$ 40 bilhões por ano nos últimos tempos.

Ao estabilizar a política e a economia (o Brasil teve quatro presidentes 1985-1994), Fernando Henrique Cardoso em seus oito anos fez muito para limpar a vegetação rasteira para Lula. E apesar de todas as críticas que Lula levantou, da oposição, contra as supostas políticas "neoliberais" de Cardoso, uma vez que assumiu o cargo, em janeiro de 2003, ele percebeu que só a política econômica ortodoxa iria manter o fantasma da inflação à distância. Lula nomeou um banqueiro conservador, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e instriu-o a ficar de olho na inflação. Como a The Economist apontou, para um país cuja média anual de inflação no início de 1990 chegou a 700%, ter em 2006, pela primeira vez, uma taxa de crescimento superior à taxa de inflação foi uma façanha.

Lula, um ex-metalúrgico que perdeu um dos dedos no chão de fábrica, também veio com uma política de social imaginativa, o Bolsa de Família. Ele transfere renda em dinheiro para cerca de 11 milhões de famílias, que têm de cumprir determinadas condições (incluindo a freqüência escolar das crianças e visitas mensais a órgãos do governo), e diminuiu a desigualdade de renda no Brasil.

Como um homem que estreiou na política no movimento sindical, Lula sabe tudo sobre ganhar sempre nas negociações. Ele também tem uma capacidade notável para se dar bem com todo mundo - de George W. Bush a Hugo Chávez. O PT é apenas um entre muitos no fragmentado sistema partidário brasileiro (que controla governos em apenas 03 dos 27 Estados do Brasil) e conduz um governo de coalizão, que inclui partidos de extrema-direita, na coalizçao presidencial dificil de gerenciar do Brasil. "Ele estruturou um equilíbrio delicado em que o setor privado é a força motriz da economia, mas o Estado desempenha um papel importante, através de entidades como o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), que tem um orçamento maior do que empréstimos do Banco Mundial, e a Petrobras, a companhia estatal de petróleo.

Em um país conhecido por suas demagógicas tradições populistas, Lula encarna o líder moderno, que acredita nas instituições. Em uma região onde muitos presidentes querem se perpetuar no cargo, ele rejeitou a possibilidade de mudar a Constituição para lhe permitir um terceiro mandato. Sua própria trajetória “trapos-à-riquezas” e a austeridade de seus hábitos pessoais fizeram com que os escândalos de corrupção que afetaram alguns de seus funcionários nunca prejudicassem seriamente a sua popularidade, levando à alcunha de "presidente teflon". Seus índices de aprovação atingem 80%. Ele foi mencionado para vários dos principais cargos internacionais, uma vez que ele deixa o cargo em 01 de janeiro de 2011 - de presidente do Banco Mundial a Secretário-Geral das Nações Unidas.

Dado que também na política externa Lula fez um grande impacto, não é surpreendente. Com Celso Amorim como seu ministro das Relações Exteriores, ele capitalizou o "PIB diplomático" do Brasil.

Com um excelente Ministro dos Negócios Estrangeiros - conhecido como "Itamaraty", pelo palácio do século 19 no Rio de Janeiro que se usou como casa antes que a capital se mudasse para Brasília - O Brasil tem exercido a sua diplomacia com sutileza e eficácia. Na frente multilateral, a sua capacidade para construir alianças, para dar a direção para a agenda internacional e para lidar com as principais questões de governança global têm se destacado. Ele tem mostrado isso no âmbito da OMC e das Nações Unidas, bem como na criação de (ou inclusão em) miríade de siglas como BRICs, BRICSAM, o IBAS, o + G20, o G4, o O5 e, principalmente, no G20 no nível de líderes (o "comité de direcção da economia mundial"), lançado em Washington em Novembro de 2008, e cuja próxima reunião está sendo realizada em Toronto no final de junho. Ele também colocou seu dinheiro onde sua boca está: num momento em que muitos Ministérios dos Negócios Estrangeiros reduziram os orçamentos e fecharam embaixadas, o Brasil, agarrando-se a que a diplomacia se tornou mais e não menos importante na era da globalização, fez o oposto. De 2003 a 2008, abriu 32 embaixadas no exterior, e agora tem 134.

