sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Apenas o véu ideológico impede que se enxergue os efeitos do Bolsa Família na economia, diz João Paulo Kupfer

Segue artigo de João Paulo Kupfer em seu blog, com grifos meus.

O estudo a que ele o o Estadão se referem hoje, já havia sido objeto de um post aqui, saeado em notícia do Último Segundo. Mas acho que vale a repetição, até porque o novo artigo favorece um pouco a contextualização.



O jornalista Fernando Dantas publicou no Estado de S. Paulo desta sexta-feira uma reportagem com os resultados de um estudo recente sobre os impactos do programa Bolsa Família na economia. A conclusão do trabalho é que, o acréscimo no valor dos benefícios pagos, entre 2005 e 2006, de RS 1,8 bilhão, resultou num crescimento adicional do PIB, no período, de R$ 43,1 bilhões. Resultou também em receitas tributárias adicionais de R$ 12,6 bilhões. “O ganho tributário”, escreveu Dantas, “é 70% maior do que o total de benefícios pagos pelo Bolsa Família em 2006, que foi de R$ 7,5 bilhões.

Esses cálculos foram feitos pelo economista Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), o antigo Ibmec-São Paulo, que também é professor na Faculdade de Economia da USP, e por seu aluno na graduação do Insper, Paulo Henrique Landim Júnior. É de se notar que o Insper e Naercio filiam-se a correntes do pensamento econômico situadas a anos-luz de distância das teorias heterodoxas ou mais à esquerda e não têm nada de lulistas.

Não é novidade que programas bem focados de transferência de renda, como é o caso do Bolsa Família, produzem relevantes efeitos multiplicadores no conjunto da economia. Isso só não é verdade para os que não conseguem levantar o véu ideológico que tolda a visão sobre os programas de inclusão social, para os que resistem a repartir melhor a renda produzida ou para os cegos pelas paixões partidárias. Faltava, porém, uma medição quantitativa da dimensão do impacto econômico específico do programa Bolsa Família.

Pois bem, segundo as estimativas de Menezes e Landim, um aumento de 10% no repasse médio per capita do Bolsa Família leva a uma expansão de 0,6% do PIB, no ano em que ocorre o aumento e no seguinte. Em outras palavras, ou melhor, em outros números, cada R$ 0,04 do Bolsa Família aumenta o PIB em R$ 1.

Fica assim provado, com números, que o “assistencialismo” do Bolsa Família move profundamente a economia. Com a vantagem de que, como indicaram os cálculos de Menezes e Landim, o setor mais positivamente impactado é o da indústria – aquele em que os empregos são de mais qualidade. Enquanto no PIB agrícola cada 10% a mais nos repasses do Bolsa Família não apresenta impactos significativos, o efeito nos serviços é de 0,19% no PIB setorial. No PIB industrial, onde o impacto é maior, efeito multiplicador de cada 10% adicionais nos repasses do programa atinge expressivos 0,81%.

Uma tentativa leviana, mais ou menos recente, de confundir o Bolsa Família com programas de distribuição de cestas básicas, a partir de uma declaração crítica de um Lula ainda na Oposição, em relação à distribuição pontual de comida, tem sido largamente disseminada pela internet, via YouTube. Intelectuais de viés conservador utilizam o vídeo como gancho para sustentar suas retorcidas teorias anti-inclusão social e de preservação da renda em mãos de poucos. Com os dados agora disponíveis, o falatório reacionário fica apenas lamentavelmente ridículo.

* * *

Aqui o link para a reportagem do “Estado de S. Paulo”


Atualizado às 23h45

Abaixo-assinado virtual contra a criminalização do MST.

O abaixo-assinado contra a criminalização do MST.

Eu assinei. Se você também quiser assinar, é só seguir o link aí embaixo.

Manifesto em defesa do MST

Contra a violência do agronegócio e a criminalização das lutas sociais


As grandes redes de televisão repetiram à exaustão, há algumas semanas, imagens da ocupação realizada por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em terras que seriam de propriedade do Sucocítrico Cutrale, no interior de São Paulo. A mídia foi taxativa em classificar a derrubada de alguns pés de laranja como ato de vandalismo.

Uma informação essencial, no entanto, foi omitida: a de que a titularidade das terras da empresa é contestada pelo Incra e pela Justiça. Trata-se de uma grande área chamada Núcleo Monções, que possui cerca de 30 mil hectares. Desses 30 mil hectares, 10 mil são terras públicas reconhecidas oficialmente como devolutas e 15 mil são terras improdutivas. Ao mesmo tempo, não há nenhuma prova de que a suposta destruição de máquinas e equipamentos tenha sido obra dos sem-terra.

Na ótica dos setores dominantes, pés de laranja arrancados em protesto representam uma imagem mais chocante do que as famílias que vivem em acampamentos precários desejando produzir alimentos.

Bloquear a reforma agrária

Há um objetivo preciso nisso tudo: impedir a revisão dos índices de produtividade agrícola – cuja versão em vigor tem como base o censo agropecuário de 1975 – e viabilizar uma CPI sobre o MST. Com tal postura, o foco do debate agrário desloca-se dos responsáveis pela desigualdade e concentração para criminalizar os que lutam pelo direito do povo. A revisão dos índices evidenciaria que, apesar de todo o avanço técnico, boa parte das grandes propriedades não é tão produtiva quanto seus donos alegam e estaria, assim, disponível para a reforma agrária.

Para mascarar tal fato, está em curso um grande operativo político das classes dominantes objetivando golpear o principal movimento social brasileiro, o MST. Deste modo, prepara-se o terreno para mais uma ofensiva contra os direitos sociais da maioria da população brasileira.

O pesado operativo midiático-empresarial visa isolar e criminalizar o movimento social e enfraquecer suas bases de apoio. Sem resistências, as corporações agrícolas tentam bloquear, ainda mais severamente, a reforma agrária e impor um modelo agroexportador predatório em termos sociais e ambientais como única alternativa para a agropecuária brasileira.

Concentração fundiária

A concentração fundiária no Brasil aumentou nos últimos dez anos, conforme o Censo Agrário do IBGE. A área ocupada pelos estabelecimentos rurais maiores do que mil hectares concentra mais de 43% do espaço total, enquanto as propriedades com menos de 10 hectares ocupam menos de 2,7%. As pequenas propriedades estão definhando enquanto crescem as fronteiras agrícolas do agronegócio.

Conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT, 2009) os conflitos agrários do primeiro semestre deste ano seguem marcando uma situação de extrema violência contra os trabalhadores rurais. Entre janeiro e julho de 2009 foram registrados 366 conflitos, que afetaram diretamente 193.174 pessoas, ocorrendo um assassinato a cada 30 conflitos no primeiro semestre de 2009. Ao todo, foram 12 assassinatos, 44 tentativas de homicídio, 22 ameaças de morte e 6 pessoas torturadas no primeiro semestre deste ano.

Não violência

A estratégia de luta do MST sempre se caracterizou pela não violência, ainda que em um ambiente de extrema agressividade por parte dos agentes do Estado e das milícias e jagunços a serviço das corporações e do latifúndio. As ocupações objetivam pressionar os governos a realizar a reforma agrária.

É preciso uma agricultura socialmente justa, ecológica, capaz de assegurar a soberania alimentar e baseada na livre cooperação de pequenos agricultores. Isso só será conquistado com movimentos sociais fortes, apoiados pela maioria da população brasileira.

Contra a criminalização das lutas sociais

Convocamos todos os movimentos e setores comprometidos com as lutas a se engajarem em um amplo movimento contra a criminalização das lutas sociais, realizando atos e manifestações políticas que demarquem o repúdio à criminalização do MST e de todas as lutas no Brasil.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Correuio Braziliense: geração de emprego na industria em setembro é o maior desde 1999.

Segue Matéria do Cooreio Braziliense, encontrada aqui.

Indústria comanda a volta do emprego
Autor(es): Paula Takahashi

Setor avança para nível pré-crise e país deve atingir 1 milhão de novas vagas no ano

Principal responsável pela geração de empregos formais em setembro, com 123,3 mil dos 252,6 mil novos postos de trabalho, a indústria bateu recorde na abertura de vagas em toda a série histórica do Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, iniciada em 1999. Agora, caminha para atingir os níveis de empregabilidade do período pré-crise. No balanço geral do mercado de trabalho, o saldo de vagas no país foi o melhor resultado do ano e o segundo mais alto para o mês. Segundo especialistas, a indústria, que acumula 210,1 mil novos postos de trabalho desde novembro de 2008, deve superar, no primeiro semestre de 2010, as mais de 501 mil vagas eliminadas até março.

“No segundo semestre do ano que vem, já será possível falar em saldo positivo de vagas na indústria”, avalia Osmani Teixeira de Abreu, presidente do Conselho de Relações do Trabalho da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). Mais de 50% das vagas geradas na indústria em setembro vieram do setor de alimentos e bebidas, que alcançou o segundo melhor saldo para a série.

O estudante de administração, Gabriel Temponi, a pouco mais de um ano da formatura, já comemora o espaço que garantiu como analista de marketing no quadro de funcionários da Coca-Cola. “Em períodos de crise, surgem também oportunidades, principalmente porque as empresas estão em busca de rentabilidade maior com custos reduzidos, e o mercado está bem aquecido nesse setor”, avalia. A empresa anunciou crescimento de 3% no terceiro semestre e confere o bom resultado ao forte desempenho dos mercados emergentes, em especial o brasileiro, indiano e chinês. “Só em 2009 estão sendo investidos R$ 1,75 bilhão, 17% a mais que no ano anterior”, anunciou o presidente da Coca-Cola Brasil, Xiemar Zarazúa.

Saldo

Enquanto a indústria inicia o processo de retomada do crescimento, o mercado de trabalho brasileiro comemora o saldo positivo de 236,9 mil vagas com carteira assinada, acumulado desde novembro de 2008. A Consultoria Tendências confirma a expectativa do governo federal de fechar 2009 com mais de 1 milhão de novos postos de trabalho no mercado formal, impulsionados principalmente pelos setores de serviços, comércio e também pela indústria.

Os resultados, porém, podem não ficar tão evidentes nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que será divulgada amanhã. Isso porque o bom momento do mercado de trabalho brasileiro está levando a uma busca maior por novas oportunidades. “Com mais pessoas procurando uma vaga, a pressão sobre o mercado será maior e as taxas de desemprego podem aumentar. De qualquer forma, a taxa de ocupação continuará crescendo, mas não o suficiente para absorver a nova mão de obra”, avalia Ariadne Vitoriano, analista da Tendências. A expectativa da consultoria é de que a taxa de desemprego em setembro chegue a 8,2%, praticamente estável em relação aos 8,1% do mês anterior.

