Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador América Latina. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Guardian: o boom econômico e as armas do Brasil e da América Latina pra enfrentar a crise europeia

Matéria do Guardian, mal traduzida por mim (com ajuda do Google, claro).

A foto é da publicação original e, apesar de não ter muita relação com o assunto, fica porque é de um desfile do Salgueiro.

Brasil e o resto da América Latina desfrutam boom econômico
Gastos, crescimento, dívida pública invejavelmente baixa  - é grande a diferença do velho mundo em crise.
Jonathan Watts, no Rio de Janeiro, Jonathan Franklin em Santiago e Sibila Brodzinsky em Bogotá

carro alegórico do king kong no desfile do Salgueiro no carnaval de 2011


Os caixas de dinheiro em Santiago estão ficando sem dinheiro, mas não é uma fuga dos bancos; os consumidores no Chile estão simplesmente gastando notas de Peso mais rápido do que os caixas automáticos podem fornecê-las. Novos arranha-céus estão surgindo em Bogotá para criar o espaço necessário para escritórios e para o varejo necessário numa economia em crescimento. O México – o novo queridinho dos investidores estrangeiros - está superando as previsões para o PIB. O Brasil, que ultrapassou o Reino Unido como sexta maior economia do mundo no ano passado, acaba de anunciar um plano de estímulo de US $ 66 bilhões (£ 42 bilhões), além do dinheiro que vai gastar na preparação para a Copa de 2014 e as Olimpíadas em 2016.


A América Latina está agora se reajustando, enquanto a maioria das nações espera um crescimento mais lento, porém ainda sólido, e algumas se preparam para mexer nas extensas reservas e gastar num caminho para fora da recessão global.

A sua capacidade de resistir à tempestade que se aproxima terá implicações de longo prazo para as percepções sobre uma região que, até recentemente, era sinônimo de turbulência financeira, gastos irresponsáveis ​​e políticas extravagantes. Recentemente, muitos governos da região têm sido elogiados pela ONU, FMI e Banco Mundial pela construção de fortes reservas e manutenção de níveis geralmente baixos de dívida pública.

Isto lhes dá mais espaço para abrir as torneiras do estímulo fiscal quando a economia começa a esmorecer, como o Brasil fez na quarta-feira com o anúncio de um pacote de estímulo de R$ 133 bilhões. Se eles puderem evitar os piores impactos da crise internacional sem afundar em dívidas - como a maioria das nações aqui fez em 2008 – isso reforçaria uma crescente reputação de gestão económica prudente.

Vários anos de forte crescimento nas economias mais fortes criaram uma dinâmica visível. Em Santiago, os crescentes preços da habitação, as centenas de novos restaurantes e as florestas de gruas no horizonte sugerem que a economia chilena tem costeado os estágios iniciais da última crise. As vendas de automóveis subiram tanto que, em um ponto do ano passado, o governo ficou sem placas de licença e foi forçado a emitir substitutas de papelão, enquanto apressadamente terminava a outra rodada de placas de metal.

Com um crescimento estimado do PIB este ano de 4,5%, além das robustas reservas do governo, o Chile está preparado para enfrentar possíveis conseqüências da Europa. "Nós temos uma posição bastante confortável para enfrentar os desafios em 2012," disse a direitora do orçamento, Rosanna Costa, a jornalistas em Santiago este ano. O governo dispõe de um fundo de estabilização estimado em US$ 14 bilhões, que pode ser usado para estimular a economia através de projectos de obras públicas ou infusões de dinheiro, conforme necessário.

O Peru também está aproveitando a expansão constante, enquanto a Venezuela, impulsionada pelas vendas de petróleo e uma farra de gastos pré-eleitorais de Hugo Chávez, espera um crescimento de mais de 5%, embora a sua capacidade de pagar as suas contas dependa dos preços elevados do petróleo.

Há algumas exceções significativas a essas tendências. A economia argentina deu uma parada na sequência da nacionalização dos ativos locais da YPF, empresa petrolífera espanhola, indicando a influência ainda forte dos mercados financeiros globais na América Latina.