Na América Latina, o Brasil também tem desempenhado um papel fundamental. Tem sido a força motriz por trás de novas entidades, como a Unasul, que reúne todas as nações da América do Sul, o Conselho de Defesa da América do Sul, desenvolvido para oferecer uma alternativa para o obsoleto Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. Ele assumiu a liderança em estabilizar o Haiti por meio da MINUSTAH, a primeira missão de paz da ONU formada por uma maioria de tropas latino americanas e liderada por um general brasileiro. Ele está disposto a trabalhar com Washington, mas não se isso implicar sacrificar princípios, tais como o regime democrático, como mostrado na crise hondurenha do ano passado.

Em vez de ceder aos chamados imperativos da globalização, como tantas outras nações em desenvolvimento têm feito, Lula levou o Brasil a afirmar a sua autonomia e independência, estabelecendo as suas próprias condições para lidar com uma ordem internacional em mutação. Ele é o melhor exemplo do poder da deligência e da iniciativa em política externa e diplomacia.

(Jorge Heine holds the Chair in Global Governance at the Balsillie School of International Affairs, is Professor of Political Science at Wilfrid Laurier University and a Distinguished Fellow at the Centre for International Governance Innovation in Waterloo, Ontario. His book (with Andrew F. Cooper), Which Way Latin America? Hemispheric Politics Meets Globalization, is published by United Nations University Press.)

Viomundo: o Mercosul e o Serra, vistos da Argentina.

Artigo copiado daqui.

6 de maio de 2010 às 19:28

Qual farsa Serra quer?
O que fica claro, olhando desde a Argentina, é que José Serra associa o Mercosul a um valor negativo. Para ele, por outro lado, seria positivo que o Brasil firmasse muitos tratados de livre comércio. Cabe lembrar que o Mercosul não é o paraíso em boa medida porque foi esvaziado de política pela dupla FHC-Menem com a ajuda de Domingo Cavallo, o ministro argentino que adorava as áreas de livre comércio como Serra. O Mercosul é um resultado concreto da construção regional. Outros são a Unasul e o Conselho de Defesa Sulamericano. E a chave dessa estabilidade é a sólida relação entre Argentina e Brasil.

O artigo é de Martin Granovsky, analista internacional argentino e colunista do jornal Página 12.
Martin Granovsky (*), na Carta Maior

Peço um empréstimo aos irmãos brasileiros: poderiam nos enviar um manual para entender Serra? Primeiro ele disse que o Mercosul é uma “farsa”. Depois defendeu a “flexibilização” do Mercosul. Como se flexibiliza uma farsa? Mistério. O que fica claro, olhando desde a Argentina, é que José Serra associa o Mercosul a um valor negativo. Para ele, por outro lado, seria positivo que o Brasil firmasse muitos tratados de livre comércio. Segundo Serra, o Brasil não pode fazê-lo, justamente, por culpa das barreiras que seriam impostas pelo Mercosul.

Esqueçamos o mistério. Segundo dados do Instituto para a Integração da América Latina (Intal), durante 2009 o comércio internacional desabou. As exportações brasileiras para a Argentina, Uruguai e Paraguai, seus sócios do Mercosul, caíram 27,2% e as importações diminuíram 12,2%. Mas um olhar histórico é mais interessante: em 2008, quando a crise internacional já havia começado, as exportações cresceram 25,3% em relação a 2007, e as importações subiram 28,5%.

Mesmo em meio a maior crise desde os anos 30, o valor do intercâmbio com o Mercosul foi de 28,935 bilhões de dólares em 2009. Quase igual à cifra registrada em 2007, antes da crise: 28,978 bilhões de dólares.

Para o Brasil, o Mercosul representou, em 2009, cerca de 10,3% de suas exportações e importações. Nem o Brasil nem a Argentina sofreram em 2009 como a Grécia sofreu, para citar o caso mundial de um país que agora tem que seguir o caminho da contração fiscal e econômica, sofrido já pelos brasileiros com Fernando Henrique Cardoso e pelos argentinos com Carlos Menem. Mas a Grécia está longe de nós. Vejamos um caso mais próximo: o México sofreu mais porque cerca de 80% de seu intercâmbio depende da relação comercial com os Estados Unidos. O Brasil e a Argentina foram menos golpeados pela débâcle e não precisaram de nenhum Tratado de Livre Comércio (TLC) para seguir com sua estratégia de comércio diversificado, entre eles ou com a China.