“O ano deve fechar com uma taxa de 8,3% com ajuste sazonal. O que se percebe é uma clara recuperação da economia brasileira, o que não acontece, por exemplo, no mercado norte-americano, no qual prevemos sinais positivos para o emprego somente no fim do primeiro semestre de 2010”, avalia o economista Fábio Romão, da LCA Consultoria.

Com mais pessoas procurando uma vaga, a pressão sobre o mercado será maior e as taxas de desemprego podem aumentar”

JB Online: O bom momento que o Brasil vive se deve, em grande parte, a essa postura. Não fomos ao mundo pedir, nem exigir, mas dizer o que pensamos e o que pretendemos, segundo Santayana.

Segue o excelente artigo acerca da nomeação Samuel Pinheiro Guimarães para a SAE, de Mauro Santayana para o Coisas da Política.

Por Mauro Santayana

O presidente Lula pretende conhecer os termos do acordo que permite a Washington manter bases militares no território colombiano. A leitura do texto não será suficiente para conhecer a extensão do convênio. É comum a existência de cláusulas secretas. Além disso, a flexibilidade, no cumprimento de qualquer acordo, em geral favorece a parte mais forte.

A atitude de Lula, no entanto, vale por duas razões. Ela manifesta a natural desconfiança do continente, de que, com todas as declarações em contrário de Uribe e Obama, os Estados Unidos estejam usando do pretexto das drogas e das Farc para manterem suas tropas na América do Sul. A experiência demonstra que o problema das drogas só se resolverá quando se combater o seu consumo, e não a sua produção. O maior mercado de consumo é o dos Estados Unidos. Se um dia não houver um só arbusto de coca no mundo, nem uma só papoula, outras drogas serão sintetizadas, a fim de produzir o mesmo efeito da cocaína e da heroína, além das que já estão no mercado. Quanto às Farc, trata-se de um problema interno da Colômbia. Elas só serão um problema para os vizinhos, se os seus combatentes ultrapassarem as fronteiras. Nesse caso, cabe ao país violado tomar as medidas que considerar adequadas.

A presença americana na Colômbia, por mais que nos expliquem as suas razões, continuará exigindo os cuidados do Brasil e de todos os outros vizinhos. A longa história de intromissão dos Estados Unidos na América Latina rejeita ilusões. A única forma, real e objetiva, de conter o ímpeto imperialista dos Estados Unidos, que faz parte de sua mitologia nacional, é dispor de poder de dissuasão. Além da doutrina do Destino Manifesto, há o grande interesse dos fabricantes de armas, o complexo industrial militar denunciado por Eisenhower em sua despedida do poder. Depois de um dos períodos mais desastrados da política externa, em que o fascínio pelos estrangeiros mais poderosos e o desdém pelos menos poderosos chegaram ao paroxismo, o Brasil recupera a postura que tem predominado ao longo dos quase dois séculos de independência: a da afirmação serena de sua soberania, sem arrogância e sem concessões unilaterais. Muito do êxito obtido pelo chanceler Celso Amorim, na retomada da linha histórica da diplomacia brasileira, se deve ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, que, ao atingir a idade limite, teve que se afastar da secretaria-geral. Samuel é um dedicado estudioso das questões nacionais, entre elas, como é de seu ofício, as relações com o mundo, obstinado patriota e coerente em suas ideias. Por isso o demitiram, no governo anterior, de suas funções de diretor do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais do Itamaraty, por ordem direta de Fernando Henrique Cardoso, pelo fato de opor-se ao Alca. Hoje, quando vemos a situação do México, podemos imaginar o que seria do Brasil se firmássemos aquela ata de vassalagem.

O bom momento que o Brasil vive se deve, em grande parte, a essa postura. Não fomos ao mundo pedir, nem exigir, mas dizer o que pensamos e o que pretendemos. O bom convívio entre as nações, grandes e pequenas, depende do respeito a determinados princípios, alguns deles imemoriais e outros construídos pela necessidade histórica. Entre eles, o de não interferência nos assuntos internos dos estados independentes. É, assim, importante a presença do embaixador Pinheiro Guimarães à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos, que tem nível ministerial. Samuel é, ao mesmo tempo, homem de pensamento e de ação, e irá ocupar as suas funções com a mesma diligência com que atua na secretaria-geral do ministério.

O novo ministro tem, diante de si, desafiadora tarefa. Entre as questões estratégicas prioritárias se encontram a situação da Amazônia, a reforma agrária, a legitimidade dos títulos de propriedade fundiária em todo o país, e o crime organizado. O combate ao tráfico de drogas, ao contrabando, ao suprimento de armas aos grupos de criminosos não pode ser deixado apenas aos órgãos de repressão, pressionados pela urgência dos fatos. É necessário o exame do problema dentro do conjunto geral da civilização contemporânea. Devemos partir da visão teleológica, mas, ao mesmo tempo realista, de que os estados nacionais existem para promover a felicidade de seus cidadãos. A felicidade se consegue com a justiça, a saúde, a educação, o trabalho e, mais do que tudo, a dignidade – atributos que distinguem os homens na natureza.

Comunique-se: jornalistas criam portal de notícias voltado para finanças e negócios do Nordeste.

Segue a matéria do Comunique-se.

Cegada por seus preconceitos e decidida a fazer crer que nada acontecia Brasil a fora, nossa grande mídia, concentrada no eixo São Paulo-Rio, comeu mosca. Não viu que o nordeste crescia, e, com ele, uma demanda específica, e, com ela, um mercado - agora, quem sabe, ocupado pelo novo portal de notícias.

BOA SORTE!


Da Redação

As jornalistas Vitória Alcântara, Acássia Deliê, Paula Felix, Mariana Vilela e Carla Serqueira acabaram de lançar o portal de notícias Tendências e Mercado, voltado para finanças e negócios dos nove estados do Nordeste. “Tive a ideia de desenvolver o portal quando percebi uma demanda grande e reprimida sobre notícias que abordassem a economia nordestina”, explica a idealizadora do projeto, Vitória Alcântara, que atua há dez anos no jornalismo.

Além das jornalistas, o Tendências e Mercado conta com profissionais na área de Planejamento e Tecnologia da Informação.

O portal é dividido em editorias como Negócios, Empresas e Finanças, além de seções e colunas turismo, inovação, beleza, moda, cultura, empreendedorismo, investimentos, entre outros. O site também reúne informações sobre cursos, eventos e oportunidades.

O novo veículo oferece um espaço para publicidade gratuita de ONGs, com banners veiculados no portal. A primeira campanha é do Instituto Akatu, que defende o consumo consciente.

Agência Brasil: Natal de 2009 será o melhor dos últimos dez anos, dizem consultores.

Segue a matéria da Agência Brasil, com alguns grifos meus.



Marli Moreira
Repórter da Agência Brasil

São Paulo - A procura por novidades tecnológicas , a facilidade de compras à distância, pela intenert, e um ambiente econômico mais favorecido no mercado interno por maior acesso do consumidor ao crédito devem fazer do Natal 2009 o melhor dos últimos dez anos.

A avaliação é do consultor Claudio Felisoni de Angelo, coordenador da pesquisa Programa de Administração do Varejo (Provar), realizada em conjunto pelo Laboratório de Finanças (Labfin), da Fundação Instituto de Administração (FIA) e Felisoni Consultores Associados.

Segundo a pesquisa divulgada hoje (21), a previsão de aumento das vendas neste trimestre é de 6,1%, em outubro, 6,5%, em novembro e 5,2% em dezembro. Felisoni observou que essa condição é resultado, principalmente, dao fato de o país estar contornando os efeitos da crise econômica internacional. Ele alertou, porém, para o risco de inadimplência.

“Nós temos uma renda média do pessoal ocupado em R$ 1.400 e, descontando os gastos com as despesas do dia a dia, o ideal seria não comprometer mais do que 15% a 20% da renda com o pagamento de dívidas”.

Felisoni lembrou que apesar de ter baixado, a taxa de juros praticada no mercado ainda é alta, na faixa de 3% ao mês.

Dados da pesquisa realizada com 500 consumidores mostram que 14,4% têm a intenção de comprar produtos na área de cine e foto. No trimestre anterior, esse número foi de 11,6%. O segmento de cine e foto, líder na preferência entre dez itens consultados, assumiu a posição que era ocupada pelos bens de informática, agora na segunda colocação, com 12,8% ante 14,2%.

Os produtos da linha branca - geladeiras, fogões e máquinas de lavar - estão em quinto lugar na preferência do consumidor, com 9,8%. Na pesquisa anterior, esse número havida sido 12,2%., no terceiro trimestre.

Nesse caso, assim como no segmento de automóveis, em que o índice passou de 6,8% para 6,2%, Felisoni associa a queda ao fim da isenção do Imposto Sobre Produto Industrializado (IPI).

Na lista de intenção de compras pela internet os produtos que lideram a preferência dos consumidores são os CDs, DVDs, livros e revistas, com índice de 31,4%, um pouco mais do que na pesquisa anterior (31,2%), seguidos pelos eletroeletrônicos (30,4%), que caíram ante 31,4%) e informática (27,8% ante 29,1%).

terça-feira, 20 de outubro de 2009

JB Ononline: "O Brasil ganharia mais se se detivesse menos na perseguição ao Estado e na satanização dos servidores e mais na discussão de como são fortalecidas ou não as carreiras capazes de melhorar a prestação de serviços ao país", segundo Rodrigo de Almeida.

Segue o excelente artigo de Rodrigo de Almeida.

Permito-me apenas um pequeno reparo. As notícias acerca da contratação de servidores em São Paulo, do meu ponto de vista, não igualam PT e PSDB nesta questão. E o motivo é um só. Mesmo que o aumento fosse igual - e não é - um partido estaria colocando em prática a política que abertamente defende, enquanto o outro estaria dissimulando a sua atuação.

Enquanto o PT amplia o quadro de servidores sem nunca tê-los demonizado, o PSDB o faz ao mesmo tempo que acusa o PT de fazê-lo e fomenta hostilidades contra os servidores, fazendo crer que eles seriam uma das principais causas dos problemas nacionais.

Assim, no lugar de igualá-los, a notícia acerca do aumento do número de servidores em São Paulo distingue o PT e o PSDB. Talvez não nesta questão específica, mas, ao menos, no que se refere à coerência e à honestidade de suas propostas.

De sovinas e perdulários

Por Rodrigo de Almeida

A revelação de que o tucanato paulista mimetiza o presidente Lula em matéria de política funcional expansionista oferece duas interessantes contribuições ao debate sobre o Estado brasileiro, um dos temas-chave para a campanha presidencial do ano que vem. Primeiro, iguala PT e PSDB num ponto que parecia nevrálgico – a suposta irresponsabilidade lulista no trato do funcionalismo público (nos últimos anos, os tucanos vocalizaram como ninguém a crítica contumaz ao “inchaço” da máquina federal). O segundo mérito da informação é que ajuda a denunciar a impressionante campanha difamatória contra o Estado e seus funcionários, algo que Fernando Collor de Mello começou e Fernando Henrique Cardoso aprofundou.

