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terça-feira, 17 de julho de 2012

A bicha, o homossexual e os preconceitos


Rick Martin
Qual a diferença entre uma bicha e um homossexual? O preconceito de quem classifica.

Esbarrei nesta piadinha acima no Facebook. Ela foi compartilhada, por um usuário gay, sem o carimbo, que eu acrescentei. Qual a diferença entre os dois personagens? A cor e a renda? A fama? Afinal, rebolar seminu não seria novidade para o Rick Martin, exemplo de homossexual na imagem.

Pensando nisso, lembrei do texto abaixo, já bem antigo. Talvez ele seja meio bobinho, mas acho que ele ainda reflete o que penso sobre o assunto.

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A lusofobia justificável e os outros preconceitos



Eu tenho um preconceito justificável contra portugueses. Fui obrigado a ouvir essa pérola hoje, de passagem por uma mesa de bar. A entonação deixava claro: o jovem boêmio pretendia brindar seus colegas com a justificativa do preconceito confesso. Fiquei bastante chateado, triste até, por não poder sentar ali e ouvir o resto da explanação. Talvez fosse a chance de me convencer de que alguns preconceitos são justificáveis, em oposição, imagino, a outros que não o sejam.


Assim, há gays que se indignam com a mínima reprovação que sofram, mas mal disfarçam seus preconceitos de classe ou de raça. O mesmo fenômeno ocorre com muitos negros, a quem nem o preconceito que experimentam, em certo sentido, literalmente na pele, ensinou a respeitar os homossexuais.

E esses são apenas exemplos de grupos tradicionalmente descriminados que, justamente, se levantam e organizam contra o preconceito que sofrem, mas muitas vezes se esquecem de lutar contra os seus próprios. Parecem não ver que qualquer preconceito, seja de raça, condição social, sexo, orientação sexual, nacionalidade, ou o que for, é igualmente odioso; que devemos todos lutar contra todos os preconceitos, indiscriminadamente.

Eu tenho alguns preconceitos - assim como todo mundo. Não lembro de ter algum dia encontrado alguém realmente livre de preconceitos. Concordo que não sou lá muito velho, mas acho que quase trinta anos já dá uma boa amostra estatística. Acho mesmo que ter preconceitos é meio inerente a nós, humanos.

Por isso não me envergonho de dizer que tenho preconceitos; ao contrário, talvez me orgulhe. Se não os tivesse, seria fácil e nada meritório: não poderia lutar contra eles.

De fato, uma pessoa desde sempre livre de preconceitos, além de ser amiga íntima do saci e galopar a mula sem cabeça, não me causaria tanta admiração. Bonito, tocante, é ver alguém realizando esta luta árdua e diária que é vencer os próprios preconceitos. Ou seja, tê-los é normal; mantê-los é uma burrice cruel; propagá-los é ignóbil; mas reconhecer e combater preconceitos, principalmente os instalados em nós mesmos: é isso que faz a realmente a diferença.

E o primeiro passo, lógico, é exatamente esse reconhecimento.

Se não formos capazes de olhar para dentro e identificar nossos próprios preconceitos para, a partir daí, pôr a baixo até aqueles aos quais mais nos apegamos, não podemos esperar que respeitem e aceitem nossas pequenas idiossincrasias ou grandes particularidades. Ao justificarmos nosso próprios preconceitos, quando os identificamos, no lugar de miná-los, autorizamos que os outros façam o mesmo com os seus. Só que, neste caso, não acharemos eles nada justificados, principalmente se voltados contra nós.

Sei muito bem que a frase do moço lá no início podia ser apenas uma brincadeira, mas eu ainda tinha uma longa caminhada pela frente e nada melhor em que pensar.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Corte seco

Os pés estão absolutamente paralelos - um ao outro e ao meio fio junto deles. O corpo e a coluna, em unidade, são mantidos perfeitamente estirados perpendicularmente ao solo, como se os quisesem substitutos de um poste. O homem estende o braço direito, até então alinhado junto ao troco, na altura exata de seu ombro e em direção ortogonal a da calçada. Desta forma, ele solicita a parada do ônibus.

O veículo para ao lado do homem. Girando o corpo precisos noventa graus, ele se coloca de frente para o coletivo e, com os pés novamente em rígido paralelismo, perfaz a distancia até a porta com passos idênticos. Diante da porta, em seu exato centro, o sujeito suspende simultaneamente os dois braços até as alças e, depois uma, das pernas, formando com seu joelho um ângulo reto. Firme e seguro, ele traz a outra perna para o primeiro degrau, sem que se altere a angulação entre sua coluna, o chão e o vão da porta; repetindo a operação, novamente precisa, ele se coloca diante da roleta.

Ali, após um novo giro de noventa graus, com que se põe frente a frente com o trocador e com o peito paralelo ao balconete, o homem estica por completo seu braço esquerdo para o lado, postando sua mão à altura de seus ombros, e descreve com ela um setor de circulo para efetuar o pagamento. Recebido o troco, realiza o movimento inverso com seu braço para, em seguida, vencer a roleta com com precisão que impede qualquer meneio da cabeça ou a oscilação de uma mísera vértebra ou do quadril.

Parado agora justo no meio do corredor, o passageiro gira sobre o eixo de sua coluna, virando-se para a dianteira do ônibus. Segue então seu caminho até o primeiro banco do veículo, a passos rigorosamente iguais, como atestaria quem os medisse. Com apenas um exato passo lateral, posta-se em posição para sentar-se, finalizando a operação com harmonia perfeita, simétrica, absoluta - geométrica, poderíamos dizer.