O Mercosul não é o paraíso em boa medida porque foi esvaziado de política pela dupla FHC-Menem com a ajuda de Domingo Cavallo, o ministro argentino que adorava as áreas de livre comércio como Serra. Mas o Mercosul é um dos vários resultados concretos da construção regional. Outro resultado é a Unasul, que agrupa toda a América do Sul. Outro é o Conselho de Defesa Sulamericano. E a chave da estabilidade sulamericana é a sólida relação entre a Argentina e o Brasil, nosso vizinho com magnitude de Bric. Não é pouco: a região não apresenta nenhum conflito limítrofe importante e reflete uma sintonia majoritária e um nível de paz e previsibilidade que hoje são uma jóia mundial.

Quando a palavra “farsa” aparece em meio a esta construção imperfeita mas persistente convém acender as luzes de alerta. Se Serra elegeu a espetacularidade para se diferenciar de Lula e de Dilma Rousseff, e se, além disso, ignora as construções institucionais coletivas, talvez esteja indicando que na sua opinião os objetivos regionais devem se dissolver em múltiplos TLCs particulares. A aposta a favor do modelo dos TLCs não amortece uma crítica feroz. Tampouco serve para resolver, em um ambiente de negociação dentro da diversidade, crises como as da Bolívia, da Colômbia, da Venezuela e do Equador, ou para dar um horizonte de inclusão com o primeiro encontro de presidentes da América Latina e do Caribe.

Não são gestos retóricos. Quanto mais intensa for a convivência regional mais fácil será negociar em um mundo turbulento. A América do Sul provou que pode manter diferenças com os Estados Unidos, como fez ao rechaçar a Área de Livre Comércio das Américas, e, ao mesmo tempo, evitar um clima de hostilidade infantil com Washington. Brasil e Argentina, para tomar como exemplo os dois sócios maiores do Mercosul, tiveram uma postura comum frente à dívida: desengancharam do Fundo Monetário Internacional, aumentaram suas reservas, abandonaram o modelo aditivo de absorção de capitais e desconectaram o gatilho comum a duas bombas, a dívida interna e a dívida externa. Os dois países propõem o mesmo tipo de reformas democráticas no FMI e em outros organismos multilaterais. E conseguiram que cada diferença comercial fique limitada a uma pequena porcentagem de seu intercâmbio comercial (é inferior hoje a 10% do total) e possa ser negociada sem escaladas políticas.

Com esta política Brasil e Argentina cresceram e diminuíram a indigência e a miséria. O mesmo fez o Uruguai com Tabaré Vázquez primeiro e agora com José Mujica, e é isso que está tentando fazer também o Paraguai com Fernando Lugo. O resultado não está tão mal, se comparado ao de épocas anteriores de recessão ou de crescimento sem distribuição de renda nem aumento de empregos. Se nossas políticas parecem ter sido bastante sérias, por que Serra se opõe a elas? Quererá montar uma farsa? Com FHC e Menem terminamos chorando. E na vida é melhor a jóia.

(*) Martin Granovsky é analista internacional argentino, colunista do jornal Página12.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

BBC: Lula ajudou o Chile a vencer disputa com a Espanha por supertelescópio.

Matéria da BBC, copiada do Jornal da Ciência.

JC e-mail 4003, de 05 de Maio de 2010.

Presidente teria influenciado União Europeia para que maior telescópio do mundo fosse instalado na América do Sul e não nas espanholas Ilhas Canárias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria investido seu cacife político de "forma definitiva" para influenciar as negociações que acabaram decidindo pela instalação de um supertelescópio no Chile, de acordo com o jornal chileno El Mercurio.

Supertelescópio
O Telescópio Extremamente Grande (E-ELT, na sigla em inglês) é um projeto da Organização Europeia para a Investigação Astronômica no Hemisfério Sul (ESO, na sigla em inglês) - que reúne 14 países - e era disputado com a Espanha, que queria levá-lo para a Ilha de Palma, uma das Ilhas Canárias.

Sociedade brasileira
O jornal afirma que a dobradinha entre os vizinhos sul-americanos começou em meados de fevereiro, quando a ESO teria convidado o ministro da Ciência e Tecnologia brasileiro a conhecer, durante uma semana, os observatórios que a organização europeia já mantém no Chile.