Graças ao cotejo de dados do repórter Gustavo Patu, constata-se que, desde 2003 (período em que o estado foi gerido pelos tucanos Geraldo Alckmin e José Serra), a máquina do Executivo de São Paulo ganhou 33 mil novos servidores ativos. Incluindo aposentados e pensionistas, a conta anual da folha salarial paulista subiu 19% no período. Desde que tomou posse, em 2003, o presidente Lula elevou em 12% o quadro de servidores ativos. No governo de São Paulo, esse índice foi de 14%. E daí?

Daí, nada. Essa é uma típica disputa com sinais trocados. Avaliar quem mais ampliou as fileiras de servidores, em busca de um líder nacional da ineficiência e do esbanjamento, equivale a aceitar como correta a premissa de que o Estado brasileiro é grande demais para as necessidades do país – e, portanto, deve ser combatido como um inimigo a derrubar. Com esse tipo de premissa, argumentos estatísticos mais sérios acabam ignorados.

Em abril o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) publicou um estudo no qual fazia uma comparação internacional do emprego público e ajudava a desconstruir o mito do inchaço da máquina pública. O levantamento do Ipea mostrava o contrário. Informava que a participação do emprego público é pequena: o percentual de servidores em relação à população ocupada não chega a 11%. Não alcança 6%, se for considerada a população total do país.

No topo do ranking internacional estão Dinamarca (39,3%) e Suécia (33%) – índices elevados dada a natureza do Estado de Bem-Estar Social não destruído por esses países durante as crises fiscais dos anos 80 e 90. Ocorre que os números brasileiros estão abaixo mesmo de países “altamente privatistas”, como EUA (14,9%) e Canadá (19,9%), ou nações europeias como França (14,4%) e Espanha (15%). No caso dos países sul-americanos, o tamanho do Estado brasileiro aparece menor que Uruguai (16,3%) e Argentina (16,2%), e um pouco acima do Chile (10,5%).

Ao mostrar tais números, o Ipea foi acusado mais uma vez de estar “aparelhado” e de ignorar sua missão de apresentar análises técnicas (?). Outros questionaram a comparação quantitativa, quando o centro do debate deveria concentrar-se nos argumentos qualitativos. (Como se as “denúncias” de “inchaço” não pusessem o dedo em riste para a “quantidade” de servidores abrigados no Estado).

Em 2006, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, da Universidade Candido Mendes, desmascarara as “pistas falsas” do debate daqueles convertidos ao leilão do Estado brasileiro. Chama-se O ex-Leviatã brasileiro o livro em que mostra, entre outras coisas, como a burocracia do Brasil é reduzida. Segundo o professor, desde 1984 há dados comprovando que “o Brasil possui um Estado mais para sovina do que para perdulário”. Isso significa que a natureza das políticas governamentais obedece ao modelo no qual seus custos são genericamente distribuídos (toda a população paga por ele), enquanto os benefícios são consumidos por uma minoria. Santos acha que há, sim, excesso na administração pública, mas nas ocupações mais modestas: limpeza, vigias, ascensoristas, porteiros. Resumo da ópera: o Estado não está aparelhado para responder com velocidade e coerência às demandas de uma sociedade industrial urbana que fez, em larga medida, a reforma capitalista do campo.

PT e PSDB estão preparando o Estado para responder a tais demandas? Este é um bom debate. O Brasil ganharia mais se se detivesse menos na perseguição ao Estado e na satanização dos servidores e mais na discussão de como são fortalecidas ou não as carreiras capazes de melhorar a prestação de serviços ao país. Ou ainda identificar como poderosos grupos de interesse barraram a tendência ao monopólio decisório do Estado, não para torná-lo plural e democrático mas para apropriar-se do poder estatal em nome de suas próprias vantagens.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Segundo dados da Folha e do Estadão, em 2008, levando em conta a área do território do RS, gastos de Yeda Crusius (PSDB) com publicidade representam até 12 vezes os do Governo Federal

Segue matéria publicada pelo Estadão na sexta, com alguns grifos meus.

Além de revelar a forma da gestão de comunicão em si, a matéria traz alguns dados interessantes sobre gastos com publicidade pelo Governo Yeda Crusius (PSDB). Mais uma vez, ainda mais interessante, é compará-los com os gastos do Governo Lula, como fizemos aqui com os do Governo Serra. Vamos lá.

Segundo a matéria abaixo, os gastos do estado do Rio Grande do Sul com publicidade em 2008 foram de R$ 168.358.000,00. Deste total, 32,65% (ou R$ 54.968.887,00) seriam gastos do governo e o restante teria sido gasto pelas empresas estatais. Já o Governo Lula, segundo matéria da Folha, gastou, no mesmo período, sem contar com as despesas das estatais, R$ 139.200.000,00 co publicidade.

Uma rápida consulta ao site do IBGE e algumas contas simples revelam que Rio Grande do Sul ocupa 281.748 kilômetros quadrados do território brasileiro (ou 3,31% do total) e, conforme dados de 2007, tem 10.582.840 habitantes, ou 5,75% da população do país.

Agora, comparando os dados:

1 - apesar do Rio Grande do Sul ter 3,31% do território nacional e 5,75% da população do país, o gasto com pubblicidade da Yeda representou 39,49% do gasto do Governo Federal;

2 - isso significa que a governadora tucana gastou com publicidade R$ 5,19 por habitante, enquanto o governo federal gastou R$ 0,76 por habitante com o mesmo serviço; ou seja: o gasto com publicidade por habitante da Yeda foi quase 7 (SETE) vezes maior que o do Governo Federal;

3 - comparando em termos de território, a Yeda gastou com publicidade R$ 195,1 por kilômetro quadrado, frente a um gasto de apenas R$ 16,35 por kilômetro quadrado do governo federal; ou seja: por esse parâmetro, a Yeda gastou 12 (doze) vezes mais com publicidade que o Governo Lula.

Vale lembar que, no post anterior, sobre os gastos de Serra neste ano, comparação idêntica revelou que, dependendo do critério, o Governo Tucano de São Paulo havia gastado até 15 (QUINZE) vezes o que gastou o Governo Federal.

Exatamente como fiz no post sobre os gastos do Serra com publicidade, fica a dúvida: "Talvez isso não queira dizer nada, mas, sei lá, não me parece bem o que eu espero de quem diz primar pela eficiência. É essa a tão decantada gestão dos governos tucanos?"

TCE aponta irregularidades em gastos de publicidade de Yeda.
Entre os pontos criticados pelo órgão, está o constante aumento de participação de empresas estatais gaúchas
Rodrigo Alvares, do estadao.com.br

PORTO ALEGRE - Um parecer do Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul (TCE-RS) sobre a prestação de contas de 2008 do governo Yeda Crusius apontou irregularidades nos gastos com publicidade, que atingiram a cifra de R$ 168,358 milhões. Entre os pontos criticados pelo órgão, está o constante aumento de participação de empresas estatais no total da verba.

O Ministério Público de Contas do RS - órgão vinculado ao TCE - considerou irregular a suplementação das despesas com publicidade das empresas estatais em 102,66%. Isso significa que dinheiro destinado para outras áreas foi usado para aumentar o orçamento da comunicação. Conforme a Constituição Estadual, é preciso que o governo tenha a autorização da Assembleia Legislativa para executar esse tipo de ação, o que não aconteceu.

Em 2004, a participação do governo (incluindo-se os poderes Legislativo, Judiciário, Ministério Público, Autarquias e Fundações), respondia por 51,76% do total contra os 48,24% das estatais. Já em 2008, a participação do governo foi reduzida para 32,65% e as empresas passaram a ser responsáveis por 67,35% do total dos gastos com propaganda.

A situação foi especialmente influenciada pelo incremento ocorrido nas cinco empresas estatais (Banrisul, CEEE, Corsan, Caixa Estadual - Agência de Fomento e Sulgás) que responderam pelos maiores gastos no exercício de 2008.

O orçamento de 2008, enviado pela governadora Yeda Crusius, tinha suas receitas previstas em R$ 21,3 bilhões - o que corresponde a 8,4% do valor investido em publicidade. Para o mesmo período, o governo de São Paulo consumiu R$ 96,8 bilhões - sendo que R$ 181,6 milhões foram gastos na área, o equivalente a 1,87%.

À época da aprovação do orçamento 2008, no fim de julho deste ano, O TCE era presidido por João Luiz Vargas, que renunciou ao cargo em setembro. Ele é um dos nove réus em ação de improbidade administrativa ajuizada por procuradores da República junto à 3ª Vara da Justiça Federal de Santa Maria e teve a quebra de sigilo fiscal e bancário autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça (STF). Na última quinta-feira, a 4.ª Turma do Tribunal Regional Federal (TRF) da 4.ª Região (RS, SC, PR) excluiu a governadora do processo.

O procurador-geral do MPC-RS, Geraldo Da Camino, criticou a suplementação das despesas com publicidade e condenou a utilização das empresas estatais para a divulgação de ações do governo estadual. De acordo com seu parecer, "o contumaz descumprimento da prescrição constitucional e legal preocupa, ainda mais quando se constata que as chamadas estatais responderam por 67,35% (R$ 113,387 milhões) do total investido em gastos dessa natureza e porque custeiam amplamente ações institucionais do governo".

Ao estadao.com.br, Da Camino disse que "o mais grave não é nem o valor, mas porque foi maior que o orçamentado". Entre as empresas estatais, destaca-se a verba destinada ao banco estatal Banrisul: R$ 92 milhões do total.

Em resposta a questionamentos sobre os critérios de escolha para a alocação das verbas de publicidade, a ouvidoria do banco público respondeu, por e-mail, que "a assessoria de marketing trabalha com critério de priorização e planejamento anual de eventos e patrocínios cujos respectivos públicos-alvo encontram-se diretamente integrados ao plano de marketing do Banco, que, por sua vez, está estritamente vinculada aos períodos ideais de veiculação de ações promocionais e de propaganda dos produtos e serviços do Banco".

Entretanto, após analisar as solicitações, os pareceres são enviados para a aprovação da diretoria. O último passo é encaminhar ao Palácio Piratini. "Portanto, todas as ações são aprovadas também pelo Comitê de Comunicação Social do Governo do Estado", esclarece a ouvidoria.

Contatada por telefone, a assessoria de marketing do Banrisul se recusou a detalhar os critérios e valores entregues a profissionais porque todas as informações financeiras do Banrisul estão sob a égide da Lei Complementar 105, que trata do sigilo bancário.