Mesmo assim, a região deverá crescer entre 3 e 4% este ano – uma bonança em comparação com a depressão que aflige as nações latinas no velho mundo. Portugal, Espanha e Itália foram os países com pior desempenho, quando a UE anunciou esta semana que o PIB da zona do euro caiu 0,2% no último trimestre.

Os contrastes são gritantes. Enquanto a Espanha tem implorando por socorros, Juan Carlos Echeverry, o ministro das finanças de sua ex-colônia Colômbia, gabava-se de que este ano o seu governo "não precisa de mais receitas". Graças a taxas crescentes de investimento estrangeiro, desemprego em queda e crescimento anual de 4,5% por mais de uma década, as finanças de seu estado são consideradas em boa forma para suportar as consequências da Europa.

Embora o clima tenha escurecido nos últimos meses, novos símbolos de riqueza estão sendo construídas. A Colômbia está erguendo seu maior arranha-céu, o BD Bacatá, edifício de 66 andares que abrigará um shopping center, escritórios e até apartamentos de alto padrão.

O magnata imobiliário espanhol por trás do projeto, Venerando Lamelas, disse que ele está se movendo de acordo com o momento. "O mercado europeu não está bom. A América Latina é muito importante e dentro da América Latina o melhor mercado é a Colômbia", disse a um jornal local.

Outros estão seguindo as oportunidades atravéz do Atlântico. Gonzalo Rodriguez recentemente desistiu de seu emprego como um operador de títulos no mercado, na Espanha, e se mudou para o Brasil para trabalhar em uma empresa de energia, projetando linhas de transmissão de energia para parques eólicos.

"Eu não estou ganhando tanto aqui quanto na Espanha, mas estou pensando cinco anos à frente", disse em Copacabana o jovem de 25 anos. "Há 100% mais potencial de crescimento na energia no Brasil do que nos bancos espanhóis. Há muitas pessoas talentosas na Espanha sem encontrar emprego. Aqui, é o oposto. Eles não têm número suficiente de pessoas qualificadas."

Tal otimismo será testado nos próximos meses. O Brasil tem sido atingido mais do que qualquer outro país pela crise no exterior - em particular o enfraquecimento da demanda chinesa por commodities. É provável que ele cresça mais lentamente este ano (cerca de 2-3%) do que qualquer das outras grandes economias regionais, o que levou o presidente Dilma Rousseff a lançar o robusto pacote de estímulo de quarta-feira.

Ao contrário do passado, no entanto, ele tem o dinheiro para gastar. As reservas internacionais do Brasil cresceram de US$ 38 bilhões em 2002 para mais de US$ 370 bilhões, o que é um “caixa de guerra” substancial para afastar crise global.

"No passado ano, quando o mundo espirrava, pegamos pneumonia. Esse não é mais o caso", disse Rousseff neste ano. "Posso garantir a você, o Brasil é 100%, 200%, 300% pronto."

Muitos economistas questionam se o Brasil e a região como um todo vão se provar tão resistentes desta vez. A forte demanda da China por soja, cobre, petróleo e outras commodities ajudou a América Latina a costear a crise de 2008-09. Desta vez, com a desaceleração na China, terá de cavar mais fundo em suas reservas. Embora as finanças públicas estejam muito mais fortes do que eram nos anos 80 e 90, a grande questão é saber se ela investiu o bastante em capital humano.

"Trabalhos importantes aqui no Brasil estão sendo preenchidos pelos europeus, especialmente da Espanha e Portugal", disse Nelson de Sousa, professor de finanças na escola de gestão Ibmec. "Nós não colocamos o suficiente em educação e formação. Essa é a nossa grande dificuldade, que é muito diferente dos problemas enfrentados pela Europa.

"O governo brasileiro gasta muito, mas muito mal. Dilma está ciente disso, mas há uma grande diferença entre saber o que fazer e ser capaz de fazê-lo."