Ao ficar sabendo da visita, a Chancelaria chilena teria, ainda segundo o Mercurio, se integrado à comitiva para conhecer o objetivo da viagem do brasileiro.

"Foi como ficaram sabendo que a ESO estava interessada em oferecer ao Brasil ser sócio da organização", afirma a reportagem assinada por Sergio Acevedo Valencia.

Prioridade
Mais que a qualidade do céu, que favorece a astronomia, pesaria a favor da Espanha o fato de o país estar disposto a investir 300 milhões de euros (cerca de R$ 680 milhões) no projeto.

Por isso, em março, o presidente chileno, Sebastián Piñera, teria iniciado conversas com Lula sobre formas de compensar os 300 milhões de euros que faltavam ao projeto.

O Mercurio afirma que a importância do assunto era tamanha que Piñera planejava discuti-lo com Lula no dia de sua posse, mas a ausência do presidente brasileiro impediu que a ideia fosse adiante.

Barganha
O periódico chileno afirma que Piñera teria então decidido ir, ele próprio, a Brasília para tocar o projeto. Em 9 de abril, ele se reuniu com Lula por mais de uma hora. Um dos assuntos tratados teria sido o telescópio.

"Lula se comprometeu informalmente a enviar um comunicado relevante à junta diretiva da ESO na Alemanha. E o fez: uma semana depois da visita de Piñera e uma antes da eleição do monte Armazones (no Chile) como local do telescópio."

Na nota, segundo o jornal chileno, Lula manifestava o interesse brasileiro em integrar a ESO sob uma condição: que o E-ELT fosse instalado em um país sul-americano, sem citar o Chile, embora não houvesse outro país do continente na disputa.

"Na Chancelaria chilena, considera-se que a determinação do Brasil foi definitiva. O governo acreditava que a decisão seria em junho, mas ao que parece, as palavras do Brasil tiveram o seu peso", conclui o Mercurio.

Benefícios e riscos naturais
 O Chile temia perder a disputa pela sede do supertelescópio para a Espanha depois do violento terremoto que sacudiu o país em 27 de fevereiro. A ESO temia investir milhões em instalações que pudessem vir a ser destruídas por futuros tremores, segundo o jornal chileno.

No entanto, o governo chileno teria pedido à ESO que divulgasse a informação de que o observatório de Paranal, próximo ao local escolhido para o novo telescópio, não sofreu qualquer dano por causa do sismo de fevereiro, nem tampouco do registrado em 4 de março.
(BBC Brasil, 5/5)

O Globo: segundo embaixador americano, Brasik cumpre papel importante nas negociações com o Irã.

Matéria de O Globo, copiada daqui.

Para EUA, Brasil é canal confiável.

Autor(es): Agencia O Globo/ José Meirelles Passos
O Globo - 06/05/2010

Embaixador americano elogia atuação do país nas negociações sobre programa nuclear
A antiga parceria entre os Estados Unidos e o Brasil entrou, agora, numa nova etapa, afirmou ontem o embaixador americano no país, Thomas Shannon. Segundo ele, as relações bilaterais deram lugar a uma relação global, com os dois países agindo em conjunto na busca de objetivos em outras nações. Por esse motivo, a tentativa brasileira de convencer o Irã a um diálogo transparente, com relação ao seu programa nuclear, seria uma iniciativa bem-vinda.
Segundo ele, os EUA já reconheceram que o Brasil deixou de ser uma potência emergente.
— Ela já emergiu — afirmou Shannon, em visita ao GLOBO. — O Brasil ocupa agora um lugar no cenário global que não pode ser negado ou mesmo ignorado.
Esse fato transformou as relações entre os EUA e o Brasil de uma forma fundamental — disse ele, acrescentando que tal parceria deve estar baseada em fatos, porque “já vivemos num mundo pós-ideologia”, em que ideologia e retórica “não são mais as ferramentas adequadas para compreender a realidade do mundo em que vivemos, muito menos para definir nosso compromisso ou nossa cooperação”.
O fato de o Brasil se apresentar como interlocutor na questão nuclear iraniana, continuou Shannon, exemplifica esse novo momento, com o governo brasileiro navegando num circuito que atualmente está fechado ao americano: — O importante em qualquer negociação é ter canais de comunicação confiáveis. O Irã tem dificuldades em se comunicar com o resto do mundo.
Nesse sentido, tanto o Brasil quanto a Turquia fazem um papel importante.