Uma funcionária de alto escalão da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan) confirma a existência de critérios políticos para a alocação de verbas de publicidade nas estatais.

"Os critérios são muito políticos. A governadora decide para onde tudo deve ser investido. Precisamos da autorização da Comunicação dela, o dinheiro para patrocínios passa direto pelo Piratini", disse a fonte.

CEEE, Caixa RS e Sulgás não responderam aos contatos feitos pela reportagem até o momento, assim como o governo do Rio Grande do Sul.

Gestão de imagem

Uma das modalidades mais polêmicas dos gastos das estatais em publicidade é o patrocínio a jornalistas locais através de anúncios em sites e blogs para "melhorar a imagem do governo", como afirmam fontes ligadas a essas empresas.

De acordo com um publicitário gaúcho que prefere não se identificar, "a defesa que alguns destes jornalistas fazem da governadora chega a ser constrangedora".

BOL: existe uma estratégia de desacreditar o MST e a pesquisa do IBOPE sobre assentamentos é inaceitável, diz o Relator Especial da ONU para o Direito à Alimentação.

Segue a matéria do BOL.


Brasília, 16 out (EFE).- O relator especial das Nações Unidas para o Direito à Alimentação, o belga Olivier de Schutter, justificou hoje em Brasília as ocupações dos integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) como uma forma de "chamar a atenção" para seus problemas.

"Existe uma estratégia de desacreditar o movimento. É importante entender que essas pessoas precisam de apoio. A ocupação é o último recurso que elas encontraram. O Brasil é um país com grande concentração de propriedades rurais", declarou Schutter a jornalistas.

O belga falou também da recente destruição de parte de uma plantação de laranja de uma fazenda agrícola explorada pela multinacional Cutrale, líder mundial em produção e exportação de sucos de laranja.

"As pessoas ainda passam fome porque não têm acesso às áreas nas quais podem produzir", comentou.

Schutter também criticou uma recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) segundo a qual as famílias dos assentamentos viviam "em extrema pobreza".

"Como professor, eu não aceitaria um tipo de pesquisa no qual apenas mil famílias (de um total de quase 400 mil) foram consultadas"
, apontou Schutter, que está no Brasil desde segunda-feira.

Durante sua visita, o belga se reuniu com ministros, representantes da sociedade civil e conheceu um assentamento na cidade de Unaí (MG).

Schutter elogiou as políticas sociais do Governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas pediu mais rigor em sua regulamentação para evitar a corrupção.

Nesse sentido, mencionou a diminuição da desnutrição (73%) e da mortalidade infantil (45%) na última década, mas chamou de "inaceitáveis" os bolsões de miséria em várias cidades.

Da mesma forma, criticou a produção do etanol pela concentração de terras, mas reconheceu o trabalho de delimitação das zonas agrícolas destinadas da cultivo da cana-de-açúcar, matéria-prima do combustível.

Ronaldo Bicalho: com as regras para exploração do pré-sal, "o que está sendo discutido é o país que nós queremos e o que estamos dispostos a fazer para construí-lo."

Segue o artigo publicado por Ronaldo Bicalho em seu blog.

Segundo seu currículo no Sistema Lattes, formado em Engenharia Química pela UFRJ, o autor é pesquisador e professor da mesma institução, onde obteve também o grau de mestre e doutor em Planejamento Energético e Economia da Industria e da Tecnologia, respectivamente.

Postado por Ronaldo Bicalho em 19 outubro 2009 às 11:00

."o cerne da discussão é justamente a ampliação do controle estatal na exploração das riquezas do pré-sal, de forma a auferir o máximo de benefícios dessa exploração, sob uma ótica estratégica de longo prazo que transcende os limites da indústria petroleira. De fato, o que se está discutindo é um projeto de desenvolvimento do país calcado no grande potencial de riqueza representado pelo pré-sal."

A discussão sobre as propostas do Governo envolvendo a regulamentação da exploração do pré-sal tem sido acalorada. Considerando que o tema é complexo, muitas vezes o calor da disputa gera argumentos que contribuem muito mais para dificultar do que para facilitar a compreensão do que está sendo discutido.

Há uma passagem no clássico de Lewis Carroll, Alice no país das maravilhas, em que a personagem principal pergunta ao gato qual o caminho que ela deveria tomar e ele responde: “Isso depende muito de para onde você quer ir”.

A singela resposta do gato à Alice pode ser um bom conselho para quem deseja encontrar o fio da meada que o ajude a compreender as escolhas que estão sendo colocadas na mesa na discussão sobre o pré-sal.
Em um folder produzido pela Petrobras, a justificativa para a adoção pelo Governo brasileiro do regime de partilha é a seguinte:

“Com o regime de partilha, o governo pretende obter maior controle da exploração dessa riqueza e fazer com que os recursos obtidos sejam revertidos de maneira mais equânime para a sociedade brasileira. Portanto, esse modelo é mais apropriado ao contexto atual e ao desenvolvimento social, econômico e ambiental do País.”

A palavra-chave desse parágrafo é controle, pois é ela que nos ajuda a entender mais claramente a proposta do Governo. Na verdade, é justamente a ampliação do controle do Estado sobre a exploração das riquezas presentes no pré-sal que estrutura essa proposta.

Em função disso, a principal questão é entender qual é a natureza desse controle e quem irá exercê-lo.

Aqui, não se trata apenas de ampliar a participação do Estado na renda petrolífera, mas de ampliar o controle do Estado sobre o processo de geração dessa renda. Isto implica em aumentar o controle estatal, não só sobre todas as etapas da produção do petróleo, mas também sobre o destino final dado a este petróleo e sobre todas as articulações do setor petrolífero com os outros setores industriais e de serviços.

Nesse sentido, a questão fundamental não é simplesmente aumentar os benefícios advindos da renda petrolífera per se, mas maximizar o conjunto de benefícios associado a toda a cadeia petrolífera, incluídos aqueles relacionados à criação de um dinamismo industrial calcado na internalização da produção da chamada indústria parapetrolífera.

O controle exigido para se alcançar essa vasta gama de benefícios envolve um conjunto de mecanismos que possibilite a gestão estratégica de um conjunto de variáveis-chave que inclui: o conhecimento geológico, a capacitação tecnológica na produção em águas profundas, a escolha dos fornecedores, o ritmo de exploração dos recursos e o destino dado à produção.

Nesse contexto, o conflito aparente entre os objetivos de se deter um maior controle e de se obter uma renda maior pelo Estado é resolvido pela introdução de uma visão estratégica acerca da exploração da riqueza do pré-sal. Nesse caso, o importante não é alcançar a maior parcela de renda no curto prazo e, em função disso, sacrificar a parcela necessária do controle para atingir tal objetivo; mas, implementar um controle estratégico da exploração que permita auferir o máximo de benefícios durante todo o tempo em que durar essa exploração.

Portanto, trata-se de controlar aspectos fundamentais da exploração do pré-sal que permitam gerir esse processo sob uma perspectiva estratégica de longo prazo, que, no caso específico, envolve um tempo que abarca distintas gerações de brasileiros. Portanto, estamos falando de escolhas mais do que inter-temporais, estamos falando de escolhas inter-geracionais.

Sob essa visão, o maior controle não implica na redução dos benefícios obtidos pelo Estado; pelo contrário, é justamente o maior controle por parte do Estado que viabiliza a maior obtenção desses benefícios no longo prazo. Em outras palavras, trata-se de se contrapor a uma visão de curto prazo, que privilegia a maior obtenção de renda hoje, uma visão de longo prazo que, mesmo sacrificando ganhos aparentes no presente, possibilite auferir de forma sustentável ganhos mais significativos no futuro.

Essa concepção estratégica, de longo prazo, marcada pela busca da ampliação do controle do Estado, se manifesta em vários pontos do conjunto de projetos de lei enviado ao Congresso pelo Executivo brasileiro.

Vejamos os mais importantes:

A mudança do regime de concessão para partilha.

No regime de concessão o controle da produção e do petróleo extraído pertence à empresa que detém a concessão. No caso do regime de partilha, esse controle e essa propriedade passam a ter uma interveniência muito maior do Estado.

No modelo proposto pelo Governo, a União participará diretamente das decisões de cada projeto de exploração e terá a propriedade de parte significativa do petróleo produzido.

Essa participação governamental se dará diretamente no âmbito do Comitê Operacional específico a cada projeto. Caberá a esse comitê administrar o consórcio que detém o direito de explorar cada jazida; definindo os planos de exploração e de avaliação das descobertas; declarando a comercialidade de cada jazida e indicando o plano de desenvolvimento; e definindo os programas anuais de trabalho e produção, os termos de unitização, etc.

O controle dos Comitês Operacionais ficará a cargo do Governo, que indicará a metade dos seus membros e mais o seu presidente, tendo direito a um voto de qualidade e poder de veto nas decisões.

Portanto, o controle do Estado sobre a produção proposto pelo Governo se dá no lócus central das decisões; ou seja, no Comitê Operacional. Logo, a mudança do regime não visa apenas uma maior participação do Estado na renda petrolífera em função da redução do risco exploratório, mas controlar as decisões de produção que irão gerar essa renda.

Por isso, a afirmação de que o regime de concessão, com pequenas alterações, poderia alcançar os mesmos objetivos carece de fundamentação. Se a questão se resumisse a parcela da renda apropriada pelo Estado, essa afirmação mereceria alguma consideração; contudo, se o objetivo pretendido é o controle do processo de geração dessa renda, essa afirmação não se sustenta e, mais do que isso, contribui para esconder a questão central que é justamente aquela referente a quem controla esse processo.

A Petrobras como única operadora do pré-sal


Como operadora, a Petrobras irá conduzir as atividades de exploração e produção, providenciando os recursos humanos e materiais para a execução das atividades. Além de ter acesso à informação estratégica, a Petrobras terá controle sobre a produção e os custos e sobre o desenvolvimento da tecnologia e das relações com os fornecedores de máquinas, equipamentos e serviços.

Dessa forma, todo o processo de aquisição de conhecimento geológico, aprendizagem tecnológica e industrial envolvendo o pré-sal passa a ser controlado pela Petrobras.

Nesse sentido, a participação da Petrobras de 30 % em todos os consórcios surge como uma contrapartida da empresa, em termos do seu comprometimento com as atividades de exploração e produção, ao exercício da exclusividade na função de operadora no pré-sal.

A questão-chave aqui para o exercício do controle do Estado sobre o pré-sal não são os 30 %, mas a exclusividade da Petrobras como operadora nesta área de exploração.

A Petro-sal


Diferentemente do que imaginam alguns analistas, a Petro-sal joga um papel-chave nos mecanismos de controle do Estado proposto pelo Governo.