Se ela - e outros líderes da região – for bem-sucedida, no entanto, muito mais do que a tocha olímpica pode passando este ano da Europa para a América Latina.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Seumas Milne, no Guardian: a América Latina de Lula e Chavez mostra que há alternativa e cria um novo mundo.

Artigo publicado no The Guardian, em minha sofrível tradução.

A maré radical está prestes a ser posta à prova no Brasil e na Venezuela. Se mantiver o apoio, ela terá lições para todos nós
Seumas Milne, quarta-feira 18 agosto de 2010

Quase dois séculos depois que ganhou a independência nominal e Washington a declarou seu quintal, a América Latina está de pé. A maré de mudança progressista que varreu o continente durante a última década levou ao poder uma série de governos social-democratas e socialistas radicais, que têm atacado o privilégio social e racial, rejeitado a ortodoxia neoliberal e desafiado a dominação imperial da região.

Seu significado é muitas vezes subestimado ou banalizado na Europa e América do Norte. Mas - junto com a ascensão da China, a crise econômica de 2008 e a demonstração dos limites do poder dos E.U.A na "guerra ao terror" -, o surgimento de uma América Latina independente é uma do punhado de evoluções a remodelar a ordem mundial. Do Equador ao Brasil, da Bolívia à Argentina, os líderes eleitos se afastaram do FMI, tomaram de volta das corporaçõe o controle dos recursos, impulsionram a integração regional e esculpiram alianças independentes em todo o mundo.

Tanto a escala dessa transformação quanto a deturpação, nos meios de comunicação ocidentais, do que está ocorrendo são posta em seu lugar no novo filme de Oliver Stone, South of the Border, que permite que seis desses líderes da nova onda falem por si. O mais impressionante é o seu compromisso de apoio mútuo e comum - desde de Cristina Kirchner da Argentina até Evo Morales, mais esquerdista  - em retomar a posse de seu continente.

Duas votações cruciais nas próximas semanas colocarão à prova o futuro deste processo. A primeiro são as eleições parlamentares na Venezuela, cuja revolução bolivariana tem estado na vanguarda da renovação da América Latina desde que Hugo Chávez foi eleito presidente em 1998. Por toda a sua popularidade em casa, Chávez tem sido alvo de uma campanha de difamação e ridicularização nos meios de comunicação Norte-Americanos, Europeus e Latino Americanos controlados pela elite - que tem pouco a ver com sua retórica de alta octanagem, e muito mais com a sua eficácia ao usar a riqueza petrolífera da Venezuela em desafio aos E.U.A e ao poder corporativo em toda a região.

Esqueça seu sucesso em reduzir a taxa de pobreza da Venezuela pela metade, triplicar os gastos sociais, em expandir rapidamente a educação e a saúde e em promover democracia de base e participação dos trabalhadores. Desde o início do ano, os inimigos da Venzuela sentem cheiro de sangue enquanto o governo titubeou frente aos cortes de energia desencadeados pela a seca e foi incapaz de superar a recessão com um pacote de estímulo - como a Bolívia de Morales fez -, e cresceu o descontentamento em relação aos níveis elevados de criminalidade violenta.

Então, espere uma enxurrada de novas queixas de que Chávez é um ditador que reprimiu a liberdade de imprensa e perseguiu banqueiros e empresários, e cujo regime incompetente estaria se desfazendo em pó. Na realidade, o presidente venezuelano ganhou mais eleições livres do que qualquer outro líder mundial, a mídia do país é dominada pela oposição financiadas pelos EUA e os problemas de seu governo com a prestação de serviços derivam mais da fraqueza institucional que de autoritarismo.
Se o Partido Socialista Unido de Chaves for derrotado no próximo mês, certamente colocará a sua reeleição em 2012 - e a radicalização da Venezuela - em dúvida. Mas isso parece cada vez mais improvável. A economia está acelerarando, uma força policial nacional finalmente está sendo estabelecida e, fundamentalmente, na semana passada Chávez atenuou dramaticamente a ameaça de guerra com o governo pró-EUA da Colômbia após uma aproximação intermediado regionalmente.