Nossa esperança é que essa iniciativa tenha êxito. Somos céticos, não com o Brasil ou a Turquia, mas com o Irã. Mas vamos continuar conversando com o Brasil sobre isso, para ver se será possível produzir um resultado que seja bom para o Irã e para o mundo.
Antes da visita ao jornal, Shannon fez uma palestra no Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), na qual comentou que o engajamento dos EUA com o Brasil “em iniciativas novas e inovadoras”, tanto de forma bilateral quando global, às vezes é testado “pela nossa capacidade de entender e responder um ao outro”. E justificou: — Intimidade, em qualquer relacionamento, não representa ausência de questionamentos. Significa uma percepção ou compreensão mútua que se sobrepõe às diferenças. A maneira com a qual lidamos com as diferenças é importante, mas o mais importante é como nossas parcerias são construídas.
Segundo Shannon, tem havido mudanças fundamentais que “valorizam a qualidade, a constância, a abrangência e a diversidade do nosso diálogo”. Ele lembrou que já houve períodos de engajamento e cooperação intensos seguidos de períodos de afastamento e desatenção, como resultado de mudanças de prioridades e de desafios em outras partes do mundo “que desviavam a atenção”.
Isso mudou: — No cenário atual não podemos mais permitir que nossas relações fiquem estagnadas — esclareceu, ponderando a seguir: — Nós sempre estaremos nos ajustando a novos desafios, e nossa confiança mútua crescerá enquanto desenvolvemos maneiras práticas e efetivas para responder aos desafios especiais do século XXI.
Shannon disse que nessa nova etapa de relacionamento prefere não utilizar a palavra “estratégica” para definir a parceria Brasil-EUA: — O problema com essa palavra é que todo mundo a usa para descrever suas relações. E muitas vezes ela serve para esconder a pobreza de uma relação — comentou o embaixador.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Folha: O Brasil não tem que ser espelho dos EUA, diz senador americano.

Entrevista publicada pela Folha.

Aqui, há um post americano que também mostra o Brasil de Lula visto dos EUA.

Monica Bergamo.

O senador americano Christopher Dodd, 65, relator da reforma do sistema financeiro dos EUA, visitou o Brasil nesta semana. Ciceroneado pelo empresário Mario Garnero, ele teve audiência com Lula e uma reunião na Bovespa, em SP.

FOLHA - A colunista Mary Anastasia O'Grady, do "Wall Street Journal", disse que o mundo deve conter o entusiasmo com o Brasil, que o ex-presidente FHC foi o único responsável pela estabilização e que "a melhor coisa" que Lula fez "foi nada".
CHRISTOPHER DODD - Não concordo. Não vou me posicionar sobre a eleição brasileira, mas eu a acompanho como um "outsider". E os candidatos que lideram propõem uma continuidade da política de Lula. Com todo respeito à srta. Grady, ela deveria falar com as pessoas no Brasil. O presidente Lula merece grande crédito. O Bolsa Família é uma ideia esplêndida, e uma fonte de renda atrelada à educação. O Brasil entende, como nós, que precisamos de um sistema educacional que permita que as pessoas busquem os empregos do século 21. É por isso que 80% dizem que Lula faz um bom trabalho.

FOLHA - Muitos dizem que o Bolsa Família é assistencialista.
DODD - Considero válido esse ponto de vista, mas é fácil dizer quando você tem um bom emprego no "Wall Street Journal". Vá explicar isso para uma família em SP, no Rio ou em Recife.

FOLHA - Como o Senado americano vê a relação do Brasil com o Irã?
DODD - Mesmo em uma família pode haver diferenças. Brasil e EUA são amigos, mas não são uma família. Não é função do Brasil espelhar a política externa dos EUA, mas espero que tenhamos cooperação nas sanções ao Irã. Elas não são a melhor alternativa, mas são melhores do que o Irã fabricar armas nucleares. O presidente Lula acredita que isso pode ser resolvido pela diplomacia. Espero que ele esteja certo, mas em algum momento nós teremos que decidir que talvez o Irã não esteja disposto a isso.

Portal Exame: EUA começam a cumprir acordo decorrente de retaliações brasileiras autorizadas pela OMC

Matéria do Portal Exame.