A Petro-sal irá representar os interesses da união nos contratos de partilha de produção e estará presente nos Comitês Operacionais que definirão as atividades dos consórcios, com direito a voto de qualidade e poder de veto nas decisões; estando representada nesses comitês através de metade dos seus membros mais o presidente.

Entre suas principais atribuições estarão a representação dos interesses da união nos contratos de partilha de produção, o monitoramento e a auditagem dos custos e investimentos nos contratos de partilha e a gestão dos contratos para a comercialização do petróleo da União.

Dessa forma, a natureza do controle do Estado muda radicalmente com a criação da Petro-sal. No regime anterior de monopólio, a União transferia para a Petrobras o exercício do controle da produção, enquanto que no regime de concessão, aplicado a partir de 1998, a União transferia esse controle para as empresas que detinham as concessões obtidas nos leilões.

De agora em diante, o Estado exerce o seu controle diretamente no lócus da decisão de produção que é o Comitê operador de cada jazida. Dessa maneira, o Estado pretende ampliar o seu controle direto sobre o conjunto de empresas que exploram o pré-sal; inclusive sobre a própria Petrobras.

A cessão onerosa e a capitalização da Petrobras


A cessão onerosa e a capitalização da Petrobras devem ser analisadas em conjunto. E aqui não se trata apenas de colocar a disposição da Petrobras um volume importante (5 bilhões de barris) de reservas, de baixo risco e produtividade elevada, que pertence à União, mas, de, mediante o processo de capitalização, aumentar a participação da União na composição do capital da Petrobras.

Assim, o Estado brasileiro, por um lado, reforça a posição financeira da sua própria empresa para fazer face aos investimentos necessários à exploração do pré-sal, e, por outro, aumenta a sua participação acionária nesta mesma empresa, canalizando a maior parte dos ganhos possíveis para os cofres federais.

Assim, mais uma vez, a questão da ampliação do controle, como forma de viabilizar o acesso a ampla gama de benefícios advindos da exploração do pré-sal, aparece como o elemento estruturante da proposta do Governo brasileiro.

A mudança do contexto


A sustentação da proposta do Governo de maior controle do Estado sobre a indústria de petróleo no Brasil se baseia na consideração de que houve uma mudança radical no contexto desta indústria no país.

Assim, em contraste com a situação na qual atual legislação foi criada, nos anos noventa, em que o Brasil e a Petrobras estavam inseridos em um contexto de instabilidade econômica, de preço baixo de petróleo (Us$ 19 o barril), de dependência do óleo importado e de exploração com elevados riscos, hoje, o contexto é de estabilidade econômica, de preços de petróleo muito mais altos, de auto-suficiência, e de exploração do pré-sal com riscos exploratórios muito mais baixos.

Por outro lado, as condições de tranqüilidade no mercado de petróleo da década passada foram substituídas por tensões cada vez maiores neste mercado que se traduziram na elevação dos preços desse energético e em disputas geopolíticas cada vez mais acirradas.

Assim, a afirmação de que o petróleo seria uma mercadoria como outra qualquer, tão comum nos anos noventa, e que, em parte, sustentava a abertura dos mercados, hoje, diante dos fatos objetivos, encontra muitas dificuldades de ser sustentada.

Essa mudança na percepção do papel do petróleo, na qual ele deixa de ser uma simples commodity para se tornar um insumo energético estratégico, contribui para uma construção institucional que contempla a ampliação do papel do Estado nessa indústria.

Portanto, a proposta de mudança do marco institucional para a província do pré-sal ultrapassa a questão específica do reduzido risco exploratório. Na verdade, a mudança contempla uma visão distinta do papel estratégico a ser desempenhado pelo setor petrolífero brasileiro a partir do pré-sal; tanto no que concerne a uma nova inserção internacional do país, quanto às próprias condições objetivas de sustentação dessa nova inserção.

Nesse sentido, o cerne da discussão é justamente a ampliação do controle estatal na exploração das riquezas do pré-sal, de forma a auferir o máximo de benefícios dessa exploração, sob uma ótica estratégica de longo prazo que transcende os limites da indústria petroleira.

De fato, o que se está discutindo é um projeto de desenvolvimento do país calcado no grande
potencial de riqueza representado pelo pré-sal.

A proposta do Governo traz embutida uma visão de desenvolvimento e do papel estratégico do Estado neste desenvolvimento. Portanto, não diz respeito, simplesmente, a uma discussão sobre vantagens e desvantagens dos regimes de exploração - concessão versus partilha -, das vantagens e desvantagens da participação da Petrobras em todos os consórcios, das vantagens e desvantagens da cessão onerosa e da capitalização da Petrobras, das vantagens e desvantagens da criação de uma nova estatal e, assim por diante. Na proposta governamental há um eixo central que estrutura o conjunto de projetos de lei e é este eixo central que deve ser discutido. Pode-se concordar com ele, ou não. Porém, fatiar a discussão e tentar levar o debate de forma fragmentada não ajuda ao cidadão a compreender o que está sendo, de fato, discutido.

O que está sendo discutido é o controle do Estado brasileiro sobre a exploração das nossas riquezas. O que está sendo discutido é o nível desse controle, os seus custos e os seus benefícios. O que está sendo discutido é qual o nível de soberania que queremos e podemos exercer sobre as nossas riquezas. O que está sendo discutido é o país que nós queremos e o que estamos dispostos a fazer para construí-lo.

Em suma, meus amigos, o que está sendo discutido é o lugar onde se quer chegar e o caminho que se tem que tomar para alcançá-lo. Por isso, seguindo o conselho do gato à Alice, discutir o caminho sem saber onde se quer chegar não tem nenhuma serventia. A não ser que não se saiba onde se quer chegar ou, pior, se saiba, mas não se queira ou não se possa dizê-lo claramente na discussão.

Folha de São Paulo: "Não aceito a transformação das laranjeiras em novos cordeiros imolados pela 'fúria de militantes irracionais'", diz Bresser-Pereira

Segue o artigo do Ministro (do governo Sarney e dos Governos FHC), com alguns grifos meus.

Luiz Carlos Bresser-Pereira
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Por que não nos indignamos com a captura do patrimônio público que ocorre todos os dias em nosso país?
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Há uma semana, duas queridas amigas disseram-me da sua indignação contra os invasores de uma fazenda e a destruição de pés de laranja. Uma delas perguntou-me antes de qualquer outra palavra: "E as laranjeiras?" -como se na pergunta tudo estivesse dito.

Essa reação foi provavelmente repetida por muitos brasileiros que viram na TV aquelas cenas. Não vou defender o MST pela ação, embora esteja claro para mim que o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra é uma das únicas organizações a, de fato, defender os pobres no Brasil. Mas não vou também condená-lo ao fogo do inferno. Não aceito a transformação das laranjeiras em novos cordeiros imolados pela "fúria de militantes irracionais".

Quando ouvi o relato indignado, perguntei à amiga por que o MST havia feito aquilo. Sua resposta foi o que ouvira na TV de uma das mulheres que participara da invasão: "Para plantar feijão". Não tinha outra resposta porque o noticiário televisivo omitiu as razões: primeiro, que a fazenda é fruto de grilagem contestada pelo Incra; segundo, que, conforme a frase igualmente indignada de um dos dirigentes do MST publicada nesta Folha em 11 deste mês, "transformaram suco de laranja em seres humanos, como se nós tivéssemos destruído uma geração; o que o MST quis demonstrar foi que somos contra a monocultura".

Talvez os dois argumentos não sejam suficientes para justificar a ação, mas não devemos esquecer que a lógica dos movimentos populares implica sempre algum desrespeito à lei. Não deixa de ser surpreendente indignação tão grande contra ofensa tão pequena se a comparamos, por exemplo, com o pagamento, pelo Estado brasileiro, de bilhões de reais em juros calculados segundo taxas injustificáveis ou com a formação de cartéis para ganhar concorrências públicas ou com remunerações a funcionários públicos que nada têm a ver com o valor de seu trabalho.

Por que não nos indignarmos com o fenômeno mais amplo da captura ou privatização do patrimônio público que ocorre todos os dias no país? Uma resposta a essa pergunta seria a de que os espíritos conservadores estão preocupados em resguardar seu valor maior -o princípio da ordem-, que estaria sendo ameaçado pelo desrespeito à propriedade.

Enquanto o leitor pensa nessa questão, que talvez favoreça o MST, tenho outra pergunta igualmente incômoda, mas, desta vez, incômoda para o outro lado: por que os economistas que criticam a suposta superioridade da grande exploração agrícola e defendem a agricultura familiar com os argumentos de que ela diminui a desigualdade social, aumenta o emprego e é compatível com a eficiência na produção de um número importante de alimentos não realizam estudos que demonstrem esse fato?

A resposta a essa pergunta pode estar no Censo Agropecuário de 2006: embora ocupe apenas um quarto da área cultivada, a agricultura familiar responde por 38% do valor da produção e emprega quase três quartos da mão de obra no campo.

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, nesta Folha listou esses fatos e afirmou que uma "longa jornada de lutas sociais" levou o Estado brasileiro a reconhecer a importância econômica e social da agricultura familiar. Pode ser, mas ainda não entendo por que bons economistas agrícolas não demonstram esse fato com mais clareza. Essa demonstração não seria tão difícil -e talvez ajudasse minhas queridas amigas a não se indignarem tanto com as laranjeiras.

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LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 75, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994". Internet: www.bresserpereira.org.br

domingo, 18 de outubro de 2009

Observatório da Imprensa: a oposição dos grandes jornais e emissoras de televisão ao governo do presidente Lula já ultrapassou os limites da função fiscalizadora que fundamentava a idéia de “quarto poder”, diz Carlos Castilho.

Segue o artigo de Carlos Castilho para o seu blog no Observatório da Imprensa.

Impressionante como existe um ponto além do qual quase nenhum jornalista consegue ir. Apesar de reconhecer a partidarização da mídia, o respeitável profissional não enxerga na atuação dela qualquer trama golpista, mas apenas “uma ação calculada dentro do jogo do poder”.

Ótimo, mas como devemos classificar, em um regime democrático, uma “ação calculada dentro do jogo do poder” realizada à revelia do desenho institucional posto? Do ponto de vista do sistema democrático, quando um dos atores se utiliza das prerrogativas a ele garantidas em função de seu papel específico para desempenhar outra função, como devemos chamar isso?