Ainda mais crítica será a eleição presidencial no Brasil em outubro. A emergência do Brasil como potência econômica, sob a liderança de Lula, sustentou as mudanças mais amplas da América Latina. Menos radical do que Chávez ou Morales, ainda assim, o presidente brasileiro também destinou dinheiro a campanhas de combate à pobreza e deu um apoio vital ao projeto comum de integração continental e independência.

Impedido de concorrer a um terceiro mandato, ele apostou sua popularidade em sua chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, no mínimo mais simpática aos bolivarianos. Incapaz de atacar o legado econômico de Lula, seu princípal adversário de direita, José Serra, agora está efetivamente em campanha contra Chávez e Morales, denunciando o apoio de Lula a eles, a sua recusa em reconhecer o governo pós-golpe em Honduras e as sua tentativas de mediação entre o Irã e os E.U.A. Até agora, parece improvável que funcione, e Serra está se saindo mal nas pesquisas.

Se as eleições brasileiras e venezuelanas forem ganhas pela esquerda, os E.U.A e seus amigos podem ser tentados a procurar outros meios para desviar a América Latina do caminho da autodeterminação e justiça social, que tomou enquanto George Bush estava ocupado lutando contra seus inimigos no mundo muçulmano. Pela promessa de Barack Obama, de "procurar um novo capítulo do compromisso", e pelo alerta de que um "precedente terrível" seria definido se o sangrento golpe do ano passado contra o presidente reformista hondurenho, Manuel Zelaya, fosse preservado, houve pouca mudança na política dos E.U.A para a região. O golpe de Honduras, de fato, foi  tolerado - ou, como Hillary Clinton colocou, a "crise" foi "administrada a uma conclusão bem-sucedida".

A mensagem clara era de que a maré radical pode virar, e o medo agora é que outro dos governos mais vulneráveis, como os do Paraguai ou da Guatemala, também possam ser "administrado a uma conclusão" de uma forma ou de outra. Enquanto isso, os E.U.A estão tentando fortalecer sua presença militar no continente, usando o pretexto da "contra-insurgência" para a estabelcer sete bases militares na Colômbia.

Mas a intervenção militar direta parece improvável no futuro próximo. Se os movimentos políticos e sociais que têm impulsionado a transformação do continente mantiverem sua força e apoio, eles estarão lançando não apenas o alicerce de uma América Latina independente, mas novas formas de política socialista, declaradas impossíveis na era moderna. Duas décadas depois nos disserem que não havia alternativa, um outro mundo está sendo criado.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

The Hindu: ”Lula encarna o líder moderno, que acredita nas instituições.”, escreve cientista chileno.

Artigo publicado pelo The Hindu e (mal) traduzido por mim, com ajuda do Google, claro.

Lula and the Brazilian moment

A revista Time acaba de nomear o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o líder mais influente do mundo. Barack Obama é o quarto classificado; o primeiro-ministro Manmohan Singh, o 19 (há apenas quatro chefes de Estado ou de Governo na lista). Este é um exercício um pouco diferente da tradicional seleção da "Pessoa do Ano" que a Time realiza a cada dezembro, mas altamente reveladora, no entanto. Por definição, ela "não é sobre a influência do poder, mas sobre o poder de influência." A Time nunca escolheu um líder latino-americano como a pessoa do ano. Na Índia, Mahatma Gandhi conseguiu isso em 1930.

O Brasil, antes conhecido como o "país do futuro", que sempr o lídere permanecerá como tal, trilhou um longo caminho. Que isto aconteça ao fim do mandato de oito anos do líder do Partido dos Trabalhadores do Brasil, cuja a mera perspectiva de vitória na eleição de 2002 levou a uma fuga do real, a moeda brasileira, e da BOVESPA , a bolsa de São Paulo, é impressionante.

Qual é o segredo do sucesso de Lula e do Brasil? Como é que um país mais conhecido, até há 20 anos por sua inflação galopante e economia de montanha-russa conquistou sua condição atual, de queridinho dos investidores, que aplica políticas sociais altamente eficazes e que tem se posicionado como um jogador de veto em assuntos internacionais, sem uma cuja aquiescência nenhuma grande iniciativa global é viável?