Instantes depois, em alta velocidade e desgovernado pelo estouro de um pneu, o ônibus colide frontal e ortogonalmente contra um poste. Em um vôo cheio de voltas barrocas, o homem é atirado contra o para-brisa e, através dele, à calçada.

Estatelado sobre a calçada, depois de cruzá-la sem direção certa, aos rodopios e meias-cambalhotas, em posição digna de um contorcionista - aparentando ter mais membros que de fato tem – o corpo do homem finalmente volta a conhecer ângulos variados e a possibilidade de curvaturas e posturas assimétricas.

Pena, porém, já não haver, então, proveito para essas vãs liberdades.

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Achei esse texto (bem velhinho) no HD e deu vontade de postar aqui.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Sentido, mistérios e o que se leva


Uma gravura, uma anotação antiga (2007) e um textinho antigão (2004).

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Chuva, de Oswaldo Goeldi


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"A felicidade não tem mistérios. 


As pessoas infelizes são todas parecidas. Uma ferida antiga, um desejo negado, um golpe na vaidade, um lampejo de amor extinto pelo desprezo - ou, pior, pela indiferença - aderem a elas, ou vice-versa, e assim elas vivem todos os dias envoltas num véu de ontens. O homem feliz não olha para trás. Ele não olha para adiante. Ele vive o presente. 



Entretanto, é nisso que reside o problema. Existe algo que o presente jamais pode oferecer: um sentido. Os caminhos da felicidade e do sentido não são os mesmos. Para encontrar a felicidade basta que o homem viva apenas o momento. Mas se deseja encontrar um sentido - um sentido para os seus sonhos, para os seus segredos, para a sua vida -, o homem deve se reinstalar em seu passado, por mais sombrio que seja, e viver para o futuro, por mais que seja incerto. Assim, a natureza acena a todos com a felicidade e o sentido, insistindo apenas para que escolhamos entre eles."
Jed Rubenfeld, in A interpretação do Assassinato


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Sentido? 

Rémy está doente e logo morrerá, sabe-se bem no início de "As Invasões Bárbaras". Não existe nada que alguém possa fazer para impedir; não há cura possível. Só nos resta, assim como aos personagens do filme, esperar pelo inevitável. Não existe a quem odiar ou ao que maldizer por culpado. Sequer sabemos, nós espectadores, que doença levará Rémy para, personificando-a, a ela dirigir a raiva. A morte dele não é planejada por um Sauron malévolo, que com ela se apraz e dela se alimenta. Ela é sim a conseqüência mesmo de se estar vivo e, se faz parte dos planos de alguém, é daquele mesmo que generosamente a vida nos deu.
A consciência de que um dia sua vida chegará ao fim é, obviamente, comum a todos nós, humanos, apesar de nos esforçarmos ao máximo para disso esquecer. Isso não é novidade: todos, salvo casos de grave alienação - como a adolescência, por exemplo - sabemos que ao nascer temos apenas uma certeza inexorável: a de que morreremos. A situação de Rémy, no entanto, é outra. Ele sabe que o fim está próximo, e é já tão certo que nenhuma artimanha ajudará a torná-lo menos presente. No seu caso, não há contra o que lutar ou esperança de uma salvação - que será sempre, claro, uma postergação. 

Sem uma luta ou esperança a que se agarrar, só resta a Rémy, e aos que estão a sua volta, viver cada momento desta espera pelo irremediável, deste apagar-se triste e melancólico, porém calmo, uma vez que certo. Sem expectativa não há lugar para dramalhões rasgados, seja na ficção, seja na vida real.  Se o futuro não reserva mais surpresas que o supram de ansiedade, só resta a Rémy avaliar o passado. E buscar um sentido para sua existência, uma vez que o geométrico, impossível não ver, é sempre a morte: é para ela que a vida, desde o nascimento, aponta. 

É nesta busca do significado para a vida, surgida da constatação de que sem tardar ele deixará mesmo de existir - o que torna o porvir irrelevante, uma vez que ele mesmo já não estará aqui para o testemunhar - que Rémy revê a trajetória de sua geração (a dos célebres jovens da década de sessenta) e a sua própria opção de vida, uma mistura complexa de esquerdismo, intelectualismo e hedonismo sensual. Na história que construiu para si, percebe ele finalmente que, apesar da vida dedicada à universidade, não foi capaz de escrever um livro importante que assinalasse sua existência e que os filhos, cujos caminhos de fato desconhece, trilharam tais sendas sem que delas tenha ele participado da estruturação.

Ainda que, ao final, esta última constatação, sobre sua influência sobre seus filhos, seja posta em dúvida, em determinado momento Rémy lamenta que não tenha, ao menos, aprendido algo, o que traria algum significado para sua vida. Esta estranha asserção, vinda de alguém que então, e, salvo engano, até o fim, se declara ateu, é alinhavada de forma comovente com a seguinte frase: "Sinto que vou embora como nasci: sem nada".

Apesar de confessar um ateísmo menos convicto que o de Rémy, ou, talvez, algo como um pan-sincretismo-brasileiro claudicante, acho que esta constatação final é a que mais temo que se torne realmente a minha, caso um dia me encontre na situação dele. Consciente da finitude da existência, e com ela inconformado, nos meus momentos de dúvidas, bastante comuns, é no aprendizado e aprimoramento pessoal e na vivência do que de belo e prazeroso existe nesta vida que deposito minhas esperanças de que haja um sentido para o tempo que passamos sobre esta pedrinha solta no infinito. Sinto um medo torturante de, chegada a minha hora, perceber-me exatamente igual a como nasci: sem nada. Mas será que é realmente possível fugir disto?