Ao se paridarizar, e se aliar a outros grupos de intreresse na disputa, mas continuar invocando para si o suposto papel fiscalizador do jogo de poder, a mídia não estaria, na verdade, fraudando o sistema democrátido instituído? E essa fraude, que utiliza o próprio sistema contra as suas finalidades intrínsecas, não seria exatamente uma das possíveis facetas de um golpe?
Postado por Carlos Castilho em 14/10/2009 às 11:26:45 AM

O confronto entre o presidente norte-americano Barack Obama ao canal de notícias Fox News, também norte-americano, é mais do que uma escaramuça entre um governante e uma emissora de televisão. Também tem implicações mais amplas do que um mero bate boca entre uma assessoria presidencial que passou a ver o Fox News como um partido político de oposição e a emissora que contra-atacou alegando um suposto ataque governamental à liberdade de expressão.

O episódio mostra até que ponto as organizações da mídia estão dispostas a politizar o esforço para sobreviver à crise do seu modelo de negócios sem perder o status de “quarto poder”. Até agora o foco das preocupações dos analistas e estudiosos da indústria da comunicação jornalística era o esforço coletivo das empresas em busca de novas fórmulas capazes de recuperar receitas publicitárias e a queda de circulação provocadas pela migração de leitores e anunciantes para a Web.

Mas está ficando cada vez mais claro que os conglomerados empresariais da mídia estão decididos a levar seu esforço de sobrevivência também para o terreno da política institucional, transformando o conceito de “quarto poder” de um poder vigilante para um poder participante, ou seja, um partido político de fato e não de direito.

Neste sentido, a afirmação da secretária de imprensa de Obama, Anita Dunn, é muito mais uma constatação do que uma crítica. Ela estaria registrando mais ou menos o mesmo fenômeno em curso na Itália, onde o primeiro ministro Silvio Berlusconi se transformou no grande artífice do “quarto poder” formado pela aliança entre a imprensa conservadora e os partidos de direita.

O que se nota é que a estratégia de sobrevivência passa pela politização da imprensa na medida em que esta trata de alavancar seus interesses imediatos por meio da pressão política — seja de forma direta, como é o caso do canal Fox News, seja pela aliança com partidos conservadores, como é o caso da Itália, Venezuela e até mesmo da Inglaterra. O megaempresário Rupert Murdoch, dono da maior rede de jornais do mundo, é um ativo protagonista da política britânica, apesar de ter nascido na Austrália e ser cidadão norte-americano.

A esquerda radical sempre acusou a imprensa de agir como partido político. Era uma acusação mais ideológica do que estrutural. Hoje a transformação do “quarto poder” no virtual “quarto partido” passou a ser um processo político institucional. Não se trata de achar bom ou mau. É um fato, embora as partes envolvidas tratem de classificá-lo de acordo com seus interesses e projetos.

No Brasil, a oposição dos grandes jornais e emissoras de televisão ao governo do presidente Lula já ultrapassou os limites da função fiscalizadora que fundamentava a idéia de “quarto poder”. Passou a ser uma estratégia para tentar esticar o mais possível os benefícios estatais à mídia visando ganhar tempo para a reorganização corporativa destinada a manter posições do jogo político na nova realidade digital.

Esta é a única explicação possível para a grande imprensa nacional “pegar no pé” de Lula por qualquer motivo, mesmo admitindo que o empresariado nacional não tem queixas maiores do presidente e que o governo do PT deu ao setor privado tudo aquilo que ele queria e muito mais. Não se trata de uma trama golpista, que alguns estigmatizaram na sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista), mas de uma ação calculada dentro do jogo do poder.

A partidarização da imprensa é também um sintoma da debilidade dos partidos que se perderam no emaranhado do fisiologismo e da corrupção na tentativa de manter privilégios institucionais. Hoje os políticos e os partidos estão nos últimos lugares na escala de credibilidade e simpatias do público, esvaziando quase todo o sentido da expressão “representantes do povo”.

Em sua estratégia de ação partidária para sobreviver à crise estrutural da mídia, a imprensa corre risco de deixar de ser vista como um vigilante “quarto poder” para se transformar num “quarto partido” , tão desacreditado quanto os demais.

Agência Brasil: governo federal vai investir cerca de R$ 2 bilhões até 2011 no incentivo da pesca e criação de peixes, segundo o ministro.

Segue a matéria da Agência Brasil.

Enquanto a nossa mídia finge que o Governo Lula é só o Bolsa Família, ele segue trabalhando. E, infelizmente, nós dependemos apenas dos canais oficiais para saber disso.

Governo quer transformar o Brasil no país do pescado
Lourenço Canuto
Repórter da Agência Brasil


Brasília - O governo trabalha para desenvolver o cultivo de peixes e de outros frutos do mar com o objetivo de dar à atividade pesqueira um desenvolvimento sustentável, que transforme o Brasil no país do pescado. Ao comentar o assunto, o ministro da Pesca e Aquicultura, Altemir Gregolin, acentua que o Brasil captura 1 milhão de toneladas de peixes, mas pode chegar a até 20 milhões, por causa da extensão de sua costa e de ter em seu território a maior reserva de água doce do planeta.

Poucos países têm esse mesmo potencial, disse Gregolin, em entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), na última sexta-feira (16).

O ministério trabalha também para desenvolver a pesca em águas profundas, principalmente de espécies nobres, como o atum e o camarão, planejando aumentar a pesca em áreas de regiões onde há grande potencialidade como na Amazônia, no Sul e Sudeste. O país tem condições de aumentar muito o cultivo também em bacias, açudes e em represas.

O Plano Mais Pesca e Aquicultura vai investir até 2011 cerca de R$ 2 bilhões, segundo o ministro. A nova lei da pesca e a participação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) nos trabalhos do ministério, no desenvolvimento e na fiscalização da atividade pesqueira foram destacadas pelo entrevistado como de grande importância para os planos do setor.

O ministério realiza programa de modernização da frota artesanal, que visa a dar melhores condições de trabalho para os pescadores artesanais que podem assim substituir seu barco velho por unidades modernas, com equipamentos de segurança e recursos para ser mais eficientes na captura. Dez mil embarcações vão ser alvo de crédito especial, que pode chegar a até R$ 100 mil para cada pescador, com dez anos para pagar e três de carência, a juros de 2% ao ano. Está também sendo construída parte de frota nacional com mais de 60 embarcações, algumas das quais já pescam inclusive em águas internacionais.

Hoje, o Brasil já disputa a pesca no Atlântico Sul com a Espanha e o Japão e isso é uma marca importante, inédita, de acordo com Gregolin. O desenvolvimento do setor , segundo ele, permitirá que o brasileiro aumente o consumo de peixes, mais saudável que a carne vermelha. Atualmente, a média no Brasil é de 7 quilos ao ano por habitante, enquanto a média mundial é de 17 quilos por pessoa e o mínimo recomendado pela Organização Mundial de Saúde é de 12 quilos.

Mas, o consumo de peixes no Brasil está aumentando, segundo Gregolin, pois está faltando pescado no mercado. No ano passado, mais de 200 mil toneladas de peixes foram importadas. Hoje, 16% do que é consumido está sendo importado.

Um dos planos do governo é priorizar o cultivo de peixes na Amazônia, em detrimento da criação de gado, pois o custo do pescado é menor e envolve a própria vocação geográfica da região. Isso vai ser feito com o apoio da unidade da Embrapa criada para apoiar o Ministério da Aquicultura e Pesca e que entrará em funcionamento até o final do ano. A empresa vai contratar 50 pesquisadores que vão ser incorporados ao seu quadro, reforçando os trabalhos de pesquisa que já vem desenvolvendo nessa área.

A Embrapa vai investir R$ 4 milhões e o ministério outros R$ 4 milhões, totalizando R$ 8 milhões, para alavancar o setor, segundo Gregolin.

A Região Amazônica é propícia, entre outras espécies, para a criação do Pirarucu, que pode chegar a 10 quilos em um ano, não se conhecendo nenhuma espécie com essa possibilidade a nível mundial. Ao mesmo tempo, destaca o ministro, cultivar peixe na Amazônia, em vez de gado, ajuda a preservar a floresta. A Noruega está investimento mais de US$ 1 bilhão na região, para o Fundo de Desenvolvimento da Amazônia. "Eles dizem que produzem 2,5 milhões de toneladas de bacalhau por causa da Amazônia, cujos rios enviam nutrientes pelo mar favorecendo o cultivo do Bacalhau pela Noguega".

A pesca do atum tem potencial enorme em Porto de Galinhas, em Santa Catarina e na Amazônia, destaca Gregolin, dizendo que o objetivo do ministério é apoiar com mais ênfase as áreas que podem render mais.
Para o ministro, o Brasil ainda não é campeão mundial de pescado, porque o Estado não estava investindo nessa direção. O censo que está sendo realizando no setor produtivo, e que será conhecido em dezembro, será muito importante para traçar novas políticas. O número de pescadores, por sua vez passou a ser conhecido a partir de trabalho de recadastramento iniciado desde 2006, constatando-se que hoje estão em atividade mais de 130 mil pescadores no país. Eles recebem um salário mínimo na época da piracema, quando é proibido pescar sendo investidos no período pelo governo até R$ 100 milhões.

O estado de Santa Catarina é atualmente o maior produtor de pescados no país, seguido do estado do Pará. No estado do Ceará, que realiza pescaria em alto mar, está sendo prestado apoio importante na área da fiscalização, pois há pesca predatória com muitos conflitos dada a concorrência clandestina internacional. Para tanto, está sendo encaminhada lancha especial de alta tecnologia que vai fazer frente ao trabalho de proteção dos pescadores brasileiros. Ela detecta a presença de barcos a até 60 quilômetros de distância e desenvolve velocidade de até 70 quilômetros por hora.

Gregolin alerta que é preciso que os pescadores também cumpram as regras e somem força com o governo para melhorar o resultado do seu trabalho. Ele completou destacando que, na área do Rio São Francisco, os projetos de revitalização e de apoio às comunidades ribeirinhas são também de grande importância para a atividade pesqueira nacional, dado o potencial que pode resultar da exploração do rio.

sábado, 17 de outubro de 2009

Terra Magazine: a abundância faz crescer a dignidade onde a seca, antes, promovera o império do mais forte, diz Marcelo Carneiro da Cunha.

Segue o artigo publicado pelo Terra Magazine, com alguns grifos meus.

O que dizer? Que partilho com o autor, gravadas para sempre na memória, as chocantes imagens com que me defrontei sertão a dentro - eu, esse carioca classe média – nas andanças promovidas por meus pais periodicamente nas férias?

Não sei. Só sei que, sem me fazer surdo às críticas segundo as quais, antes de irrigar, deveriámos ter distribuido a terra, olho esperançoso para o projeto em andamento. Sei que me pergunto: distribuir terras áridas nos levariam aonde, se depois não viesse a água? E também: tendo a chance de trazer a água, não seria melhor fazê-lo, e depois batalhar pela organização dos sertanejos e pela divisão da terra, em um cenário em que as populações estarão menos enfraquecidas?