O governo Barack Obama ignorou as reclamações do Congresso dos Estados Unidos e começou a cumprir o acordo com o Brasil. A partir de amanhã, estão suspensos os pagamentos do programa de garantia de crédito à exportação agrícola previstos para este ano. Ontem, senadores americanos afirmaram que mudanças nos subsídios só poderiam ocorrer em 2012.


O Departamento de Agricultura dos EUA informou que os produtores têm até o meio-dia de hoje para garantir empréstimos nas condições atuais. Segundo comunicado do órgão, os recursos voltarão a ser oferecidos, mas com novos juros. Dos US$ 5,5 bilhões previstos para 2010, os EUA liberaram US$ 2,8 bilhões até o início da semana. É a primeira medida concreta dos americanos para modificar os subsídios após o acordo selado com o Brasil na segunda-feira. Os EUA se comprometeram a suspender o programa enquanto negociam com os brasileiros juros menores e prazos mais curtos para o financiamento da exportação agrícola.

Se realmente mudarem o programa, os americanos vão desestimular a exportação, o pode elevar as vendas brasileiras de algodão, soja, carne de frango e carne suína - produtos em que o Brasil concorre com os EUA no mercado. O programa de garantia à exportação vale para todas as commodities agrícolas. “O Congresso estava ameaçando, mas os americanos fizeram o que haviam prometido”, disse Pedro de Camargo Neto, ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e mentor do painel do algodão.

O governo brasileiro adiou para 22 de abril a retaliação contra produtos americanos. Se tudo caminhar bem, mais 60 dias serão concedidos para chegar a um acordo definitivo. A Organização Mundial do Comércio (OMC) autorizou o Brasil a retaliar, depois que os EUA se recusaram a tirar os subsídios considerados ilegais pelo órgão em um processo vencido pelo País.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Pochman, no Valor: se Lula copiasse medidas de FHC em 98, PIB do Brasil poderia ter caído 5% com a crise.

Artigo publicado pelo Valor e copiado daqui.

A virada de 2009.
Marcio Pochman
Valor Econômico - 25/03/2010

No final de 2008, a irrupção da maior crise internacional desde a Grande Depressão de 1929 interrompeu o mais longo ciclo de expansão de investimentos no Brasil depois do milagre econômico do começo da década de 1970. De fato, os investimentos como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) foram reduzidos em 9,9% no ano passado, após o ritmo de crescimento quase três vezes superior à expansão da produção nacional iniciada em 2004. Pelas informações do IBGE, contudo, o segundo semestre de 2009 indicou uma considerável recuperação econômica, não somente pela ocupação da capacidade instalada, mas também pelos investimentos, capazes de permitir que o PIB deste ano cresça acima de 5%.
Se diante da grave crise internacional de 2008, o Brasil tivesse optado por repetir o receituário governamental similar ao adotado durante a crise financeira de 1998 (de menor proporção), o comportamento econômico e social nacional teria sido bem diverso do que foi constatado em 2009. Ao invés da situação de relativa estagnação da produção nacional no ano passado (variação negativa de 0,2% em relação a 2008), o Brasil teria passado, provavelmente, por uma profunda recessão econômica, ao redor dos -5%.

Isso porque em 1998 o país encontrava-se iludido pela perspectiva da Alca (Acordo de Livre Comércio das Américas), o que implicava, entre outras coisas, a maior concentração das exportações nacionais aos países ricos. Ou seja, o Brasil seguiria na mesma direção do México, que em 2009 registrou mais de 80% do seu comércio externo com os Estados Unidos. Com a crise de 2008, cujo epicentro foi nos países ricos, a forte queda nas exportações mexicanas para os Estados Unidos propulsionou recessão econômica ainda maior, próxima de 7% no ano passado. O Brasil, contudo, mudou a sua trajetória externa a partir de 2003, o que permitiu diversificar os parceiros comerciais e reduzir o peso relativo dos países ricos nas exportações, caindo de mais de 2/3 para atuais menos de 50%. Mesmo com a diminuição das exportações de bens e serviços em 10,3% em 2009, enquanto componente da demanda agregada, observa-se que seu impacto terminou sendo relativamente mitigado pelo avanço do comércio exterior com nações do âmbito Sul-Sul.