Com uma massa de terra de cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados, a quinta maior do mundo, comparável ao continental Estados Unidos, o Brasil é mais um continente que um país. Com uma população de 190 milhões, e em rápido crescimento, não está bem na mesma liga que a China e a Índia (o que é o porquê de algumas pessoas terem dito que havia "apenas dois BRICs na parede"), mas ainda é o quinto país mais populoso. Mais de um em cada três latino-americanos é brasileiro. Com um PIB próximo de US $ 2 trilhões, é a oitava maior economia.

No entanto, o Brasil é imenso desde a sua independência, no século 19, mas a sua chegada à linha de frente dos negócios internacionais somente ocorreu nos últimos 20 anos. Por quê?

A resposta é simples: uma liderança presidencial. Para a maioria seria muito difícil citar um presidente brasileiro dos anos 1960 a 1990. Por 20 anos o país foi governado por generais obscuros e, em 1985, com o retorno da democracia, por civis sem brilho, que pouco fizeram para combater a inflação galopante e os desequilíbrios profundos em uma das sociedades mais desiguais do mundo.

Lula tem feito um trabalho notável, mas ele está sobre os ombros de seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (1994-2002). Foi como um improvável ministro das Finanças do presidente Itamar Franco em 1993 que Fernando Henrique Cardoso, sociólogo, deixou sua marca. Ele foi o autor do Plano Real, que controlou a inflação e lançou-lhe direto ao Planalto, o palácio presidencial em Brasília. Da mesma maneira que 1991 foi um ano de virada para a Índia, quando sob o ministro das Finanças, Manmohan Singh, o país começou a liberalizar e abrir sua economia, 1993 o foi para o Brasil, e ele nunca olhou para trás.

Cardoso percebeu que o Brasil precisava não apenas estabilizar sua moeda, mas também abrir e liberalizar a sua economia, sufocada por décadas de protecionismo desenfreado. Ele privatizou empresas estatais, abriu as portas para o FDI e empurrou os negócios para os mercados de exportação. Considerando que em 1990 o comércio exterior atingia 11% do PIB, ele é agora de ao menos 24%. Considerando que, até 1990, o Brasil atraia menos de US $ 1 bilhão por ano em FDI, hoje, depois da China, é o país do mundo em desenvolvimento que mais atrai, chegando a até US$ 40 bilhões por ano nos últimos tempos.

Ao estabilizar a política e a economia (o Brasil teve quatro presidentes 1985-1994), Fernando Henrique Cardoso em seus oito anos fez muito para limpar a vegetação rasteira para Lula. E apesar de todas as críticas que Lula levantou, da oposição, contra as supostas políticas "neoliberais" de Cardoso, uma vez que assumiu o cargo, em janeiro de 2003, ele percebeu que só a política econômica ortodoxa iria manter o fantasma da inflação à distância. Lula nomeou um banqueiro conservador, Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, e instriu-o a ficar de olho na inflação. Como a The Economist apontou, para um país cuja média anual de inflação no início de 1990 chegou a 700%, ter em 2006, pela primeira vez, uma taxa de crescimento superior à taxa de inflação foi uma façanha.

Lula, um ex-metalúrgico que perdeu um dos dedos no chão de fábrica, também veio com uma política de social imaginativa, o Bolsa de Família. Ele transfere renda em dinheiro para cerca de 11 milhões de famílias, que têm de cumprir determinadas condições (incluindo a freqüência escolar das crianças e visitas mensais a órgãos do governo), e diminuiu a desigualdade de renda no Brasil.