O sertão vai mesmo virar mar?
Na seca as pessoas se fragilizam e os mais fortes mandam. Na abundância, quem mais cresce é a dignidade, analisa Marcelo Carneiro da Cunha.
Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo

Estimados milhares de leitores. Pois a notícia da semana foi brilhantemente reportada pelo meu, o seu, o nosso, Terra Magazine, com o enviado especial mesmo Bob Fernandes narrando a saga da Coluna Lula em visita às obras de transposição do rio São Francisco. Não sei o que vocês pensaram, mas eu sentei pra ler melhor.

Então era pra valer? Então eles vão mesmo fazer o São Francisco dar a volta e ir irrigar o sertão desaquificado que vive no nosso imaginário de brasileiros?

Caramba!

Porque não sei como os milhares de leitores reagiram ao debate, tempos atrás, sobre a Transposição ou Não-Transposição, em um drama shakespeareano com sotaque do sertão. Do lado de cá do rio, nordestinos terminantemente contra. Do lado de lá do rio, nordestinos completamente a favor. O que desempatou a questão, ao menos para esse colunista, foi a greve de fome, ou de sede, agora não lembro, de um bispo da região.

Aqui na minha luxuosa laje em Pinheiros, onde falta tudo, mas nunca água, se bispo ou a Veja é contra, automaticamente sou a favor. Afinal, eles são contra uma enorme lista de coisas que eu acho essencialmente boas, tais como o sexo, no caso de bispos; e o resto, no caso da Veja. Pronto, passei a defender desde criancinha a transposição, a liquiquificação, a remoção, a despoluição, enfim, qualquer coisa com ão e, portanto, rimasse com sertão, em especial, algo disposto a acabar com o sertão do sertão, que pra mim, sempre foi a seca.

Quando eu era menino, lá no distante século 12, lia e relia um romance chamado A Aldeia Sagrada, um raro livro juvenil que meus pais se deram ao cuidado de me dar. Na maior parte do tempo era pancadaria mesmo, Faulkner, Machado, B.Traven, Cervantes. Nunca meus pais se preocuparam em me proporcionar leituras de inspiração para jovens, para a minha sorte, e ainda não havia Pedro Bandeira, novamente minha sorte. A Aldeia Sagrada era a história de um menino que era expulso da fazendinha pela seca e saia sertão a dentro, chegando até o Antonio Conselheiro e Canudos.

Canudos, minha gente, foi um dos mais terríveis momentos da nossa história, e para a sorte da nossa história, houve Euclides da Cunha. Leiam Os Sertões, sentados. Contemplem a beleza do texto e o terrível da história, nossa história.

Nunca esqueci aquela Canudos, nunca esqueci a Matadeira, nunca esqueci a imagem em mau desenho do Conselheiro, no livro. E ele dizia que o sertão iria vivar mar, e o mar iria virar sertão, no que, para ele, parecia ser uma coisa ruim.

Não sei quanto ao mar virar sertão, o que parece um tanto dramático, especialmente para os peixes e outros desacostumados com a baixa umidade. Mas o sertão virar mar, sempre, sempre mesmo, me pareceu uma ótima idéia.

Uma das passagens que mais me impressionava no livro, era quando os retirantes, mais uma palavra desconhecida, como cacimba, atacavam uma vaca e a comiam, mortos de fome.

Eu, menino crescendo da serra gaúcha, me sentava pensando, como, como, como? Mas não é a sede o problema? Por que eles sentem fome, e ainda por cima num calorão danado desses?

Meninos gaúchos, em especial na serra italiana, não eram muito treinados no que fosse fome, muito menos sede. Nosso maior perigo, creio, era overdosar em polenta ou doce de uva!

Anos mais tarde meu pai resolveu curar essa nossa ingenuidade, colocando a mim e irmãos em um ônibus, para nos levar em alegre bando de retirantes ao contrário até a Bahia. Lembro de olhar as casinhas de barro com teto de nada, lembro de ver os campos marrons, de uma cor que eu nunca teria imaginado, crescido no verde absoluto da serra sulista, lembro de ver as carnes penduradas em vigas, e descobrir que aquilo era um açougue. Lembro de ver as crianças e as barrigas delas. Dali fomos a Salvador e à praia e coqueiros e todo o tropicalismo disponível. Mas nunca esqueci do resto.

E, quando falaram em transposição, me veio a memória daquela viagem, e de tudo que o meu país precisa fazer por ele mesmo, antes de virar uma outra coisa, onde fome e sede sejam mesmo memórias distantes, como Canudos. Essas memórias mais o bispo eram tudo que eu precisava e passei a ansiar pelo momento em que o Velho Chico, como chamam, fosse se meter aridez adentro, transformando o sertão em um pampa, unindo a minha infância com o futuro.

Pois parece que começou e agora vai em frente! Sentei.

Nao sei o que os milhares de leitores sentem, ou pensam. Imagino que aqueles que me escrever para dizer que são orgulhosos leitores da Veja estejam achando tudo um horror. Pois eu escondo uma lágrima furtiva e digo a todos que sinto muita alegria por ser brasileiro, por saber que estamos fazendo alguma coisa sobre o que existe de mais arcaico e profundo em nosso imaginário. Se vai custar bilhões, ora me deixem em paz! O que não custa bilhões nesses tempos inflacionários? Tirar petróleo vai custar bilhões e até a Veja acha uma boa. Enviar água pode custar o que custar, é água, minha gente. Se vai ajudar os coronéis, como dizem muitos, duvido. Coronel que é coronel gosta de seca perguntem ao Sarney se ele não adora uma sequina, uma secona? Na seca as pessoas se fragilizam e os mais fortes mandam. Na abundância, quem mais cresce é a dignidade. Olhem o que o povo do sertão fez com o PFL, assim que ganhou um folegozinho? Desvotou tanto que eles mudaram de nome, para esse ridículo e sem-noção Democratas! Ponham água lá que o povo vai saber o que fazer com ela.

Não que isso aconteça com leveza e doçura. Água, onde não existe, é mais do que tudo. Quem viu o Chinatown, do agora preso Polansky, viu um filme cujo pano de fundo era a luta pela água na California.

Algo assim vai acontecer, mas uma coisa é brigar pelo que não existe, e parte da inação das pessoas do sertão pode estar ligada a esse vazio. Outra coisa é brigar pelo que finalmente vai chegar, e nessa hora, tenho a certeza de que as pessoas de lá vão saber se organizar e garantir o que é seu, de direito.

Nos anos 30 foi o grande presidente Roosevelt quem fez os grandes projetos que levaram água, ou a controlaram, e energia para o empobrecido Sul americano, criando um país mais completo.

Agora é a nossa vez, e não pode ser surpresa que quem conduz o processo é nada mais nada menos do que mais brilhante filho do sertão, o sobrevivente da falta de água e maior estadista do mundo de hoje, na opinião do mundo de hoje, mesmo que não na opinião da Veja. Ele é a maior lembrança do que o sertão é capaz de produzir, desde que minimamente irrigado.

Esse ex-menino da serra aqui, filho do excesso de água e de verde, só pode se sentir um sujeito um pouco melhor, por conta do verde que espera que logo, logo passe a surgir em outro canto que ele conheceu de passagem, e espera nunca, nunca mais ver do mesmo jeito. Quando isso acontecer, finalmente, e quando pararem de queimar o verde amazônico, finalmente, estaremos chegando lá, dessa vez, pela primeira vez, todos nós, brasileiros.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Ultimo segundo: o ganho tributário auferido é 70% maior do que o total de benefícios pagos pelo Bolsa-Família, "dizem especialistas".

Segue a matéria, retirada do Último Segundo.

Então, será que, no lugar de assistencialismo, o Bolsa-família pode, por fim, ser considerado como um política econômica?

Por outro lado, será que o ganho de arrecadação nos município explica a dificuldade que os grandes tubarões da oposição enfrentar para unir seus partidos contra o Lula?
16/10 - 02:34 - Agência Estado

A expansão do valor total dos benefícios pagos pelo Bolsa-Família entre 2005 e 2006, de R$ 1,8 bilhão, provocou um crescimento adicional do PIB de R$ 43,1 bilhões, e receitas adicionais de impostos de R$ 12,6 bilhões. Esse ganho tributário é 70% maior do que o total de benefícios pagos pelo Bolsa-Família em 2006, que foi de R$ 7,5 bilhões.

Essas estimativas estão num estudo recém concluído dos economistas Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), antigo Ibmec-São Paulo, e de Paulo Henrique Landim Junior, aluno da graduação do Insper.

O objetivo do trabalho era investigar os efeitos do Bolsa-Família - que hoje atinge 12,9 milhões de famílias - na economia dos municípios. Os pesquisadores investigaram 5,5 mil municípios nos anos de 2004, 2005 e 2006. Os dados utilizados foram o PIB, a população e a arrecadação de tributos nos municípios, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); e os desembolsos do Bolsa-Família, do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS).

A partir dessa base, Menezes e Landim empregaram métodos estatísticos para calcular o impacto na economia municipal de aumentos dos repasses do programa per capita - os repasses divididos pela população do município (e não pelo número de beneficiários). A conclusão foi de que um aumento de 10% no repasse médio per capita do Bolsa-Família leva a uma ampliação de 0,6% no PIB municipal no ano em que ocorre a expansão e no seguinte.

"O impacto pode parecer pequeno, mas quando analisamos os efeitos levando em conta os números absolutos do PIB, ele é bem grande", diz Menezes.

A magnitude do efeito do Bolsa-Família no PIB ficou a clara quando os pesquisadores fizeram o que chamaram de "análise de custo-benefício", tomando os anos de 2005 e 2006. Entre os dois períodos, os repasses do programa subiram de R$ 5,7 bilhões para R$ 7,5 bilhões, num salto de R$ 1,8 bilhão, ou de 30,34%. O valor médio do repasse em 2006 foi de R$ 61,97 por família, e o porcentual da população beneficiada foi de 36,4%.

Considerando-se a relação de 0,6% a mais de PIB para cada 10% a mais de Bolsa-Família, o aumento de 30,34% em 2006 significa um ganho no conjunto dos municípios - isto é, do País - de 1,82%. Aplicado ao PIB de 2006 de R$ 2,37 trilhões, chega-se ao PIB adicional de R$ 43,1 bilhões. Dessa forma, para cada R$ 0,04 de Bolsa-Família a mais, o ganho de PIB foi de R$ 1.

Menezes fez cálculos adicionais, levando em conta que a distribuição do aumento do Bolsa-Família de 2005 para 2006 não foi homogênea entre todos os municípios brasileiros, e obteve resultados muito parecidos.