Da mesma forma, nota-se que na crise financeira de 1998, a concepção governamental prevalecente era a de que o Estado se constituía na parte principal dos problemas da época. Por isso, as opções de política econômica e social entre 1998 e 1999 se concentraram adicionalmente na asfixia do setor público, por meio da contenção do gasto público (custeio e investimento), bem como da elevação da carga tributária em relação ao PIB (em 4,5%), como forma de financiar o pagamento adicional dos encargos do endividamento público originados pelo brutal aumento da taxa de juros em 136,8% (de 19% para 45%). Nessas circunstâncias, as empresas e bancos públicos foram ainda mais estrangulados, com corte de 16,6 mil funcionários públicos federais, enquanto a política social seguiu contrária a sua ação compensatória sobre os efeitos da crise. O tranco econômico e a mordaça do Estado resultaram em elevação do desemprego e da taxa de pobreza, que passou de 49,7%, em 1998, para 53,5% dos brasileiros (aumento de 7,6%).

Na grave crise internacional de 2008, a concepção governamental predominante foi outra. Ou seja, o Estado seria parte fundamental da solução dos problemas. Coube ao Estado atuar estratégica e ativamente na adoção de medidas que permitissem reduzir a carga tributária em 1,6% (de 34,8% do PIB, em 2008, para 34,3%, em 2009), sem contração das despesas públicas fundamentais diante da diminuição dos gastos financeiros - possibilitada pela prévia queda na taxa de juros em 36,4% (de 13,7%, em 2008, para 8,75%, em 2009).

Ademais, houve o imediato reforço das empresas e bancos públicos, com a garantia de recursos adicionais para ampliação do orçamento do BNDES, bem como do reposicionamento da Caixa Econômica Federal  e do Banco do Brasil, que atuaram de forma anticíclica diante do encolhimento do crédito nos bancos privados. Com isso, o conjunto das operações de crédito do sistema financeiro nacional não foi reduzido em relação ao PIB, conforme a queda de 4,3% verificada em 1999 (de 28,1% do PIB, em 1998, para 26,8%, em 1999). Também as empresas públicas como Eletrobrás e Petrobras deram sequência ao planejamento de maior prazo reavivado pelo Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), que desde 2007 focou na ampliação dos investimentos, sobretudo em energia e infraestrutura nacional e, mais recentemente, em habitação popular.

Para além do importante papel das decisões governamentais inovadoras na economia, convém destacar a ousadia nas políticas de renda adotadas na última crise internacional. De um lado, a elevação do valor real do salário mínimo em 5,8% no ano de 2009, contra apenas 0,7% em 1999. Por consequência, o impacto favorável para os beneficiários das políticas sociais (aposentados e pensionistas da Previdência Social), que tiveram ampliações no valor do benefício. Assim também houve aumento no quantitativo de atendidos pelo programa Bolsa Família e pelos receptores do Seguro Desemprego ao longo de 2009.

Por força disso, as famílias agregaram, em média, R$ 2,8 mil em 2009 (acréscimo no consumo das famílias em R$ 160 bilhões). Idêntico procedimento anticíclico não se verificou por parte do governo há dez anos. De outro lado, percebe-se que a orientação governamental em defesa da produção doméstica correspondeu ao maior estímulo à geração de empregos formais (saldo líquido de quase um milhão de novas vagas em 2009, contra redução de 190 mil postos de trabalho em 1999), bem como a contenção mais rápida do próprio desemprego. Diante disso, o Brasil entrou mais tarde e desvencilhou-se mais cedo da contaminação da crise internacional. A pobreza encolheu, uma vez que mais de 500 mil brasileiros abandonaram essa situação nas regiões metropolitanas, enquanto a desigualdade de renda do trabalho caiu 0,4%. Até a inflação não subiu, mesmo com a desvalorização cambial ocorrida em função da crise, pois terminou regredindo de 5,9%, em 2008, para 4,3%, em 2009. Na época da crise financeira de 1998 e 1999, a taxa de inflação subiu de 1,7% para 8,9%.

Sem a crise de 2008, o Brasil, possivelmente, não precisaria ter tomado medidas ousadas, que terminaram por solapar a lógica do tratamento da recessão econômica por meio das receitas neoliberais. É por isso que 2009 se tornou o ano da virada que consolida outro caminho de desenvolvimento que não seja o da reprodução do passado.