Como um homem que estreiou na política no movimento sindical, Lula sabe tudo sobre ganhar sempre nas negociações. Ele também tem uma capacidade notável para se dar bem com todo mundo - de George W. Bush a Hugo Chávez. O PT é apenas um entre muitos no fragmentado sistema partidário brasileiro (que controla governos em apenas 03 dos 27 Estados do Brasil) e conduz um governo de coalizão, que inclui partidos de extrema-direita, na coalizçao presidencial dificil de gerenciar do Brasil. "Ele estruturou um equilíbrio delicado em que o setor privado é a força motriz da economia, mas o Estado desempenha um papel importante, através de entidades como o Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), que tem um orçamento maior do que empréstimos do Banco Mundial, e a Petrobras, a companhia estatal de petróleo.

Em um país conhecido por suas demagógicas tradições populistas, Lula encarna o líder moderno, que acredita nas instituições. Em uma região onde muitos presidentes querem se perpetuar no cargo, ele rejeitou a possibilidade de mudar a Constituição para lhe permitir um terceiro mandato. Sua própria trajetória “trapos-à-riquezas” e a austeridade de seus hábitos pessoais fizeram com que os escândalos de corrupção que afetaram alguns de seus funcionários nunca prejudicassem seriamente a sua popularidade, levando à alcunha de "presidente teflon". Seus índices de aprovação atingem 80%. Ele foi mencionado para vários dos principais cargos internacionais, uma vez que ele deixa o cargo em 01 de janeiro de 2011 - de presidente do Banco Mundial a Secretário-Geral das Nações Unidas.

Dado que também na política externa Lula fez um grande impacto, não é surpreendente. Com Celso Amorim como seu ministro das Relações Exteriores, ele capitalizou o "PIB diplomático" do Brasil.

Com um excelente Ministro dos Negócios Estrangeiros - conhecido como "Itamaraty", pelo palácio do século 19 no Rio de Janeiro que se usou como casa antes que a capital se mudasse para Brasília - O Brasil tem exercido a sua diplomacia com sutileza e eficácia. Na frente multilateral, a sua capacidade para construir alianças, para dar a direção para a agenda internacional e para lidar com as principais questões de governança global têm se destacado. Ele tem mostrado isso no âmbito da OMC e das Nações Unidas, bem como na criação de (ou inclusão em) miríade de siglas como BRICs, BRICSAM, o IBAS, o + G20, o G4, o O5 e, principalmente, no G20 no nível de líderes (o "comité de direcção da economia mundial"), lançado em Washington em Novembro de 2008, e cuja próxima reunião está sendo realizada em Toronto no final de junho. Ele também colocou seu dinheiro onde sua boca está: num momento em que muitos Ministérios dos Negócios Estrangeiros reduziram os orçamentos e fecharam embaixadas, o Brasil, agarrando-se a que a diplomacia se tornou mais e não menos importante na era da globalização, fez o oposto. De 2003 a 2008, abriu 32 embaixadas no exterior, e agora tem 134.

Na América Latina, o Brasil também tem desempenhado um papel fundamental. Tem sido a força motriz por trás de novas entidades, como a Unasul, que reúne todas as nações da América do Sul, o Conselho de Defesa da América do Sul, desenvolvido para oferecer uma alternativa para o obsoleto Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. Ele assumiu a liderança em estabilizar o Haiti por meio da MINUSTAH, a primeira missão de paz da ONU formada por uma maioria de tropas latino americanas e liderada por um general brasileiro. Ele está disposto a trabalhar com Washington, mas não se isso implicar sacrificar princípios, tais como o regime democrático, como mostrado na crise hondurenha do ano passado.

Em vez de ceder aos chamados imperativos da globalização, como tantas outras nações em desenvolvimento têm feito, Lula levou o Brasil a afirmar a sua autonomia e independência, estabelecendo as suas próprias condições para lidar com uma ordem internacional em mutação. Ele é o melhor exemplo do poder da deligência e da iniciativa em política externa e diplomacia.

(Jorge Heine holds the Chair in Global Governance at the Balsillie School of International Affairs, is Professor of Political Science at Wilfrid Laurier University and a Distinguished Fellow at the Centre for International Governance Innovation in Waterloo, Ontario. His book (with Andrew F. Cooper), Which Way Latin America? Hemispheric Politics Meets Globalization, is published by United Nations University Press.)