Ele diz que aquele efeito explica-se pelo chamado "multiplicador keynesiano", que faz com que um gasto adicional circule pela economia - de quem paga para quem recebe - várias vezes, aumentando a demanda bem mais do que o seu valor inicial.

A análise dos dois economistas permitiu avaliar também o impacto dos aumentos de repasses do Bolsa-Família nos diferentes setores da economia municipal. O maior efeito foi encontrado na indústria - para cada 10% a mais de Bolsa-Família, o PIB industrial aumenta 0,81%. Nos serviços, o impacto foi de 0,19%, enquanto na agricultura não foi registrado efeito significativo.

"É possível que a indústria tenha sido mais afetada por causa do aumento de consumo de energia elétrica, água, esgoto e gás das famílias pobres e extremamente pobres que recebem Bolsa-Família", diz Menezes.

No caso da arrecadação municipal, o estudo indica que um aumento de 10% nos repasses leva a um aumento médio de 1,36%. Levando-se em conta o total de impostos gerados nos municípios em 2006, de R$ 304,7 bilhões, concluiu-se que o aumento de 30,34% do Bolsa-Família provocou uma alta de 4,1% na arrecadação, ou R$ 12,6 bilhões. As informações são do jornal S.Paulo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Uol: Cerca de 80 mil vagas no ensino superior serão oferecidas para professores das redes públicas, a partir desta quinta-feira (15), pelo Plano Nacional de Formação.

Segue a matéria do Uol, escondidinha na seção de Educação.

Aqui e aqui, que se interessar encontra mais informações.

Claudia Andrade

Cerca de 80 mil vagas no ensino superior serão oferecidas para professores, a partir desta quinta-feira (15), pelo Plano Nacional de Formação. As vagas são para licenciatura, voltadas para os profissionais que não têm curso superior ou que lecionam em uma área diferente da de sua formação inicial.

Na primeira etapa do programa, lançado em maio, cerca de 50 mil professores foram selecionados.
Apenas profissionais em exercício nas redes públicas estaduais e municipais de ensino podem participar do programa. Os cursos são gratuitos. Além das vagas em licenciaturas, também há cursos de formação continuada presenciais e à distância.

"São vagas dedicadas a professores em exercício, que não tiveram acesso à licenciatura ou que atuavam em área diferente de sua formação original. São algumas centenas de milhares de professores nesssa condição", disse o ministro Fernando Haddad (Educação).

Os professores devem fazer sua pré-inscrição no site do Ministério da Educação até o próximo dia 30. Caberá às secretarias estaduais e municipais de educação avaliar as inscrições. A partir daí é feito ou o processo seletivo ou o sorteio para designar quem vai ocupar as vagas oferecidas.

Atualmente, 20 Estados participam do Plano Nacional de Formação. A expectativa do MEC é que outros quatro - Rondônia, Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Minas Gerais - sejam integrados ao programa e disponibilizem vagas ainda para o primeiro semestre de 2010.

"O planejamento estratégico está em curso e temos a expectativa de incluir datas nesses Estados também, sobretudo onde está mais avançado o processo, caso do Rio Grande do Sul e depois, Minas Gerais", disse Haddad.

"Os Estados que ainda não entraram no plano poderão integrá-lo a qualquer tempo. As universidades federais estão todas mobilizadas, em todos os Estados, para atender os professores, mas nós dependemos de uma articulação em cada Estado pra fazer o mapeamento da demanda que será entregue às universidades".

O plano nacional foi lançado em maio deste ano e, na primeira etapa, 49,8 mil professores foram selecionados. O número não completou as 57,9 mil vagas colocadas à disposição. "Muitas vezes é difícil montar turma em cada localidade, então, depende muito da demanda", justificou o ministro.

O MEC pretende colocar 331,4 mil professores na universidade, até 2011. Para isso, o investimento previsto será de R$ 1,9 bilhão.

Conjur: as críticas ao ministro Toffoli parecem preconceituosas e mal informadas, segundo William Douglas.

Segue o artigo do William Douglas para o Consultor Jurídico, com alguns grifos meus.

O assunto já está mesmo meio passadinho, mas é bom ler uma opinião fora do Fla-Flu criado em torno da história.

O Advogado-geral da União, José Antonio Dias Toffoli, indicado pelo Presidente para ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal com o falecimento do ministro Carlos Alberto Direito, vem recebendo inúmeras criticas. Entre elas, a de que é muito novo para ocupar o cargo — ele que tem apenas 41 anos —, que nunca publicou uma obra jurídica e que não tem formação acadêmica robusta, como mestrado ou doutorado. A mais recorrente provocação é que Toffoli teria sido reprovado duas vezes em concursos da magistratura estadual de São Paulo, poucos anos depois de formado em Direito pela USP.

Essa discussão está desviada de foco. O debate correto seria rediscutir as formas de acesso ao STF, como um número mínimo de magistrados dos quadros de carreira do judiciário, tempo para os mandatos, participação popular nas indicações, maior rigor do Senado e questionar as nomeações políticas. Isso sim valeria a pena, e seria razoável. Mas as críticas ao ministro Toffoli me parecem preconceituosas e mal informadas.

Quem escreve aqui foi reprovado para o Colégio Naval, Oficial de Justiça, Defensor Público, Promotor de Justiça e Juiz de Direito (duas vezes). E daí? Michael Jordan foi reprovado no teste para jogar basquete no time de sua escola. Reprovações não significam nada, mas sim, o que você faz depois dela. Jordan virou o maior jogador de basquete de todos os tempos, eu fui aprovado em 1º lugar em três concursos: Juiz de Direito (RJ), Defensor Público (RJ) e Delegado de Polícia (RJ), bem como aprovado nos concursos para Analista Judiciário (TRF-2), Professor da UFF e Juiz Federal. Até passei a ser chamado de “guru dos concursos”, já tendo falado para mais de 800 mil concursandos. Logo, apontar as reprovações de alguém (Toffoli, William Douglas ou qualquer pessoa), ocorridas anos atrás, no início da carreira, indica considerável desconhecimento do assunto “concurso público”.

Não é ocioso mencionar que os Beatles foram recusados pela Decca Records. Fred Astaire, numa seleção de elenco no começo da carreira teve a seguinte crítica: "Baixo, sem carisma, sabe dançar um pouco". O professor de Albert Einstein, para o pai deste, e a professora de Michael Phelps, para o próprio, disseram que ambos nunca dariam "para nada". No caso de Einstein, ainda foi dito que ele "não conseguia se adaptar".

Max Lucado, que já vendeu mais de 65 milhões de livros, foi recusado por 15 editoras. O livro Fernão Capelo Gaivota foi recusado por 13 editoras. O projeto da Walt Disney World foi recusado por 67 bancos (um comentário é que os gerentes diziam que a ideia de cobrar um único ingresso na entrada do parque não daria lucros). Discute-se se Vincent Van Gogh vendeu apenas um ou dois quadros em toda sua vida.

Ainda sobre os concursos, alguém poderia dizer que depois o William passou no concurso, mas é inadequado furtar das pessoas o direito de mudar seus os caminhos profissionais, pois uma carreira não é melhor que outra. Anote-se que a magistratura vem se tornando desinteressante frente ao Ministério Público e à Advocacia. Este é o maior problema e não está sendo discutido.

Ser muito jovem, como disse um jovem ministro à Rainha da Inglaterra, “é um defeito que o tempo corrige”. Já tivemos bons ministros mais jovens e ministros lamentáveis com maior idade. Ninguém que conhece o talento vincula-o à idade: ela não é elemento de mensuração. Existe uma idade mínima prevista na Constituição e é um absurdo querer majorá-la por outras vias. Fui o Delegado de Polícia, o Defensor Público e o Juiz Federal mais jovem de meu tempo, e fui elogiado em todas essas funções. Infelizmente, juventude é um problema que já não tenho mais.

Óbvio que mestrado e doutorado são títulos meritórios. Contudo, como aluno e como coordenador de universidades e cursos, informo que alguns dos melhores professores que conheci não tinham títulos, pois dedicavam todo seu tempo à sala de aula, ao front. Tive professores maravilhosos, e ruins, tanto com quanto sem títulos. Tenho mestrado, e optei por gastar o tempo que teria para o doutorado me preparando para correr uma maratona. Apenas uma escolha. Admiro, portanto, meus colegas com doutorado e mestrado, mas não ouso dizer que por si mesmo o título garanta competência. Aliás, Steve Jobs e Bill Gates podem dar boas dicas sobre o assunto.

Não adentrarei no processo judicial no Amapá, pois não conheço os autos.

A discussão deveria estar em dois pontos: primeiro, o que o indicado pensa sobre aborto, uniões homoafetivas, uso das algemas, liberdades públicas, carga tributária, distribuição de renda e outros temas de interesse do país; segundo, discutir o aperfeiçoamento do Judiciário e do Supremo. Para o acesso ao STF, discutir o sistema e não apenas criticar o Presidente. A meu ver, parte das vagas deve ser mesmo de indicação dele, mas outras deveriam ser de juízes, membros do MP e Advogados, através de eleições internas e democratizadoras do Judiciário. E os ministros deveriam ter mandato de oito anos, como os Senadores.

Vai uma sugestão. O STF deveria ter três ministros indicados pelo Presidente e oito ministros eleitos, estes em um sistema semelhante ao “quinto” que já há nos Tribunais (aqui, não 20%, mas 25%, por contingência da divisão das oito vagas). Destes oito, então, dois seriam oriundos do MP e da Advocacia. Para escolher os seis ministros oriundos da magistratura de carreira, haveria eleições nos seguintes espaços: um indicado pelo próprio STF, um eleito entre os Ministros dos Tribunais Superiores, três eleitos entre os membros de cada uma das magistraturas de 2º grau (um entre os Tribunais Federais, um dos Tribunais do Trabalho e um dos Tribunais de Justiça dos Estados) e, por fim, um ministro eleito entre juízes de 1ª instância, pois, afinal, são os que mais lidam com o povo e devem estar representados no STF.

Conheço pouco do Toffoli, mas bastante sobre concursos, empregos, superação pessoal e carreiras. Pelo que conheço do tema, as críticas são toscas. O pouco que conheço dele é que, à frente da AGU, valorizou os servidores, lutou por mais concursos, buscou simplificar procedimentos e diminuir a litigiosidade interna no Executivo e a perda de tempo entre Executivo e Judiciário. Ao que saiba, algumas vitórias que obteve economizaram bilhões para os cofres públicos. Parecem-me coisas boas. Se será um bom ministro, não sei. Mas sei que outros, idosos, cheios de livros e títulos, alguns oriundos da carreira, me frustraram e também a muitos colegas. Enfim, por tudo, entendo que as críticas atuais são infundadas e carecem de rigor científico, pois não há comprovação de relação necessária entre os pressupostos indicados como faltantes e o bom exercício do cargo.